
Um novo Takashi Murakami
Pino é um mangá de autoria de Takashi Murakami (responsável também por O Cão Que Guarda As Estrelas) e foi publicado no Japão entre 2020 e 2021 na revista Manga Action, da editora Futabasha, tendo os capítulos compilados em um volume de mais de 300 páginas.
No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora JBC no dia 16 de janeiro de 2024 e foi lançado apenas no final de agosto de 2025 no chamado formato Premium da editora. De posse do mangá, viemos comentar um pouco dele para vocês.







SINOPSE OFICIAL
Em um futuro próximo, PINO é o nome da mais avançada Inteligência Artificial desenvolvida pela tecnologia, superando até mesmo a inteligência humana. Ela é utilizada em robôs para serviços diversos. Um desses autômatos é responsável por garantir os bons tratos a animais usados em testes de novos medicamentos. Porém, um dia, PINO começa a se questionar sobre sua própria existência e passa a procurar sentido naquilo que faz – sem saber que isso poderá levar à desativação de todos os autômatos dotados da mesma I.A.
HISTÓRIA, DESENVOLVIMENTO E OPINIÕES
A sinopse oficial mostra, de forma contundente, que ao ler o mangá estaremos diante de uma obra de ficção científica, mas sem revelar de maneira clara os desdobramentos dela. O título mistura investigação com vida cotidiana, culminando na questão da humanidade, do amor e dos sentimentos.
A trama tem duas partes distintas. A primeira – que acontece apenas no primeiro capítulo – conhecemos um robô chamado Pino que está encarregado de realizar testes com animais para a fabricação de medicamentos de uma empresa. Sua função – além disso tudo – é não deixar os animais sofrerem, porém o que a gente vê, na verdade, é quase uma contradição disso já que efetivamente ele termina por matar animais todos os dias.

A obra acontece no futuro daí que ainda existir testes em animais causa uma estranheza, e a gente ver um robô matando os animais – como se fosse a coisa mais natural do mundo – faz ficar pior ainda, apresentando uma grande contradição entre a ideia de futuro e inovação.
Só que isso tem uma razão de existir. Esse robô tem uma I.A (também chamada Pino) e que toma sempre as melhores decisões, seguindo regras e protocolos. Esses testes só existem para proteger as empresas farmacêuticas de eventuais problemas e Pino não consegue ir contra o seu propósito, e tudo o que faz é justamente para minimizar os sofrimentos dos seres vivos.
Daí que, quando mudam a lei proibindo totalmente os testes em animais, e a decisão da empresa é a destruição total do lugar, com todas as cobaias e o robô dentro, Pino (o robô) age contra sua programação e faz de tudo para escapar com os animais, causando enormes problemas, mas não escapando de seu fim…

A segunda parte consiste na apresentação de um outro robô chamado Pino (foram feitos diversos robôs com o mesmo nome) que cuida de uma senhora com demência, e na investigação dos motivos do acidente do primeiro robô que conhecemos, tudo isso a partir da ideia de que a I.A daquele robô teria adquirido algo impensável, sentimentos, e por isso tentou se salvar.
Toda a história do mangá é essa segunda parte (que compreende o fim do primeiro capítulo + os 14 seguintes + epílogo) e a trama se desenvolve muito bem, com a investigação de um profissional buscando a verdade, ao mesmo tempo em que vemos um robôzinho cuidar bem de uma pessoa e agindo como se fosse um filho.
Pino nos apresenta diversas questões nestas páginas que serão tratadas de uma maneira ou de outra pelo robô de mesmo nome, como o descaso do poder público com áreas periféricas (que faz com que, por exemplo, crianças tenham que ir à escola não para aprender e sim para poder comer), a poluição que degrada o mundo ano após ano, o abandono e o desleixo das grandes corporações para com tragédias provocadas por elas, etc, etc, etc.

A obra a todo momento nos lembra que o futuro grandioso (em que robôs e inteligências artificiais existem aos montes) está longe de ser algo tão benéfico assim ao planeta e às pessoas, pois o meio ambiente acaba sendo destruído, a pobreza se agrava e as benesses da tecnologia acabam ficando nas mãos de poucos.
Assim, esse segundo Pino vive em um ambiente inóspito e onde normalmente não se encontraria um robô (já que é coisa apenas para a população mais poderosa), só estando ali por uma série de situações que inclui uma tentativa de uma corporação de esconder o passado tenebroso.
E ali ele vê problemas (a alimentação das crianças, por exemplos) e por meio das considerações de sua Inteligência Artificial, busca ajudar, em especial a senhora com demência, a quem ele trata como uma mãe, justamente porque considerou necessário para melhorar sua condição de saúde.

