Resenha: “Cidade das Lápides”

Muito bom e muito ruim????

Seguindo com as coletâneas de obras de Junji Ito, hoje apresentamos a vocês o mangá Cidades das Lápides. Ele é o nono volume da coleção de obras primas do autor e seus contos foram pré-publicadas originalmente nas revistas Gekkan Halloween e Nemuki, da editora Asahi Sonorama, entre os anos de 1994 e 1997.

É, portanto, uma obra já bem posterior ao seu início de carreira, mas (até onde pesquisamos) ainda anterior à sua aventura pelas revistas seinens de outra empresa japonesa (onde ele faria Uzumaki e Gyo, por exemplo). Aqui, portanto, já esperamos muito do autor e desejamos ler suas mais fabulosas histórias.

Mas será que Cidades das Lápides é uma de suas boas coletâneas mesmo? Ou nossas expectativas foram frustradas? Bem falaremos dos contos a seguir…

Cidade das Lápides possui 11 contos no total, dos quais dois deles eu já conhecia de Dismorfos. Então algumas das histórias eu já sabia serem excelentes, bastava ver as demais para saber o total nível da coletânea. E ao lê-las, a minha percepção é aqui tem muito das coisas boas do Junji Ito, seus temas comuns, e tem também muito de suas falhas… Mas vamos por partes, falando dos contos um a um.

Para começar, os contos que eu já conhecia eram “Cidade das Lápides”, que dá título ao mangá e é o primeiro conto da coletânea, e “A Garota Lesma”, o terceiro conto.

“Cidades das Lápides” apresenta uma determinada cidade na qual, quando uma pessoa morre, uma lápide surge justamente no local em que ela morreu. Daí que, por exemplo, quando alguém está para morrer no hospital eles logo correm para tirá-la de dentro, para uma lápide não surgir ali. Na história duas pessoas vão a essa cidade e um certo incidente acontece, gerando uma série de consequências… É um conto muito engenhoso com contornos de sobrenatural, suspense, etc. É uma história longa (umas 60 páginas) e muito bem maquinada, uma das que eu mais gostei do autor.

“A Garota Lesma”, por sua vez, é um dos contos mais perturbadores de Junji Ito (e “perturbador” é uma palavra que define alguns dos contos dessa coletânea) ainda que simples. A obra mostra uma moça que tem um terrível medo de lesmas e que acaba tendo a sua língua transformada em uma. É um conto desesperador e que mexe com os medos do próprio leitor, de ver a coisa que mais abomina acontecer do nada na sua frente. Essa é uma história bastante simples, sem nada de mais, mas que mesmo assim pega bastante…

Falando dos contos que eu não tinha lido ainda, e continuando na pegada dos contos perturbadores, “A Janela Vizinha” é um deles. Na obra uma família se muda para uma casa nova, comprada muito barato, e o filho da família vê na janela da casa ao lado uma moça horrenda, que não parecia desse mundo, e que quer se encontrar com ele. A obra utiliza-se do medo das figuras fantasmagóricas, com aparência deturpada, bem típicas dos contos de Junji Ito, causando um tremendo medo no personagem. O final é meio abrupto, mas a história foi bem contada. Não chega a ser um dos melhores contos do autor, mas é aproveitável.

Seguindo nessa questão dos contos perturbadores, “Antepassados” é mais um deles. Na obra, uma moça perde a memória por algum motivo e começa a ter sensações estranhas, chegando até a ter alucinações com uma centopeia gigante. A obra progride e descobrimos um acontecimento surreal, do qual a garota foi submetida sem o menor consentimento. O conto é perturbador, pois mostra um pouco de sobrenatural, mas igualmente revela (como em outros contos do autor) que o problema real é o ser humano, sua maldade, que faz qualquer coisa em benefício próprio. Ele realmente perturba as nossas emoções, mas é muito bom.

