Opinião sobre os mangás da Pipoca & Nanquim de 2023

O que achei dos mangás da editora em 2023

No início de 2023 a editora Pipoca & Nanquim abriu um formulário de parcerias e o Blog BBM resolveu se inscrever, com a intenção de receber os mangás publicados pela empresa. Era uma coisa bem importante para este site, pois era um objetivo pessoal trazer mais conteúdo – com um maior número de análises – e não haveria recursos financeiros o suficiente para comprar todos os produtos da editora.

Felizmente, o site foi aprovado e recebi os mangás dela de 2023. Ainda que algumas resenhas eu só tenha conseguido colocar no ar neste início de 2024, escrevi sobre todos os quadrinhos japoneses da editora desde o início da parceria e agora venho dar uma repassada em tudo.

Não irei falar de detalhes técnicos, pois a tradução, adaptação, revisão e demais detalhes editoriais da Pipoca & Nanquim são muito bons. A qualidade física dos produtos também é impecável (sendo, de longe, a melhor nesse quesito), então falar disso seria chover no molhado, pois os produtos da editora são muito bons.

O que irei fazer é falar das histórias, pois existem histórias e histórias, obras boas e obras ruins, etc, etc, etc. Assim vocês podem olhar algum título que, por ventura, não tenham se interessado no momento que saiu e agora ver se vale a pena ou não.

A ordem em que aparecem os títulos é do que menos gostei para o que mais gostei. Ou seja, o primeiro a aparecer é que o que eu menos recomendo e o último é o que mais recomendo. Dito isso, eis a lista:


MORADA DO DESERTOR


Morada do Desertor é uma das primeiras coletâneas de contos da carreira de Junji Ito, reunindo histórias publicadas por ele entre 1987 e 1990. O conto que dá título ao mangá é sensacional, que te pega completamente desprevenido com o desfecho da história, apresentando uma virada na história digna de M. Night Shyamalan.

Você vai acompanhando a história e pensando que a obra se encaminhará de um jeito, você fica tenso com o que está acontecendo, com o medo de tudo ser descoberto, e, de repente, você é pego com uma reviravolta que realmente não estava esperando.

O conto “Morada do Desertor” deveria ser apresentado para todo mundo sem falar o gênero da história, sem falar o nome do autor, para que a pessoa tenha uma melhor experiência e descobrir por si mesma a genialidade de Junji Ito. Igualmente, é um conto para ser estudado por quem deseja criar histórias, para ver como se faz um bom roteiro.

ITO JUNJI KESSAKU-SHU 5 DASSOUJEI NO IRU IE © 2011 by Junji Ito / The Asahi Shimbun Company

O problema é que esse conto é apenas uma das exceções do mangá. Com 12 contos no total, essa é uma coletânea bem fraca e, especialmente na primeira metade, eu não consegui gostar de quase nada, existindo tramas com finais insatisfatórios ou abruptos, e enredos que soam estranhos mesmo dentro da própria carreira de Junji Ito.

Os contos, porém, em sua maioria, mostram um pouco do estilo do autor, mas ainda não têm a sofisticação de obras posteriores. É como se o Junji Ito pudesse se arriscar bastante nesse início de carreira, com histórias bem mais bizarras, mas com um pouco de falta de técnica que ele adquiriria posteriormente. Então, esse é um mangá que eu não gostei muito e eu só recomendo o conto que dá título ao mangá e mais um ou dois outros.


ZONA FANTASMA


Zona Fantasma é mais uma coletânea de contos de Junji Ito e esse mangá foi, de longe, uma das minhas maiores decepções em relação a quadrinhos japoneses nos últimos tempos. Ao ler isso você provavelmente está se perguntando o que tem de tão ruim nesse mangá, mas na verdade eu não achei as histórias ruins (pelo menos não a maioria).

