Resenha: What a Wonderful World

A vida comum e normal?

Ler qualquer obra de Inio Asano é pedir para se sentir angustiado em alguma medida. Não é que em seus mangás existam coisas grotescas ou drama exacerbado, mas sim porque o autor, muitas vezes, busca retratar os personagens como seres humanos da forma mais normal possível. Ou seja, são personagens que parecem você, eu, o vizinho ou qualquer pessoa que a gente conheça…

Isso significa que veremos momentos muito alegres, felizes, pacíficos, esperançosos, mas também significa que veremos momentos conturbados, violentos, tristes, depressivos, tudo isso com toques intimistas que o autor busca empregar.

Inio Asano é um mestre em pegar todos os estereótipos das histórias de vida cotidiana e adicionar um elemento próprio que torna a narrativa mais palpável, mais real, elencando os conflitos e as pressões que todas as pessoas passam no dia a dia, sejam esses conflitos advindos da sociedade ou mesmo de si próprio.

Suas narrativas tendem a pegar todo lado belo e normal que seria explorado em uma história comum e deixar um gostinho amargo na boca do leitor, com uma gradativa eliminação da água com açúcar, mas sem chegar naquele lado mais cru.

Na verdade, tudo pode acontecer em uma obra do Inio Asano e quando você lê, você tem a percepção de ser uma história mais real, menos fictícia do que deveria ser, mesmo naquelas em que há um toque de fantasia, em que o autor usa metáforas para demonstrar o estado de espírito ou uma determinada condição deste ou daquele personagem.

Quem leu Boa Noite Punpun consegue visualizar bem que muitas das situações que ocorrem com o protagonista poderiam acontecer com qualquer pessoa comum (uma atitude intempestiva, uma menor trava da moralidade, etc), mas o fato de ele ser desenhado como um pássaro faz a história ganhar maiores contornos reais, subvertendo a possível ideia de fantasia que o modo como ele foi feito poderia gerar.

Não é só Punpun. Os personagens de Inio Asano são gente como a gente, pessoas comuns e normais, com qualidades e defeitos na mesma medida, sem uma tendência maior para um lado ou para o outro (ainda que existam alguns que são, de fato, detestáveis, como o próprio Punpun em certa medida). São personagens que representam realmente os seres humanos, em suas imperfeições, em suas tentativas de ajudar, em seus fracassos, em suas maldades, em seus medos sobre si mesmos, em tudo. Não obstante, as coisas que acontecem com eles também são – via de regra – situações que toda e qualquer pessoa pode vivenciar, como um acidente, um atropelamento, uma dúvida sobre as próprias escolhas, sobre o futuro, dentre diversas outras coisas.

Claro que existem obras e obras, histórias e histórias e nada é tão preto no branco assim, podendo existir títulos que fujam um pouco (ou muito) a essa característica. Autores não precisam estar presos a um estilo, a um tipo de história, a uma maneira de conduzir a narrativa, eles podem (e devem) fazer o que quiserem, usando todas as ferramentas que os quadrinhos possibilitam.

What a Wonderful World, obra da qual falaremos neste texto, é uma coletânea de história curtas de Inio Asano, publicadas em seus primeiros anos de carreira, então não veremos toda a sofisticação que observamos em obras posteriores, mas ainda assim ela nos permite observar a gênese de muitas coisas que veríamos depois, seja em questão de criação de personagens, condução de narrativa ou arte, ou mesmo com histórias que tocam o coração por meio do realismo, da beleza e do conflito.

Os contos presentes em What a Wonderful World foram publicados no Japão na revista Sunday GX, da editora Shogakukan, entre os anos de 2002 e 2004, sendo compilados em um total de dois volumes, estes lançados em maio de 2003 e 2004.

Em 2010, o título foi republicado no oriente compilando os dois volumes em apenas um só, sendo relançado de novo em 2019, dessa vez em uma edição definitiva, novamente compilando os dois tomos em um.

