Resenha: Devilman – Edição Histórica (volume 1)

Os demônios estão entre nós

Existe uma lenda, nunca confirmada em vídeo até onde a gente sabe, de que nos primórdios dos mangás no Brasil o clássico Devilman, de Go Nagai, foi oferecido para as editoras brasileiras e ele foi sistematicamente recusado, pois não daria certo no mercado de mangás da época, em que os títulos eram sobretudo destinado a bancas de revistas e o público consumidor era mais jovem e não seria adepto desse tipo de título.

Se isso é verdade ou não, não sabemos, mas o fato é que durante anos, a obra mais famosa de Go Nagai, então, parecia um daqueles títulos impensáveis em nosso mercado, mas o tempo foi passando, passando, passando e o mercado deu uma virada, apresentando-se mais afeito a obras mais antigas. O que era impensável, tornou-se mais possível e clássicos começaram a aparecer. Devilman ainda teve um belo empurrão, que foi o novo anime baseado na obra, que deu uma revitalizada na série, fazendo-a ficar “na boca do povo”. A partir daquele momento, o mangá tornou-se uma questão de tempo. Restava saber por qual editora ela viria. Veio pela NewPOP.

Embora algumas pessoas não saibam e nem imaginem pelo tipo de conteúdo presente na obra, Devilman é um mangá shonen. Ele foi feito, pensado, concebido e acabado para ter como leitores rapazes adolescentes do Japão dos anos 1970. O linguajar, as cenas e tudo mais era voltado ao público juvenil, afinal lutas e as demais “aberrações” presentes na obra é uma das coisas que encantariam os leitores da época. Go Nagai foi um dos precursores dos temas mais “adultos” nos mangás shonens, como a violência, o sexo e a morte.

A revista em que Devilman foi publicada é a Weekly Shonen Champion, da editora Akita Shoten, tendo saído entre 1972 e 1973 e sendo concluído em um total de 5 volumes. Na época, porém, o autor fazia diversas obras e não conseguiu criar a obra do jeito que ele queria. Assim, com o sucesso da obra ao longo dos anos, o autor aproveitava as reedições do mangá para fazer modificações, acrescentando detalhes e redesenhando coisas que ele não tinha ficado satisfeito na publicação original.

A editora NewPOP licenciou a versão kaitei-ban (versão aprimorada) que saiu no Japão em 2012 pela editora Kodansha em 4 volumes. Trata-se de uma edição em que novamente o autor fez modificações, redesenhou coisas e ainda acrescentou capítulos de uma outra obra sua, Shin Devilman.

A versão  brasileira reúne os quatro volumes dessa edição em apenas dois tomos, com mais de 650 páginas por volume. O primeiro foi publicado em novembro de 2019 e o segundo e último volume está previsto para sair entre o final de março e início de abril de 2020. De posse do primeiro número, o lemos e viemos falar nossas impressões iniciais da obra para vocês.

  • Sinopse Oficial

Um dos maiores clássicos japoneses, o consagrado Devilman enfim aterrissa no Brasil em edição Prime e completo em dois volumes. Akira Fudo costumava ser só um estudante tímido que gostava de frequentar a biblioteca, por isso, jamais poderia imaginar que a sua vida viraria de ponta-cabeça quando o seu melhor amigo, Ryo Asuka, procurou-o para contar-lhe sobre a verdade do mundo; qual seja, que demônios da antiguidade estão disfarçados entre humanos e planejam dizimá-los para reconquistar a soberania do planeta Terra! Diante disso, a solução proposta por Ryo foi simples, porém chocante: os dois amigos também se transformariam em demônios poderosos para salvarem a humanidade! Então, Akira, depois de muita relutância, aceita a proposta de seu amigo e se funde ao poderoso demônio Amon – é o nascimento do lendário Devilman…! Conheça a cativante e sobretudo visceral história que marcou época e é recontada até os dias de hoje, inspirando a produção da série original Netflix: Devilman Crybaby.

  • História e Desenvolvimento

O que você faria se descobrisse de repente que no mundo existem demônios e que eles pretendem destruir a humanidade em breve? O que você faria se soubesse um meio de, você mesmo, lutar contra esses monstros? Você teria coragem de enfrentar demônios? Não ficaria com medo? Na vida real, decerto muita gente tentaria deixar essa responsabilidade para alguém mais competente, mas na ficção as coisas funcionam de uma outra forma e se você é incumbido de uma missão, você a aceita.

A história de Devilman é exatamente isso. A terra, no passado, era habitada por demônios e prevalecia a lei do mais forte, com um sobrepujando o outro por meio da violência. Dentre os diversos poderes que os demônios dominavam, havia um que permitia eles se fundirem a objetos ou animais para ganharem mais e mais poder, fazendo surgir criaturas horrendas. E assim eles foram vivendo. Entretanto, a terra passou por mudanças climáticas e eles acabaram congelados na era glacial. Nesse ínterim, a humanidade surgiu e passou a dominar a terra. Porém, os demônios começaram a despertar novamente e estão planejando tomar a terra de volta. E é aí que a história começa.