O que acontece é que esse mangá é de autoria de Junji Ito e é uma de suas produções mais recentes, então a gente vai para o mangá com o objetivo de ler mais contos dele, nos deliciar com suas histórias, com seu estilo e o que a gente encontra não é o Junji Ito que a gente conhece…

As histórias, em sua maioria, são muito boas e dariam excelentes filmes de terror, muito similar a diversas obras ocidentais, sobretudo americanas. O enredo é bem feito, o desenvolvimento é bom, mas não tem Junji Ito ali (pelo menos não aquele que a gente gosta). Fosse obra de qualquer outro autor, a gente elogiaria e pronto, obra das boas. Tendo o nome dele ali, a gente espera algo, um tipo de história específica e a gente não é atendido, por isso foi uma decepção para mim.

GENKAI CHITAI © 2021 by Junji Ito / The Asahi Shimbun Company

Diferente do que prega certa vertente da teoria literária (e aqui estou falando do que é estudado nas Universidades e não nessas discussões vazias de redes sociais), não dá para separar obra e autor, ainda mais em obras da cultura-pop, em que a gente lê não só pelas obras e sim pelo nome ali presente. Assim, reiterando, se não existisse o nome “Junji Ito” ali na capa, essa seria um mangá que eu apenas elogiaria e diria para você comprar sem medo.

Esse mangá é meio que um oposto a Morada do Desertor. Enquanto Desertor é do início de carreira de Junji Ito e a gente já reconhece o estilo dele ali, embora as histórias não sejam das melhores, em Zona Fantasma, que é um dos mais recentes do autor, a gente não vê muito o estilo dele, mesmo com as histórias sendo ótimas.

Então, esse mangá é divertido, as histórias são muito bem feitas e acho que muitos de vocês irão gostar das histórias, visto que lembram bastante obras terror estadunidenses. Para quem gosta de Junji Ito e quer ver mais do autor, talvez não encontre muito dele aqui, não.


AS ESCULTURAS SEM CABEÇA


As Esculturas sem Cabeça é mais uma coletânea de contos de Junji Ito de seu início de carreira. Ele possui 12 histórias, todas elas publicadas no Japão entre 1990 e 1992, poucos anos após ele se iniciar na vida de mangaká.

De modo geral, esse mangá tem problemas semelhantes a Morada do Desertor, com finais abruptos aqui e ali, além de outros que não satisfazem a contento. Só que ele se destaca, por ter mais histórias boas e bem elaboradas, que nos fascina pela genialidade, além de vermos diversos temas caros a Junji Ito que ele desenvolve muito ao longo de sua carreira.

Muitos dos contos presentes nesta coletânea, por exemplo, são marcados pela questão da obsessão, mostrando personagens que ficam fascinados por alguma coisa e isso os leva à ruína. Outros mostram mais questões do além e assim por diante.

ITO JUNJI KESSAKU-SHU 7 KUBI NO NAI CHOUKOKU © 2013 by Junji Ito / The Asahi Shimbun Company

De fato, As Esculturas sem Cabeça tem uma gama de contos muito boa e que vale a leitura por todos, porém ele também possui uma grande quantidade de histórias dispensáveis e bobas.

Ele, portanto, não chega a ser tão fraco quanto Morada do Desertor, mas não apresenta uma constância e qualidade maior que vemos em O Beco, O Encanamento que Geme (que falaremos mais adiante nessa postagem) e outras obras. Assim esse é um título que eu recomendo deixar para depois. Isto é, eu acho que primeiro você deve conhecer bem Junji Ito para então comprar e ler as histórias deste mangá.


MANDALA DE FOGO


Eu cheguei a comentar que Mandala de Fogo, de Chie Shimomoto, tinha sido o pior mangá da Pipoca & Nanquim que eu havia lido, não somente de 2023, mas dentre todos os que a empresa havia publicado. Eu disse isso, pois os dois capítulos iniciais deixaram muito a desejar, sendo chato, sem qualquer emoção, e com os personagens com zero carisma, além de um desenvolvimento desastroso.

