Resenha: O cão que guarda as estrelas

A história de Happy

Existe uma tirinha que circula há alguns anos nas redes sociais em que mostra uma pessoa assistindo a um filme e as reações indiferentes da pessoa à morte de alguns personagens. Mas aí acontece a morte de o cachorro e a coisa muda de figura. É lágrima, atrás de lágrima.

Todos nós sabemos, no entanto, que não é só a morte do animal que leva as pessoas ao choro. Toda situação triste envolvendo bichinhos toca o coração de muita gente e faz as pessoas se segurarem para as lágrimas não virem aos olhos. O exemplo mais marcante é do filme americano Sempre ao seu lado. Adaptação de um filme japonês e baseado em uma história real, o filme conta a vida do cãozinho Hachi que sempre ia esperar seu dono na estação e continuou a fazer isso mesmo após a morte do homem. A emoção e o choro ficam por conta da dedicação do animal em querer reencontrar o seu dono.

Não é apenas nos filmes famosos que esse tipo de drama acontece. Os animais também são estrelas de vários mangás e alguns deles possuem tanta ou mais carga dramática do que as películas de sucesso. Um desses mangás é O cão que guarda as estrelas ou Hoshi mamoru inu, no original, que saiu por aqui em 2014 pelas mãos da editora JBC.

Escrito e desenhado por Takashi Murakami, O cão que guarda as estrelas é um mangá de volume único que teve seus capítulos publicados no Japão originalmente na revista seinen (voltado ao público jovem adulto) Manga Action, da editora Futabasha. A obra ainda tem uma pseudo-continuação, chamada O outro cão que guarda as estrelas, também de volume único e também publicado no Brasil pela editora JBC.

Na resenha de hoje, porém, falaremos apenas do primeiro título, comentando os pontos positivos e negativos dele. Vem ver 🙂

  • Sinopse Oficial

A história conta uma aventura vivida por dois companheiros, um simples senhor, sem dinheiro, emprego, ou família, e seu cachorro, que farão o possível para viver e sobreviver a sua “viagem” pelo interior do Japão. O grande diferencial da narrativa fica por conta do ponto de vista. Os acontecimentos são vistos sempre pelo olhar do cachorro, e a perspectiva canina dos fatos e seus sentimentos são os companheiros do leitor ao longo das páginas.

  • História e desenvolvimento

O cão que guarda as estrelas não é outra coisa senão uma história de drama. Ela é feita para que você se emocione e, consequentemente, em algum momento chore, derramando uma lágrima pelo triste destino dos personagens. A história, inclusive, já começa com o destino deles decidido, o cãozinho e o senhor estão mortos e seus corpos são encontrados por policiais. A partir daí começa um flashback para contar tudo o que aconteceu.

Na obra, o cãozinho Happy é adotado por uma família e, embora seja essencialmente para a criança, filha de um casal, quem mais se afeiçoa ao bichinho é o pai, chamado por Happy de “papai”. Em menos de 20 páginas acompanhamos o passar do tempo até que o “papai” é abandonado pela família e decide fazer uma viagem ao lado de seu cãozinho rumo ao interior.

Início da jornada…

Essas 20 páginas são interessantes por mostrar muito bem o desmoronamento de uma família, pela falta de comunicação, pela falta de compreensão dos problemas dos outros, etc. Isso se mostra muito bem com o “papai”, sempre falante quando vai caminhar com Happy, mas que pouco abre a boca dentro de casa e sequer consegue aconselhar e apoiar a esposa. O tempo passa, tudo vira uma bola de neve, até que ela decide se separar dele, após o homem perder o emprego.

Por ser uma obra dramática, nessa viagem entre o senhor e o cãozinho conhecemos o dito popular “não há nada tão ruim que não possa piorar” em sua essência. Se ser abandonado pela família já era o fundo do poço, o “papai” conhecerá na viagem que sempre pode acontecer uma coisa pior do que a outra, geralmente por excesso de bondade de sua parte, seja por confiar demais nas pessoas, seja por ter uma grande consideração por seu cãozinho. Assim, com o passar das páginas vemos quem já não tinha nada ficando com menos ainda.

Por mais duro que seja o coração do leitor, não dá para não sentir pena do homem. Isso acaba enfatizado pelo modo de narração. Tudo é visto pelo ponto de vista do cãozinho, de modo que a história é apresentada como se fossem os olhos inocentes de uma criança, sem que Happy percebesse a situação caótica em que estava passando o seu dono: abandonado pela família e sem perspectiva de futuro.

O fim da história dos dois é realmente sentimental, pois a inocência e os sentimentos do cãozinho acabam abalando mais ainda o emocional do leitor por tudo o que se viu até aqui, evocando muito a história do filme Sempre ao seu lado, embora com toques de fantasia. A obra cumpre a sua promessa de nos fazer chorar, sendo, sem dúvida, uma tocante história, comovente, e que faz você se emocionar mesmo você sabendo o destino final dos personagens desde as primeiras páginas.

  • Os problemas do mangá

Se a história de Happy é boa e o mangá cumpre o seu papel muito bem, o mesmo não podemos dizer da construção da narrativa. O cão que guarda as estrelas não conta só a história de Happy. Ele é composto por duas partes distintas.

Na primeira acompanhamos a história pelos olhos do cãozinho até a morte deste e na segunda vemos um pouco da vida de um dos guardas que encontraram os corpos de Happy e do papai. Essa segunda história também envolve um cão e embora ela também emocione, faz com que fiquemos com a sensação de que o autor do mangá não soube o conduzir muito bem a narrativa, apresentando uma continuação com um drama de menor impacto e sem aquela emoção toda da primeira parte.

Fosse um one-shot separado e que só estivesse no mangá para fazer volume, não haveria problemas, mas sendo uma continuação colocou dois focos distintos e fez a sensação de “harmonia” se perder. Em outras palavras, o enredo fica fragmentado e não temos uma coesão.

Nos paratextos do mangá, o autor justifica essa segunda parte como uma grande homenagem aos personagens, mas definitivamente não serviu para nada disso e só fez o conjunto ficar ruim. Não chega ao ponto de estragar a obra já que a primeira parte da história é boa e bem conduzida, mas definitivamente ficaria melhor sem.

  •  Conclusão

Muito embora O cão que guarda as estrelas tenha algumas limitações narrativas, a obra possui uma história principal muito boa e emocionante, com uma intensa carga dramática que faz muitos dos leitores chorarem. É um mangá que realmente vale muito a pena a leitura.

Além disso, por ser um título diferente, apresentando um cachorro como protagonista e remetendo a uma história famosa, esse mangá é uma obra perfeita para se apresentar àquela pessoa que nunca leu quadrinhos japoneses ou têm algum preconceito com eles.

  • FICHA TÉCNICA

TítuloO cão que guarda as estrelas
Autor: Takashi Murakami
Tradutor: Denis Kei Kimura
Editora: JBC
Número de volumes lançados no Japão: 1
Número de volumes lançados no Brasil: 1
Preço: R$ 23,90
Dimensões: 14 x 21 cm
Acabamento: Capa cartonada com orelhas, miolo em papel Lux Cream.
Onde comprar: Amazon

Anúncios

Um comentário

  1. Li recentemente os dois volumes e gostei bastante, principalmente da primeira história envolvendo o Happy e tal.
    Sem sombra de dúvidas é um ótimo mangá para uma primeira experiência com mangás, pois além de ter uma história e narrativa simples, não é cheia de japonesices e otakices.

    Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s