JBC e a Shonen Jump

Hunter-x-HunterBoatos e especulações

É muito interessante a forma como os boatos se proliferam na internet. Uma pessoa inventa ou deduz uma informação e expressa essa sua invenção / dedução; outras pessoas leem, acreditam e repassam a informação e o que antes era uma mentira torna-se uma “verdade” incontestável… ao menos por algum tempo. Porém, de repente, vem a realidade e coloca por terra toda aquela “verdade”. Não compreendeu? Quer exemplos? Damos eles agora vindos diretamente do mundo dos consumidores de mangás:

A Panini tem exclusividade da Shonen Jump no Brasil. A JBC só consegue lançar obras muito antigas da revista

E vamos colocar outro exemplo:

Antigamente, a JBC era legal. Ela é que lançava os melhores títulos da Shonen Jump. Agora ela perdeu espaço e só lança obras curtas e desconhecidas.

Essas falas acima são típicos exemplos da falta de informação e dos boatos que se propagam pelas redes sociais. Alguma pessoa escreve, outra lê, acha que é uma verdade e vai passando para a frente sem saber que está muito equivocada.

De fato, podemos dizer que a atual “casa” da Weekly Shonen Jump no Brasil é a Panini. É ela quem lança a maioria dos títulos gigantes e de grande sucesso internacional como One Piece, Naruto e Bleach, mas isso não tem nada a ver com exclusividade.

Enigma 07

Se realmente existisse exclusividade, então por qual motivo a JBC lançou Enigma? A resposta dos boatos vem pronta: “É porque foi um título cancelado na Jump”. Então Yu Yu Hakusho? A resposta vem pronta também: “Título antigo da editora”. Mas aí a editora anuncia e lança To love-Ru e todo o papo de exclusividade some. Ainda não vimos ninguém utilizando essa ideia da exclusividade depois do anúncio de To love-Ru, mas não duvide que haverá gente disposta a dizer que a editora só o lançou por ter acabado há muito tempo (desconsiderando que existe uma continuação na Jump Square).

Esses boatos são interessantes porque nos fazem pensar em como as pessoas começam a especular certas coisas sem ter uma base concreta para isso. O papo de exclusividade da Panini é uma coisa meio sem noção, pois só o fato de outra editora estar lançando obras da mesma revista já colocaria por terra qualquer ideia parecida, mas por algum motivo as pessoas sempre tentam colocar uma justificativa que valide aquele absurdo.

Então por que não especular de forma um pouco mais correta e coerente? Veja que o fato de a Panini ter mais títulos atuais da Shonen Jump pode ser explicado facilmente com duas coisas bem simplistas:

1. A JBC não costuma mais lançar séries muito longas;

2. A Panini tem maior poder aquisitivo.

Sobre o ponto 1: A maioria dos mangás famosos da Shonen Jump tendem a ser bem longos e, por isso, a JBC não vai atrás de todos eles. Sobre o ponto 2: Por ser uma multinacional é meio óbvio que a editora italiana tem mais dinheiro para oferecer melhores propostas e, por isso, a maior parte dos títulos da Shonen Jump vai para ela.

Muito embora a nossa especulação tenha um sentido válido, ela está bastante incompleta sendo dita deste modo. Não é que esteja errado, mas tem um monte de outros fatores que precisam ser elencados e podemos considerar a nossa fala apenas uma especulação que em nada dista das especulações das pessoas que acredita(va)m na suposta exclusividade de títulos da Shonen Jump para a Panini. Afinal ninguém pode nos garantir que a JBC não tentou Assassination Classroom e o perdeu para a Panini, por exemplo. Não temos acesso às negociações, então não podemos falar absolutamente nada com 100% de certeza e nem o que levou a Shueisha a preferir uma em vez de outra.

Porém existem dados históricos – o histórico de publicação das editoras – que devemos levar em consideração e, por  meio desses dados, podemos chegar a uma especulação mais lógica e precisa sobre o porquê de a JBC ter poucas obras da Jump em seu catálogo atual (Já tem um bom tempo em que a editora só possui no máximo duas obras da Jump por mês, atualmente Yu Yu Hakusho e To love-Ru).