Isso prosseguiu numa parte do terceiro capítulo também. O que me parecia é que até então a autora ainda não tinha pegado o jeito do que queria contar e como queria contar. O ritmo parecia acelerado demais em algumas partes e ela tentava fazer cenas de humor apenas por fazer, com tudo muito caricato e sem harmonia.

A partir desse ponto, porém, a obra começa a ganhar outros contornos com uma maior intensidade e dramaticidade, deixando os personagens mais críveis e amáveis. No fim, a imagem inicial tinha se dissipado e consegui sentir um apreço por esse mangá.

ENSHOKU NO MANDARA © 2016 by Chie Shimomoto / LEED Co.

Mandala de Fogo é, como muitas obras lançadas pela Pipoca & Nanquim, de caráter histórico, apresentando uma figura (neste mangá, real) em uma determinada época do Japão. Ele dista do restante das obras desse gênero, porém, por não ser de ação ou aventura, tendo uma clima mais leve e calmo, sem combates, sem lutas, etc.

É um estilo que normalmente me agrada bastante, sendo um dos títulos que eu iria com certeza comprar se a editora não tivesse me mandado. Entretanto, o início meio conturbado fez com que ele não ficasse em posições melhores nesta lista.

Nem foi só uma questão de expectativa (como Zona Fantasma), aqui foi realmente um problema no jeito de contar a história que não agradou… Assim, eu não consigo indicar esse mangá para todo mundo, pois acho que nem todos podem sentir a mesma sensação, mas se você gosta de mangás históricos e que não tenham ação, esse é um título que pode te agradar.


CIDADE DAS LÁPIDES


Cidade das Lápides é mais uma coletânea de contos de Junji Ito e a minha opinião sobre essa obra é uma grande incógnita no geral. Ele tem alguns contos que eu considero muito melhores do que a maioria dos que o autor já fez, para ser considerados os melhores dos melhores, mas por outro lado, também tem contos que ficam do lado oposto, sendo dos muito piores, do tipo pior do pior, mesmo.

Ele é um mangá que poderia ser um meio-termo entre o bom e o ruim, mas eu não consigo caracterizar ele, justamente pela disparidade entre os contos.

ITO JUNJI KESSAKU-SHU 9 BOHYOU NO MACHI © 2013 by Junji Ito / The Asahi Shimbun Company

Então, ele é um título que eu não recomendo para todo mundo, pois acho que a pessoa precisa primeiro estar acostumada com o estilo de Junji Ito para entrar nessa obra já sabendo o jeito dele e conseguir aproveitar melhor as histórias, mesmo aquelas que são ruins…


A LENDA DE MUSASHI


A Lenda de Musashi é um mangá de Goseki Kojima adaptando Mamoru Sasaki e, como o nome diz, busca falar do famoso espadachim Miyamoto Musashi. Obras falando de Musashi existem aos montes, entretanto, enquanto boa parte delas falam da juventude de Miyamoto até sua luta mais marcante contra Sasaki Kojiro, esse mangá quer ir além a apresentar o espadachim mais maduro, suas ambições e questionamentos e o que o levou a escrever O Livro dos Cinco Elementos.

Esse é um mangá de caráter histórico já mais convencional, com combates acontecendo em boa parte da obra. Durante o passar dos capítulos, por exemplo, veremos o espadachim envolto em diversas situações e agindo com maestria conforme a necessidade, mostrando que sua técnica com a espada continua excelente com o passar dos anos. Ainda assim, sua mente continuava com dúvidas em relação a diversas coisas, como a questão do valor da vida, a qual ele se verá confrontado em uma certa situação…

MIYAMOTO MUSASHI © 2020 by Mamoru Sasaki; Goseki Kojima / ALL RIGHT RESERVED

Não acho que A Lenda de Musashi seja um mangá ruim, porém creio que ele não demonstra em sua totalidade o objetivo de mostrar a evolução do protagonista. Cada capítulo do mangá é praticamente independente (embora exista uma continuidade histórica) com um início, meio e fim, bem definido, assim as coisas vão acontecendo, acontecendo e a gente não percebe uma mudança no Musashi ou porque o autor não conseguiu passar isso ou porque é muito sutil, de maneira que uma pessoa não versada no contexto não consiga entender adequadamente.

