O mangá é importante fora do Japão? A editora Kodansha responde

Na última sexta-feira, 13 de dezembro de 2019, o site Magazine Pocket, da editora Kodansha, divulgou uma entrevista, feita com dois representantes da divisão de direitos internacionais da empresa, sobre a força do mangá no exterior. O quão popular o mangá é fora do Japão? E quais as perspectivas para o futuro? A seguir, a gente resume os principais pontos e curiosidades da entrevista.

Como se trata de uma entrevista realizada com a divisão de direitos internacionais da Kodansha, os dados referem-se apenas a essa empresa, ainda que possam indicar um tendência global.

  • O Japão x Os Mercados Internacionais

A primeira informação que a Kodansha disponibiliza é que olhando exclusivamente para o fator financeiro, a empresa estima que o montante levantado pela editora é de cerca de 440 bilhões de ienes no Japão (cerca de 17 bilhões de reais), enquanto no exterior (ou seja, todos os demais países juntos) o número total somado fica por volta de 100 bilhões de ienes (cerca de 4 bilhões de reais). Ou seja, os valores no Japão ainda são muito superiores a qualquer região do mundo.

A empresa ainda detalha um pouco de onde vem os 100 bilhões de ienes do exterior. Os Estados Unidos (onde a Kodansha possui uma subsidiária) são responsáveis por 25% dos recursos. A França é responsável por 22%, Coreia do Sul por 15%, Alemanha por 8% e China por 6%.

Gráfico 1: proporção de receita da Kodansha pelo mundo.

A Itália que é um dos países que mais lançam mangás no ocidente não aparece entre as principais fontes de receitas da empresa. O país, junto do Brasil, Argentina, México e outros mercados de mangás, ficam nos 24% restantes.

  • Crescimento dos Mercados Internacionais

Apesar dos números mostrarem que as vendas no Japão ainda são responsáveis por 80% da receita da Kodansha, a empresa é clara em afirmar que o mangá está se tornando cada vez mais popular no exterior. As vendas externas de mangás licenciados pela empresa triplicaram nos últimos sete a oito anos.

Segundo um dos representantes da Kodansha, os países que parecem estar mais em expansão são Estados Unidos, França e China. A empresa ainda informa que no passado, a proporção de receita no exterior era maior na Ásia, mas agora a Europa e a América do Norte estão se sobressaindo. Vejam os dados no gráfico abaixo:

Gráfico 2. Evolução da receita da venda de mangás no exterior por região (2012-2019).
  • Os motivos para o crescimento dos mangás no exterior

Os representantes da divisão de direitos internacionais da Kodansha são bem enfáticos ao afirmar que um dos principais motivos para o crescimento do consumo de mangás nos últimos anos se deve ao aumento do número de plataformas de streaming que distribuem animes, como Netflix e Amazon Prime, ou mesma aquelas dedicadas exclusivamente a isso.

Segundo eles, quanto mais contato as pessoas têm com a cultura pop japonesa, mais eles irão gostar, se acostumar com aqueles produtos e isso irá se refletir também em venda de mangás. Um exemplo dado é que depois que The Seven Deadly Sins foi transmitido na Netflix mexicana, a obra explodiu de popularidade por lá.

Em outras palavras, como o ambiente no exterior não é tão propício para o surgimento do interesse por quadrinhos japoneses (número limitado de livrarias, por exemplo), os animes são importantes para as pessoas tornarem-se fãs e decidirem ir atrás do original. Os serviços de streaming foram essenciais, então.

  • Quais obras mais fazem sucesso no exterior?

Para a Kodansha, falar de “exterior” de forma geral é um tanto quanto genérico demais, pois abrange regiões totalmente distintas, que podem ter gostos próprios e diferenciados. Ainda assim, um dos representantes da empresa deixou claro que no ocidente as obras que mais se destacam são as de fantasia.

Algumas das obras de fantasia populares citadas são The Seven Deadly Sins (que também tem fãs em outras regiões do globo), Fairy Tail e Ataque dos Titãs. Importante mencionar também que, na entrevista, ainda há uma foto de cosplayers de Sailor Moon, na JBC, com a legenda informando que a série é popular no Brasil.

Ainda sobre popularidade, a entrevista informa alguns números de Fairy Tail e Ataque dos Titãs. Segundo a Kodansha, Fairy Tail atingiu a marca de 60 milhões de cópias impressas em todo o mundo e é bastante popular na França, onde já vendeu entre 7 a 8 milhões de cópias. Já Ataque dos Titãs, por sua vez, tem 12 milhões de cópias impressas divididos pelos 22 países em que foi licenciado.

