Resenha: Heróis e as amarras que nos prendem no mangá “Coyote”

Novos heróis

Talvez você nunca tenha ouvido falar, mas existe no Japão uma revista de mangás chamada Hero’s, pertencente a uma empresa de mesmo nome e que tem como maior acionista a Shogakukan Creative. A Hero’s é pouco conhecida no Brasil, mas seu nome não deixa dúvidas e remete a uma temática bem específica, a de histórias de heróis e coisas derivadas. Em seu site, inclusive, a apresentação da revista é bem enfática e diz que agora “começamos a criar vários heróis porque os heróis são o melhor entretenimento que todos no mundo desejam”.

Não coincidentemente, os títulos mais famosos da Hero’s são obras que apresentam algum tipo de defensor do bem em sua trama, como Ultraman, Atom – The Beggining, Kamen Rider Kuuga, entre outros. Coyote, lançamento de fevereiro da editora JBC, é outro título advindo da Hero’s e, de uma forma ou de outra, também apresenta a questão do herói e do heroísmo em seu conceito base.

De autoria de Sei Awata, Coyote é uma coletânea de histórias curtas que perpassam mundos em que heróis existem e apresentam uma série de contos sobre pessoas ou seres envolvidos na conturbada arte de salvar as pessoas. A obra possui 5 capítulos ao todo, com quatro histórias no total (“Kids”, “Lenny Worker” e “Lenny Worker Alternativa”, “Coyote” e, por fim, “Eu sou um demônio”), cada qual apresentando uma visão diferente desse mundo do heroísmo ou da maneira que as pessoas enxergam os heróis e a si próprio.

A primeira história, “Kids”, nos apresenta a um mundo em que o grande e conhecido herói de uma cidade morreu, deixando quatro filhos para suceder o seu caminho. Assim como em qualquer história de super-heróis, eles também possuem poderes e estão prontos para ajudar as pessoas que necessitem. Ou pelo menos assim deveria ser. Um desses quatro filhos, a única mulher, nasceu sem poderes, o que foi, durante muito tempo, motivo de desprezo para com ela.

“Kids” é uma narrativa que busca falar sobre a questão do modo de agir e de se comportar dos heróis e das pessoas, em razão das amarras da família. Na história busca-se refletir o que é certo e o que é errado ao ser você mesmo ou ao ser um herói.

A protagonista da história, por exemplo, não tem poderes, mas recusa-se a ficar “arrumando a casa” como ordenado pelos irmãos, pois entende que isso não é sua qualidade ou função. Ela não deseja ficar presa nessas correntes que a prenderam e o mesmo acontecerá com outro personagem da história, o irmão mais novo da protagonista, que deseja se insurgir aos desígnios de seu pai morto.

O conto inteiro abordará essa questão e mostrará que as correntes da família que nos prendem podem não ser tão duras quanto imaginamos e podemos conseguir, por vontade própria ou com ajuda, superar as limitações e fazer as coisas do nosso jeito e não de uma maneira pré-determinada.

A segunda história é dividida em dois capítulos intitulados “Lenny Worker” e “Lenny Worker Alternativa”. No mundo desse conto, os humanos buscando o conforto das pessoas criou seres artificiais conhecidos como Workers, mas o que era para ser algo benéfico acabou sendo usado para o mal, o que fez todos os Workers serem alvo de intenso medo e preconceito. No entanto, para buscar aplacar o mal e trazer a paz para as pessoas, existe nesse mundo um herói chamado de Angel. Nesse ínterim acompanhamos Lenny, um worker bonzinho, que busca se esconder e não atrapalhar as pessoas à sua volta, mas que tem sua vida mudada quando conhece uma moça que o trata melhor.

Novamente a questão sobre o poder de nossas escolhas e da libertação das amarras é enfatizada aqui. Em “Kids”, as amarras advinham, prioritariamente, da família, mas em “Lenny Worker” eles vêm mais da sociedade e do próprio indivíduo.

Aqui há uma clara crítica ao modo como a sociedade (e, nisso, está incluído a família) vê e percebe o mundo e as pessoas, ao falar que é bem errado e estranho viver a vida tentando ser igual aos outros, assim como é ruim tentar evitar e julgar o que é diferente. Os Workers não são outra coisa senão o diferente na história e a sociedade retratada na obra os trata como pária.