Isto é, se a gente pegar o primeiro capítulo e comparar com o último, a gente consegue notar uma mudança realmente, mas ao acompanhamos a história capítulo a capítulo parece que só estamos vendo fragmentos da vida do espadachim.

A história é boa, os acontecimentos são marcantes (sobretudo uma certa passagem envolvendo os cristãos do Japão), mas acho que não é um título indicado para todo mundo. Acho que vale mais para quem já conhece a vida do Musashi (seja por livros ou por outros mangás) e queira ver uma nova faceta, uma nova versão, etc, etc, etc.


CONTOS ESMAGADORES


Contos Esmagadores é mais uma coletânea de obras de Junji Ito. Ele reúne contos publicados pelo autor entre 2002 e 2006 no Japão. Os contos são histórias próprias fechadas em si mesmas, à exceção de 3 deles, ligados pela presença do personagem Souichi.

De uma maneira geral, eu adorei as histórias presentes em Contos Esmagadores e os únicos que eu genuinamente não gostei foram justamente os com o Souichi, não pelos contos em si, mas sim pelo personagem que, para mim, é intragável.

KAIDAN © 2013 by Junji Ito / THE ASAHI SHIMBUN COMPANY

Acho as histórias desse mangá muito bem escritas e desenvolvidas, novamente colocando personagens em um estado de obsessão profunda por alguma coisa (seja uma coleção de livros, um pedido de desculpas, uma canção ou diversas outras coisas), que pode começar  de maneira leve, mas vai escalonando e escalonando ao ponto de não ter mais volta. Isso é algo comum na autor e já falamos disso na parte de As Esculturas sem Cabeça.

Em suma, considero Contos Esmagadores um mangá muito bom e recomendo para todos, sejam fãs ou não do gênero ou do autor.


O BECO


O Beco é mais uma coletânea de contos de Junji Ito, este reunindo 11 histórias publicadas originalmente entre 1991 e 1993. É, portanto, uma das obras do início da carreira do autor. Diferente da maioria dos contos de Morada do Desertor (1987-1990) e As Esculturas sem Cabeça (1990-1992) aqui já vemos um autor um pouco mais maduro, com ideias e modelos mais bem apresentados e com histórias mais elaboradas e bem acabadas em grande parte.

ITO JUNJI KESSAKU-SHU 6 ROJIURA © 2011 by Junji Ito / The Asahi Shimbun Company

Eu vi muitas resenhas negativas acerca desse mangá, mas minha opinião é oposta, pois vejo muita qualidade em diversas histórias, tanto na maneira como ela é contada, quanto na temática abordada. Há contos que falam, por exemplo, sobre a obsessão pela beleza ou que deixa claro que o ser humano é algo pior do que qualquer sobrenatural, dentre outras coisas que são muito caras a Junji Ito e que ele sempre aborda.

Nem tudo é bom, evidente. Dos 11 contos presentes na coletânea eu acho que três deles são bem fraquinhos e dispensáveis, mas analisando a obra como um todo é um mangá bem bom e recomendo para todo mundo. Tem obras melhores que O Beco? Tem, mas acho que esse um daqueles títulos ótimos para começar a conhecer Junji Ito.


O ENCANAMENTO QUE GEME


O Encanamento que Geme é outra coletânea de contos de Junji Ito e, se Contos Esmagadores e O Beco eu já considero obras ótimas, aqui o nível já é mais elevado, com quase todas as histórias sendo 10/10.

