Resenha: Atelier of Witch Hat (volume 1)

Mais uma história de bruxinhas e uma história das boas…

Provavelmente, um dos títulos que mais me surpreenderam sair no Brasil foi Atelier of Witch  Hat. Eu já sabia de sua existência, já o lia nas internets da vida, mas me parecia uma obra que não viria ao país, pois por mais que o tema (fantasia com bruxinhas) fosse algo comum, não me parecia uma obra popular, menos ainda que alguma editora pudesse ter interesse na obra.

Quando a Panini anunciou o título na Itália a mão de gastar um dinheiro que eu não tinha começou a coçar, mas deixei de lado e pensei um “e se a filial publica também?” e mesmo sem reais esperanças dei tempo ao tempos e eis que um tempo depois a Panini brasileira o anunciou também^^.

Chamado no Japão de とんがり帽子のアトリエ, Atelier of Wtich Hat é de autoria de Kamome Shirahama e está em publicação no oriente desde 2016 na revista seinen (destinada ao público masculino adulto) Morning Two, da editora Kodansha, possuindo atualmente 5 volumes. No ocidente já está sendo lançado em vários países, como Estados Unidos, Polônia, França e Itália.

No Brasil, começou a sair em julho. Lemos o primeiro volume da edição brasileira e viemos falar um pouco mais desse mangá para vocês.

  • Sinopse Oficial

A pequena Coco mora com a mãe em um vilarejo e sempre quis se tornar uma bruxa. Mas apenas aqueles que nasceram com o dom da magia podem se tornar um… e o instante em que a magia é lançada não pode ser visto. Por isso, ela tinha desistido de seu sonho. Mas certo dia, Coco vê o bruxo Quifrey lançar uma magia. Esta é a história de desespero e esperança da menina que quer se tornar uma bruxa.

  • História e Desenvolvimento

A ideia de que existe um mundo em que a magia é algo natural e de quem não nasceu com poderes não pode vir a utilizá-los um dia não é nenhuma novidade e já foi utilizado bastante em diversas obras de ficção. É um lugar-comum. Atelier of Witch Hat parte da mesma premissa e nos apresenta a uma menina chamada Coco, fascinada por magia e que teve o sonho de se tornar uma bruxa desde que comprou um livro de um mercador que prometeu que ela poderia usar magia, porém ainda pequena foi dissuadida disso pela cruel realidade daquele mundo. Entretanto, ainda assim, ela continuava a gostar de magia e um certo acontecimento fará com que tudo mude em sua vida e ela se torne efetivamente uma aprendiz de bruxa.

A verdade é que essa história de que quem não nasce com poderes não pode se tornar um bruxo é tudo de fachada. A autora usa desse lugar-comum, mas já no primeiro capítulo o subverte, mostrando que na realidade qualquer pessoa daquele mundo pode usar magia sem qualquer problema, mas elas não sabem e não podem saber disso porque o uso de poderes é algo muito perigoso. Assim, se um não-bruxo descobrir os segredos da magia, ele deve ter a memória apagada, para que ninguém mais soubesse disso.

Qifrey e Coco

Após receber a visita do mago Qifrey em seu vilarejo, a jovem Coco descobre “””acidentalmente””” os segredos da magia e ao pegar o livro que comprara quando criança, começa a ela mesma criar sortilégios mágicos, até que, de repente, um terrível acidente acontece e isso muda a vida da garota a partir daquele instante. Qifrey a transformará em sua aprendiz e Coco poderá, enfim, realizar o seu sonho, ainda que a um custo muito alto, o custo da ignorância inicial dos perigos da magia.

A história se desenvolve então com Coco passando a morar no atelier de Qifrey, tendo contato com outras aprendizes (algumas boas, outras nem tanto), ao mesmo tempo em que uma outra história é contada, uma trama que envolve Coco, o uso de magia considerada proibida, e um certo grupo muito obscuro que parece ver a menina como uma espécie de salvação.

Esse é apenas o primeiro volume, mas já apresenta logo de cara tudo o que a obra tem de bom. A história parece (apenas parece) ser bem bobinha, bem simplória, sem nada a oferecer, mas as coisas estão acontecendo, as tramas estão surgindo, e quando você menos espera surge uma coisa, tudo de forma natural, usando o velho esquema de causa e consequência que a cartilha da narrativa manda. Os dramas internos também vão aparecendo aos poucos e coisas que vão se desenvolver depois, nos próximos volumes, em razão da personalidade dos personagens já aqui vão sendo preparados ao mostrar o modo de agir e pensar deles.

