
Um Junji Ito atual?
Zona Fantasma é uma das obras mais recentes de Junji Ito, tendo seus contos lançados entre 2020 e 2022 no Line Manga e no site AERA dot., da editora Asahi Shimbun. Eles foram compilados em dois volumes, um tendo saído no Japão em 2021 e outro em 2023.
No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora Pipoca & Nanquim no dia 1º de fevereiro de 2023 e foi lançado no final de novembro para a CCXP. A edição brasileira compila os dois volumes originais em apenas um e vem no mesmo acabamento da maioria dos mangás da editora, no tamanho 15 x 22 cm, com papel pólen bold 90g e capa cartonada com sobrecapa.
A qualidade dos mangás da Pipoca & Nanquim (tanto edição física, quanto de tradução e adaptação) todo mundo já sabe que é excelente, então o mais importante é saber sobre as histórias. Como é esse novo mangá do Junji Ito? As histórias serão excepcionais? Ou não são tão boas assim? É isso que iremos falar agora.






Zona Fantasma é mais uma coletânea de contos de Junji Ito e possui 8 no total, quatro publicados no volume #01 japonês e quatro no volume #02. Essa foi a primeira obra do autor publicada diretamente para a Internet e – em razão disso – os contos foram mais extensos, com todos possuindo entre 50 e 60 páginas mais ou menos. No posfácio, inclusive, Ito diz que tinha mais liberdade na publicação dessa obra, não tendo que se limitar a um número específico de páginas.
Ao contrário de outras coletâneas do autor, o título do mangá não representa o título de um conto da obra e sim uma espécie de temática que permearia as histórias, um sobrenatural que estaria de um modo ou de outro ligado ao limite entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, daí o “Zona Fantasma”.

O primeiro conto, “A Descida das Carpideiras”, narra a história de uma moça que, após visitar uma certa cidade com seu noivo, começa a chorar constantemente, como uma carpideira que ela tinha visto nesta cidade. Ela e o noivo decidem voltar àquele lugar e encontram uma dessas “zonas fantasmas”, uma espécie de cidade onde as carpideiras moram.
Embora seja uma obra em que sobrenatural predomina, este é um conto mais de estilo aventuresco, com perseguição, um certo suspense e muita confusão^^. Considero um conto muito bem feito, mas é algo que dista um pouco das obras que mais gosto do autor.
O segundo conto, “Madona”, é mais um nesse sentido, pois é uma história muito diferente. Na narrativa acompanhamos uma aluna recém chegada a um internato católico e as coisas estranhas que acontecem, como alguém lambendo uma estátua e coisas saindo do ouvido das pessoas.
É uma história de sobrenatural também, mas eu não consigo ver muito da “zona fantasma” aqui, me parecendo mais para o lado da magia (e da loucura) do que qualquer coisa. Assim como “Descida das Carpideiras” esse tem um lado mais aventuresco, com uma perseguição e tal. É um bom conto no geral, mas igualmente dista das obras que mais gosto do autor, especialmente porque ele tem uma crítica (as pessoas que usam a religião para fins pessoais), mas não maneja isso muito bem, deixando algumas coisas no ar.