ITO JUNJI KESSAKU-SHU 8 UMEKU HAISUIKAN © 2013 by Junji Ito / The Asahi Shimbun Company

Neste mangá, por exemplo, há um dos melhores contos do autor que aborda a questão da obsessão pela beleza (um tema muito caro a Junji Ito e que ele aborda em várias histórias ao longo dos anos) que é “Monstro cor de Carne” (que se repete em Dismorfos, do qual falaremos a seguir), além de diversas outras histórias de sobrenatural, falando da natureza humana, dentre outras coisas. A história que dá título ao mangá também por si só é excelente.

Há um ou dois contos que não são lá grande coisa, mas no geral são histórias muito boas, com bom roteiro e desenvolvimento e eu recomendo para todo mundo.


DISMORFOS


Dismorfos é uma antologia de contos de Junji Ito escolhidos pelo próprio autor. É a segunda seleção de histórias favoritas de Ito feita para a editora japonesa Asahi Shimbun e publicada no Brasil pela Pipoca & Nanquim (a primeira foi Calafrios, publicada em 2022 no Brasil).

Por ser uma seleção, praticamente todos os contos também se repetem em outros mangás (apenas um conto curtinho no final é inédito), a saber:

ITO JUNJI JISEN KESSAKUSHUU HIZUMI © 2018 by Junji Ito / ASAHI SHIMBUN COMPANY

Basicamente todos os contos são muito bons em maior ou menor escala. A Mulher que Sussurra e Suave Adeus, por exemplo, são excelentes seja de um jeito terno, seja de um jeito assombroso, mas nenhum supera O Monstro Cor de Carne que é uma história sobre a obsessão pela beleza e como os seres humanos são mais perigosos e assustadores do que coisas sobrenaturais.

Essa é uma obra que quem nunca leu nada de Junji Ito pode comprar sem medo, pois é uma grande amostra do talento do autor. Para quem quer ler mais e mais histórias, porém, esse não é muito recomendado, pois tudo terá em outras obras também e o único conto inédito é curtíssimo.


MORTOS DE AMOR


Mortos de Amor é uma coletânea de Junji Ito apresentando 10 contos no total, entretanto cinco deles foram uma única história, a que dá título ao mangá.

Nesta história uma cidade – muita afetada pela neblina – tem uma crença de leitura da sorte nas encruzilhadas. Nesse ínterim, quando o protagonista da história, Ryusuke, chega a ela, um estranho ser apelidado de “Garoto da Encruzilhada” começa a aparecer fazendo predições amorosas negativas para as meninas, o que resulta em suicídio de várias delas. Nisso, o protagonista começa a investigar o caso e  logo fica claro que pode ter relação com ele próprio.

ITO JUNJI KESSAKU-SHU 4 SHIBITO NO KOIWAZURAI © 2011 by Junji Ito / The Asahi Shimbun Company

Essa é uma história padrão do Junji Ito, muito bem feita, daquelas em que uma coisa simples vai escalonando de um jeito que fica fora de proporções, ultrapassando o campo da loucura. É uma história sensacional e que vale por si só, cada conto é único, mas é sequencial, de maneira que a gente vai acompanhando uma narrativa mais longuinha, o que é bem legal de ver.

Os demais contos têm seus méritos narrativos também, com alguns sendo muito bons e outros nem tanto, mas o que vale de verdade são os cinco contos iniciais que fazem parte da historia principal e é por eles que eu recomendo o mangá.


O NOVO PREÇO DA DESONRA


Eu não comprei nenhum mangá de Hiroshi Hirata, pois o estilo de histórias não eram de minha predileção e já estava cansado de ler obras de samurais, lutinhas, etc. Para além disso, eu também não tinha muito dinheiro, então eu o usava em títulos que eu sabia ou imaginava que fosse gostar.

O Novo Preço da Desonra veio para mostrar que eu deveria ter dado uma chance às obras do autor antes. Esse título dá continuidade a O Preço da Desonra, mas apresentando capítulos independentes, de sorte que não há necessidade de ter lido a obra original.