A história mostrará pessoas que pensam diferente e que ajudarão o protagonista a se ver de uma forma melhor e a agir por si mesmo e para os outros. Sim, pois o protagonista também é cerceado pela sociedade e vê-se como algo à parte e que precisa ficar se escondendo. No entanto, a obra buscará mudar isso e ele – assim como qualquer pessoa – poderá ser do jeito que quiser, seja alguém comum, seja um herói.

A terceira história, “Coyote”, é a que dá título ao mangá e se concentra em um herói diferente, um assassino profissional. A história acompanha uma prostituta que, certo dia, recebe como cliente um sujeito que decide apenas conversar e a conhecer melhor. Nisso, coisas não esperadas acontecem e a vida da garota muda completamente.

De novo a questão das amarras se fazem presentes, mas aqui são mais amarras físicas, baseadas em atitudes próprias. Tendo saído de casa, a protagonista da história acabou tendo que viver em um bordel e, agora, já não conseguia mais sair por causa do cafetão do local.

Obviamente, no entanto, as amarras internas também se fazem presente. A protagonista é uma boa pessoa e mesmo de posse de uma arma não consegue dar cabo do cafetão para escapar. E é aí que entra o “herói” da história. Diferentemente de “Lenny Workers” em que as pessoas ajudam o protagonista com conselhos e com a amizade, em “Coyote” a protagonista é ajudada pela ação.

Claro que o que vem depois depende unicamente dela, mas as correntes que a prendiam deixaram de existir por conta de um herói que a salvou.

A quarta e última história tem como protagonista um demônio em forma de animal ^^. Mas assim como nos outros contos, o mundo dessa narrativa também possui um herói. Basicamente, muitos anos antes da história começar, o demônio fora aprisionado dentro de uma caixa por um grande herói e, agora, ele retornou ao mundo após alguém o libertar sem querer. O objetivo do demônio, então, será se vingar do herói que o derrotou. Mas ele conseguirá a revanche que tanto deseja?

A história aqui é diferente dos outros contos. Ainda existem correntes, mas são correntes internas que prendem o protagonista a um desejo de vingança que não faz mais sentido. Por mais que queira derrotar o seu inimigo do passado, o mundo mudou, as coisas passaram e já não existe sentido em derrotar o seu inimigo.

É aquela velha questão de que não adianta ficar remoendo coisas passadas, pois o tempo tende a mudar tudo. Ficar guardando coisas e desejos negativos só tente a fazer ficarmos presos em uma corrente muito poderosa e que só nos faz mais mal. O mérito da história é colocar isso nas expressões do vilão, do personagem malvado. Claro que o protagonista ainda é um demônio e deseja lutar contra o seu ex-rival, mas fica parecendo que ele só quer lutar por lutar, como se fosse para rememorar o tempo passado…

***

Todos os contos que compõem a obra são muito divertidos de acompanhar e nos fazem pensar sobre algumas questões, como o que é ser um herói, as amarras que nos prendem, dentre outras coisas. Cada uma das histórias poderia facilmente se estender um pouco mais e conseguir um volume próprio, mas dentro do contexto da obra, os contos se concluem bem. O único que fica com um gostinho de que poderia ser melhor é o primeiro, pois as coisas acontecem muito rápido. De resto as histórias são bem conduzidas do início ao fim.

O que pode incomodar algumas pessoas, no entanto, é a arte do mangá. Os desenhos parecem muito simplórios em alguns momentos, com rostos desenhados de forma esquisita e quadros formados quase que inteiramente por riscos, dando a impressão que não foram acabados. Trata-se de um estilo de arte, mas que muitas pessoas não costumam gostar. Fora isso, algumas cenas de ação também são meio difíceis de decifrar e é preciso um pouco mais de atenção para poder entender o que está acontecendo.

No todo, porém, Coyote é um mangá surpreendentemente muito bom, dadas sua característica de uma coletânea de histórias. Não tem o nível de qualidade que uma obra prima costuma ter, mas é um mangá que diverte, entretém e nos faz pensar. Em nossa opinião, vale muito a pena.

Ficha Técnica

Título Original: Coyote
TítuloCoyote
Autor: Sei Awata
Tradutor: Tonde Buurin
Editora: JBC
Número de volumes no Japão: 1
Número de volumes no Brasil: 1
Dimensões: 13,2 x 20 cm
Miolo: Papel pólen soft
Acabamento: Capa cartonada simples
Classificação indicativa: 16 anos
Preço: R$ 32,90
Onde comprar: Amazon / Comix
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