A nossa postagem de hoje tem dois objetivos interligados: 1. analisar o histórico de publicações de mangás da Weekly Shonen Jump pela JBC (E veja, Weekly! Havia uma revista mensal com o mesmo nome e que depois foi encerrada. Não consideraremos esta, ok?); e 2. com esta análise formular algumas especulações que visem a acabar com alguns boatos que ainda persistem por aí.

Então, vamos lá^^

***


MANGÁS DA WEEKLY SHONEN JUMP PELA JBC


Para fazer nossa especulação, a primeira coisa que devemos olhar é o histórico de publicações da editora JBC. Neste link você pode ver todos os mangás publicados pela editora desde 2001. A partir dele podemos retirar todos os mangás da Weekly Shonen Jump que foram publicados pela editora. Abaixo você confere a lista completa:

shonen-jump

O que pensar dessa tabela?

Retirando as duas edições de A sakabatou de Yahiko (que só colocamos por colocar), a lista compreende 21 publicações de mangás da Weekly Shonen Jump pela JBC. Esse é um número alto, mas sozinho ele não quer dizer muita coisa. É preciso comparar com outros dados para sabermos exatamente o que esses números significam.

O primeiro ponto a se notar é que dessas 21 publicações, 4 são relançamentos, marcados de azul: Cavaleiros do Zodíaco (outrora pela Conrad), Rurouni Kenshin, Yu Yu Hakusho – edição especial e Death Note Black Edition. Desconsiderados estes, a JBC lançou 17 mangás inéditos que foram publicados na revista mais famosa do Japão.

Esse número por si mesmo já coloca a JBC como a empresa que mais lançou obras diferentes da Weekly Shonen Jump no Brasil. A Conrad publicou 9 (boa parte deles de obras do Toriyama) e a Panini publicou apenas 8 títulos inéditos (relançamentos de One Piece, Dragon Ball e Naruto não contam, viu?). Trata-se de um dado interessante e que as pessoas simplesmente esquecem ou mesmo não sabem…

Voltando à tabela: ela mostra mais coisas interessantes, à exceção de 2005 (quando não começou a publicar nenhum Jump) a JBC lançou pelo menos um mangá da revista por ano. Além disso, somente em 2010 e 2012 a editora começou a publicação de mais de dois títulos da revista em um mesmo ano (se contássemos A sakabatou de Yahiko, 2015 também entraria nessa lista).

Esses dados significam alguma coisa? Sim, significam que  o ritmo de publicação de mangás da Jump pela JBC não mudou absolutamente nada desde que a empresa começou a investir nos quadrinhos orientais. Pelo menos no quesito, lançamentos. A média continua em pouco mais de um título por ano.

Se fôssemos fazer um gráfico de volumes lançados mês a mês, talvez veríamos que houve uma mudança realmente, mas aí teria que entrar o caso dos meio-tankos, as publicações quinzenais, etc. Porém, em questão de títulos novos anuais o ritmo realmente continuou o mesmo, a diferença básica é que a empresa começou a relançar algumas obras lançadas do passado e (juntamente com o boom de publicações da Panini) passou-se a impressão de que a editora não lança obras “atuais” da Jump.

Se olharmos o histórico mais recente, ou seja de 2012 para cá, a empresa começou a publicar oito títulos diferentes, sendo que foram 4 obras novas e 4 relançamentos. É interessante ver esses dados para podermos comparar com a Panini. Eis os títulos da Weekly Shonen Jump que a empresa italiana lançou nos últimos anos (em azul, os relançamentos):

2012: One Piece, Dragon Ball e Beelzebub

2013: Tutor Hitman Reborn e Toriko

2014: Assassination Classroom e Kuroko no basket

2015: Naruto Gold.

De 2012 para cá, ao contrário do que todo mundo pensa, praticamente não houve nenhuma diferença entre o número de lançamentos (novas obras) da JBC e da Panini. A JBC publicou 8 mangás da Jump, a Panini também^^. A diferença mais visível aqui é que a JBC fez quatro relançamentos e a Panini apenas 3.