Um humano, Ryo Asuka, descobriu o que estava acontecendo por meio dos registros escritos de seu falecido pai e decidiu não ficar parado. Nas pesquisas do pai, estava claro que a única maneira da humanidade sobreviver era ter um demônio ao lado dela e a maneira de isso acontecer era um humano de coração puro receber um demônio em seu corpo. É nisso que entra o protagonista da história, Akira Fudo. O rapaz, então tímido e medroso, fica sabendo de toda a história dos demônios através de seu melhor amigo Ryo e decide ajudá-lo na empreitada. Após um ritual, Akira consegue receber um demônio em seu corpo, consegue ser mais forte que o tal bicho e vira o temível Devilman.

Akira e Ryo

A história então prossegue com os demônios querendo acabar com o Devilman, de modo que o plano deles (de irem ficando mais fortes às escondidas até o momento de conseguirem sublimar a humanidade) não fosse por água abaixo, mas obviamente Akira os enfrenta e os vence após lutas difíceis. E esse é o mangá! Essa é a história!.

O mangá possui dois momentos que se intercalam, os de ação (onde ocorre os conflitos, as lutas, etc) e os de explicação (em que são falados sobre os demônios, as teorias, etc) e ambas as partes são simplesmente viciantes, com uma leitura extremamente rápida e fluída. O início do mangá são quase 50 páginas sem qualquer diálogo mostrando a evolução do planeta, a presença dos demônios, etc, e elas passam voando, em uma quadrinização totalmente ágil, o que faz com que em minutos você consiga ler essas páginas. Depois disso, conhecemos Akira, Ryo e ocorre a explicação sobre os demônios e tudo mais. Apesar de termos bastante texto nessa parte, novamente as páginas passam voando, com uma sequência de quadros bastante rápida, de modo que passam duzentas páginas sem que você perceba.

O desenvolvimento do mangá é bem intenso, com explicações interessantes, plausíveis e bem arquitetadas sobre a trama (por exemplo, a ideia de que as lendas dos demônios existem porque alguns escaparam do congelamento e apareceram ao longo da história da humanidade), bem como com cenas de ação que vão escalonando em emoção, página após página, capítulo após capítulo. Os confrontos iniciais são bem “sem-sal” com o Devilman batendo nos primeiros demons (como são chamados na série) e nos encrenqueiros do bairro sem muita dificuldade, para então as lutas se tornarem mais intensas com o passar do tempo.

Devilman é um mangá de ação e de luta realmente bom e que vai agradar em cheio quem gosta desse tipo de obra, mesmo sendo um título da década de 1970. Há certas passagens que deixam antever que a obra é antiga com rostos caricatos e pernas esticadas de um jeito “estranho”, muito ao estilo Tezuka, mas no todo a quadrinização é bastante atual, de modo que é capaz de agradar bastante quem só está acostumado aos mangás recentes.

Entretanto, apesar de ser um mangá muito bom, Devilman não escapa de problemas evidentes. Um dos que saltam aos olhos se deve aos personagens e a natureza deles. Para começar, soa bem estranho o modo como Akira aceitou se tornar um humano possuído por um demônio. Ele era um jovem totalmente pacato, contrário a lutas e, de repente, não mais que de repente, seu amigo lhe fala algumas coisas e quase sem relutância ele aceita mudar completamente. Há uma hesitação, sim, mas a decisão é muito rápida e não soa muito verossímil. Mas isso passa, é algo que a gente pode relevar em prol da história.

Ainda sobre a questão da natureza dos personagens e ainda sobre Akira, ele é o herói da história, mas também tem atos e atitudes um tanto quanto detestáveis. Antes de se tornar o Devilman ele era uma pessoa tranquila, mas depois seus olhos mudam de expressão e ele passa a ter uma aura mais maligna e briguenta (e, obviamente, consegue derrotar os valentões com facilidade por causa disso), mas com isso ele também passa a tratar mal sua amiga, Miki. Em um certo momento, por exemplo, ele está conversando com Ryo e então Miki aparece e ele manda ela ficar longe de uma forma bem grosseira. É algo bem desgostoso de ver, chegando a ser odioso. Entretanto, é uma atitude bem factível no contexto da história. Embora Akira também lute para proteger Miki dos demônios, ele se fundiu a um ser maligno, de modo que sua personalidade sofreu uma alteração e ele tenha certas atitudes que não tinha antes. É ruim de ver, mas não é inverossímil.

