Resenha: Crimes Perfeitos (Volume 1)

Quando o assassino é o melhor personagem

Já comentei muitas vezes aqui no blog que eu adoro dar chance a mangás desconhecidos, pois muitas vezes eles acabam sendo bem melhores do que vários medalhões super populares. Claro que há aqueles que são completamente dispensáveis e esquecíveis, mas é preciso sim dar chances a obra menos populares, pois podemos estar deixando passar uma obra-prima.

Por exemplo, quem conhecia Hinamatsumi antes do animê? Praticamente ninguém, já que nem tinha muitos capítulos traduzidos para o português nos sites piratas. Se o mangá fosse publicado no Brasil antes da adaptação surgir, ele seria só mais um desconhecido. Agora, se Hinamatsuri um dia vier a ser publicado por aqui, ele já será relativamente popular e terá um público para comprar, mas se fosse antes muita gente deixaria o mangá de lado por não investir em obras desconhecidas.

Crimes Perfeitos é mais um dessa leva de obras pouco famosas que de tempos em tempos aparece no Brasil. De autoria de Arata Miyatsuki e Yuuya Kanzaki, o mangá está em publicação no Japão desde 2013 na revista seinen Grand Jump, da editora Shueisha, e possui 9 volumes até o momento.

No Brasil, o título foi anunciado em dezembro de 2018 pela editora Panini, tendo sido lançado apenas semana passada. Adquirimos o primeiro volume, lemos ele e viemos falar nossas impressões sobre esse mangá. Será que é um desconhecido que vale a pena? Você descobrirá a seguir…

  • Sinopse Oficial

Tadashi Usobuki é um homem misterioso que está sempre presente em casos de mortes acidentais. Porém, ninguém é capaz de provar seu envolvimento. Ele é um suspeito incapaz de ser preso por falta de provas concretas por seus “Crimes Perfeitos”! Exacerbação, ciúmes, desespero, amor… Usobuki atende aos desejos distorcidos de seus contratantes para matar seus alvos… Uma aterrorizante história de suspense psicológico!

  • História e Desenvolvimento

A raiva muitas vezes cega os seres humanos ao ponto de odiarem seus semelhantes pelos mais diversos motivos possíveis. Algumas vezes tratam-se de meras bobagens, criancice das pessoas; outras vezes, porém, o ódio vem porque as pessoas são tiradas de sua zona de conforto; por erros que poderiam ser perdoados; ou mesmo por vingança. Muitos extrapolam o limite do aceitável e o ódio torna-se algo nocivo para os demais membros da sociedade.

Tadashi Usobuki é um assassino profissional que atende justamente pessoas que passaram de um certo limite e agora desejam acabar com a vida de alguém. Assim que é contratado, ele passa a ter contato com a vítima, muitas vezes chega a dizer para ela que ele é seu assassino, e inevitavelmente a pessoa morrerá. Entretanto, embora esteja presente perto de onde acontece essas mortes, ninguém consegue incriminá-lo, pois todas elas (as mortes) parecem acidentais ou sem qualquer indício de envenenamento. Esse é o chamado “Crime Perfeito”.

Mas como ele mata suas vítimas? Por que a polícia tenta prende-lo e não consegue? O primeiro volume explica que as mortes das pessoas ocorre por culpa das próprias vítimas, de suas mentes facilmente manipuláveis. Logo no primeiro capítulo há uma explicação bem didática mostrando que uma pessoa pode morrer, apenas por achar que vai morrer, mesmo não tendo absolutamente nenhuma doença ou ferimento. Esse é o espectro que estaria por trás de Usobuki. Ele confronta suas vítimas, faz elas se aterrorizarem, até que elas começam a agir. É como se ele tivesse um domínio mental sobre os demais humanos, de modo que ele conseguisse fazer com que os outros pensassem e enxergassem algo que não viam. Não é dito e nem é sugestionado que ele hipnotiza as pessoas, pelo contrário, parece ser só sua imposição que leva as vítimas a morrerem. Na verdade, não há muita informação sobre ele, apenas sabemos que ele aceita esses serviços. Será ele humano mesmo ou não?