No ocidente, a obra foi editada em boa parte dos mercados de mangás, em alguns apenas depois de Inio Asano fazer sucesso e ser conhecido por Solanin e Boa Noite Punpun (como na Espanha e na Argentina), em outros desde muito cedo (como na França e na Itália). No Brasil, o mangá veio depois de o autor já ser um sucesso e ter suas duas principais obras lançadas no país.

O título foi anunciado pela editora JBC em março de 2020 e foi publicado no início de junho de 2021. A versão brasileira seguiu a mais recente reedição japonesa de 2019 que compila os dois volumes em apenas um, apresentando mais de 400 páginas, algumas delas coloridas, e uma capa maravilhosa que você fica querendo tocar o tempo todo^^.

What a Wonderful World é, como dito, uma coletânea de histórias, possuindo vinte capítulos ao todo em que veremos os mais diversos temas serem debatidos, que vão do alegre ao triste, do dilema à decisão. Não teremos toda aquela verve de uma mistura mais pesada do trauma e da superação, mas mesmo assim as narrativas nos fazem questionar, nos conhecer melhor e reconhecer o mundo à nossa volta, como sendo algo perigoso e incógnito, mas ao mesmo tempo bom e divertido, que deve ser apreciado em suas imperfeições…

Isso se mostra em toda a estrutura da obra. Embora seja uma coletânea de contos, as histórias volta e meia se conectam, com uma personagem citado em uma narrativa aparecendo em outra e assim por diante. Quem leu A Cidade da Luz já viu Asano fazer isso, o que torna o todo da obra bem harmonioso, como se estivéssemos presenciando a vida humana ocorrer de fato e não somente a vida de uns poucos personagens. What a Wonderful World não é tão bem interligado como A Cidade da Luz, mas ainda assim mostra bem essa natureza, que representa a vida: um grande grupo de pessoas que convivem juntas, com muitas histórias independentes, e que não conhecerão, senão de passagem. Apenas nós, observadores do lado de fora, seremos capazes de ver tudo, de compreender a vida humana em sua essência.

A capa do mangá é bastante emblemática e representativa de muitas coisas que veremos na obra, pois é um homem adulto com uma mala e uma arma (o que o configura como uma pessoa perigosa, talvez má) ao mesmo tempo em que está vestindo uma cabeça de urso (mostrando a parte gentil e boa), adquirindo uma dualidade que se observa em muitos dos personagens, com atos bons, atos malvados, segurança e insegurança.

O personagem que estampa a capa é um dos protagonistas do terceiro conto da obra chamado justamente de “Homem Urso” e ele – o personagem – não é outra coisa senão uma mistura de bem e mal, de boas atitudes e de contravenções. É um humano que luta por si, para si, mas não esquece, mas não deixa de se preocupar com os outros. Ele tem toda uma história por trás que o leva a uma situação de tensão máxima em que  acaba por encontrar o desespero (ou antes uma pessoa mais desesperada).

É uma historinha que se você olhar de um certo ângulo parece bonitinha, muito fofinha, mas que guarda traumas gigantescos de seus personagens, em que a fuga e a permanência terminam por ser a mesma coisa, em que o mundo, as ações, pouco importam (embora importem). É uma história que veremos a salvação, o fim e o início, coisas que acontecerão muito ao longo de todos os contos…

A obra é multitemática e, assim como vemos em vários obras de Inio Asano (sendo Solanin o mais representativo), em What a Wonderful World teremos o foco principal em pessoas jovens, especialmente (mas não necessariamente) os adultos recém saídos da faculdade, que estão começando a ter uma vida própria, experimentando os dilemas dessa fase, com o velho embate entre sonho e realidade que eles são postos o tempo todo. Em várias histórias veremos pessoas se debruçando sobre seguir o sonho ou ser um membro comum da sociedade, sobre serem cobrados e criticados, dentre diversas outras coisas.

