Resenha: “Real #01”

Quando o basquete entra em cena novamente

Ao contrário de Haikyu!!, que vinha se tornando aos poucos uma lenda, Real era um título que quase todos sabiam que cedo ou tarde apareceria no Brasil, tendo em vista que era uma obra do grande e aclamado mestre Takehiko Inoue.

Vagabond parecia ter sido um sucesso quando saiu pela Panini e Slam Dunk também não parecia ter ido mal, de maneira que imaginar a publicação de Real não era algo descabido, bastava esperar um pouco que ele apareceria.

Dito e feito.

Real é, como dito, de autoria de Takehiko Inoue e começou a ser publicado no Japão em 1999 na revista Young Jump, da editora Shueisha, e ainda segue em andamento, atualmente com 15 tomos publicados.

A quantidade “baixa” de volumes, para o número de anos em publicação, se deve ao fato de que o autor dividia a feitura da obra com o restante de sua vida (que incluía, também, a publicação de Vagabond), de maneira que desde seu lançamento o mangá ganhava apenas um volume por ano no Japão, regularmente, até 2014. Para piorar, depois disso ele entrou em pausa, retornando apenas recentemente.

No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora Panini em março de 2021 e começou a ser lançado em agosto, com previsão de ser publicado um volume novo por mês.

O mangá apresenta a história de três jovens (Tomomi Nomiya; Kiyoharu Togawa; e Hisanobu Takahashi) que têm suas vidas interligadas pelo basquete, pelo drama e pela incomensurável tragédia.

Nomiya é um rapaz que ama o basquete, mas larga a escola após se envolver em um grave acidente; Kiyoharu Togawa é, por sua vez, um cadeirante que também adora o esporte, extremamente competitivo, mas que mesmo assim tem certos receios e mágoas para com sua vida. Por fim, temos Hisanobu Takahashi, um carinha não muito legal, capitão do time de basquete da mesma escola da qual Nomiya fazia parte, mas que, de repente, tem sua vida totalmente transformada em razão de uma certa calamidade.

Na obra, então, veremos como os três se relacionam com o desporto – o amor pelo jogo, o treino, etc – e tentam viver (buscando se superar) mesmo sob a égide do desespero e do imponderável.

Real é – em uma primeira análise – um spokon como um outro qualquer, em que veremos personagens que amam o que praticam e que têm suas vidas totalmente ligadas a ele, buscando se aprimorar e tentando tornarem-se os melhores de todos. Entretanto existe um algo mais bem claro, ele não vai tratar apenas de basquete em si, ele vai tratar de basquete em cadeira de rodas e o modo como a sociedade e os próprios jogadores se enxergam. Mais do que isso, ele nos mostrará pessoas tendo que lidar com problemas desoladores e tentando aceitar e superar os acontecimentos e suas limitações.

Esse primeiro volume é uma introdução à história e – embora realizar uma análise apenas dele seja pouco proveitosa – já coloca as bases de uma narrativa que tende a ser tocante, triste e, até mesmo, aterrorizante para alguns, com os personagens envoltos pela tragédia e o drama aflorando a cada instante.

A obra começa, por exemplo, com Tomomi Nomiya fora da escola, após um acidente de moto que deixou uma moça que estava com ele paraplégica. Com o mundo em suas costas, ele tentará viver com as angústias do que fez, os traumas advindos disso, ao mesmo tempo em que precisará encontrar um lugar no mundo.

Embora tenha característica de durão e descolado, ele não dista de qualquer outra pessoa que flerta com a desgraça e acaba se sentindo culpado pelo que aconteceu com a garota, tem medo do trânsito devido ao acidente e, no meio de tudo, ainda precisa trabalhar para sobreviver. E é nesse contexto que sua tábua de salvação inicial é o basquete ou antes o encontro com um grande jogador do esporte, Kiyoharu Togawa, um jovem que, sentado em sua cadeira de rodas, consegue jogar muito melhor do que Nomiya.

Embora se meta em diversas tretas durante o volume (uma das quais, no final do tomo, bem intensa), o basquete e o encontro com Togawa fazem com que Tomomi consiga sobreviver, ainda que os medos e os traumas permaneçam, ainda que sua personalidade continue presente. É aquela coisa de que uma pessoa pode fazer a diferença para a outra e para Nomiya foi Togawa.