Esse é o background de Crimes Perfeitos. Uma pessoa contrata Usobuki para matar alguém e ele vai lá e executa. Simples assim, ou quase isso. O modo como o autor desenvolve cada capítulo coloca em pauta a maldade do ser humano (com seus desejos egoístas e irracionais, querendo a morte de seu semelhante por motivos banais ou perdoáveis) ao mesmo tempo que vamos sendo apresentados a diversos detalhes que irão conduzir para o final.

Ele (o autor) faz isso muito bem, de modo que o encerrar de cada capítulo traz uma surpresa. Crimes Perfeitos é um mangá de suspense e, embora a obra possua uma certa continuidade narrativa, cada capítulo do primeiro volume é semi-independente, com uma história que se conclui em si mesma.

No primeiro capítulo, vemos Usobuki matar alguém e uma policial começa a investigá-lo, buscando desvendar o assassinato. A autópsia no corpo do morto não revelou nada de anormal, então um de seus ajudantes explica a ela a questão de a pessoa ser induzida a morrer e isso ficará na mente dela. A história vai caminhando até que a mulher confronta Usobuki e é mordida por um gato e isso marcará o fim dela. Quando tudo parecia ser apenas isso, ele matar quem a estava investigando, ocorre uma reviravolta daquelas. Tudo estava lá: os detalhes, o rancor acumulado, o desejo de vingança, mas você não percebia nada ou melhor dizendo você não ligava tanto assim para essas coisas que eram colocadas. Aí vem o fim do capítulo e tudo ficará claro. Brilhante, autor, brilhante.

No segundo capítulo, a história progride com alguém contratando Usobuki e ele começando a executar. Nessa parte do mangá logo de cara, a gente percebe a maldade do ser humano e o ódio desenfreado sem sentido que acarretará em um crime. O clima de suspense da obra permanece e assim como o primeiro capítulo há uma reviravolta no final. Era uma reviravolta para lá de previsível, mas como ainda é o início, ainda não tinha sido possível pegar o feeling da obra.

Todos os demais capítulos do mangá são assim. Alguém contrata o assassino, ele age e ocorre uma reviravolta no final. O autor consegue fazer isso com maestria, mostrando que ele sabe muito bem como conduzir uma narrativa e como preparar um plot twist. Sim, pois, nada acontece por acaso, a reviravolta pode ser prevista se se prestar atenção nos detalhes, pois o autor vai deixando pistas, um certo olhar, um fala, o modo como é mostrado uma cena, tudo vai sendo montado para preparar a reviravolta.

Essa qualidade da obra é também o pior problema do mangá. Você já espera pelo plot twist, você sabe que alguma coisa vai acontecer e a sua atenção fica redobrada, assim em alguns capítulos a reviravolta se faz clara em três ou quatro páginas. Se você assiste muitos filmes de terror e suspense facilmente também descobrirá as influências de cada capítulo (isso é daqui, esse é daquele clássico, etc). É como se você estivesse lendo o mangá pela segunda vez.

Isso não o torna ruim, longe disso. É muito legal  a forma como é contada a história e a expectativa de como o autor fará a virada. O capítulo 5, por exemplo, é um daqueles que com 3 páginas você descobre o plot twist porque é MUITO óbvio, mas não há como sabermos como que se descobrirá isso e como será feito o restante da trama, com a vingança daquele pai de família. A gente acompanha o desenrolar, a malvadez dos seres humanos e o desfecho para lá de mórbido.

