
Veja como está o mangá
Mangá Aberto é uma coluna de resenhas em que mostramos a edição física de um mangá, geralmente um lançamento. Nela apresentamos fotos dos mangás, acrescentando alguns detalhes e opiniões.
A postagem de hoje será sobre a edição brasileira de Declínio de um Homem, mangá publicado no Brasil pela editora JBC no fim de 2023.
PEQUENAS INFORMAÇÕES SOBRE A OBRA
Declínio de um Homem é um mangá de autoria de Junji Ito e foi publicado no Japão entre maio de 2017 e abril de 2018 na revista Big Comic Original, da editora Shogakukan, tendo seus capítulos compilados em 3 volumes no total. A obra é uma adaptação do livro de mesmo nome de Osamu Dazai.
No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora JBC no dia 16 de julho de 2023, durante um painel da editora na CCXP. A primeira informação passada pela empresa é que o mangá sairia apenas em 2024, mas a JBC o adiantou e ele começou a sair no finalzinho de novembro durante a CCXP, chegando nas lojas no final de dezembro. A edição brasileira compila os três volumes originais em apenas um.
FORMATO DA EDIÇÃO BRASILEIRA
A edição brasileira veio no formato 15 x 21 cm, com miolo em papel pólen bold 90g e capa dura com sobrecapa. São 616 páginas ao todo, todas em preto e branco.


Embora o tamanho divulgado seja o 15 x 21 cm, o tamanho difere em razão da capa dura. Assim ele é maior do que mangás em capa cartão nesse mesmo tamanho (Evangelion e outros mangás na foto acima), ficando igual a outros mangás de capa dura como Cavaleiros do Zodíaco Kanzenban e Dragon Ball Edição Definitiva.
SOBRECAPA
A sobrecapa da edição brasileira segue parte da ilustração do terceiro volume da edição japonesa, formando um design único. É uma ilustração bem feinha (e, por conseguindo, a capa não fica das melhores), mas ela condiz com o clima que a obra quer passar e com as mensagens do mangá, especialmente da parte final da obra.
Ou seja, embora a editora pudesse optar por uma outra ilustração e fazer uma capa mais bonita, em minha opinião essa é uma escolha que faz bastante sentido pensando na obra como um todo, pois é esse medo e desespero presente na capa que descreve bem o mangá.


Capa do terceiro volume japonês
A parte de trás da sobrecapa possui uma outra ilustração, juntamente com a sinopse, o logo da editora e o código de barras. Acho que a composição ficou boa e bem bonita.
Vale destacar que acima do código de barras há um aviso de conteúdo, indicando que a obra possui temas sensíveis.


A lombada da sobrecapa segue o fundo disforme da parte da frente, contendo a presença do título do mangá e nome dos autores, além do logo da editora.

Em termos de acabamento, a sobrecapa é de um bom material, parecendo ser semelhante à maioria das sobrecapas do Brasil.
Para além disso, ela possui verniz localizado. Na parte da frente, o verniz localizado fica nas plantas, no título do mangá e no logo da editora. Na lombada, o verniz está em todas as inscrições. Na parte de trás, ele se encontra na ilustração do personagem e no logo da editora. Não há verniz nas orelhas da sobrecapa.

A sobrecapa de Declínio de um Homem possui um diferencial, ela tem uma ilustração atrás, retratando um dos poucos momentos de felicidade do protagonista. É uma ilustração em preto e branco, mas é bem bonita e você pode usar como pôster se não gostar de sobrecapa^^.

CAPA
Abaixo da sobrecapa temos a capa. Assim como a ilustração da sobrecapa, a imagem utilizada na capa (tanto na parte da frente, quanto na de trás) não é lá bonita, mas representa um dos momentos aflitivos da obra, com o protagonista envolto por diversos rostos.


A lombada da capa dura é verde com alguns detalhes. Não há verniz localizado, mas o logo da editora e as letras possuem um detalhe que a gente sente ao passar o dedo. Não sei se é alto-relevo, mas é alguma coisa assim.

CAPAS INTERNAS, PRIMEIRAS E ÚLTIMAS PÁGINAS
As guardas (as capas internas de um volume em capa dura) possuem a mesma ilustração, referente a uma determinada passagem do mangá. Não é uma imagem bonita, mas também não é feia.









PAPEL DO MIOLO
O papel utilizado no miolo do mangá é o Pólen Bold 90g. É o mesmo papel (e a mesma gramatura) usado em Soul Eater Perfect Edition, Dead Dead Demon’s Dededede Destruction, e nos mangás da editora Pipoca & Nanquim.
Ele é um dos melhores papeis para mangás e não à toa é usado por quase todas as editoras em seus títulos com acabamento de luxo. É um papel de cor creme e que dá um bom aspecto à impressão. Só há elogios a ele.




ACABAMENTO GERAL
O mangá possui uma boa sobrecapa, uma excelente capa dura e no miolo é usado um ótimo papel. Tudo isso já foi dito, mas é preciso informar também que o mangá é colado e costurado, possuindo uma excelente encadernação, o que faz com que seja possível abrir e folhear o mangá de uma maneira muito melhor.
Em resumo, o acabamento do mangá é de primeira linha, sendo tudo o que uma publicação de luxo merece. Certamente é o melhor trabalho da editora JBC nesse quesito.