A introdução que é este volume nos apresenta um pouco da história de Kiyoharu Togawa também. Togawa é um jovem que teve uma das pernas amputadas no passado devido a uma doença e já é cadeirante há muito tempo, tendo encontrado no basquete em cadeira de rodas uma salvação.

Não somente isso, o basquete torna-se algo tão importante que ele deseja mais do que apenas jogar, mais do que apenas se divertir, ele deseja vencer, ele deseja ser o melhor. Dito de outro modo, ele é um personagem que já vem pronto, com toda a sua bagagem da tragédia passada, buscando agora ir além. Nesse ínterim, ele até usa o seu drama pessoal para beneficio próprio (veremos mais abaixo).

O grande dilema dele é justamente não estar junto de pessoas que queiram vencer também. Nesse primeiro volume logo descobrimos que ele deixou o time de basquete em cadeira de rodas do qual fazia parte porque seus companheiros queriam apenas se divertir e ficavam contentes mesmo após uma derrota.

Uma das cenas mais marcantes é exatamente essa, com Togawa ouvindo de um de seus companheiros que não deveriam se importar tanto, pois nada mudaria na vida deles já que eram cadeirantes. Esse é um momento totalmente emblemático, pois contrapõe o pensamento de Togawa, que desejava mais e mais, apesar das suas limitações físicas.

Apesar de tudo, vemos em Togawa ainda traços das coisas que aconteceram com ele. Em especial, ele tem dificuldade em aceitar a ajuda, achando que atrapalha a vida de outras pessoas com quem convive.

Obviamente não poderíamos deixar de falar da última figura da tríade da obra, Hisanobu Takahashi. E a melhor definição dele como pessoa é “detestável”, ruim, que fica vagabundeado, tratando os outros mal, etc, etc, etc. Só que ocorre uma virada na história e [SPOILER], após roubar uma bicicleta, ele acaba atropelado e fica paraplégico [/FIM DO SPOILER]

Se no início do volume, o grande drama é em relação a Nomiya, da metade para o final Takahashi é a estrela da tragédia que se apodera. Veremos ele em uma situação lamentável, inimaginável até então, tendo que lidar com algo e coisas que mexem sobremaneira com seu psicológico.

E Real é basicamente isso, um drama exacerbado que acomete os personagens, ao mesmo tempo em que o jogo de basquete é a alma deles, a força necessária para que possam lutar. Apesar de suas mágoas e limitações Togawa estará lá jogando por diversão (e por dinheiro), apesar de ser o causador de um acidente, Nomiya estará lutando para as coisas andarem e assim por diante.

Embora seja uma obra destinada originalmente ao público japonês, Real traz uma imagem universal do modo como muitas vezes vemos os portadores de deficiência, com pena, como incapazes, etc. Um caso claro, nesse sentido, ocorre quando Togawa vai jogar basquete em certos momentos da obra e todos acham que ele é coitado, pegando leve com ele, por ele ser um cadeirante. A jogada está justamente aí, pois vemos o rapaz de forma bem atlética e melhor do que vários jogadores sem qualquer deficiência.

E talvez aí esteja o grande ponto do mangá. Ele nos leva a pensar em nós mesmos, pensar sobre o modo como vemos os PcDs e como reagiríamos em situação semelhante. Ao apresentar várias pessoas que aprenderam ou estão aprendendo a lidar com uma certa condição, a obra nos coloca em uma situação de impasse, podendo fazer com que fiquemos tristes com as situações mostradas, sentido empatia pelos personagens, ao mesmo tempo em que pode nos fazer ficar amedrontados com a situação.

Sim, pois, Real insere um dedinho na ferida. Ele nos coloca para raciocinar sobre coisas que buscamos esquecer na maioria do tempo, que não estamos acostumados a ver em mangá, e essa é uma das grandes qualidades dessa obra…

Para terminar, é preciso lembrar o que dissemos antes: esse volume inicial é uma grande introdução que apara as arestas da história. Ainda assim fica claro desde já que Real é uma obra que realmente fala bastante fundo – que toca em pontos importantes e que incomodam – e todo o desenvolvimento do volume 1 parece nos mostrar que a intensidade das coisas tende a aumentar.