Então porque a Panini tem mais títulos da Jump em publicação que a JBC? A resposta é até besta de tão simples: extensão e periodicidade. A Planet Mangá tem títulos mais longos que os da JBC e como ainda se utiliza da periodicidade bimestral para vários títulos acaba sendo natural a acumulação de mangás fazendo com que a Panini tenha sempre muitas obras da Jump sendo publicadas simultaneamente.

Veja que de todos os títulos que a Panini começou a publicar desde 2012, apenas Dragon Ball foi encerrado, o resto continua em publicação. Sem falar de títulos mais antigos como Bleach e Naruto Pocket que fazem o checklist da editora estar sempre recheado de Shonen Jumps. Na JBC por outro lado, apenas To love-Ru e Yu Yu Hakusho ainda estão na ativa, todos os outros já foram concluídos.

Note que essa avalanche da Panini é bastante recente, datada exatamente de 2012. Antes desse ano, a editora só tinha em seu catálogo os seguintes títulos da Weekly Shonen Jump: Naruto, Naruto Pocket, Bleach e 100% Morango. Sim, só isso. Talvez por causa dessa grande mudança, da água para o vinho, é que as pessoas tenham achado que havia uma exclusividade… talvez…


TÍTULOS ATUAIS


O que acabamos dizer com tudo isso é que, sim, a JBC ainda lança mangás da Shonen Jump constantemente, ao contrário do que os boatos queriam insinuar. Porém muita gente gostaria de saber o porquê de a editora não lançar títulos atuais e de sucesso como Boku no hero academia, Food Wars, Nisekoi ou Haikyuu. A verdade é que a gente poderia explicar isso facilmente recorrendo ao que dissemos no início, o fato de que a Panini tem mais poder aquisitivo e conseguir mais facilmente as licenças para as obras de maior sucesso. Porém isso não seria tão preciso. A tabela de lançamentos da JBC pode nos dar uma resposta melhor sobre esse assunto.

Dê uma olhada nos mangás destacados na cor amarela. Consegue reconhecer o que eles têm em comum? Eles foram os únicos que a editora começou a publicar antes de terem sido concluídos, apenas cinco deles (apenas 5 de 21 obras). E note-se que, desses cinco mangás, três deles estavam bem próximos de serem concluídos no Japão, Shaman King, Bakuman e Nura e é difícil pensar que isso foi coincidência. É claro que cada um deles tem suas especificidades, Shaman King não teve um final propriamente dito na época e Nura mudou de revista, mas de todo modo o início da publicação desses título no Brasil foi bem próximo de seu fim no Japão. As únicas exceções de verdade são Bastard (que, inclusive mudou de revista) e Hunter x Hunter, ambos em hiato eterno.

Hunter x hunter 01

O que podemos concluir disso? Que muito raramente a editora lança obras da Weekly Shonen Jump que estejam em andamento e não tenham um fim predeterminado. É uma estratégia que a JBC parece seguir desde sempre. Então é natural pensar que ver um título de sucesso e que ainda esteja em publicação nessa revista pela JBC é muito difícil, na verdade sempre foi difícil…

Não é nada impossível (pois sabe-se, por exemplo, que a editora tentou conseguir licença de Bleach no passado e também quis lançar Yu-Gi-Oh! antes de 2006, mas a Shueisha não liberou), porém a probabilidade de isso acontecer é bem baixa. O porquê de a JBC adotar essa política não dá para saber.

Em resumo, leitor, se você deseja uma obra atual da Shonen Jump é muito provável que ela chegue ao país pelas mãos da Panini. Mas não é porque a Panini tem exclusividade (ela não tem!!!!) e sim porque, em parte, TALVEZ seja uma escolha editorial da principal concorrente, a JBC, que prefere sempre pegar obras que já estão concluídas ou bem perto de serem concluídas…

A não ser que haja uma mudança repentina, não será nenhuma surpresa ver títulos como Boku no hero academia e Haikyuu serem anunciados ainda este ano pela Panini…

***

E assim terminam nossas especulações de hoje. A verdade é que parece óbvio que recentemente em se tratando de mangás da Shonen Jump, a Shueisha tem preferência pela Panini (seja pelo dinheiro, seja pelo modo de trabalhar ou por sei lá qual motivo), mas olhando esses dados parece realmente que o número de lançamentos dessa revista feito pela JBC é uma escolha própria da editora paulista. Se isso é bom ou ruim, fica ao critério de cada um…

Essa foi nossa postagem de hoje. Você sabia desses boatos, leitor? E sabia desse histórico da JBC? Discorda totalmente de nossa análise e de nossas especulações? Coloque nos comentários para que possamos discutir^^.