  • O preço em vários países

Ainda sobre Ataque dos Titãs, a entrevista possui um tabela com o preço do mangá em todos os países em que é licenciado e sua conversão para o iene. Não dá para saber quando foi feita a conversão e nem qual volume foi levado como base (o preço de Ataque dos Titãs na Argentina, por exemplo, está bastante defasado), mas há que se lembrar que foram feitos na mesma época. Vejam abaixo:

Gráfico 3. O preço de Ataque dos Titãs em todos os países em que a obra é publicada.

Do ponto de vista japonês, o Vietnã seria o país que menos rende royalties unitariamente (ou seja por volume), enquanto Portugal e Estados Unidos mais. Pelos preços apresentados é possível comprar cerca de 100 volumes no Vietnã com o valor que daria para comprar nove em Portugal ou Estados Unidos.

A empresa deixa claro que os valores são diferentes de acordo com vários aspectos como nível de salário, preço, etc. A taxa de crescimento econômico e a taxa de crescimento populacional também são completamente diferentes em cada país.

  • O poder do digital

Falar em histórias em quadrinhos muitas vezes é falar apenas em obras impressas, mas as Webtoons têm se tornado populares e mais acessíveis em algumas regiões do globo, afinal elas são feitas para serem lidas em dispositivos mobile. Ao contrário de livrarias (que são difíceis de encontrar em certas regiões), um celular quase todo mundo tem em mãos, de modo que o acesso às Webtoons é bem mais fácil e rápido. Elas podem ser uma grande competição ao mercado japonês de mangás.

O futuro dos mangás, porém, também tende a ser no digital. Na entrevista, os representantes da Kodansha informaram que nos Estados Unidos os ebooks representam cerca de 30% da receita, também indicando que esse pode ser o futuro (ou pelo menos uma grande tendência).

  • Pirataria x o digital oficial

Assim como no Japão, a pirataria nos Estados Unidos é um grande problema e que precisa ser enfrentada e combatida. Entretanto, justamente por ver a força da pirataria por lá, a empresa está notando o quanto existe de demanda pelo formato digital.

Sendo assim, em paralelo às medidas contra a pirataria, eles acreditam que têm que oferecer um serviço legítimo que supera a satisfação ao se ler uma obra pirateada. A empresa sabe de suas limitações, do que pode e do que não pode oferecer, mas se o futuro é o digital, a Kodansha precisa buscar soluções para oferecer produtos de qualidade no meio digital. O ideal é dar mais e mais opção, no maior número possível de plataformas.

  • Por que Investir no Exterior?

Se os valores obtidos fora do Japão representam apenas um quinto da renda total da Kodansha, por que é tão importante investir no exterior? A resposta é até bem simples do ponto de vista da empresa. Como a taxa de natalidade japonesa continua em viés de baixa, o mercado externo tende a ser uma boa opção no futuro, com mais leitores em potencial. Em vários países o crescimento populacional é alto, além de que em vários está aumentando o número de leitores de quadrinhos, tudo isso são prováveis clientes para a Kodansha.

A empresa ainda garante que se conseguissem converter os leitores de pirataria em consumidores do mercado de mangás oficiais, o resultado seria impressionante.

Via Magazine Pocket

6 comentários

  1. O último ponto foi interessante
    A população japonesa está envelhecendo e os mais jovens não estão reproduzindo. Com isso, gera um problema no futuro da nação e gera um risco iminente para as próximas 02 décadas.

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    1. Todos os mangás em inglês no Canadá são produzidos nos EUA (vários vão parar na Inglaterra também) e todos os mangás em francês no Canadá vêm da França. Até onde eu sei não existe exceção, a população canadense é 10% da americana, com os EUA ali do lado e a França sendo o que é, não tem como um mercado interno se desenvolver ali, é tudo por importação.

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  2. Seria interessante algo inverso disso. Por exemplo o GIBI brasileiro é relevante fora do Brasil, saber os números de vendas e países que mais compram turma da Monica.

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  3. Mesmo eu por exemplo lendo mensalmente o capítulo de shingeki no kyojin/attack on titan de forma pirata, eu comprei os mangás da Panini e vou completar a coleção física porque além do bom trabalho da Panini na tradução (só o papel jornal né que é feio) eu gostei demais da obra e até agora é meu mangá favorito (leio Berserk antes de mandarem a carta do Berserk em modo de ataque como argumento), pra mim o fã quando pode ele compra o produto original se tiver condições e se for bom também, tipo se eu comprar uma beyblade original vai ser da Takara Tommy (a empresa que criou o brinquedo) e não uma da Hasbro que é mais feia e menos forte que a original do Japão, mesmo se a bey da Takara for mais cara vai compensar mais.

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