Memória: os 20 anos da primeira publicação de “Gen Pés Descalços” no Brasil

Não creio que existam obras de leitura obrigatória, mas se existem realmente mangás assim, um que é obrigatório de verdade para qualquer pessoa que vê quadrinhos como uma arte, é Gen Pés Descalços, de Keiji Nakazawa. Com forte viés autobiográfico, Gen Pés Descalços narra os horrores da explosão da bomba atômica em Hiroshima, bem como as consequências e transformações no Japão pós Segunda Guerra Mundial.

Apesar de ser originalmente destinado a um público adolescente (começou a sair na Weekly Shonen Jump), a obra é extremamente forte e visual, feito para o leitor se chocar com a crueldade que era a guerra e o que ela fez com as pessoas naquele país. Nenhuma cena de qualquer mangá com violência extrema publicado no Brasil consegue se equiparar ao que é retratado em Gen Pés Descalços. Não é que exista violência gráfica, acontece que a experiência de leitura, sabendo que tudo aconteceu de verdade, faz a obra ficar mais intensa com os artifícios da arte e da ficção. Você vai lendo, vai lendo, vai lendo e, de repente, as coisas vão ficando complicadas, coisas acontecem e tudo parece servir de lição para que ninguém repita tais coisas.

Gen Pés Descalços é uma obra que realmente merece uma leitura, para que mais pessoas consigam entender como os governantes podem manipular a mente das pessoas e como o contexto social (a inflexão pela guerra, a escassez de alimentos e a consequente fome) pode fazer com que pessoas maltratem seus semelhantes por pouca coisa. A simples leitura do volume 1 já te mostrará exatamente isso e abrirá seus olhos para que você questione sempre as atitudes das pessoas que estão no poder.

Tendo sido traduzido em diversos idiomas, inclusive o Esperanto, Gen é talvez o mangá mais estudado nas universidades de todo o mundo, sendo alvo de pesquisas em diversos ramos do saber, como História, Filosofia, Comunicação, entre outros. Ou seja, por sua natureza temática ele deixou de ser um mero quadrinho de entretenimento e denúncia, para se tornar um dos primeiros (talvez o primeiro) mangás cultuados até mesmo por aqueles que acham (ou acharam em algum momento) que histórias em quadrinhos eram apenas coisas para crianças. Esse é um dos grandes méritos de Gen.

Composto por dez volumes no total, a obra teve duas publicações no Brasil, ambas pela editora Conrad. A primeira delas está comemorando 20 anos agora em novembro. Segundo o Guia dos Quadrinhos, o título começou a sair por aqui em novembro de 1999 e, na época, teve apenas 4 edições. Foi o primeiro mangá lançado pela Conrad.

Ao que consta, essa  edição de Gen era baseada em uma versão americana, com leitura ocidental, e que não cobriu todos os volumes originais, além de haver diversos cortes. Quem acompanhou essa versão na época, então, não chegou a ver o final de fato. Entretanto, essa foi uma importante porta de entrada para esta série no Brasil e essa data (os vinte anos do início de sua publicação) merece ser lembrada hoje.

Em 2011, a Conrad lançou uma nova versão, com leitura oriental, e contemplando todos os volumes, mas isso é uma história para uma outra ocasião.


Memória é a nossa postagem de curiosidades em que buscamos relembrar algum fato, episódio ou época do passado do nosso mercado de mangás. Ela é publicada (quase) sempre uma vez por mês (embora algumas vezes publiquemos mais). Você pode conferir todas as postagens dessa série clicando aqui. Para ver outras curiosidades em geral, clique aqui.

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