[OPINIÃO] Por que (não) desistir de um mangá após o 1º volume?

Se o primeiro tomo foi ruim, talvez você deva dar uma segunda chance…

Já aconteceu comigo mais de uma vez. Li o primeiro volume de um dado mangá e achei sensacional, narrativa redondinha, ágil, tema interessante, tudo para ser uma obra incrível e com discussões importantíssimas ou ao menos um excelente entretenimento. Aí vem o segundo volume e ele é um lixo estrondoso, com vícios amadores, história fraca e nada que nos motive a continuar. No terceiro ocorre a mesma coisa, no quarto idem, até que finalmente desistimos. O volume inicial nos enganou.

Isso é normal. O papel (ou um dos papeis) de um primeiro volume é fazer o leitor se interessar pela história e continuar a acompanhar a trama. Ele tem que se mostrar interessante para vender e continuar a ser produzido, mas nem sempre o nível se mantém nos volumes seguintes, com os autores tomando decisões equivocadas e pouco produtivas.

De fato, eu não entendo muito bem como uma história consegue desandar em tão pouco tempo, pois se o mangá tinha um jeito próprio, aquele jeito poderia e deveria ser mantido. Algumas vezes é o estilo inicial é que cansa rápido e nos desagrada, em outras, porém, parece que tudo muda e o aparente profissionalismo dos autores passa a dar lugar a um amadorismo, como se o editor tivesse deixado de tomar conta da obra e deixado os criadores livres para fazer o que quiserem.

Já aconteceu comigo o inverso também. Eu li o primeiro volume de um dado mangá e achei a pior coisa já feita na face da terra e não senti o menor ânimo em continuar. Motivos para isso também são vários, ou a história não me agradou, ou o autor não sabe conduzir a narrativa, deixando ela de forma truncada, com uma quadrinização ruim, um excesso de texto desnecessário, etc. Isso também é normal, o tomo primeiro não cumpriu seu papel de me fisgar como leitor e tem como público alvo um outrem, um outro grupo de pessoas da qual eu não faço parte.

Entretanto, existem obras e obras, estilos e estilos. Muitas vezes devemos deixar a péssima impressão inicial de lado e continuar, perseverar. Nem sempre aquele primeiro volume que você leu e não gostou é realmente ruim. Nem sempre o primeiro tomo diz de verdade o que é a obra. Talvez um dado mangá precise de tempo para mostrar a você a que veio e fazer você gostar.

Isso acontece porque certos autores preferem trabalhar a obra de uma maneira diferente, pensada e preparada de um outro modo, para só então ela engrenar e fazer despertar todo o potencial. Alguns mais utilizam-se de um estilo diferente e você precisa de tempo para se acostumar. Algumas vezes, por outro lado, não existe nada disso, as obras são bastante comuns e o estilo é bem o normal, porém a gente como leitor ainda não havia tido contato com um certo gênero de histórias e somente uma perseverança na leitura é que poderá nos mostrar todo o potencial daquilo.

Eu tenho um exemplo pessoal de um mangá de um gênero que eu não estava nada acostumado a acompanhar em mangá. Genshiken foi um título que eu comprei quando lançou e minha reação foi o puro ódio. Eu achava que era uma obra parada, com um excesso de personagens sem qualquer carisma, e que ia de lugar nenhum para lugar nenhum. Não havia nada de minimamente interessante no título que me motivasse a continuar.

Naquela época (2013), eu tinha em mente que precisava experimentar coisas diferentes e não somente aquele tipo de história convencional que eu estava acostumado. Como Genshiken era de um gênero que eu usualmente não lia, eu senti que precisava conhecer mais para ter uma opinião mais bem formada. Então, mesmo odiando o primeiro volume, eu comprei os volumes 2, 3 e 4. Continuei odiando nos volumes 2 e 3!!! A história continuava fraca e não tinha nada de interessante, era o mais puro tédio, com a história ainda parada. A partir do quarto, porém, eu já estava amando e achando um dos melhores mangás publicados no Brasil.

Gostei tanto de “Genshiken” que comprei as duas versões do volume 6 do mangá.

O que mudou? Com o mangá não mudou nada. Ele continuou exatamente da mesma forma, sendo um slice of life que retrata a vida cotidiana de um grupo otaku na faculdade. O que mudou foi minha percepção e costume com o estilo. Hoje, sempre que releio a obra, percebo que os personagens eram carismáticos e a história sensacional desde o primeiro volume, desde as primeiras páginas, e eu que estava totalmente errado em minha análise inicial, por achar que todas as obras precisassem seguir uma certa cartilha, com os personagens tendo ambições grandiosas e tudo girar em torno disso. Não precisa ser assim. O problema, então, era eu, não o mangá.

Hoje, inclusive, esse é um dos meus estilos preferidos de histórias. Coloco Yuru Camp (aquele anime das meninas acampando) como uma das minhas animações favoritas de todos os tempos, tamanho o meu amor hoje em dia por slice of lifes simples, sem uma trama elaborada.

Mas como saber se um título precisa de mais tempo para ser lido? Como saber se uma obra fará você mudar de ideia com o tempo? Isso não é uma pergunta fácil de responder e, na verdade, eu não tenho uma resposta concreta para isso. Se Genshiken fosse um mangá de lutinha convencional e ele não tivesse me agradado, eu teria abandonado ele já no volume 1, pois eu já li muito battle shonen e para eu continuar em uma obra assim, ele precisa ter algum diferencial ou pelo menos me agradar de um algum modo. Como era de um gênero diferente, eu me forcei a ir adiante e fui surpreendido com uma ótima obra.