Embora sejam histórias que se encerrem em si mesmas, todos os capítulos parecem confluir para uma linha de pensamento, a de que os seres humanos são doentios e suscetíveis a tudo. Humanos mandam matar por status, por não saírem de sua zona de conforto, por vingança, por tudo. Em vez de aceitar as coisas e buscar o perdão e a compaixão, todos preferem uma saída violenta, mais fácil e que resulte na manutenção do mundo do jeito que ele é. Por tudo isso, Crimes Perfeitos é um mangá em que o assassino acaba sendo a pessoa mais sensata da história toda, mas explicar isso seria um spoiler daqueles…

O desenvolvimento dos capítulos e o modo como a temática central vai sendo conduzida tornam a obra bem instigante, gerando um desejo de saber mais sobre aquele universo e se haverá um desdobramento posterior. Por ora, a obra é um suspense daqueles bem convencionais, um bom suspense, e o volume 1 por si só vale a leitura, mesmo se você não for continuar a coleção.

  • A Edição Nacional

A edição nacional veio no formato 13,7 x 20 cm, padrão da editora Panini, com miolo em papel offwhite e capa cartonada com sobrecapa. O preço da edição é R$ 24,90. De modo geral é uma boa edição. O papel é o mesmo usado nos mangás recentes da editora e bem agradável para a leitura e não há nenhum problema de encadernação, de modo que ele é bem maleável, podendo ser folheado e lido sem problemas.

Ainda acerca da edição física, como vem fazendo na maioria de seus últimos lançamentos, a editora colocou uma sinopse na parte de trás do mangá, que é bem importante para fisgar leitores que não conheçam a obra, ainda mais um título desconhecido como esse.

Fora isso, achei a sobrecapa não muito boa, pois um simples toque de dedo deixa uma marca nela, o que não fica muito legal. Por outro lado, a capa (aquela que ficam abaixo da sobrecapa) é muito bonita porque é só a imagem sem letras e nem nada. Além disso, se por ventura você perder a sobrecapa não haverá problemas, pois na lombada da edição também há o nome do mangá.

Em termos de texto, Crimes Perfeitos está muito adaptado para o nosso idioma, sem gargalos linguísticos, sem honoríficos e nada do tipo. Também não encontrei nenhum erro de revisão, então o trabalho da Panini está bem competente nesse volume.

  • Conclusão

Crimes Perfeitos é um mangá de suspense daqueles bem básicos, te mostrando uma situação, desenvolvendo ela e apresentando uma reviravolta no final. Apesar de todos os plot twists serem extremamente previsíveis para quem já viu dois ou três filmes do gênero, o básico que a obra faz é bem feito, com uma situação gerando outra até que tudo acontece. O autor domina bem a técnica narrativa e mesmo sabendo tudo o que acontecerá de antemão você sai do mangá com a sensação de que não desperdiçou dinheiro por ter lido uma boa obra.

O problema de Crimes Perfeitos é que ele é episódico e isso pode cansar. Existe uma continuidade, com um investigador buscando informações sobre o criminoso, mas de modo geral cada capítulo é auto-conclusivo. Eu não sei se chegará um momento em que a obra seguirá uma linearidade maior, mas se continuar sendo episódico é difícil que ele se sustente (ou, melhor dizendo, é difícil manter o interesse do leitor) por tantos volumes (são 9 volumes e ainda está em andamento no Japão). De todo modo, esse volume inicial vale muito a pena e certamente você gostará bastante da leitura, principalmente se gosta de obras de suspense.

  • Ficha Técnica

TítuloCrimes Perfeitos
Autor: Arata Miyatsuki; Yuuya Kanzaki
Tradutor: Erika Abreu
Editora: Panini
Dimensões: 13,7 x 20 cm
Miolo: Papel Off White
Acabamento: Capa cartonada com sobrecapa
Classificação indicativa: 18 anos
Número de volumes no Japão: 9 (ainda em publicação)
Número de volumes lançados: 1 (ainda em publicação)
Preço: R$ 24,90
Onde comprarAmazon 

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Um comentário

  1. Na amazon consta como pré-venda, ele já tá em livrarias é ?

    Esse título me interessa.
    Pelo que vi existe ediçao digital dele na Amazon francesa então é torcer pra que, secretamente e sem aviso nenhum, a Panini o lance aqui também.

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