
Mais uma coletânea de Junji Ito
O mercado brasileiro de mangás descobriu “tarde” a figura icônica de Junji Ito, daí que, quando suas obras começaram a sair em profusão por aqui, houve quem dissesse que o mercado estava saturando. Mais alguns chegaram a brincar dizendo que estavam inventando obras para poder publicar^^.
A grande verdade, porém, é que por mais que as obras do Ito tenham saído muito, especialmente em 2023, basicamente todas as suas obras são curtas, de apenas um volume, ou, quando muito, três (e aqui no Brasil quase sempre compilado em um único tomo, com exceção de Tomie).
Daí que, por mais que a Pipoca & Nanquim, por exemplo, tenha publicado a chamada Coleção de Obras-Primas do autor, cada volume é unitário e na soma total não chega a dar tantos livros quanto as pessoas acham que são. De mais de 500 volumes de quadrinhos japoneses publicados em 2023 no Brasil menos de 20 foram de obras de Junji Ito (contando todas as editoras).
Mas – e agora indo para outro ponto – como cada volume é único, todos valem a pena? Podemos escolher qualquer um para ler e começar a apreciar o autor? Essa é uma questão importante e a resposta curta seria um “sim”, mas a resposta longa (e mais verdadeira) seria um “depende”, pois há contos e contos, obras e obras e alguns reúnem muito mais contos interessantes do que outros.
Hoje, para ajudar um pouco mais no seu processo de escolha, iremos falar de O Beco uma coletânea de obras curtas lançadas por Junji Ito no início de sua carreira e que chegou ao Brasil em agosto de 2023 pela editora Pipoca & Nanquim.



Essa é uma coletânea de 11 contos pré-publicados na revista Gekkan Halloween, entre 1991 e 1993, ainda no início da carreira de Junji Ito. Diferente da maioria dos contos de Morada do Desertor (1987-1990), aqui já vemos um autor um pouco mais maduro, com ideias e modelos mais bem apresentados e com histórias mais elaboradas em grande parte.
O conto que dá nome ao volume, “O Beco”, é uma história sobre a maldade humana e o sobrenatural e o modo como eles se interligam. É uma daquelas história de horror que podem dar uma impressão inicial pelo tema abordado, mas que quando chegamos ao ponto chave vemos que o medo mesmo se encontra nos seres vivos e não nos mortos. Esse é o primeiro conto da coletânea e já vem de pronto colocando os dois pés na porta, com uma história com uma mensagem perfeita.

O tema sobrenatural de “O Beco” pode ser definido como “história de fantasma” e temos outras ao longo do volume, como “Permissão” e, em certo sentido, “Queda”. “Permissão” é uma história de fantasma bem típica, daquelas que a gente consegue adivinhar o fato desde o primeiro momento, mas fica acompanhando para ver como tudo se desenvolverá. E, assim como em “O Beco”, novamente a maldade do ser humano entra em voga, ainda que de uma maneira diferente. É outro conto sensacional em seu desenvolvimento, mostrando as consequências de nossas ações, independente de quem seja.
“Queda” não é exatamente uma história de fantasma, mas trisca esse tema por correlação. Na história, muita gente se suicida com medo de um grande mal que cairia sobre a cidade. Algumas pessoas que não conseguiram se matar, terminaram por sumir. Uma personagem parece possuída, outras caem do céu (daí o título), etc, etc, etc. É uma história de mistério sobrenatural do começo ao fim. Se em outros contos a história começa normal e só depois vemos a questão do horror se manifestar, aqui vemos desde os primeiros quadros. Diferente de “O Beco” e “Permissão” aqui não se sabe o como e o porquê as coisas aconteceram, mas não é um demérito da história, é uma característica do tipo de horror empregado nela.
“Fumódromo”, por sua vez, também não fala de fantasmas, mas entra em um categoria próxima, por inserir uma relação de um produto com o mundo do além. Basicamente é a história de pessoas que fumam tabaco cultivado em um terreno adubado por cinzas de pessoas. Daí tem toda uma atmosfera envolvendo isso. Essa não é uma história tão elaborada como outras, ficando na esfera do mediano, talvez até do dispensável.

Mudando um pouco o espectro de sobrenatural, “Modelo Fotográfica” é uma história muito imersiva, apresentando um sujeito que vive tendo pressentimentos ruins e eles se concretizam. No caso, um dia, após um desses pressentimentos, ele vê a foto de uma modelo horrenda e fica assustado com aquilo, passando a pensar muito naquela figura.
O mangá se desenvolve em torno dessa personagem assustadora e ela causa um temor por sua aparência. O conto gradualmente vai aumentando a atmosfera aterrorizante em torno dela, até chegar ao seu desfecho. É uma história muito boa e pode dar medo de verdade nos leitores (especialmente aqueles que tem algum grau de ansiedade). Vale dizer que a “modelo” é uma personagem recorrente em mangás de Junji Ito e, salvo engano, esta é sua primeira aparição.
“Quarto coletivo” e “Hospedaria” são dois contos da coletânea que possuem como tema um mistério sobrenatural difuso. Ambas começam de um jeito semelhante, com alguma situação bastante normal, até percebermos personagens estranhos e isso escalonar em proporções. São dois contos bem divertidos e com uma boa dose de suspense. A gente poderia colocar esse na categoria de “fantasmas”, mas as aparições que ocorrem neles não dá para categorizar dessa forma.
“Caminhão de Sorvete” segue essa mesma linha de começar como algo normal e aí aparecer uma bizarrice sobrenatural, mas é um conto menor, com menos graça e um desenvolvimento mais pueril. É o que eu menos gostei nessa coletânea e que definitivamente é dispensável.