Entretanto, mesmo esse critério pessoal é falho, pois pode acontecer de alguma obra ser extremamente convencional em seu primeiro volume (propositalmente ou não) e melhorar de forma substancial nos posteriores. Ou pode até mesmo acontecer algo pior, eu posso não compreender corretamente o tom de uma dada obra em seu volume inicial.

Um caso icônico nesse sentido é o de Lúcifer e o martelo (Hoshi no Samidare). Ele é um título que brinca muito com os battle shonens e outros gêneros, utilizando-se de diversos de seus clichês para criar algo único e brilhante (se você percebeu um trocadilho ruim no que eu acabei de dizer é porque você leu a versão brasileira do mangá^^. Se você não percebeu vá lê-lo).

Entretanto, a obra é facilmente confundida com um shonen genérico, com fanservice desnecessário, entre diversas outras coisas. Desde  que Lúcifer e o Martelo foi lançado no Brasil não faltaram resenhas do primeiro volume falando que ele não tinha nada de mais, que existiam shonens mais famosos para você comprar e assim por diante. Eram análises equivocadas de quem não percebeu o tom da obra.

Talvez isso seja normal, embora dê para perceber claramente o caráter único do mangá já no primeiro volume, já nas primeiras páginas, muita gente precisa de mais tempo para conseguir entender o que Lúcifer e o Martelo está querendo mostrar. Quem desistiu no primeiro volume, perdeu uma obra incrível.

Nesses casos também é importante o papel da crítica. Resenhas, análises ou mesmo opinião das pessoas em redes sociais, mostrando os pontos positivos de uma dada obra são importantíssimas para fazer com que a gente continue a ler um dado mangá. Foi por causa da crítica que eu resolvi dar uma segunda oportunidade a Vinland Saga. Eu comprei o primeiro volume e achei que fosse só mais um mangá de aventura convencional e sem nada que se destacasse. Após alguns volumes pipocaram algumas resenhas sobre a obra falando de um certo acontecimento que me mostrou que o título teria algo mais e eu tive que ir atrás do mangá novamente.

Mesmo assim, análises podem não te despertar o interesse em retomar a série e aí não tem muito o que se fazer. Não é uma tarefa fácil saber se você deve mesmo dar uma chance a um mangá que não te agradou no volume 1, mas talvez você devesse sempre ler um pouco mais, pois a obra pode ser muito mais competente do que o primeiro volume fez ele parecer para você. Quem sabe aquele mangá que você odiou no primeiro volume se torne o seu Genshiken ou o seu Vinland Saga?


Apesar de tudo o que disse aqui é preciso lembrar que o preço dos mangás hoje em dia está muito alto, então se você comprou o primeiro volume de um deles e não gostou, o ideal é parar por ali mesmo se você não for rico. Para que você vai gastar mais dinheiro com uma obra que não te apeteceu tanto?

Ainda assim, as recomendações permanecem. Se você tiver a oportunidade (viu em algum sebo ou em alguma promoção) tente dar uma segunda chance à obra que você achou ruim no primeiro volume, pode ser que te surpreenda.

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9 comentários

  1. Eu sempre espero uns 4 volumes, muito raramente um mangá que conquista nas primeiras edições.
    Ruim mesmo é quando compramos uma coleção inteira de uma vez e não gostamos, nesse momento to sofrendo com Zetman, meu deus, como é inferior a Video Girl, chegando no final e achando ruim demais, enfim, agora ja comprei, o jeito é terminar. haha

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  2. Dificilmente desisto de alguma obra, vou até o final só pra falar mal rs mas isso porque não compro tudo em mídia física.

    Também gosto de ler coisas novas, mesma coisa com os animes.

    Queria que a continuação de Genshiken viesse pro BR pra eu colecionar… e quem dera a JBC relançasse a obra também.

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    1. Eu amei Genshiken. Adoraria que lançassem Genshiken Second. Fico olhando a coleção americana e somente o que me impede é o altissimo custo.

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  3. Eu também não gostei muito de Vinland Saga no começo, mas resolvi continuar por causa dos comentários bons e me arrependi bastante de ter chamado uma obra tão legal de chata

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  4. Acho que isso vale bastante para obras que você acha medianas, se eu achar um lixo dificilmente vou para o Vol 2. Bom, sou do tipo que prefere ser feliz vendo/lendo as coisas.

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  5. Muito bom o texto. Dizer q demorei pra fazer esse tipo de coisa de ponderar já nos 1° volumes ao compra de um mangá. Antiganente comprava até um momento eu achar a história ruim e abandonar.
    O maior exemplo comigo foi Fairy Tail q comprei 48 volumes desse treco e abamdonei exatamente no volume 48 ao qual comprei e nem sequer li. Depois disso realmente espero no minimo a história me prender, mas ainda a deslizes.

    Eu sempre procuro saber um pouco da obra antes de arriscar, pois as vezes o autor demora pra engrenar a história.

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  6. Falando em Yuru Camp você,Kyon,(acho que é esse o seu nome)você acha que o mangá de Yuru Camp deveria ser publicado no Brasil?

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  7. Eu diria que dificilmente uma obra realmente me agrada de inicio, de cara. Até quando isso acontece eu penso: “essa começou com o pé direito”, o que ocorre poucas vezes. Eu tenho costume de tentar achar um “potencial” na obra, tentar imaginar o mundo de possibilidades criado pelo autor, imaginar o desenvolvimento, ou uma simples e pura curiosidade, ou até mesmo algum detalhe pequeno que pode ser um indicativo que vem coisa boa.

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