
Um caso curioso do nosso mercado de mangás
Em 2014, a editora de revistas Alto Astral resolveu entrar no ramo de quadrinhos japoneses e similares com a criação de seu selo Astral Comics. Suas publicações variaram de quadrinhos franceses em estilo mangá a mangás originalmente japoneses (a maioria destes últimos, eróticos).
Os quadrinhos da editora, entretanto, careciam de qualidade: seja com papel ruim, seja péssima encadernação, os mangás da Astral Comics eram piores que os da concorrência, de longe. Mais que isso, eram também mais caros. Daí que não havia muito incentivo para se comprar os títulos da editora.
Mas até aí tudo bem, pois – principalmente os títulos japoneses – os quadrinhos da editora tinham um nicho a ser explorado e que ela parecia suprir, então podíamos comprar os produtos dela, pois não teria nada parecido na demais editoras (e, se tivesse, seria algo isolado). Entretanto, a coisa descambou de vez no final de 2016, quando a empresa publicou o mangá Laços Proibidos, volume único de autoria de Ahiru Okano.

O título foi lançado pela editora em dezembro daquele ano com quase 40 páginas a menos do que o original japonês. E o motivo é um dos piores possíveis…
[Antes de continuar relatando esse caso da Alto Astral, é necessário uma explicação: um mangá pode, sim, sair em um outro país com páginas a menos do que original japonês por “razões”. O mangá The Ghost In The Shell, por exemplo, só pode ser publicado hoje em dia com uma página a menos do que original, pois o autor não permite que essa página saia fora do Japão. O autor decidiu isso e não há negociação nesse sentido, pronto, acabou.
Fora isso, uma coisa muito comum no passado era a exclusão de paratextos dos mangás (comentários do autor, algum extra, etc) que não afetava a história em si. Propagandas japonesas que existem em alguns mangás também são excluídas ainda hoje, por razões óbvias.
Além disso, existe também a possibilidade de a editora ter cometido um erro no processo de produção do mangá e ter lançado ele sem algumas páginas, seja de história, seja de paratextos. É raro, mas acontece também.
Então, sim, existem situações em que um mangá pode sair em um país sem o mesmo número de páginas do que o original]
A editora Alto Astral lançava mangás que tinham por volta de 160 páginas e custavam R$ 16,90, o que era uma fortuna para a época, visto que as duas principais editoras do mercado lançavam seus produtos por R$ 13,90 ou R$ 14,90 no máximo.
Laços Proibidos tinha – no original – cerca de 200 páginas de história e a editora resolveu limar algumas delas para poder publicar o título com as mesmas 160 páginas dos outros títulos da empresa. Sim, essa foi a explicação para a retirada das páginas. Não, você não leu errado.

Na resposta da editora, a empresa cita que o falta é um epílogo e que não afeta a história. O que a empresa disse, em certo sentido, era verdade. A gente leu o volume na época e a história “se conclui” bem. Se você não souber que está faltando páginas você consegue ler de boa e não se sentirá frustrado.
Ainda assim, a decisão da editora foi muito sem sentido, vergonhosa, e privou o leitor brasileiro de ter a narrativa completa, de ver o desfecho de verdade da obra. Além disso, a resposta da empresa botava medo nos leitores, pois significava que se outros mangás licenciados pela editora viessem a ter mais de 160 páginas a empresa repetiria a dose.
Felizmente, ou não tão felizmente assim, Laços Proibidos foi o penúltimo mangá da empresa. Em janeiro de 2017 ela lançou outro mangá e aí a editora parou de publicar quadrinhos japoneses, encerrando o ciclo de mais uma editora brasileira que se aventurou nos mangás.
Embora tenha deixado títulos incompletos com o fim de suas publicações, a Alto Astral não fez tanta falta ao mercado de mangás em termos de tamanho, número e qualidade. A grande perda foi mesmo os mangás eróticos, que até hoje não aparecem com constância no país…
Memória é a nossa postagem de curiosidades em que buscamos relembrar algum fato, episódio ou época do passado do nosso mercado de mangás. Você pode conferir todas as postagens dessa série clicando aqui. Para ver outras curiosidades em geral, clique aqui.
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Caramba, nunca tinha parado para pensar que realmente, no Brasil hoje em dia não tem uma editora que esteja se quer encostando nesse nicho de mangás adultos. Por um lado eu entendo, mas por outro é meio preocupante, por que penso, o que exatamente constitui esse nicho?
Por exemplo, eu gostaria muito que um mangá chamado domestic girlfriend fosse lançado aqui, ele tem alguns elementos adultos, nada super pesado, no máximo só seios explícitos, mas tem o tema também de romance entre irmãos de criação, então será que cairia nesse nicho? Tornando assim impossível o lançamento dele aqui no Brasil? Mas ai penso que temos citrus aqui, que vai um tanto mais além com também algumas cenas explícitas, romance entre irmãs de criação e adiciona o elemento de lgbt que não existe no domestic girlfriend, que por sua vez tem um foco maior nos personagens e na vida deles, parecendo mais um drama com uma história “de verdade” enquanto que citrus é meio que só focado no aspecto do romance mesmo.
Enfim, lendo agora esse artigo e refletindo, é realmente um tanto triste pensar que existem gêneros inteiros de mangás que talvez nunca vejamos lançados em mídia física para colecionar aqui no Brasil. Mais triste ainda pensar que domestic girlfriend talvez nunca venha também T_T
Esse tipo de Mangá infelizmente não tem boas vendas por aqui… É incrível que o único título cancelado da JBC até hoje seja um mangá erótico adulto…
Lembro do volume único de “não mexa com a minha filha” comédia boa com mistura de +18, porém não concluíram, e a encadernação foi horrível
Acho bem legal esses post de memoria. Sempre uma curiosidade interessante, pena que não tem com tanta frequencia.
Faziam anos que eu não escutava o nome da Astral Comics e seus mangas. Cheguei a comprar um na epoca, mas a qualidade da encadernação era muito ruim. Se bobear ainda tá no meio da coleção.
F
Lembro de ter lido em algum lugar, na época da publicação, que as páginas não publicadas na verdade traziam uma relação incestuosa entre irmãos, com quadros de sexo explícito inclusive. Por isso foi feito o corte aqui no país. A justificativa oficial da editora foi outra pra evitar problemas. Mas não sei se isso é verdade porque não li o material original japonês.
Um amigo fez um vídeo mostrando o que acontecia no que foi cortado. Não está mais disponível (acho eu), então não sei exatamente o que acontecia, mas tinha algo assim, justamente por ser o “tema” da obra.
Particularmente, eu acho que essa hipótese faz sentido, mas meio estranha. Acontece que era um mangá erótico + 18, então não teria razão para cortar por causa disso, pensando no público alvo. Mas é uma hipótese que faz sentido porque realmente deve ter gente que acha que um determinado limite não pode ser ultrapassado.
Qual essa página de ghost in the shell? Que interessante.
É uma página de sexo lésbico. O autor não quer que ela saia mais no ocidente e pronto.
Em todo lugar que o mangá tem saído costuma haver alguma reclamação por parte dos leitores, mas a resposta de todas as empresa é a mesma.