O grande problema mesmo é a própria Miki. Desde que o mangá começa, é mostrado que ela é uma garota de personalidade forte, que não tem medo dos delinquentes idiotas e está disposta a bater neles se tiver força. É uma personagem altiva e ativa, daquelas que poderiam ser protagonistas de qualquer história. Ou deveria ser assim. Após Akira se transformar e mudar de personalidade, ela se torna diferente perante ele. Passa a admirá-lo pela sua nova “coragem”, pelo seu “cheiro”, fica correndo atrás dele o tempo todo e, para piorar, não reclama de ser maltratada. O que era uma personagem bem interessante, aos poucos foi se esvaindo e se tornando uma figura detestável. Ela ainda luta quando é possível, mas essa atitude em relação ao Akira meio que a deixa como uma personagem que não é real, que não verossímil, ao menos para os dias atuais.

Ela não fez nada. Ele a tratou mal. Ela pediu desculpas. Isso não faz sentido.

Outro problema ocorre no desenvolvimento final desse primeiro volume. Embora a história seguisse com capítulos meio avulsos por assim dizer, ela parecia seguir uma ordem bem estabelecida, com os demônios buscando atacar Akira e tudo mais de tempos em tempos. De repente, não mais que de repente, há uma viagem no tempo sem sentido O_o.

Está certo que demônios têm poderes diversos, mas por qual razão eles iriam viajar ao passado? Como conseguiriam isso? E porque viajariam para uma certa época específica? Por que a Idade Média? O objetivo é dito claramente, alterar a história da humanidade. MAS, se viajar no tempo é possível, não seria melhor ir para o começo da humanidade e alterar toda a história a partir de lá? A viagem para a Idade Média não é algo que faça sentido no contexto da história.

Na verdade, essa viagem pareceu algo jogado, que foi colocado, algo que não deveria estar ali originalmente. E não deveria mesmo. Esse capítulo não faz parte do Devilman original e sim do Shin Devilman, um volume único da franquia que mostra os personagens voltando no tempo e enfrentando os demônios que queriam mudar a história da humanidade. Essa inserção não parece boa para a história. Se não houver uma explicação detalhada sobre isso no segundo e último volume do mangá, simplesmente ficará sem sentido a presença desse capítulo, pois quebra totalmente o que vinha sendo desenvolvido até então e sem qualquer esclarecimento. É algo que ficou realmente bem esquisito.

Devilman é um bom mangá e não precisava disso.

  • A edição nacional

A edição nacional do mangá foi a primeiro do selo Prime da editora NewPOP, vindo num acabamento superior aos outros títulos da editora. O formato adotado foi 15 x 21 cm, com miolo em papel Polén Bold e capa dura. São dois volumes no total com mais de 650 páginas em cada, sendo algumas delas coloridas. O preço é R$ 94,90 por número.

Trata-se de uma edição realmente bem bonita. Apesar de ser imensa e ter um grande número de páginas ele não é tão pesado quanto aparenta. Não dá para você ler em pé no ônibus a caminho do trabalho, mas mesmo assim é bem mais leve do que aparenta. Vale bastante os R$ 94,90 cobrados pelo título.

O texto, por sua vez, é bastante fluído, dinâmico, com a utilização de uma linguagem mais solta, com gírias, que dão um realismo maior às falas. Também não notamos erros de revisão gritantes. Pode ter alguma vírgula errada ou coisa assim, mas a nossa leitura não captou nenhum. Então consideramos um bom trabalho.

  • Conclusão

Devilman é um bom mangá de ação e aventura e tem sua razão de ser chamado de clássico. Ele permaneceu em voga durante os anos porque é um título realmente agradável a todas as épocas, fácil de ler e bastante ágil. Não é um título (pelo menos nesse primeiro volume) para te fazer pensar sobre diversas questões existenciais ou coisa assim, é apenas um entretenimento puro e simples, um bom entretenimento, baseado nas lutas, na violência, etc.

Não é um mangá para todo mundo, pois ele é um tanto quanto apelativo. Não há nenhuma cena muito explícita, mas os demônios são mostrados de forma horrenda, com muitos tendo bocas e cobras nas regiões genitais, entre diversas outras coisas. Isso é algo que tende a chocar e afastar as pessoas, então se você não gosta disso, melhor deixar para lá este mangá, pois tem outros no mercado. Se isso não te incomoda ou se você quer se aventurar em outras paragens, vá em frente, pois Devilman tem uma boa história e realmente vale a pena…

  • Ficha Técnica

Título Original: デビルマン
Título NacionalDevilman
Autor: Go Nagai
Tradutor: Thiago Nojiri
Editora: NewPOP
Número de volumes no Japão: 5 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 de 2 (ainda em publicação)
Dimensões: 15 x 21 cm
Miolo: Papel Polén Bold
Acabamento: Capa dura
Preço: R$ 94,90
Onde comprar: Amazon / Comix

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