Esse é o tema principal, por exemplo, de “A Fuga” e de “Wandervogel” em que vemos as inseguranças das escolhas dos protagonistas. Em “A Fuga” teremos o modo como uma moça que se sentiu pressionada por determinadas situações agiu perante os acontecimentos, tendo diversos medos e dúvidas sobre suas decisões e o que fazer para o futuro. Embora a angústia e o drama da escolha estejam presentes em todo o conto, a esperança é mostrada como algo que existe e que, talvez, valha a pena arriscar, mesmo que seja num impulso, mesmo que seja uma fuga, uma nova fuga.

“Wandervogel”, por sua vez, é quase uma antítese disso. Enquanto em “A Fuga” a protagonista, como o nome do título diz, foge de situações de maneira abrupta, em “Wandervogel” veremos as consequências de uma escolha deliberada, seguindo um homem meio-que arrependido das próprias escolhas, de ter querido uma vida normal, em vez de seguir o sonho por ele desejado.

A contraposição dessas duas história, entretanto, ressalta que não existe um certo ou um errado no jeito de se tomar decisões, mostrando que a vida é uma grande interrogação e que as consequências de se fazer uma opção e não outra são várias e, muitas vezes, totalmente fora do nosso controle. O sonho pode não ser exatamente o que se quer e talvez a realidade é que seja boa ou o contrário e tá tudo bem com isso.

Por mais que a obra nos apresente personagens que passem por situações difíceis, o autor nos mostra nesses dois contos (e em outros como “Mini-grammer e “Xarope”) que isso é uma fase normal, visto que é inevitável que as pessoas se questionem sobre as próprias decisões, sobre ter tomado a atitude certa, e isso vale o tempo todo, para todas as pessoas, de todas as idades…

Ou seja, o autor nos diz que os humanos possuem inseguranças e que elas acontecerão muitas e muitas vezes ao longo dos anos, seja por pressão da sociedade (quanto você ganha?) seja de si próprio.

A sociedade é, sim, um fator preponderante para a vida de todas as pessoas e Inio Asano não ignora nunca esse fato em suas histórias, mostrando que toda a nossa noção de mundo está embasada pelas pessoas em nossa volta.

No conto “Sunday People”, por exemplo, veremos um mangaká que decide não ir a uma reunião da turma por se achar um fracasso, por não ter tido sucesso profissional e nem pessoal. Nesse prisma, a sociedade é quem decide o que é sucesso e o que é fracasso e muitas vezes essas definições se encontram armazenadas nas cabeças das pessoas, dando lugar a formas negativas.

Inio Asano, porém, busca questionar esse padrão o tempo todo, seja por meio de frases, seja por ações dos personagens. Nesse pequeno conto em específico, o autor deixa claro que o suposto fracasso é apenas um estado de espírito e que se pode lutar contra ele, afinal o protagonista tem um trabalho e tem uma filha. Ele pode não ter tido o que a sociedade considera um “sucesso”, mas ele está lutando por si mesmo e para os outros (sua filha e sua ex-esposa).

Inio Asano não é um coach, porém. Ele busca entender a sociedade, as pessoas, e sabe que problemas existem, medos existem e coisas podem acontecer o tempo todo. A vida é assim, mutável, insana, imprevisível. E uma das maneiras que Asano transmite isso na obra é falando da questão da efemeridade das coisas.

Em um conto chamado “Sem Título”, por exemplo, é discutido justamente a questão de a felicidade não ser eterna, de que algum dia ela acaba, e de haver necessidade de alguma espécie de problema para as coisas “permanecerem” bem. É um belo jeito de dizer que a única maneira de se saber o que é a alegria, o que é a felicidade, é sabendo o que são as coisas ruins.

Não é nesse único conto em que o autor fala disso. Ele revisa esse tópico em diversos momentos da obra e em “Castelo de Areia” é onde o tema é tocado de forma mais enfática. Nessa história, o autor deixa muito evidente que o presente, o passado e, mesmo o futuro, são coisas passageiras e que terminam de um jeito ou de outro. Esse conto fala justamente das mudanças ocorridas ao longo do tempo e a inevitabilidade do futuro, como sendo não necessariamente algo bom. Na história, vemos uma morte evitável, mas que não foi evitada, e uma amizade que poderia ser duradoura, mas que não foi. Temos personagens descontentes com sua vida atual, outros com o passado, tudo isso para evidenciar a passagem inexorável do tempo, com todos os seus problemas, com todas as decisões que precisam ser tomadas.