Real é um daqueles títulos quase indispensáveis para os leitores de quadrinhos, daqueles que nos fazem realmente pensar e, até mesmo, ter medo. O Blog BBM não poderia dizer outra coisa senão recomendar a obra para todos.

[Claro que, tudo o que disse aqui, é do ponto de uma vista de uma pessoa que anda com as duas pernas, eu não sei como é a sensação de um cadeirante ao ler o mangá. Então eu recomendo o vídeo feito pelo Portal Genkidama, “UM CADEIRANTE LENDO REAL“, para vocês terem uma outra visão]

***

A edição brasileira de Real veio no formato 13,7 x 20 cm, com miolo em papel offset 90g, capa cartonada e páginas coloridas em couchê, tudo isso ao preço de R$ 29,90. É uma edição muito boa, maleável e que permite ler e folhear sem o menor dos problemas. As páginas coloridas (tanto no início, quanto no meio do volume) dão um charme extra, que mostra que estamos diante de um produto espetacular.

Por mais que custe o mesmo preço da maioria dos mangás da Panini, Real tem uma qualidade superior a quase todos os outros (perdendo apenas para Paradise Kiss), de modo que você se sentirá adquirindo um produto com um acabamento que vale cada centavo gasto.

Assim como temos dito em outras resenhas, o maior demérito fica fora do produto, a periodicidade. Ele irá ganhar um volume por mês e, por mais que o acabamento valha o preço, R$ 29,90 continua sendo R$ 29,90, o que torna inviável para muita gente adquirir no lançamento. Daí que é preciso torcer para que os volumes não sumam, para que a editora reimprima caso falte e assim por diante.

Entretanto, apesar disso, a nossa recomendação pelo mangá continua firme e forte. Se você tem dinheiro disponível e consegue arcar com o preço todo mês, Real é uma obra muito boa e  você não irá se arrepender de comprar.

Ficha Técnica

Título Original:リアル
TítuloReal
Autor: Takehiko Inoue
Tradutor: Sandra Fujishiro
Editora: Panini
Número de volumes no Japão: 15 (ainda em publicação)
Número de volumes no Brasil: 2 (ainda em publicação)
Dimensões: 13,7 x 20 cm
Miolo: Papel offset
Acabamento: Capa cartão 
Classificação indicativa: 14 anos
Preço: R$ 29,90
Onde comprar: Amazon / Loja da Panini

5 Comments

  • Samurandre

    é foda…REAL é um puta mangá bom, pra mim o melhor do Inoue, mas sair pela panini que faz tiragens todas zuadas e deve estar dificultando a distribuição em outros lugares (na comix mesmo nem tem a venda) desanima colecionar essa obra.
    E sobre a capa, no original tem a silhueta dos raios da roda da cadeira de rodas, é um detalhe que ja mostra o tema do mangá e fica mais bonito do que a capa panini só com a arte que eles estão utilizando

  • Washington

    Pela resenha parece ser um titulo bem interessante, mas está parecendo ser outro titulo que nunca vai ser terminado. Parece que este autor tem problemas para terminar seus títulos.

  • RafaelMrSv

    Ótima resenha, eu ainda não tinha nenhuma experiência prévia com a obra, mas a expectativa era enorme pelo nome do autor, e correspondeu bem nesse primeiro volume, inclusive já recebi o segundo volume e está mais espetacular ainda, indicando que o autor tem pleno controle da narrativa e as coisas tendem a ficar mais interessantes a cada capítulo. Não gosto de dizer que nenhum mangá é ”obrigatório”, mas esse passa perto, altamente recomendado não somente aos leitores de mangá mas para qualquer um que goste de uma boa história.

  • Anônimo

    esse é aquele mangá que me faria desistir de fazer qualquer outra coleção para continuar comprando. Pra mim, é o melhor lançamento do ano. o lado bom de ser mensal é que ano que vem já alcança o japão e o lançamento acaba ficando eventual, dando uma aliviada no bolso.

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