SHIN KUBIDAI HIKIUKENIN © 1999 by Hiroshi Hirata / KODANSHA; All right reserved

Nessa obra vemos alguns contos envolvendo um cobrador de promissórias e as histórias por trás disso. Todas as histórias são um espetáculo e não tem uma que não seja boa de verdade. As histórias falam sobre honra, lealdade e diversos outros temas, tudo de uma maneira sublime.

O melhor conto, na minha opinião, é o final, pois ele dá um retrato mais magnânimo e amplo da vida sofrida de muitos ronins em uma época geralmente retratada como gloriosa. Trata-se de uma narrativa que coloca o dedo na ferida de coisas na época e que ainda é muito atual, como o desejo pelo lucro exacerbado que faz com que outros fiquem na mais completa miséria.

Assim como Mandala de Fogo, A Lenda de Musashi e Kogarashi Monjirou (que falaremos a seguir), esse é um mangá de temática histórica e fica num meio termo entre Mandala de Fogo e A Lenda de Musashi. Ele tem alguns confrontos, algumas lutas, mas não chega a ser verdadeiramente o foco da história, sendo mais de drama, de vermos histórias de vida sofridas, etc. É um mangá muito bom mesmo, recomendo.


KOGARASHI MONJIROU: O PRENÚNCIO DO INVERNO


Kogarashi Monjirou: O Prenúncio do Inverno é um mangá de autoria de Goseki Kojima e adapta alguns romances escritos por Saho Sasazawa. É mais um mangá de temática histórica.

Ele se passa no Japão, na década de 1830 e o protagonista do mangá é chamado justamente de Kogarashi Monjirou. Ele é um andarilho solitário, que ia de lugar em lugar e prestava pequenos serviços. Era algo mal visto ou questionável na época da história, em razão de pessoas assim não terem um lugar ou um emprego fixo.

Por se passar no século XIX, o mangá apresenta muito do contexto da época, como a questão da fome e os diversos tipos de violência, como um marido espancando a esposa, bandidos estuprando mulheres, confrontos de vida e morte, entre outros. E é nesse ínterim que também se encontra o nosso andarilho protagonista, pois embora seja tratado como alguém “que não é direito”, ele preza pela justiça e está sempre indo de encontro a toda forma de violência aos mais fracos…

KOGARASHI MONJIROU © 2020 by Saho Sasazawa; Goseki Kojima / ALL RIGHT RESERVED, GOMA BOOKS Co., Ltd.

Os quatro contos presentes no mangá são totalmente independentes entre si, todas muito bem escritas e que apresentam tramas com um desenvolvimento excelente, não tendo uma que eu não tenha considerado boa. Todas apresentam um background intenso que serve como motor para determinados fatos e acontecimentos. A questão da fome nos capítulos um e dois, por exemplo, ocasiona muitas mortes (direta ou indiretamente) e levam as histórias para um segundo momento de tensão, momento este em que acontecerão os combates, as lutas, etc.

Todos os capítulos possuem tramas que não se focam exatamente em lutas. Elas apresentam questões sociais, acidentes, violência, dentre outras coisas, e isso leva para a parte do clímax em que haverá lutas, mas essa é uma parte menor, tanto pelo protagonista ser muito forte, quanto porque as questões envolvendo as histórias terminam por levar a um combate mais rápido.

Particularmente, costumo deixar passar esses mangás “de espada”, pois não é muito do meu agrado ver esse tipo de história, mas Kogarashi Monjirou acabou sendo mais um exemplo de que devemos estar abertos a todos os tipos de leitura, pois podemos encontrar muitas pérolas perdidas como esse mangá. Inicialmente, eu tinha achado O Novo Preço da Desonra melhor que Kogarashi Monjirou, mas depois mudei de ideia e acho que tem muito mais desenvoltura nos temas abordados.


O ESTRANHO CONTO DA ILHA PANORAMA


Até aqui vimos dois tipos de histórias, as obras de terror de Junji Ito e as obras de caráter histórico de Hiroshi Hirata, Goseki Kojima e Chie Shimomoto. A despeito de a maioria serem boas obras, elas formam dois grandes conjuntos que podem afastar pessoas por conta de suas temáticas.