O próprio título do conto é autorepresentativo da argumentação desenvolvida nele. Um castelo de areia é algo divertido que as crianças fazem, quando não têm preocupações, mas igualmente é algo efêmero, é algo que passa, que não se tem segurança de uma eternidade. Muito pelo contrário, basta um pequeno sopro que ele se desfaz, não resistindo à passagem do tempo, tal qual a amizade, tal qual a vida, tal qual um parque que se transforma em um prédio.

Ainda nesse ínterim, o conto “Boa Noite” também deve ser citado. Ele apresenta uma história difícil de compreender a contento (o que ele quer passar?), mas igualmente fala da passagem do tempo, só que de uma forma diferente, salientando a determinação de se manter a vida atual e de como as coisas acontecem à nossa volta. A obra mostra que muito embora queiramos viver de um jeito, as coisas tendem a ser diferentes e estranhas, como o protagonista querendo ser bastante presente na vida da família, mas precisando trabalhar muito para a manter, o que coloca em xeque a própria experiência com a própria família.

Ainda nesse tema é inevitável citar “Época das Cerejeiras”, uma das últimas histórias da obra. Nela existe uma doença que faz as pessoas pararem de pensar, virando quase zumbis, e acompanhamos um casal (que já vimos em contos anteriores) se deparando com essa enfermidade. Aqui a questão é colocada de uma forma bem gritante, com mais uma grande afirmação do quão efêmero é o agora, do quão pouco pode durar a felicidade. Embora isso já tenha sido retratado várias vezes ao longo da obra, existe uma diferença em relação a outras histórias, pois a felicidade dos dois já nos foi apresentada e agora vemos eles em uma situação um pouco tensa, exemplificando-nos que a vida é assim mesma. Embora não existam mágicas e milagres, o conto não nos apresenta frustração e nos diz que devemos continuar a seguir conforme a corrente, para que a vida continue a acontecer.

No todo, o mangá nos diz que sucesso e fracasso, medos e esperanças para o futuro, arrependimentos ou não, tudo é a mesma face de algo maior, de algo mais grandioso chamado “vida”. E What a Wonderful World é exatamente um mangá sobre isso, um mangá sobre viver, um mangá para vermos o mundo em um mundo específico, um mangá para descobrirmos que tanto aquele, quanto o nosso, é um mundo maravilhoso, de um jeito ou de outro…

Há problemas? Há. Existem inseguranças? Diversas. Muitos medos? Muitos. Mas ainda assim podemos viver, podemos apreciar a vida, momento a momento. E é nesse sentido que, para terminar, citamos um das falas de um dos personagens e que achamos ser a síntese da obra:

A questão não é em que mundo a gente vive, mas como viver nele“.

***

Poderíamos continuar falando por muito mais tempo sobre os contos presentes na obra, poderíamos revisitar cada um deles e, ainda assim, dificilmente conseguiríamos dizer tudo o que precisávamos dizer sobre o mangá.

Sim, pois, embora cada conto tenha um tema específico, você consegue perceber facilmente (por meio de uma frase aqui e outra ali) que tudo vai convergindo para temas em comum por todas as histórias, e nada é tão simples quanto parece, havendo diversas possibilidades de interpretação.

Aqui exploramos apenas uma delas e cremos que tudo o que dissemos é suficiente para mostrar o quão bom é essa obra de Inio Asano. What a Wonderful World, então, é uma excelente mangá e que o Blog BBM recomenda a todos.

Ficha Técnica

Título Original: 素晴らしい世界
TítuloWhat a Wonderful World
Autor:  Inio Asano
Tradutor: Caio Pacheco
Editora: JBC
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 13,2 x 20 cm
Miolo: Papel polén
Acabamento: Capa cartonada em soft touch com verniz localizado
Classificação indicativa: 18 anos
Preço: R$ 59,90
Onde comprar: Amazon / Americanas / Comix

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