Uma coisa importante a se saber sobre esse mangá é que as I.A dos robôs Pinos agem conforme são programados, de maneira a executar muito bem suas funções e sem reclamar. Eles não têm sentimentos propriamente ditos (como costumam acontecer em outras obras como O Código do Coração), sendo uma I.A mais fria, ainda que ajam com gentileza.
Assim, a investigação envolvendo o caso do primeiro Pino vai acontecendo sem que se chegue a uma conclusão, pois toda vez que o investigador vai questionar algum robô eles não aparentam ter qualquer sentimento e só agem de acordo com sua programação, da forma mais pragmática possível.
Até mesmo o segundo Pino que acompanhamos, quando é interpelado pelo investigador, deixa claro que suas ações são todas provenientes de sua programação, sem dar mostras de qualquer humanidade.

Ainda assim, em relação à senhorinha com demência, o segundo Pino está sempre buscando o melhor para ela, como se realmente tivesse algum sentimento, como se quisesse manter o bem estar dela ao custo de tudo, até mesmo acima de sua própria integridade.
O final pode não ser o melhor de todos (no quesito explicação), mas ele compreende e circunda bem toda a questão levantada na obra e faz um final digno, em que o sentimento, especialmente o amor, se faz presente, o amor pelas pessoas e também o amor para com quem não é humano.

A obra mostra que – do mesmo modo que somos capazes de ter sentimentos por pessoas e por animais – também podemos acabar tendp uma estima para com quem imite tais sentimentos, podemos sentir amor por I.As. Não algo romântico como em Chobits, mas sim algo fraternal, familiar, de amizade, de agradecimento, como se – independente de ser programado – aqueles seres passassem a fazer parte da vida das pessoas.
Pino não é um mangá perfeito e pode decepcionar alguns leitores por conta de certos desenvolvimentos (por exemplo, um personagem que aparece e indica ser importante, e depois some), mas no geral a mensagem que ele quer passar desde o início, ele passa, e passa bem.

EDIÇÃO BRASILEIRA E CONCLUSÃO
A edição brasileira de Pino veio no formato Premium da editora JBC, com um tamanho maior e um acabamento mais semelhante a um livro.
O produto ficou bastante semelhante à nova edição de O Cão Que Guarda As Estrelas (leia nossa resenha aqui), tendo o tamanho 15 x 21 cm, com miolo em papel Pólen Bold 90g e capa cartonada com orelhas e acabamento especial texturizado.


Assim, o miolo é apenas colado, mas de qualquer forma a encadernação é de bastante qualidade, permitindo folhear e ler sem qualquer espécie de problema. O papel é aquele excelente usado nas obras da Pipoca & Nanquim e Comix Zone, e a capa texturizada dá um toque diferenciado, mostrando ser um produto especial.
Portanto, a edição brasileira é um primor e que ninguém pode botar defeito. O único problema claro é o preço, R$ 89,90, totalmente impeditivo para muita gente
Sobre a história, acho que ela é bastante atual no que toca a questão de estima e ternura e pode servir para boas discussões acerca dos limites da Inteligência Artificial. Já tivemos no Brasil várias obras que tocavam no tema, mas só agora vemos uma obra num momento em que pessoas se consultam e conversam com I.As como se fossem pessoas reais.
No mundo do mangá a I.A tem corpo físico, de tal forma que é bem mais fácil se apegar do que a uma tela de computador. Daí que a trama mostra que – em algum momento do futuro – robôs podem ser objeto de carinho e sentimentos das pessoas para com eles.
A obra parte da ideia de que robôs possam ter sentimentos, mas talvez a verdadeira natureza da trama é justamente o contrário, o sentimento dos humanos para com os robôs. E a obra apresenta uma história muito boa, que cativa, nos emociona e nos faz pensar. Acho que vale muito a pena.
FICHA TÉCNICA
Título Original: ピノ:PINO
Título: Pino
Autor: Takashi Murakami
Tradutor: Cecilia Yuri Takahashi
Editora: JBC
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 15 x 21 cm
Miolo: Papel Pólen Bold 90g
Acabamento: Capa Cartão com Orelhas e Acabamento Especial Texturizado
Páginas: 336 (sendo 8 delas coloridas)
Classificação indicativa: Livre
Preço: R$ 89,90
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Em um futuro próximo, PINO é o nome da mais avançada Inteligência Artificial desenvolvida pela tecnologia, superando até mesmo a inteligência humana. Ela é utilizada em robôs para serviços diversos. Um desses autômatos é responsável por garantir os bons tratos a animais usados em testes de novos medicamentos. Porém, um dia, PINO começa a se questionar sobre sua própria existência e passa a procurar sentido naquilo que faz – sem saber que isso poderá levar à desativação de todos os autômatos dotados da mesma I.A. “PINO” é uma história tocante escrita e desenhada por Takashi Murakami, o mesmo autor dos sucessos “O Cão que Guarda as Estrelas” e “O Outro Cão que Guarda as Estrelas”.