A história de “Corrente de Espíritos em Aokigahara” já é mais clara essa questão do limiar entre o mundo dos vivos e dos mortos, com o autor utilizando o famoso “bosque dos suicídios” para contar uma história de fantasmas (ou algo assim).
Na obra um homem com uma doença incurável decide morrer ao Aokigahara junto com a esposa, mas eles acabam vendo uma luz estranha e ao irem atrás descobrem uma suposta corrente de espíritos. O homem mergulha nessa corrente e começa a fazer isso todos os dias, desistindo de morrer. A história prossegue dessa forma, com a obsessão do homem por aquela corrente.
No geral, é um conto bem interessante, com uma das características marcantes do autor (a obsessão por alguma coisa, presente em várias de suas histórias), mas sem uma mensagem, sendo só de entretenimento. Eu diria que ele é um conto que fica na média, não sendo nem muito bom, nem ruim.
Já “Ao Toscanejar”, o quarto conto da coletânea, provavelmente é a melhor história dentre as oito do volume, com uma narrativa de mistério, envolvendo um possível assassino em série. Na obra, um homem acorda todos os dias perturbado com um assassinato que ele teria supostamente cometido, tendo vagas lembranças, mas não se lembrando de ter saído de casa.
A obra usa um pouco de um elemento já apresentado por Junji Ito em seus contos iniciais, mas transformado (quem leu todos os contos do autor recentemente conseguirá lembrar facilmente quando ler esse) para chegar na conclusão. É uma história bem interessante sobre como suscetíveis a qualquer coisa, mesmo que essa coisa seja de alguma forma sobrenatural e misteriosa… A questão do limiar aqui é bem sútil, só se mostrando de verdade no final da obra.

“Soberano Demônio da Poeira” apresenta a história de uma casa em que a poeira em vez de ser varrida para debaixo do tapete é varrida para o teto^^. Na história, o protagonista é uma criança que vê o pai enlouquecido com um suposto demônio da poeira e, para tanto, faz suas empregadas limparem tudo o tempo todo, mas não importa o que fazem, a poeira está sempre presente.
Assim como outras histórias dessa coletânea, é uma narrativa bem diferente das que estamos acostumados com Junji Ito. Quer dizer, seus elementos comuns estão lá, mas o desenvolvimento parece diferente, mais esquisito. Esse conto em específico eu não consegui gostar, pois falta uma mensagem, a história é meio confusa, dentre outras coisas.
“Vila do Éter” é igualmente esquisito, mas ao menos tem uma mensagem bem clara. A obra conta a história de um grupo de jovens que resolve ir visitar a antiga morada de um deles, onde supostamente existe um mecanismo de moto-perpétuo.
É uma história que mistura sobrenatural com uma suposta tecnologia, e que coloca em voga a velha questão da natureza má do ser humano. O autor também menciona novamente, por meio de um dos personagens, um pouco da questão energética (usada em Black Paradox), mas sem se deter mais sobre isso. Como um todo, apesar das mensagens, eu também não gostei muito desse conto, por ele ser um tanto diferente do que estou acostumado com o autor.

“Tio Ketanosuke” é um conto envolvendo os Os Bizarros Irmãos Hikizuri, que apareceram anteriormente em duas histórias de Mortos de Amor. Esse, então, seria o terceiro capítulo envolvendo eles. Na narrativa, uma moça diz sentir algo pesado em si desde que nasceu e acaba encontrando a casa dos irmão Hikizuri por acaso, passando a conviver com eles.
Como é costume nas histórias envolvendo os irmãos Hikizuri, o jeito esquisito dos personagens prevalece, mas o sobrenatural é que ganha grande destaque. Esse é um conto meio bobo no geral, mas é muito agradável de ler e divertido, melhor do que vários outros contos dessa coletânea. Digamos que talvez ele seja o que mais represente o Junji Ito tradicional^^.
O último conto se chama “Carapaças do Pântano Manju” e ele fala sobre uma certa maldição numa cidade envolvendo tartarugas e corvos. Na história, os corvos costumam pegar tartarugas, colocar na estrada para as matar quando o caminhão passar e eles poderem comer. Depois disso os corvos levam as carapaças para alguma casa e sempre essa carapaça possui um rosto parecido com o de alguém da casa. Aí a pessoa morre um tempo depois…
Nisso acompanhamos um rapaz que vive com seu pai e decide aproveitar essa superstição para brincar com o seu pai, um homem malvado que vive o tratando mal. A história parece querer dizer que as maldades têm consequências, mas eu acabei achando um conto bem bobo e desinteressante, principalmente por ser um conto de fechamento. Talvez no futuro eu o ache melhor, mas no momento não o achei muito bom.

