
“O mapa das pequenas coisas perfeitas” em mangá? Não exatamente…
Em agosto de 2023, no Twitter, eu fiquei sabendo da existência de um mangá de loop temporal, em um estilo parecido com o clássico filme O Feitiço do Tempo, mas dessa vez tendo duas pessoas envolvidas (sendo mais próximo do filme O Mapa das Pequenas Coisas Perfeitas).
O mangá em questão era 8-gatsu 31-nichi no Long Summer e ele é publicado na revista Morning, da editora Kodansha, e ainda segue em andamento, atualmente tendo 8 volumes publicados e com o nono previsto para agosto.
Na época em que conheci o título, eu nem imaginava a possibilidade de ele algum dia ser publicado no Brasil, mas, ainda em dezembro daquele ano, ele foi licenciado na Espanha, indicando que os países ocidentais estavam de olho e aumentando um pouco a minha esperança de que viesse ao país. Outros países também o anunciaram posteriormente, aumentando mais ainda a esperança.
Mesmo assim, eu ainda era relutante nessa possibilidade, mas eis que em outubro de 2024, a Panini divulgou que havia licenciado o título. Chamado por aqui de O Longo Verão de 31 de Agosto, o mangá começou a ser publicado em março de 2025 e já teve três volumes lançados até o momento. Aqui falaremos apenas dos dois primeiros.

SINOPSE OFICIAL
Suzuki-kun e Takagi-san, dois estudantes do segundo ano do colegial, estão presos no dia 31 de agosto. Quando dá meia-noite, tudo volta para o dia anterior, com exceção da consciência deles. A única explicação possível é algo que Suzuki-kun deixou de fazer nas férias de verão, o maior objetivo de qualquer homem… Uma comédia jovial de loop temporal sobre encarar o amor de frente.
HISTÓRIA, DESENVOLVIMENTO E OPINIÕES
O Longo Verão de 31 de Agosto é, como visto, um mangá de loop temporal que acompanha dois adolescentes presos no último dia das férias de verão. A gente acompanhará os dois aproveitando os dias de maneira diversa, ao mesmo tempo em que buscam uma saída para esse loop.
A obra é de caráter mais jovial e tratará desse tema em conjunto com uma pretensa história de amor entre os dois adolescentes, com Suzuki gostando de Takagi e esta, talvez, relutando em corresponder aos sentimentos do amigo de anomalia temporal.

Uma coisa que eu gostei bastante desse mangá é que ele não ignora a ficção precedente. Existe já uma boa quantidade de histórias sobre loops temporais e em todos eles (ou a maioria), o loop é causado por alguma coisa que uma (ou mais) pessoas envolvidas precisam fazer.
Em Feitiço do Tempo (provavelmente o mais clássico dessas obras), o protagonista precisa se tornar uma boa pessoa, em O Mapa das Pequenas Coisas Perfeitas, os protagonistas acham que precisam fazer certas coisas para sair do loop. O mesmo vale para Haruhi Suzumiya (naquele arco famoso) e diversas outras obras que se utilizam disso de uma maneira ou de outra.

Em O Longo Verão de 31 de Agosto, os protagonistas já sabem das histórias, já sabem que precisam fazer alguma coisa para acabar com o loop, e o rapaz, Suzuki, pensa que é algo que ele deixou de fazer. O que no caso, seria conseguir uma namorada e perder a virgindade com ela.
As coisas, porém, não se encaminham do jeito que o rapaz poderia querer e, apesar de não haver qualquer estremecimento na relação entre ele e a garota, a busca pelo fim do loop deverá seguir outro caminho, um caminho que o rapaz sabe já de antemão, o caminho do amor…

Diferente das obras mais famosas que colocam aspectos mais dramáticos aqui e ali, esse mangá acaba sendo uma grande obra de vida cotidiana, com romance e humor se intercalando, e em que veremos Suzuki e a garota, Takagi, passando o tempo enquanto tentam arranjar um jeito de conseguir parar com o loop temporal.
Grande parte da trama, inclusive, é desses pequenos momentos, principalmente com Suzuki demonstrando seus sentimentos para com a garota, agindo de forma estranha diante da sua inexperiência com sexo oposto, e buscando passar o maior tempo possível com Takagi.

Uma coisa muito boa de todas as obras de loops temporais e que também se faz presente em O Longo Verão de 31 de Agosto é que ele coloca muitas questões para a gente pensar, tanto de maneira direta, quanto sub-repticiamente.
Além daquelas coisas óbvias, como aproveitar o dia, poder reviver uma coisa e fazer melhor, consertar os erros, etc, etc, etc, esse mangá também coloca algumas reflexões importante sobre pessoas, amor, dentre outras coisas.
Logo no início temos uma grande fala sobre o modo como os rapazes, principalmente adolescentes, falam sobre mulheres, com o protagonista (alheio àquilo) dizendo que nem pareciam falar de pessoas. Isso é uma crítica direta ao pensamento estranho de tratar mulheres como objetos feitos para satisfazer os homens.
A obra não entra em detalhes na crítica, ela está lá apenas para mostrar que o protagonista, mesmo dentro do meio e estimulado pelo ambiente, não consegue pensar dessa forma, dando a ele também um aspecto mais humanizado, para ele ser uma figura legal perante a garota, Takagi.

