Resenha: Memórias de um Freixo

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Os quadrinhos de origem sul-coreana estão começando, pouco a pouco, a aparecer novamente no Brasil desde meados de 2020, quando foram publicados Solo Leveling e Grama, dois títulos bem representativos do que está sendo esta nova era das obras coreanas no Brasil.

Os títulos que aqui vem chegando se subdividem exatamente em dois tipos, sendo um lado representado pela cultura pop (Solo Leveling, On or Off, dentre outros), enquanto outro é representado pelas obras de drama, de denúncia e crítica social (Grama e A Espera). Enquanto o primeiro grupo se assemelha bastante aos quadrinhos japoneses mais mainstream, o segundo pega o mesmo nicho de algumas obras consagradas ocidentais como Maus e Persépolis.

Memórias de um Freixo, obra da qual falaremos hoje, faz parte do segundo grupo, apresentando uma narrativa em que coloca destaque em um acontecimento pouco comentado e estudado da história coreana, o massacre das Ligas Bodo.

Publicado na Coreia do Sul em 2015 pela editora Bookmentor, Memórias de um Freixo é de autoria de Kun-Woong Park e se trata de uma adaptação de um livro de mesmo nome escrito por Choi Yong-tak (lançado na Coreia em 2013, também pela Bookmentor).

Completo em um volume, a obra acompanha uma árvore (o Freixo do título da HQ) e suas memórias de ter presenciado um momento estranho e sem sentido da humanidade ao seu redor, quando centenas de pessoas de uma comunidade foram sumariamente mortas no local em que ela estava. Tal fato, era apenas um de muitos que ocorriam na mesma época na Coreia do Sul.

A obra se passa no pós-segunda guerra mundial (quando a Coreia já tinha sido dividida em Norte e Sul e os dois lados tinham seus governantes Syngman Rhee, no Sul, e Kim Il-sung, no Norte), mais precisamente durante a Guerra da Coreia (1950-1953), quando diversas atrocidades foram cometidas em nome da nação, muitas das quais contra os próprios civis.

E é sobre isso que se trata a história do quadrinho, mostrando um recorte de uma dessas atrocidades, uma das chacinas dos chamados Massacres das Ligas Bodo, no qual (embora com números controversos) pode ter chegado a 200 000 mortos, todos ordenados pelo governo.

As Ligas Bodo foram organizações criadas pelo governo sul coreano para reunir ex-comunistas (ou que simpatizaram com a ideia no passado) que estavam agora do lado do governo sul coreano. Ou seja, tratavam-se de grupos de pessoas que apoiavam o país. Muitas dessas pessoas, inclusive, se inscreveram nessas organizações mesmo sem saber direito o que eram as Ligas, apenas para  fazer número e por apoiar o país.

Ocorre que com o desenrolar da guerra entre as coreias, o governo sul coreano, de extrema-direita, ordenou que todos os membros das Ligas Bodo fossem mortos, pois ele (o governo) achava que a existência deles poderia beneficiar a Coreia do Norte. Sim, o governo matou pessoas que o apoiavam, pessoas inocentes, apenas e tão somente por um medo irreal, por uma ameaça comunista inexistente.

O que relatamos acima é o contexto do momento em que se passa o quadrinho. A história em si, porém, é a observação de um freixo de uma dessas chacinas. A gente vê a árvore, então, narrando os acontecimentos do passado, os acontecimentos de uma sequência de dias atípicos no lugar e que ela lembra por ser ter sido o dia em que uma de suas partes foi destruída.

Memórias de um Freixo é um narrativa um tanto quanto densa, mostrando os medos das pessoas e as atrocidades sem nenhum pudor, sem uma máscara. Se no início as coisas ainda são mais amenas, com gente achando que a prisão em que estavam não significaria a morte sumária, logo o desespero escala de forma exponencial. O horror das súplicas, dos tiros, das mortes é, então, retratado de forma que ele é, emulando um período de total ódio, com assassinatos de pessoas inocentes e sem uma justificativa, sendo nenhum pouco diferente das atrocidades que estamos acostumados a ver em obras sobre a Alemanha nazista, por exemplo.

