Resenha: Beldade presa na gaiola

Não tinha um BL melhor para trazer?

Uma das coisas que eu mais gosto de fazer é dar a chance a algum mangá desconhecido que aparece no Brasil. O motivo disso é bem claro, o número de séries que a gente conhece, em relação ao que sai no Japão, é mínimo e deve ter muitas pérolas escondidas que ninguém nem tem ideia que existe. Se você é um daqueles que lê todo e qualquer mangá em sites piratas, você não deve ter lido nem 1% da produção de mangá que existe no Japão, visto que é humanamente impossível, então é muito bom para um mercado de mangás quando uma editora consegue trazer um título mais desconhecido.

O grande problema é se o título é bom ou não. A gente já teve no nosso mercado brasileiro várias obras desconhecidas que eram muito melhores do que vários mangás famosos que as pessoas dizem ser o melhor já feito. Ao mesmo tempo, a gente já teve várias obras desconhecidas, que eram desconhecidas por serem simplesmente muito ruins e descartáveis. Daí que é sempre uma incógnita. Beldade Presa na Gaiola era um desses mangás que já emanava uma aura ruim, por sua capa, por seu título e por sua sinopse, mas a gente resolveu dar uma chance a ele mesmo assim.

Chamado no Japão de Torikago no Reijin (鳥籠の麗人), a obra é de autoria de Yuya Kirimi e foi publicado no Japão na revista de mangás Boys Love’s, Comic Magazine Lynx, da editora Gentosha, sendo concluído em apenas um volume.

No Brasil, o título foi anunciado pela editora NewPOP em meados de 2019, sendo lançado no mês de dezembro. Adquirimos o título e viemos comentar um pouco sobre a obra para vocês. Será tão ruim quanto parecia ou tem seus pontos positivos?

  • Sinopse Oficial

Reiri Yukino foi amaldiçoado por um onmyoji e chefe de um grande grupo financeiro, Toshiaki Amano, ficando aprisionado nas profundezas de uma mansão. Mesmo após a morte de Toshiaki ele continuou a ter relações com os chefes da família por gerações. Até que um dia, surge Kenji, o novo chefe da família. Mas ele parece ser diferente dos demais…

  • História e desenvolvimento

A capa e a sinopse de Beldade Presa na Gaiola meio que já dão a tônica da obra e já mostram o que você vai encontrar ao ler o mangá. Nós temos um carinha em uma posição de superioridade em relação ao outro e este outro é constantemente violentado pelo primeiro. A obra, porém, tenta, sem sucesso, passar uma outra imagem.

Basicamente, na época da Segunda Guerra Mundial, o protagonista Reiri Yukino acabou sendo transformado em um “instrumento” da família Amano e passou a ficar preso em uma mansão afastada da cidade por meio de uma espécie de encantamento. A partir desse momento, Yukino não envelheceu mais e ficou assim por décadas trancafiado dentro daquela casa, daí o título Beldade Presa na Gaiola.

Mas qual era a sua função? Pois bem, o chefe da família possui uma extensa biblioteca em que cada um dos livros guarda uma espécie de espírito mágico e somente ele, o chefe, pode utilizar aquele poder. Entretanto, nem todos os espíritos podem ser controlados pelo poder dos Amano, de modo que é preciso catalisar e aumentá-lo. E a única forma de conseguir isso é usar um certo instrumento. Então, toda vez que o chefe da família Amano precisava usar um dos livros, ele ia até a mansão onde Yukino estava preso e o violentava, com vistas a aumentar o próprio poder.

Então, cada novo chefe fazia o mesmo sempre que precisava. Ele ia à mansão e violentava Yukino mais uma vez. E assim se passaram 60 anos de martírio por parte do rapaz. Mas aí chega mais um desses novos Amano’s, Kenji, e as coisas começam a mudar. Ou é isso o que a história quer nos fazer acreditar.  Só que logo no primeiro dia, ele trata de transar com Yukino à força. Kenji reaparece, se muda para o local, e passa a transar todos os dias com o rapaz. Daí que as coisas vão acontecendo e meio que se resolve que Yukino está apaixonado por Kenji.

O que a gente só pode dizer que a história não é nada agradável em diversos aspectos. Não existe qualquer desenvolvimento de personagem na história, de modo que a construção da trama não faz sentido lógico. A gente tem que acreditar que, de uma hora para outra, Yukino se apaixonou por Kenji apenas por ele o tratar diferente, entretanto a gente nem tem a oportunidade de vê-lo tratando-o tão diferente assim. Pelo contrário, a gente só vê o carinha indo lá e agindo da mesma forma do que todos os outros chefes da família, indo lá para transar com o seu escravo.