O Estranho Conto da Ilha Panorama é um mangá de Suehiro Maruo que adapta um livro Edogawa Ranpo, e (embora também tenha caráter histórico) ele é uma obra de drama mais comum, capaz de agradar um maior número de pessoas.

O título conta a história de um escritor que tem um estranho desejo, construir uma espécie de paraíso na terra, um paraíso numa visão distorcida e excêntrica. Um dia, o sonho, que parecia impossível, começou a se realizar quando um amigo muito rico acaba de falecer. Sabendo da semelhança física entre os dois, o escritor decide armar um plano para substituí-lo, fingindo ter voltado do mundo dos mortos. Embora gere desconfiança de quem estava a fim do dinheiro do falecido, todos acreditam na volta e o escritor começa a desenvolver o seu plano, transformando uma ilha em seu paraíso pessoal, cheio de ambientes, atrações, pessoas transando ao ar livre, etc, etc, etc.

PANORAMA TOKITAN © 2008 by Suehiro Maruo, Ranpo Edogawa / ENTERBRAIN

Como um todo, a história e o ritmo da obra é muito boa, com os episódios acontecendo rapidamente e despertando o desejo do leitor de querer saber o que vai acontecer nas páginas seguintes. Ou seja, é um daqueles títulos que você começa a ler de forma despretensiosa e um tempo depois já acabou de ler, pois não conseguiu parar um minuto, tamanha a curiosidade com o desenrolar da trama.

Se a gente for analisar com calma, a gente nota certos problemas na narrativa, como o final muito rápido ou a apresentação um pouco demorada do “paraíso” (embora esse em específico talvez não seja realmente um problema), mas a trama te pega de um jeito que essas coisas não pesam na análise total e a impressão final é muito positiva, com você saindo da obra com a certeza de ter lido algo incrível (e com o desejo de ler o livro original também^^).

Esse é um título, portanto, para todo mundo de verdade, sem qualquer espécie de restrição.


VAMPIROS


Vampiros é um mangá de autoria de Osamu Tezuka e é considerado como um ponto de virada na carreira do autor, de onde ele partiria para criar algumas obras de caráter mais adulto. E, de fato, ao ler Vampiros concomitantemente com Fênix (lançado no Brasil por outra editora), a gente vê algumas correspondências temáticas, mas com um modo de tratar diferente em ambas as obras.

Assim, Vampiros é um mangá muito bom, daqueles em que a gente começa a ler, logo se interessa e não quer parar com a leitura, mas ainda é bastante juvenil em diversas abordagens, de maneira que algumas coisas destoam do que está sendo contado. É como se a obra estivesse querendo ir para um lado mais sombrio (especialmente pela figura do vilão Rock), mas a todo o momento fosse podada com rompantes de humor e alegria.

Vampire by Osamu Tezuka © 2023 by Tezuka Productions – All rights reserved. First publication in Japan in 1966

Analisando apenas ele, Vampiros é um mangá de aventura, ação e um pouco de mistério, permeado por tramas malignas. Rock é um daqueles vilões clássicos, que se acham invencíveis, e fazem todo o tipo de maldades, armando as mais diversas arapucas, matando pessoas, etc, etc, etc, tudo em prol de seus objetivos pessoais. Apesar de ser um personagem malvado, Rock acaba sendo bastante agradável de acompanhar.

O mangá tem alguns problemas de enredo (personagem surgindo do nada para fazer a história andar, mudança abrupta do foco narrativo, algumas coisas forçadas, dentre outras coisas), mas consegue passar muita emoção em suas páginas, de maneira que por mais que você leia (e por mais que você fique cansado lendo) você quer ler mais para saber os demais acontecimentos. É uma história que – por mais que não tenha aquele algo a mais – te pega e você não consegue largar.