Há outras mensagens interessantes na trama, como a velha questão que uma pequena decisão, um descuido ou mesmo algo não planejado pode mudar uma vida.
Em um determinado momento, por exemplo, os dois estão buscando ajudar um colega a se declarar para uma menina, mas o rapaz acaba perdendo a coragem por conta de um pequeno infortúnio, de uma série de coincidências. Isso faz com que a gente pense e lembre como a vida é complicada, pois a gente não tem uma segunda chance como ocorrem com esses personagens.

Mas a grande questão que esse mangá parece abordar é a efemeridade das nossas relações. Enquanto estudantes, estamos sempre tendo contato com nossos colegas, fazemos amizade e tudo mais, mas nada garante que esses relacionamentos perdurarão após isso. O mesmo vale para faculdade, empregos e tudo mais.
Existe apenas um período de tempo em que temos contato com determinadas pessoas e se as relações não forem bem intensas, não apelarem para o lado mais emocional, elas podem se dissolver em pouco tempo.
E é basicamente isso o que acontece (ou o que supostamente acontece) em O Longo Verão de 31 de Agosto. Suzuki sabe que esse dia infinito faz com que ele tenha contato com Takagi, mas e o depois? Será que se eles saírem do loop, a amizade deles perdurará? Será que evoluirá para amor? Essa é uma das grandes dúvidas.

Embora boa parte do mangá seja pela visão do rapaz, Takagi também têm seus próprios questionamentos, têm seus pensamentos e dúvidas a respeito do rapaz e do loop temporal. Para ela os dois só estão juntos por causa do loop, mas se não existisse talvez Suzuki gostasse de outra pessoa…
Por mais que a dúvida seja de outra natureza, ela é bem similar às indagações de Suzuki, pois envolve a questão do tempo e do ambiente.
A gente só gosta de alguém, só mantém amizade, só ama, só namora porque tivemos a sorte de ter o contato com aquela pessoa, naquele momento.
Se não é num loop, é a escola, é a faculdade é o trabalho, é a aleatoriedade etc, e sempre existe essa insegurança de que “alguém melhor” ou “qualquer outra pessoa” possa servir para a alguém em quem estamos minimamente interessados…
Qualquer mínima mudança também altera as pessoas com quem temos contato, as pessoas que nos conhecem, as pessoas que nos interessam e que tem interesse em nós, e isso é aflitivo…

Esses são os meus comentários desses volumes iniciais, como tudo se desenvolverá daqui em diante é uma coisa que (sem trocadilhos) só o tempo dirá…
EDIÇÃO BRASILEIRA E CONCLUSÃO
O Longo Verão de 31 de Agosto veio no formato padrão da editora Panini, no tamanho 13,7 x 20 cm, com miolo em papel Offwhite e capa cartonada simples.
É, portanto, uma edição comum e normal, com uma boa encadernação e um papel legalzinho, mas que pode apresentar um tico de transparência e não agradar a todos. De minha parte não vejo deméritos apesar da simplicidade (não tem orelhas, não tem sobrecapa, não tem verniz localizado, etc).





Acerca da história, embora seja um mangá publicado numa revista seinen e tenha todo o direcionamento para o público masculino adulto, O Longo Verão de 31 de Agosto é uma obra que tem tudo para agradar também o público adolescente, pois é uma história bem juvenil, com personagens adolescentes e que vivem as suas vidas (surreais) como pessoas normais, aproveitando umas férias prolongadas.
No que concerne à questão do loop temporal, a obra dista bastante de títulos mais conhecidos do gênero, como os citados Feitiço do Tempo e O Mapa das Pequenas Coisas Perfeitas. Não parece haver um grande drama escondido (ninguém parece ter uma personalidade que precisa ser mudada ou algum sofrimento que a esteja prendendo ao loop) e tudo parece estar num jeito mais sereno, quase como a imitar o conhecido Oito Infinito de Haruzi Suzumiya, no sentido de, talvez, ser uma coisa muito pequena que está fazendo o loop ocorrer.
Assim, quem gosta de todo e qualquer tipo de história com viagens no tempo, loops temporais e tudo mais, irá adorar O Longo Verão de 31 de Agosto. Quem deseja algo mais próximo a Feitiço do Tempo, porém, talvez se decepcione um pouco com o estilo da obra.
Particularmente, por adorar esse subgênero, eu recomendo a todos darem uma chance ao menos nesses dois primeiros volumes. Se não for de seu agrado, ok, mas vale uma tentativa, pois é um título muito agradável e eu pretendo continuar a coleção até o final.
Ficha Técnica
Título Original: 8月31日のロングサマー
Título: O Longo Verão de 31 de Agosto
Autor: 8月31日のロングサマー
Tradutor: Lucas Cabral
Editora: Panini
Número de volumes no Japão: 8 (ainda em publicação)
Número de volumes no Brasil: 3 (ainda em publicação)
Dimensões: 13,7 x 20 cm
Miolo: Papel Offwhite 66g
Acabamento: Capa cartão
Páginas: 176
Classificação indicativa: 16 anos
Preço: R$ 44,90
Onde comprar: Amazon / Loja da Panini
Sinopse: Suzuki-kun e Takagi-san, dois estudantes do segundo ano do colegial, estão presos no dia 31 de agosto. Quando dá meia-noite, tudo volta para o dia anterior, com exceção da consciência deles. A única explicação possível é algo que Suzuki-kun deixou de fazer nas férias de verão, o maior objetivo de qualquer homem… Uma comédia jovial de loop temporal sobre encarar o amor de frente.