De repente, não mais que de repente, acontece isso!

O mais de legal da obra é que a maneira como a trama se desenrola não é nada forçado, com a autora utilizando muito bem as técnicas narrativas, brincando com os lugares-comuns (seja usando-o de forma convencional, seja subvertendo as expectativas), etc. Coco, por exemplo, é aquela personagem tipo, a protagonista ipsis-literis que quando está em dificuldade consegue superar tudo, mas o modo como ela consegue superar, por exemplo, um certo desafio no primeiro volume, é o resultado dos conhecimentos adquiridos por ela, de tudo o que ela fazia antes de adentrar o mundo da magia e também das coisas que ela aprendeu depois. E isso é sensacional. Ela não é a protagonista toda poderosa apenas por ser protagonista, ela é a protagonista toda poderosa porque ela está realmente sendo treinada para aprender magia (Nota explicativa: Coco ainda não é uma protagonista toda poderosa).

A questão é que Shirahama usa o lugar-comum tradicional ao mesmo tempo em que o incrementa com um algo a mais. E aí está o grande ponto de Atelier of Witch Hat. Se você ler de forma desatenta, você pode achar que a obra é super convencional e com um argumento bem raso, porém ao olhar com bastante atenção você vai vendo que nada é gratuito, que tudo vai sendo preparado com um cuidado que muitas obras não costumam ter.

O mundo de Atelier of Witch Hat ainda é um grande mistério nesse volume inicial. A autora não quis se aprofundar e apresentar toda aquela realidade, de modo que ainda temos apenas pequenos lampejos sobre aquele mundo, e as coisas vão sendo reveladas aos poucos, à medida que alguns acontecimentos ocorrem. O mistério envolvendo aquele ser que vendeu o livro de magia para Coco, por exemplo, permanece e só o que nós, leitores, podemos supor é que ele faz parte do grupo dos malvados, ainda que muitas dúvidas sejam suscitadas, especialmente por aquela frase final da última página do volume. Existirão mesmo malvados? E se existirem, serão os malvados que pensamos ser?

Falamos tudo isso, do quão a obra é boa e tal, mas o que não poderíamos deixar de mencionar é o excelente humor da obra. As expressões de Coco (imagens acima), os problemas causados por ela, o modo como os olhos dela brilham por causa da magia, tudo é fascinante. A autora desenha a menina de modo que é impossível não ter ao menos um sorriso no rosto. Coco lembra muito, em certo sentido, a Sakura (de Card Captor Sakura) e a Akko (de Little Witch Academia) por causa disso.

Tetia

Outros personagens também contribuem para o humor da obra. Tetia, uma das aprendizes, viver dizendo “obrigada” após agradecerem a ela é bem divertido, e o pouco tempo de cena da Lagarta-Pincel também foram interessantes pelas expressões do bichinho.

Para terminar, é importante ter em mente que Atelier of Witch Hat não é o melhor mangá do mundo (está longe, muito longe disso), mas ele tem muita coisa a oferecer e tem tudo para ser um ótimo entretenimento para você, principalmente se você gosta de obras de fantasia.

  • A Edição Nacional

A edição nacional veio no formato 13,7 x 20 cm, com miolo em papel Offwhite e capa cartonada com sobrecapa, ao preço de R$ 24,90. Em nossa opinião, a versão brasileira do mangá está bem satisfatória e vale o preço cobrado por ele.

A sobrecapa é de lombada redonda (como Blame! e GTO), no entanto poderia ser de uma qualidade melhor (parece um pouco aquém do que as sobrecapas da concorrência), porém, em geral, tudo está bom, o papel utilizado está bem agradável, destacando a arte da autora, e a encadernação está muito boa, permitindo o folheamento sem qualquer problema.

Quanto ao texto, o trabalho de adaptação da editora nesse volume foi bastante competente não apresentando nenhuma construção linguística estranha (nenhuma frase truncada, nenhum honorífico japonês, nenhum termo arcaico, etc), o que me agradou bastante. O único “porém” foi um certo nome que a editora adaptou para “não-sabe” que soou inadequado (talvez um “não-iniciada” ou “não-conhecedora” soaria melhor… Vocês entenderão quando lerem o mangá), mas isso é o de menos, de modo geral o texto da Panini realmente tá ótimo, dando uma ótima fluidez na leitura, além de também não ter erros de revisão. Em suma, tá valendo a pena de verdade.