Zona Fantasma é um mangá muito diferente na biografia do Junji Ito, seja em relação aos títulos mais antigos, seja quanto aos mais novos. A gente consegue ver que o autor tem uma maior desenvoltura nesse contos, traz um clima diferente nas narrativas, e utiliza (em vários deles) de mais cenas de ação do que o normal. E isso é algo interessante para o bem e para o mal.
A gente consegue ver novas facetas do autor, ainda que misturadas com as questões antigas, de maneira que podemos aproveitar um novo tipo de histórias. Além disso, como ele não tem a limitação de espaço, ele consegue concluir as obras de maneira melhor e não temos nenhum conto com um final abrupto e sem sentido (como acontece em algumas de seus contos antigos).
Assim, é bem possível que muita gente vai gostar da temática e do desenvolvimento dos contos presentes nessa coletânea, afinal a grande maioria são histórias muito boas e elas têm uma pegada mais pop, no sentido de serem mais comerciais e agradáveis. Entretanto, de minha parte, mesmo vendo ótimas narrativas não consegui gostar tanto, pois senti falta de alguma coisa a mais, algo que dê mais característica Junjiiteana.
Explicando melhor, eu acho que essas histórias (ou a maioria delas) dariam excelentes capítulos de uma série de terror ou mesmo mini-filmes, animações, etc, pois elas têm um estilo mais de narrativas de horror americanas ou de cultura pop em geral. Só que como essas histórias estão atreladas ao nome de Junji Ito não me agradaram tanto, pois eu esperaria outras coisas e não o que eu vi. Assim, a minha expectativa enquanto leitor acabou não sendo cumprida e mesmo vendo contos bem feitos, não consegui gostar da maioria.
Então, eu acho que muitos de vocês, de certo, adorarão o mangá, pois ele está bem longe de ser ruim, as histórias são ótimas e agradáveis, mas alguns certamente terão a mesma sensação que eu, de não ver aquele Junji Ito de sempre nessa obra…
Essa resenha foi feita graças a um exemplar cedido a nós pela editora Pipoca & Nanquim, a quem agradecemos a parceria. As opiniões a respeito das histórias independem disso.
Ficha Técnica
Título Original: 幻怪地帯
Título: Zona Fantasma
Autor: Junji Ito
Tradutor: Drik Sada
Editora: Pipoca & Nanquim
Número de volumes no Japão: 2 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 15 x 22 cm
Miolo: Papel pólen bold 90g
Acabamento: Capa cartão com sobrecapa
Páginas: 436
Classificação indicativa: não informado
Preço: R$ 92,90
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Nesta nova coletânea com os trabalhos mais recentes de Junji Ito, o mestre dos mangás de horror, as forças do além dão um jeito de influenciar o mundo dos vivos das mais diversas maneiras! Em A Descida das Carpideiras, um jovem casal sai em viagem para comemorar o noivado e vai parar em uma pequena cidade no interior, onde conhecem a antiga tradição das carpideiras e seu mistério contagiante… No segundo conto, Maria é uma estudante recém-transferida para um colégio católico feminino que realiza um sinistro culto à reencarnação de Madona, a mãe de Deus, e descobre uma estranha ligação entre estátuas de sal e a família do diretor… A Corrente de Espíritos em Aokigahara se baseia na triste fama da floresta homônima e imagina o destino da alma daqueles que escolhem esse local para dar fim à própria vida… São oito histórias inéditas, e uma delas nos traz de volta os irmãos Hikizuri, os protagonistas das mais hilárias brigas familiares sobrenaturais!
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Outra ótima resenha, gosto de acompanhar as resenhas postadas aqui. Compartilho da sua opinião sobre essa obra. Comecei a lê-la online há algum tempo e não terminei, porque as histórias não me cativaram. Senti que não tinham o que havia que atraído pelas obras do autor.