Os desenhos também servem para mostrar o clima sombrio da obra, pois são bem simples (talvez feios para alguns) e com tons escuros em vários momentos, demonstrando o clima tórrido dos acontecimentos que estavam rolando.

Importante registrar que a própria árvore (que narra a história) vê as coisas escalando de forma igual. Enquanto ser neutro à situação, ela “aprecia” a mudança súbita de seu ambiente, mas logo vê as coisas até mesmo a afetando, quando uma das pessoas termina por quebrar uma de suas partes.

A árvore que persiste ao longo do tempo, inclusive, é um claro símbolo da permanência do horror, um símbolo de que algo ruim aconteceu e que isso precisa estar na lembrança das pessoas, para que coisas semelhantes não voltem a ocorrer.

O próprio título da obra é um convite a isso. “Memórias” (além do gênero literário ao qual o título está inserido) pode significar tanto o relembrar de coisas esquecidas, quanto o não esquecimento, a perseverança de fatos ao longo do tempo. O próprio título, então, nos fala para não esquecermos do passado: assim como esse freixo que teve uma marca dos acontecimentos, nós humanos também tivemos e precisamos relembrar…

Falando mais especificamente da ambientação da obra, perante o contexto, ela tende a ser difícil de compreender a princípio. A interpretação de um texto (seja ele qual for), depende de nossa percepção, de nossos conhecimentos prévios. Podemos ler, por exemplo, um artigo inteiro de física quântica, palavra por palavra, mas se não tivermos conhecimento do assunto, não conseguiremos entender nada do que está sendo dito. O mesmo vale para obras culturais.

Memórias de um Freixo acompanha um (e apenas um) dos diversos massacres das Ligas Bodo ocorridas na Coreia do Sul, de modo que não tendo o conhecimento do contexto histórico, não conseguiremos apreciar a obra a contento. Em nossa primeira leitura, por exemplo, não entendemos o porquê de os condenados à morte dizerem em alta voz o nome do comandante do país. De igual modo, em outro momento, quando dizem um outro nome, e os guardas dizem que esses sim são comunistas, igualmente não compreendemos o porquê disso.

E é aí que entra o poder dos paratextos. Os paratextos nos dão uma visão dos acontecimentos, e a leitura consegue fluir melhor. Então para quem pouco conhece da história coreana, antes de começar a ler o quadrinho, o ideal é ler os textos de apoio apresentados no volume, assim a narrativa fluirá melhor e se tornará mais entendível.

Sim, pois, a obra nos mostra um momento específico, de um lugar específico, de uma micro-região mais específica ainda, apresentando-a como representativa de todo o contexto. Ou seja, em vez de a hq nos apresentar o que são as Ligas Bodo, a história coreana, o início da guerra, etc, etc, etc, ela já presume que saibamos isso (daí a importância de lermos os paratextos) e, então, apresenta um dos massacres por meio da visão da árvore, fazendo com que tudo fique mais impactante ainda.

Memórias de um Freixo é mais um daqueles títulos que vem para nos mostrar que, infelizmente, conhecemos muito pouco da história mundial, nos mostrando mais uma parte da maldade humana baseada em pré-conceitos existentes.

A obra é um quadrinho que se encaixa naquela esfera da ficção de denúncia social, da qual imergimos em um assunto tenso, que nos faz pensar por semanas a fio. Talvez Memórias de um Freixo não tenha o mesmo impacto da ficção de Marjane Satrapi ou de Art Spielgman, mas igualmente nos faz descobrir, pensar e pesquisar mais sobre uma certa situação histórica.

Recomendamos bastante essa obra.

Agradecemos à editora Conrad
por nos ter enviado um exemplar da série

Ficha Técnica

Título Original:어느 물푸레나무의 기억
Título: Memórias de um Freixo
Autor: Kun-Woong Park
Tradutor: Jae Hyung Woo
Editora: Conrad
Número de volumes na Coreia do Sul: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 17 x 24 cm
Miolo: Papel offset
Acabamento: Capa cartão com sobrecapa
Classificação indicativa: 18 anos
Preço: R$ 74,90
Onde comprar: Amazon / Comix

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