
Algo simples que impacta
A Prisão no Céu é um mangá de autoria de Marco Kohinata, baseado em livro do mesmo nome de Mina Sakurai (publicado originalmente no Japão em 2018 e ainda inédito no Brasil).
Completo em um único volume, teve os capítulos publicados primeiramente na revista Big Comic, da editora Shogakukan, entre março e maio de 2020. Em 2021, ganhou o Prêmio de Excelência no 24º Japan Media Arts Festival.
No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora JBC em dezembro de 2023 e só foi efetivamente publicado em julho de 2025, em uma edição bem caprichada, em seu “formato premium”. De posse do volume viemos falar um pouquinho da obra.

UM POUCO DA HISTÓRIA
O mangá tem como ponto principal uma prisão feminina em que as detentas estão não só para cumprir sua pena, como também para serem ressocializadas, trabalhando ativamente. Um desses trabalhos (e que é o abordado no mangá) é um salão de beleza, comandado por um detenta chamada Haru.
O salão em questão é aberto ao público, então qualquer pessoa que esteja passando e queira ir cortar o cabelo ou fazer qualquer tratamento capilar pode ir lá, sem qualquer problema. Entre medos, insegurança e a burocracia para cortar o cabelo, os clientes logo se deparam com um ambiente todo pintado com um belo céu azul, causando uma sensação de surpresa e paz.
O mangá é formado de capítulos autoconclusivos (mas que se entrelaçam), mostrando o dia a dia no local, as razões que levaram as mulheres a procurar o salão, e sempre focando em uma pessoa (uma jornalista, uma senhora idosa, a carcereira, etc), ao mesmo tempo em que também destaca Haru, ainda que de uma maneira diferente…

DESENVOLVIMENTO E OPINIÕES
A prisão no Céu é um mangá que tem como questão principal falar sobre a vida e o modo como os momentos dela, as pessoas com quem temos contato, o trabalho que arranjamos ou mesmo a passagem inexorável do tempo, acabam mudando os rumos e fazendo com que diversas coisas aconteçam.
A obra é do gênero drama, mas – embora seja possível se emocionar – ela não carrega a mão e a gente acaba sempre pensando e raciocinando sobre os problemas de cada pessoa sem que isso nos leve às lágrimas.
Por qual razão o trabalho atrapalha a vida pessoal? E porque as pessoas não são mais compreensivas? Será que após uma certa idade a gente não consegue criar novos laços? Será que devemos deixar para trás algo que gostamos só porque a vida diz que você deve perdê-la?
Essas e outras questões são colocadas na obra – de maneira frágil, timidamente – para que a gente pesque aquilo e comece a refletir por nós mesmos.

Evidentemente, uma das questões colocadas na obra é o preconceito para com a comunidade carcerária, especialmente a feminina. A obra mostra o quanto um determinado crime – independente do contexto – pode fazer com que as pessoas passem a pensar mal não somente de uma pessoa, mas de toda a família envolvida.
Assim, a personagem Haru é quase uma coadjuvante de luxo, pois ela é praticamente a principal, é por onde a história gira, mas a trama por inteiro se refere a outras pessoas.
Quando conhecemos melhor a sua história, por exemplo, o que aconteceu com ela e o crime que ela cometeu, a gente vê pelos olhos de outro personagem e os impactos que isso teve na vida desse outro e não o que aconteceu com Haru.


Evidentemente, existe toda uma descrição acerca da Haru, o modo como ela ficou nos primeiros dias de cárcere, o jeito dela para com os clientes no cabelereiro, etc, mas mesmo assim é muito menor do que usualmente uma obra colocaria para sua protagonista.
Isso porque ela e a prisão em si não são exatamente o ponto principal, e sim a vida de diversas pessoas e os acontecimentos que ali tiveram. É claro que, como dito, a questão do preconceito para com as encarceradas existe e é posto em debate, mas ela parece mínima no todo da obra.
Ainda assim, a gente consegue ver que os autores quiseram mostrar que – por meio de uma única detenta – as pessoas possuem individualidades, possuem histórias próprias, e não devem ser vistas como um preconceito pré-estabelecido apenas por um momento de deslize.

A obra – embora seja simplicista em certo sentido – busca nos fazer ter empatia pelas pessoas em geral, mesmo aquelas que – como Haru – cometeram um crime.
Por fim, um fato que não deve ser relevado é que o corte de cabelo é algo bem congruente com a trama, pois muitas vezes ele está associado a uma mudança, uma nova etapa na vida, um desejo de ser diferente, etc.
E as histórias apresentadas no mangá também são sobre isso. A jornalista com o fim do seu relacionamento, a senhora idosa em sua nova fase, a moça com câncer e até mesmo a irmã da Haru, todos os cortes de cabelo revelam uma nova fase para as pessoas.
Então, o mangá é sobretudo sobre mudanças, mudar a nós mesmos, nossos pensamentos e tudo mais. Ou seja, é sobre sempre nos tornarmos uma pessoa melhor…
EDIÇÃO BRASILEIRA E CONCLUSÃO
A edição brasileira de A Prisão no Céu veio no que costumamos chamar de formato premium da editora JBC. É uma edição com todas as características de um livro, no tamanho 15 x 21 cm (o mais comum em livros), com miolo em papel Pólen Bold 90g, e capa cartonada com orelhas. Além disso, há um lindo verniz localizado no título que a gente pode ficar olhando por horas de tão bonito.
É uma edição muito bem feita, com um excelente acabamento, uma boa encadernação, um bom papel, uma boa capa, etc, etc, etc. O preço, porém, é mais elevado (como costumam ser essas edições premium da editora), custando R$ 59,90 por apenas 176 páginas, o que evidentemente afastará muitos leitores.







Em se tratando da história, a melhor definição que podemos falar é que o mangá apresenta uma trama bem simples, mas impactante, daquelas que faz com que a gente saia tocado a cada capítulo lido e precisando de tempo para processar adequadamente as nossas emoções.
A Prisão no Céu é um mangá que talvez pudesse ser maior, ter mais páginas, ter mais histórias, deixando a gente apreender melhor o ambiente e a vida de Haru, mas o pouco visto já nos dá a dimensão do ocorrido, já nos fala quem ela é, e as histórias contadas já nos impactam, então é um mangá que ficou muito do jeito que é. Mas, é claro, agora queremos o livro original^^.
Então, se tiverem dinheiro ou verem a obra em alguma promoção, não deixem de comprar, pois é um título que está valendo bastante a pena.
Ficha Técnica
Título Original: 塀の中の美容室
Título: A Prisão no Céu
Autor: Marco Kohinata; Mina Sakurai
Tradutor: Cristhielle Ogura
Editora: JBC
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 15 x 21 cm
Miolo: Papel Polén Bold 90g
Acabamento: Capa cartão com orelhas e verniz localizado
Páginas: 176 (sendo 4 coloridas)
Classificação indicativa: 14 anos
Preço: R$ 59,90
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Em um salão de beleza localizado dentro de uma penitenciária feminina, Haru Komatsubara se tornou uma habilidosa cabeleireira. Enquanto cumpre sua pena, ela também corta o cabelo de clientes comuns todos os dias. Aqueles que visitam o salão se deparam com um belo céu azul, que foi pintado no teto e até mesmo nas paredes. Cada cliente acaba sentindo sua alma lavada pelas horas tranquilas que Haru proporciona. Por que ela se coloca diante do espelho como uma cabeleireira? Qual a razão para as clientes escolherem cortar o cabelo dentro daquelas paredes, sob aquele céu azulado? Uma comovente história de renascimento entre uma prisioneira e as mulheres que vivem na sociedade.