Para além disso, ele aborda diversos temas como o que é liberdade, as amarras da sociedade, dentre outras coisas, mas tudo de uma maneira ainda bem incipiente. No todo, ele é um bom mangá e vale muito a pena.


CONFINS DE UM SONHO


Confins de um Sonho é um mangá de autoria de Yumi Sudo e, desde seu anúncio, surpreendeu em demasia por ser um título totalmente fora da curva do que a editora Pipoca & Nanquim publicava até então. Era, também, o mais surpreendente da história da empresa, pelo menos até recentemente quando houve o anúncio de Fire!.

O mangá acompanhará a história de Kyoko e Mitsu, duas mulheres que se conheceram quando adolescentes e nutriram uma grande paixão entre si, ao ponto de se rebelarem contra a imposição da sociedade e realizarem ações irreversíveis. A história começa em 2018, com Kyoko aos 85 anos sofrendo de um transtorno neurodegenerativo e com medo de esquecer o amor de sua vida. Após uma visita inesperada de Mitsu, a obra passará a mostrar diversas cenas da vida das duas em ordem decrescente, perpassando sua história, até chegar ao momento em que se conheceram e que mudou a vida das duas para sempre.

YUME NO HASHIBASHI © 2020 by Yumi Sudo / SHODENSHA

A obra, então, conta a história de duas moças que se amam em meio a uma sociedade ultra-conservadora do pós-guerra, e que devem fazer escolhas para conseguir (ou não) viver esse amor. Confins de um Sonho mostra exatamente como a sociedade nipônica (e não apenas  ela) via (e vê) a mulher, como um ser que deve desempenhar o papel de esposa e mãe, casando-se o mais rápido possível, por amor ou não.

Confins de um Sonho mostra a sociedade real japonesa nua e crua, aponta o dedo na ferida e nos faz ver uma história intensa e triste, também com elementos de coerção social: a gente verá personagem sendo obrigada a casar (ou vendo outras pessoas sentido pena por uma delas não querer, etc, etc, etc), a gente verá o desejo de ser “normal”, e a gente verá diversas reações perante ao contexto coercitivo japonês.

O mundo apresentado na obra é tão carregado que até a simples ideia de duas mulheres serem um casal no pós-guerra praticamente não é mencionada. Não é nem como se fosse um tabu, e sim é algo que parecia não existir fora da ficção, tamanha a carga que se exercia na questão da mulher casar-se e ter filhos. O mangá até apresenta um contra ponto com o mundo atual que – embora ainda seja muito conservador e restrito para o casamento homoafetivo – apresenta uma sociedade japonesa em que é (mais) normal uma mulher não se casar e morar com outra mulher que ama (mesmo que isso seja escondido da família e da sociedade).

O mangá, então, como fica claro, apresenta uma drama bastante pesado, intenso, capaz de te deixar com uma grande melancolia por horas e dias a fio. Ele nos mostra como a sociedade é cruel e não deixa as pessoas serem elas mesmas, não deixa elas viverem, etc, etc, etc, e que enquanto a sociedade buscar questionar o que é diferente (ou o que não é convencional), mais e mais pessoas terminarão por ter histórias parecidas. Esse foi o mangá que mais gostei da Pipoca & Nanquim em 2023.


No início de 2023, a PN também publicou Miyamoto Musashi, de Shotaro Ishinomori, mas esse era um título remanejado de dezembro de 2022 e não nos foi enviado. A gente também não o adquiriu, por isso não o mencionamos neste texto.

Para 2024, a Pipoca & Nanquim só tem título excelentes anunciados até o momento:


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2 Comments

  • K-K

    Excelente recapitulação das obras da editora, espero que a parceria entre o blog e ela continue em 2024, assim posso ver mais das resenhas

    • Anônimo

      Muito bacana o resumo, consumi boa parte destes títulos e gosto bastante de sua sinceridade e respeito nas análises. Blog nota 10 tbm. Acompanho há anos. Obrigado.

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