Nem todas as histórias são boas. “Casa dos Camaradas”, o segundo conto da coletânea, é um dos mais vazios possíveis do autor. É apenas uma história de fantasmas comuns sobre um grupo estudantil que se dividiu em dois e passou a viver em pé de guerra, mesmo após a morte. É uma história boba e com um desfecho pior do que tudo. A gente pode até forçar uma interpretação de um dos temas recorrentes do autor (o humano é mais perigoso), mas não acho que cabe aqui e mesmo se coubesse, a história não teria se mostrado boa de qualquer forma.

“Encalhe” é uma outra pegada, mas igualmente ruim. Aqui nós temos uma criação de mundo excepcional, só que com um desfecho que decepciona. Na obra uma criatura estranha, já morta, encalha na praia. Muitos curiosos vão lá para ver, alguns deles porque se sentiram atraídos por aquilo, mesmo não gostando de mar. Coisas acontecem, até que uma coisa inacreditável aparece e o conto termina do nada, deixando as coisas meio bobas… É um conto que poderia dar uma excelente história maior, com vários desdobramentos, mas por ser um conto curto, acaba ficando com uma sensação de que não valeu a pena ter lido. De modo geral, um final de uma obra não faz ela ficar ruim, mas existem exceções como essa…

“Um Longo Sonho” é uma mistura das duas coisas mais comuns nos contos desse encadernado, é perturbador, mas com um final fraco. A obra se passa num hospital em que um paciente alega que seus sonhos duram muito tempo, com ele vivenciando como se fosse a vida real, e o tempo dos sonhos vai aumentando, dias, meses, anos, décadas, centenas ou milhares de anos, etc.

É aterrorizante, pois a gente se incorpora no medo do personagem de passar eras e mais eras em uma realidade estranha e pensa o quão terrível não deve ser aquilo. O conto vai indo e termina de uma maneira bem abrupta e infantil. Se a gente for bonzinho, a gente consegue ver uma mensagem clara: por mais assustador que seja uma coisa, não existe nada mais assustador que o ser humano, que, como já dissemos, é uma mensagem muito comum em Junji Ito. E, assim, é uma excelente mensagem de verdade, eu adorei isso, mas ainda assim o modo como foi conduzido o final foi bem juvenil e fez o conto perder um pouco da sua maestria.

“O Estranho Conto do Túnel” é uma história de fantasma das boas, com um começo meio e fim bem definido, tendo uma trama para lá de interessante. A obra se passa numa cidade do interior onde existe um certo túnel amaldiçoado em que as pessoas acabam sendo atraídas para lá e morrem ou desaparecem. A história é contada por um rapaz e a relação dele com o túnel. É uma daquelas histórias de entretenimento, bem redondinha e que não precisa ter uma mensagem. É um conto bem legal realmente para passar o tempo (claro, para quem gosta de obras de horror).

Nem tudo precisa ter uma mensagem, mas “Estátua de Bronze” tem. Essa é mais uma história envolvendo diversos temas caros a Junji Ito, enfocando a maldade do ser humano, a obsessão pela beleza que pode causar a morte (ou algo pior que a morte), dentre diversas outras coisas. Esse conto é uma daquelas história de horror em que não existe nenhum pingo de medo, nem dos personagens, nem do leitor, e é mais focado em mostrar as maldades do ser humano. É uma história excelente nesse sentido, pois vemos quem é mal sendo mal e as consequência disso tudo…

“Papilhos”, por sua vez, é sobre pensamentos obscuros e o que aconteceria se tais pensamentos fossem expostos às pessoas. Na obra, começam a aparecer umas coisas esquisitas que imitam uma frase com a voz de uma pessoa. Tal frase é advinda da mente da pessoa com a voz imitada, daí que todos logo observam que são os pensamentos reprimidos de alguém. No conto vemos a proliferação disso no Japão e os desdobramentos de se ter os pensamentos expostos. O conto tem certas mensagens perceptíveis como a obsessão pela vida alheia, os desejos escondidos, e o fato de que as atitudes humanas são mais perigosas do que tudo, entretanto não é um conto muito bom, falhando em nos fazer entender os personagens e, novamente, no final, que é bem sem graça.