O sobrenatural (em suas diferentes formas) faz parte do horror, mas o gênero pode sobreviver sem ele, por meio da extrapolação bizarra da realidade. É o que ocorre no conto “Mofo”. Esse conto possui uma história muito bem elaborada sobre uma casa que foi aos poucos ficando impregnado por algum tipo de mofo inédito, mofo esse capaz de impregnar até as pessoas. Esse é um conto que não tem elementos tão assustadores e nem detalhes gráficos que perturbam, então é um tipo de conto perfeito para quem não gosta de obras de horror dar uma chance ao gênero.
“Cidade sem Ruas” também faz parte dessa extrapolação da realidade, mas é um conto meio desconjuntado e grande em comparação aos outros. Tem duas histórias neles interligadas, envolvendo uma mesma personagem e tendo como tema a questão da privacidade. Assim como em outras histórias de Junji Ito, pessoas passam a agir estranho do nada, tudo isso deturpando, de uma forma de outra, a privacidade de outras pessoas.
Embora quase não tenha a questão do oculto, do sobrenatural, coisas estranhas acontecem, personagens estranhos aparecem, etc, etc, etc. A leitura desse conto é realmente divertida, mas quando a gente vai pensando sobre ele, a gente encontra problemas evidentes. A mensagem é passada direito (a privacidade é importante, sem ela as pessoas podem enlouquecer), mas talvez o desenvolvimento pudesse ser um pouco melhor.
Para terminar e ainda nesse tópico de extrapolação da realidade, “Lembranças” é um conto perfeito para mostrar que o horror pode viver muito bem sem o sobrenatural. Neste conto, uma moça é obcecada pela beleza e tendo esquecido uma parte de seu passado acha que ficará feia em algum momento. Ao mesmo tempo, parece que seus pais estão escondendo algo dela…
É um conto maravilhoso que lembra que o principal problema do ser humano é o próprio humano, neste caso em específico, a sua vaidade. Coisas horríveis acontecem (coisas que podem acontecer na casa de qualquer pessoa) e tudo isso acaba sendo – para a protagonista – algo menor em prol do seu belo rosto.
A crítica à obsessão pela beleza é algo corriqueiro nos contos de horror de Junji Ito. Antes de “Lembranças” ele já havia feito isso, por exemplo, em “Vida Curta” (de As Esculturas sem Cabeça) e faria novamente em “O Monstro cor de Carne” (de O Encanamento que Geme). É um tema que ele vai colocando de formas distintas, mas sempre muito bem apresentadas..

No todo, O Beco é uma coletânea que eu acho muito boa e cerca de 75% de seus contos eu considerei excelentes e bem feitos. Então se você precisa de um mangá para iniciar em Junji Ito, uma das boas coletâneas para você comprar é justamente essa obra. Existem melhores? Existem, mas essa não é de se jogar fora.
Essa resenha foi feita graças a um exemplar cedido a nós pela editora Pipoca & Nanquim, a quem agradecemos a parceria. As opiniões a respeito das histórias independem disso.
Ficha Técnica
Título Original: 路地裏
Título: O Beco
Autor: Junji Ito
Tradutor: Drik Sada
Editora: Pipoca & Nanquim
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 15 x 22 cm
Miolo: Papel pólen bold 90g
Acabamento: Capa cartão com sobrecapa
Páginas: 380
Classificação indicativa: não informado
Preço: R$ 86,90
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Uma antologia de 11 tenebrosos contos originais do mestre do horror Junji Ito, diretamente da coleção de obras-primas do autor! O jovem Ishida se muda para uma simples pensão localizada em um beco da periferia. Uchiyama, a dona da pensão, e sua filha de 14 anos, Shinobu, o recebem bem e o tratam com muita gentileza. Parecia ser o lugar ideal para um estudante como ele poder se estabelecer… mas isso só até a primeira noite chegar. Uma barulheira de crianças brincando no beco no meio da madrugada lhe tira o sono, mas, quando ele sai para ver, não tem ninguém. Na noite seguinte, vinda do lado de fora da parede de seu quarto, uma voz macabra chama insistentemente por Shinobu… Ele não sabe, mas esse lugar guarda um segredo macabro que coloca sua vida em risco. Este é o enredo de O Beco, conto que abre esta antologia e dá a ela seu título. A partir daí, segue-se uma intensa sequência de histórias focadas na temática da morte e do sobrenatural, que provam, mais uma vez, a potência narrativa de Junji Ito e por que ele é a maior mente criativa dos quadrinhos de terror da atualidade. Mulheres que dividem um leito de hospital e desenvolvem uma mente coletiva; moradores de uma cidade que caem mortos do céu; uma filha que espera por décadas a permissão do pai para se casar; um sorveteiro que mexe com a cabeça das crianças… Esses e os demais contos da edição foram originalmente publicados de 1991 a 1993 na revista de terror Halloween, da editora japonesa Asahi Sonorama (atual Asahi Shimbun).
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