Biblioteca Brasileira de Mangás

12 Comments

  • E isso que você pegou apenas os que dizem “JBC não publica Jump” (como se só existisse uma Jump).

    Podemos ir mais a fundo e pegar os extremistas que dizem: “JBC não publica Shueisha” e “Panini não publica Kodansha”, mas ignoram que na JBC temos atualmente Zetman, Terra Formars e Kekkai Sensen, enquanto a Panini tem Ataque dos Titãs e Vagabond.

    É como você disse, as vezes uma mentira vira verdade absoluta do nada. Muitas vezes por pura falta de informação, e em alguns casos, apenas para “promover assunto” ou “chamar atenção” (algo que vejo muito em grupos de facebook).

    Ótimo post Kyon.

  • JMB

    Ótimo artigo, Kyon!!!!
    Particularmente não me importo se a JBC traz Weekly Jump ou não. Óbvio que trazer títulos de expressão são uma boa, mas isso não faz dela uma editora pior que a Panini no quesito títulos (ao contrário do que alguns Jumptards pensam). Só queria que ela trouxesse meu Medaka Box!
    PS.: Se for pra JBC trazer Jump, que traga da SQ >>>>>>>>> Weekly

  • Roses

    Faltou uma coisa. Na verdade atualmente nenhuma editora está interessada em publicar coisas sem fim. A maioria é finalizada antes da editora alcançar, e isso é calculado.
    A grandíssima diferença em a Panini e a JBC nesse aspecto é que a Panini trabalha bastante com Bimestral, a JBC com Mensal. Se a JBC tivesse pegado Assassination Classroom a mesma já teria entrado em hiato, a Panini por outro lado tem o dobro de tempo. De fato, a Panini deve concluir AC sem nenhuma pausa e ainda no Hype da segunda temporada que também encerra a série. Se eu fosse a editora japonesa, também iria querer lançar pela Panini.

  • Otima materia! Uma pena que muita gente tem problemas pra raciocinar. É igual a lenda que Vasco e vice sendo Flamengo o maior vice (e nem sou vascaino e sei disso!) ou que a “JBC ta enchendo as bancas com mangas e não dá pra comprar”, sendo que na verdade a diferença é só que os titulos são curtos e dão essa falsa impressão, mas a editora continua com os seus 15 a 17 mangas por mês.
    É até uma razão lógica pra alguns como eu terem mais JBC na estante do que Panini, nem todos os longos interessam a todos mas as chances de terem os curtos da JBC são maiores,

  • Felipe

    O pessoal também diz que cada autor é de uma editora. Então apenas a Panini pode publicar mangás do Akira Toriyama, e a JBC fica com o Togashi, mas a Panini publicou Trigun do Yasuhiro Nightow e isso não impediu a JBC de publicar Blood Blockade Battlefront.

    • Não é um boato propriamente dito. Tem um fundo de verdade. Perguntei para a Beth Kodama (da Panini) um tempo atrás e ela disse que depende da licenciadora. Ou seja existem casos e casos e alguns autores realmente só podem ser publicados por uma editora em cada país.

      Mas não dá para saber exatamente quais autores são exclusivos de uma editora e quais não são.

  • A JBC trabalhou com OH!GREATH, com o mangá Tenjo Tenge, mas a Panini veio com AIR GEAR do mesmo autor. Talvez a JBC não quis lançar o mangá sobre patins. Há casos e casos. Mas é bem verdade que cada editora trabalha com o respectivo autor.

    • Felipe

      Também tem o mangá Drifters de autoria de Hirano Kouta, o mesmo autor de Hellsing. O Drifters é da Nova Sampa, e a JBC ficou com Hellsing.

  • Thiago Moreira de Oliveira Pessoa

    E Boku no Hero veio pela JBC.
    Obrigado pelo ótimo texto :0

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