DETALHES EDITORIAIS
A tradução do mangá foi feita por Lucas Cabral. Não conhecemos o tradutor, mas o trabalho de adaptação da JBC foi muito bom, como costumam ser as obras da editora. Ela segue o mesmo estilo da maioria das obras da empresa, com o máximo possível de localização, mas sem deixar de lado os elementos importantes que não são necessário adaptar para a nossa língua, bastando uma nota de rodapé explicativa.
Aliás, um dos pontos de mais destaque da editora JBC é colocar diversas notas de rodapé (inclusive para coisas que não tem necessidade O_o), o que garante uma maior capacidade de inteligibilidade por parte dos leitores. Afinal, há coisas muito culturais ou específicas que muitos leitores podem não saber, assim essas notas acabam sendo de grande ajuda, trazendo realmente um melhor entendimento da obra. É algo para se elogiar na editora, mas nem sempre se acerta tudo…
Um das notas que a editora colocou em Declínio de um Homem diz respeito ao valor de conversão da moeda. Em dois momentos, citam-se no mangá “5 Ienes” e a editora coloca uma nota informando que esse valor é referente a 0,17 centavos de real na cotação atual. Isso está “ok”, é algo que várias editoras fazem para dar uma noção dos valores, mas tem que se ver o contexto.


O mangá se passa antes da Segunda Guerra Mundial, de maneira que o Iene valia muito mais do que vale hoje. Assim falar sobre 5 ienes na década de 1930 não é o mesmo que falar em 5 ienes em 2024.
Dá para saber isso pelo próprio mangá que em outra ocasião chega a mencionar o Sen (a antiga unidade de centavos do Iene e que não se usa mais) e mostra que o Iene tem um poder de compra maior (menos de cinco ienes dá para compras duas caixas de remédio para dormir). Assim a nota falando da conversão de 0,17 centavos não deveria ter sido colocada, pois ela não reflete uma realidade para a época em que se passa o mangá.