Sim, pois é isso o que Yukino é, por qualquer ângulo que se olhe, um escravo e a situação dele não muda tanto assim apenas pela presença de Kenji. Kenji não é diferente dos demais, pois ele simplesmente não deu qualquer opção ao rapaz. “Vamos fazer sexo porque sim”, Kenji tem o mesmo estilo dominante e mandão de todos os outros chefes da família, de modo que fica parecendo aos nossos olhos que nada mudou, como se Yukino não tivesse qualquer opção a não ser ficar perto de Kenji e obedecer a todas as suas ordens.

É uma história que incomoda, pois o protagonista está preso em um certo tipo de papel e mesmo tendo acontecido algo que parece ser diferente, ele continua preso na mesma situação. Não existe nenhuma situação em que a gente consiga olhar a história e não ver como um total martírio por parte do rapaz. Claro, existe um certo acontecimento que faz o deixar de ser “preso na gaiola”, mas o todo ainda é igual e não existe nenhum desenvolvimento acerca do futuro da história. Por exemplo, Yukino continuará a ser um instrumento mesmo após a futura morte de Kenji? Isso nem é comentado. É uma história que acaba antes que a gente tenha visto ela começar de fato.

Não há romance, não há história a ser contada e nem nada. Beldade Presa na Gaiola é só um “vou te violentar de forma diferente e você vai me amar por conta disso”. Há muitas coisas que podiam ser exploradas na história e que nem ao menos foram tentadas. A identidade de Yukino e o desajuste social dele perante à modernidade, uma ênfase no quão ruim era viver preso à mansão, além é claro da questão dos livros mágicos que só são citados e que aparece de verdade em apenas uma passagem da obra.

No todo, Beldade Presa na Gaiola termina por desapontar em todas as suas frentes e não consegue fazer uma história harmônica. Não recomendamos.

  • A edição nacional

A edição brasileira veio no formato 12,8 x 18,1 cm, com miolo em papel offset e capa cartonada simples. Houve ainda uma página colorida. O preço da edição foi de R$ 18,00. Trata-se de uma edição padrão da NewPOP, então nada a relatar sobre o aspecto físico, é aquela publicação básica da editora.

Chama a atenção que na página colorida (que abre o mangá), em vez de colocarem Beldade Presa na Gaiola, o título nacional, colocaram Torikago no Reijin, a romanização do nome original. Achei bem estranho e meio sem sentido.

Quanto ao texto, não notei erros de revisão, apenas uma frase ou outra meio esquisita, mas nada que atrapalhasse a leitura.

  • Conclusão

Se existe uma palavra para definir Beldade Presa na Gaiola, esta palavra seria “dispensável”. Não se trata de um título que mudará a sua vida e nem serve apenas e tão somente como entretenimento. É algo que se cair na sua mão você pode até ler, mas se você nunca tocar não fará muita diferença, pois o que a história mostra é algo irrelevante e sem qualquer significado próprio, além de ser bem mal construído, não fazendo com que a gente acreditasse na história que estava sendo contada. Então, a gente não recomenda mesmo esse mangá.

Há que se comentar que Beldade Presa na Gaiola não é nenhum mangá erótico por assim dizer. Há diversas cenas em que mostram dois homens juntos sim, mas não é algo apelativo, de modo que ainda que seja um mangá +18, ele não é totalmente explícito, não mostrando ninguém inteiramente nu.

Se vocês querem ler um bom BL lançado no Brasil, leiam Joy, que também saiu pela NewPOP em 2019. Esse sim tem um romance bem desenvolvido, uma história interessante e que é capaz de agradar todo mundo. Deixem a Beldade presa na loja que é melhor.

  • Ficha Técnica

Título Original:  鳥籠の麗人
Título NacionalBeldade Presa na Gaiola
Autor: Yuya Kirimi
Tradutor: Karen Kazumi Hayashida
Editora: NewPOP
Dimensões: 12,8 x 18,1 cm
Miolo: Papel offset
Acabamento: Capa cartonada simples
Classificação indicativa: 18 anos
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes No Brasil: 1 (completo)
Preço: R$ 18,00
Onde comprarAmazon

6 comentários

  1. “Há muitas coisas que podiam ser exploradas na história e que nem ao menos foram tentadas” este foi exatamente o meu sentimento ao terminar de ler o mangá. As ideias de forma geral não eram ruins, mas a autora não soube aproveitar elas em um volume só.

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  2. “Kenji reaparece, se muda para o local, e passa a transar todos os dias com o rapaz. Daí que as coisas vão acontecendo e meio que se resolve que Yukino está apaixonado por Kenji.”
    Não seria um caso de síndrome de eutecomo, digo, Estocolmo? (dsclp)

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  3. Também quis dar uma chance por se um título desconhecido, mas fiquei com as mesmas impressões que você… faltou desenvolvimento, a mangaka não explorou todo o potencial das idéias dela.

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  4. Também achei bem mediano. Pior é que o mangá relativamente velho, a autora já está em outra e não tem como ela expandir o universo que foi proposto.
    É aquele caso de história que não funciona por ser curta demais. Se fosse uns 4, 5 volumes, acho que ficaria mais satisfatório.

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