Por fim, o último conto do mangá é “Conto Sanguinário da Vila Shirosuna” e ele é meio qualquer coisa. Um médico se muda para uma vila onde todos parecem anêmicos e a história é sobre o mistério envolvendo essa vila. Não tem mensagem, não tem horror, só tem um algo acontecendo sem explicação e um algo meio tedioso…

Embora muita gente não perceba, vários contos de horror de Junji Ito possuem mensagens interessantes sobre as pessoas e sobre o mundo. Não por outra razão, o autor utiliza-se de temas comuns em várias obras como a questão da beleza acima de tudo, o fato de os seres humanos serem o que dá mais medo, dentre outras coisas.

Em Cidades das Lápides a maioria dos contos são muito bem feitos, com histórias sensacionais e que podem facilmente se tornar a narrativa favorita de muita gente, tanto por ter essas mensagens, quanto por serem bem desenvolvidas. Outros contos, porém, acabam destoando muito, seja com o final, seja com a história toda (mesmo tendo uma mensagem ali).

Assim, a minha opinião sobre essa obra é dual. De um lado, o mangá possui histórias que eu gostei muito de ler, talvez até mais do que em outros mangás do autor. Por outro lado, as que eu não gostei, eu não gostei mais do que as dos outros mangás. Claro, existem alguns que foram meio a meio, mas no geral esse mangá apresentou picos muito positivos e picos muito negativos, altos e baixos.

Eu diria que é um bom mangá, mas eu não consigo chegar aqui e recomendar para todo mundo. Eu acho que primeiro você teria que ler um ou dois bons mangás do autor para então chegar nessa obra. Isso porque já conhecendo o autor você consegue assimilar mais os contos ótimos e não ligar tanto para os contos ruins…

Essa resenha foi feita graças a um exemplar cedido a nós pela editora Pipoca & Nanquim, a quem agradecemos a parceria. As opiniões a respeito das histórias independem disso. 


Ficha Técnica


Título Original: 墓標の町
Título: Cidade das Lápides
Autor
: Junji Ito
Tradutor: Drik Sada
Editora: Pipoca & Nanquim
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 15 x 22 cm
Miolo: Papel pólen bold 90g
Acabamento: Capa cartão com sobrecapa
Páginas: 420
Classificação indicativa: não informado
Preço: R$ 86,90
Onde comprar: Amazon

SinopseA Cidade das Lápides é a mais nova compilação de onze dos melhores contos do início da carreira do mestre dos mangás de horror! Lançados originalmente entre 1994 e 1997 nas clássicas revistas Halloween e Nemuki, da editora japonesa Asahi Sonorama (atual Asahi Shimbun), eles agora integram a coleção de obras-primas do nosso querido mangaká! Na história que dá título a esta antologia, conhecemos uma cidade macabra com uma paisagem pra lá de inusitada: incontáveis lápides espalhadas por todos os lados, inclusive em lugares improváveis! No meio das ruas, nos parques públicos e até mesmo dentro das casas… e o mais intrigante é que os moradores não permitem que elas sejam removidas. O que o destino guarda para uma jovem e seu irmão, que vão parar nesta cidade dos mortos após um acidente de trânsito? Entre os demais contos, vemos uma garota que para de falar quando sua língua se transforma em lesma; um jovem atormentado por uma vizinha asquerosa pela única janela de sua casa; um túnel que atrai as pessoas para o suicídio; um escultor que molda estátuas com cera cadavérica; uma vila acometida por uma doença que faz seus habitantes sangrarem pela pele… É a criatividade tão repulsiva quanto fascinante de Junji Ito em seu auge!


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