Isso acaba sendo um problema, na verdade, em todas as obras, pois a conversão é sempre feita com base na cotação atual e não da época em que se passa a história. Não costuma haver muito problema com isso, pois simplesmente converter não faz com que você saiba se um determinado valor é realmente alto ou não no Japão, ele apenas serve para dar uma base ao leitor, ainda que incerta. O caso de Declínio de um Homem é diferente, pois se passa em uma época bem distante e os valores de conversão não dão essa base e oferecem uma visão equivocada dos valores apresentados.
Então, o trabalho da editora está excelente como dissemos mais acima. Não vi nenhum erro de revisão, nem frases truncadas, nem nada para se reclamar do texto do mangá. Logo, o trabalho da empresa foi muito bom nesse mangá e só pecou nesse detalhezinho. E é importante mencionar isso para que a editora pense (se ela vir esta resenha, claro) com mais cuidado em outras publicações que se passem em épocas antigas.
A HISTÓRIA E CONCLUSÃO
Durante o texto, a gente já deu umas pinceladas de que a obra é bastante dramática e depressiva. Quem já leu o livro original ou quem leu a sinopse do mangá, na verdade, já imaginava isso e, realmente, não há nenhuma enganação, a descrição de Declínio de um Homem faz jus à sua história.
Declínio de um Homem é uma obra bem pesada em diversos níveis e por diversas razões distintas e que fisgam o leitor desde o começo, embora sejam necessárias bastantes pausas para a gente conseguir relaxar e abstrair a trama.
O mangá já se inicia com um suicídio de um personagem (dois, na verdade) e, logo em seguida, começamos a ver a história de vida de um homem que não conseguia se encaixar na sociedade, se via de uma maneira diferente dos demais, e passava a atuar, fingindo estar bem, fingindo ser alguém comum, etc.
Nisso acompanhamos a infância, a adolescência e a vida adulta desde homem chamado Yozo Oba, mostrando as consequências de suas atitudes (que vão de suicídios a assassinatos) e toda a carga pesada que vai se abatendo sobre ele a cada coisa que acontece, com uma tristeza ou depressão mais e mais visível.
Embora existam momentos felizes na história (são bem poucos, mas existem), Declínio de um Homem é um mangá que vai nos chocando a cada capítulo e vai nos colocando para baixo tal qual o protagonista, daí a necessidade de dar uma parada na leitura para relaxar.
***
Em vários contos de Junji Ito, o autor deixa a mensagem de que o medo de verdade não deveria vir do sobrenatural, o medo deveria vir dos próprios seres humanos, pois eles são cruéis, são malvados e fazem todo o tipo de coisa. Declínio de um Homem é uma adaptação de um livro clássico, mas ele vem corroborar justamente essa ideia.
Grande parte do drama da obra vem do modo como a mente do protagonista da história vê as coisas ao seu redor, tornando tudo uma atmosfera de caos e medo, típicas das obras do Junji Ito, mas aqui causadas pelos humanos. Sim, pois, Yozo Oba é vítima de diversas maldades, assim como comete algumas, e todas elas terminam de um jeito ou de outro ocasionando sofrimentos a ele, sofrimentos muito aterrorizantes.
Assim, essa é uma obra que se a gente não soubesse se tratar de uma adaptação, veríamos como uma nova faceta de Junji Ito, pois o drama conversa muito com as obras do autor.
Aliás, é bem nítido que em diversas passagens do mangá Junji Ito utilizou-se de elementos de suas obras anteriores para compor determinados acontecimentos. A gente vê, por exemplo, a obsessão pela limpeza de “O Encanamento que Geme” e o medo da falta de privacidade de “Cidade sem Ruas” em dois espaços de tempo muito curtos. Isso é um toque do autor nessa adaptação, quase como um presente para seus fãs de longa data.
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A minha maior crítica ao modo de composição de Declínio de um Homem é um certo acontecimento que destoa do tom da obra. O mangá não é de terror e não trabalha com o sobrenatural propriamente dito. Existem pequenos flertes a isso, mas basicamente tudo é da ordem do imaginário e do psicológico, de maneira que a gente não vai ver fantasmas e seres estranhos “””de verdade””” na obra, apenas manifestações do pensamento. Mas aí tem uma pequena parte da história em que temos um vislumbre do “além”.
Eu não sei até que ponto esse “vislumbre” se coloca na história, mas o fato é que nem sequer há uma fala ou uma argumentação a respeito do que aconteceu. As pessoas expostas aquilo apenas aceitam o fato e não dizem mais nada. E isso não faz sentido. Com o tanto de medo e traumas que o protagonista traz consigo, esse vislumbre do sobrenatural deveria tê-lo afetado de alguma forma e, no entanto, isso não aconteceu (existe um certo clima ruim, mas é mais referente a outras coisas e não a essa “aparição”). Não sei se isso vem do original (não cheguei a ler o livro), mas parece uma inserção de Junji Ito.
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À exceção dessa parte (e um pouco do final) eu acho que esse é um mangá muito bom, um dos melhores do autor, e que além de nos fazer ficar angustiados, nos faz pensar e refletir sobre a vida, sobre como a sociedade nos molda, sobre como a ação de uma pessoa nos transforma (e como o nosso pensamento é afetado por isso), dentre diversas outras coisas.
Aliado a isso, a edição brasileira é muito boa, sendo de longe uma das melhores do mercado brasileiro de mangás, talvez a melhor. O único demérito é o preço, R$ 167,90, impeditivo para muita gente.
Infelizmente, essa é a realidade do país e para um produto de luxo e o preço acaba não sendo tão dispare quanto parece (Kimba, por exemplo, virá nos mesmos moldes, mas sem sobrecapa e com cerca de 100 páginas a menos, saindo a R$ 150,00). Assim eu indico esse mangá para todos que puderem e recomendo mais fortemente ainda ficar de olho nas promoções, pois para esse título, isso é essencial.
Ficha Técnica
Título Original: 人間失格
Título: Declínio de um Homem
Autor: Junji Ito
Tradutor: Lucas Cabral
Editora: JBC
Número de volumes no Japão: 3 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 15 x 21 cm
Miolo: Papel Pólen Bold 90g
Acabamento: Capa dura com sobrecapa
Páginas: 616
Classificação indicativa: 18 anos
Preço: R$ 167,90
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Nada pode superar o terror da psique humana. A minha vida tem sido de muita vergonha. Não consigo nem imaginar o que deve ser viver a vida de um ser humano atormentado por uma ansiedade enlouquecedora, pela terrível desconexão entre seu próprio conceito de felicidade e a alegria do resto do mundo, Yozo Oba faz o papel de palhaço em sua vida dissoluta, segurando uma máscara para aqueles ao seu redor enquanto ele espirala cada vez mais para baixo, trancado. de braços dados com a morte. A obra imortal – e supostamente autobiográfica – de literatura japonesa de Osamu Dazai é perfeitamente adaptada aqui em um mangá de Junji Ito. As imagens abrem o texto do romance, uma linha por vez, para sublimar a paisagem mental de Yozo em algo ainda mais delicado e grotesco. Este é o máximo da arte de Ito, a prova de que nada pode superar o terror da psique humana.
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Edição realmente de dar inveja, mas ainda acho que a melhor seja o Kanzenban de “Monster”. JBC podia ter caprichado assim com diário dos gatos e Black Paradox (mesmo que esse último ainda seja melhor que diário dos gatos)
Esse preço é de lascar, fora que eu não sou fã de mangás muito grossos. Como se baseia no meu livro favorito, adoraria comprar o mangá, mas só se estivesse dividido nesses três volumes.
Bela análise da obra!
Esse preço realmete é o que “quebra”. Estou ancioso para adquirir essa obra, mas por enquanto não dá :´)
A edição parece tá linda mesmo, mas 170 pila é complicado isso é quase o preço de dois da PN