  • Conclusão

Atelier of Witch Hat é um mangá que eu gostaria realmente que todos dessem uma chance. Muita gente fala da arte impressionante da autora, mas a obra consegue se sustentar bem por sua história, os personagens e os elementos de humor, além de toda a trama, ainda bastante obscura, que são realmente interessantes. Talvez o mangá não agrade tanto quem deseja uma história de lutinha e/ou de ação e aventura convencional, mas para quem quer uma obra um pouco diferente, bem acabada e com grande potencial, esse é Atelier of Witch Hat.

Por fim, o estilo do mangá (de fantasia, com magia, etc) também pode ser uma boa obra para você apresentar ao seu filho ou filha, seu sobrinho ou sobrinha, ou primo ou prima mais novos, que ainda não adentraram ao mundo dos mangás. Tenho certeza que quem viu, por exemplo, Little Witch Academia na Netflix pode acabar adorando Atelier of Witch Hat. Apresentem essa obra ao mundo^^.

  • Ficha Técnica

Título Original: とんがり帽子のアトリエ
Título NacionalAtelier of Witch Hat
Autor: Kamome Shirahama
Tradutor: Lídia Ivasa
Editora: Panini
Dimensões: 13,7 x 20 cm
Miolo: Papel Off White
Acabamento: Capa cartonada com sobrecapa
Classificação indicativa: 12 anos
Número de volumes no Japão: 5 (ainda em publicação)
Número de volumes lançados: 1 (ainda em publicação)
Preço: R$ 24,90
Onde comprarAmazon / Americanas / Submarino

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6 comentários

  1. Fiquei muito animado por essa obra. Foge muito dos mangás de porrada que estou lendo ultimamente e tem uma arte diferente também. Quando fui colocar no carrinho na Amazon, o mangá já estava esgotado ou ainda não tem no estoque.

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  2. Tô brigando comigo mesmo pra NÃO COMPRAR esse mangá (por motivos de falta de grana), daí venho ler essa resenha!

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  3. Bacana a resenha, porque estava bem na dúvida se dava uma chance ou não a obra.

    Fiquei curioso com o termo ipsis-literis, de onde ele surgiu? Já ouvi falarem em contexto parecido algo como
    o poder do protagonismo, armadura do protagonismo e tals.

    Eu gosto de fantasia, mas o tipo que eu estava querendo ler seria algo parecido com a parte mágica do
    Berserk (referente principalmente a 2ª temporada do anime mais novo, não peguei o mangá por causa
    dos buracos), com um tom um pouco mais sombrio e “adulto”. Apesar da maga lá também ser uma garota, e não
    focando na luta em si.

    Talvez, uma maneira de ver se é uma obra que eu possa gostar seja realmente ver o Little Witch Academia? (Eu até tenho ele na lista de planejados)

    Um detalhe bem pequeno e sendo implicante, eu mudaria o termo lutinha
    na parte da conclusão, me da uma sensação de diminuição e infantilização, acho sinceramente
    meio injusto.

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    1. É só “sentido literal”. No caso, foi usado para reforçar a palavra “protagonista”. Tipo: protagonista de verdade. Algo assim.

      Sobre “lutinha”, acho que você está exagerando. Pelo menos eu não consigo enxergar o termo como algo pejorativo e tal (pelo contrário, lutinha é algo bem divertido). E o contexto em si não permite esse tipo de interpretação.

      Curtido por 1 pessoa

      1. Concordo com você que posso estar exagerando, por isso coloquei o implicante. Eu não acho que você utilizou esse termo com esse sentido, mas mesmo assim, lendo me passa essa sensação. Minha culpa provavelmente e não quero estender nesse detalhe tão pequeno.

        O principal e prático que quero saber é sobre a semelhança entre Little Witch Academia e esse mangá. Um pouco mais de elaboração nisso seria util, visto que observando melhor tais elementos parecidos na animação eu teria uma melhor noção “prática” sobre o mangá.

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        1. Não é nada muito elaborado, a questão de little witch é pelas semelhanças temáticas, ter bruxinhas, as protagonistas de ambas as series serem meio hiper-ativas ao demonstrarem tamanha afeição pela magia, haver uma espécie de antagonista, etc. Só que LWA é um pouco mais “aventura convencional”, então em Atelier haverá uma diferença de tom (haverá a aventura também, mas será um pouquinho diferente). Fora que em Atelier desde o início se percebe que existe um algo por trás, um plano feito “pelos malvados” (ou não malvados), enquanto em Little Witch o começo é todo episódico e tal com nada ali mostrando uma trama maior… O ponto é que as semelhanças fazem com que se você gostou de um, talvez se interesse pelo outro.

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