Resenha: O imprescindível e necessário mangá “1945”

O horror de uma guerra e uma resistência pacífica

O ano de 2007 marcou a chegada de uma nova empresa no ramo de mangás, a NewPOP. Naquele ano a Conrad ainda existia como editora independente e concorria com JBC e Panini no acirrado mercado. A NewPOP , na época, era mais uma das editoras a tentar lançar mangás, uma novata “pés no chão” e iniciou sua trajetória com a publicação do mangá 1945, da autora Keiko Ichiguchi.

Ichiguchi (também chamada de Keiko Sakisaka, seu pseudônimo) é uma artista japonesa com uma história muito interessante, desde sempre apaixonada por mangás, ganhadora de prêmios e também amante da língua italiana, chegando a se mudar para a Itália, onde traduziu várias obras para o idioma local, além de produzir por lá mesmo seus novos quadrinhos, muitos deles posteriormente lançados também no oriente.

1945, porém, foi publicado originalmente no Japão mesmo. O mangá foi serializado na revista shoujo Amie (uma antiga revista shoujo da Kodansha que existiu em meados dos anos 1990 e contou com algumas obras conhecidas como Clover, do grupo CLAMP) sendo compilado em apenas um volume de pouco mais de cem páginas.

De temática história, 1945, como o nome da obra sugere, se passa durante os anos em que se desenvolveu a Segunda Guerra Mundial, mas diferentemente de outros mangás que se passam nessa mesma época, 1945 não se foca no lado japonês do conflito. Ele se concentra na Alemanha e segue a vida de pessoas em meio ao regime nazista, indo da sútil vivência ao drama em poucas páginas. Hoje viemos falar um pouquinho mais sobre esse mangá.

  • Sinopse Oficial

Elen e Max são dois irmãos, adolescentes, que não gostam nada do estilo dos nazistas, partido que comanda a Alemanha. A maioria dos jovens se alista para trabalhar no partido, mas Elen e Max não gostam muito da idéia. Além destes dois, há também Alex, que é um dos protagonistas. Elen e Alex se conhecem e se apaixonam, mas a guerra entra na vida dos três. Max e Alex vão para a frente de batalha e lutam contra a Rússia. Max fica horrorizado com a violência das batalhas e quando retorna à Alemanha, organiza um grupo de estudantes que passa a distribuir panfletos contra o regime nazista. Por outro lado, Alex entra para a Gestapo, motivado por seu ódio aos judeus. A partir daí você segue pelo roteiro que mostra as dúvidas de todos os principais personagens frente ao conflito da guerra.

  • História e desenvolvimento

Toda e qualquer história (ou pelo menos boa parte das histórias) envolvendo a Segunda Guerra Mundial está fadada a retratar um ambiente cruel, variando de intensidade e de tratamento de obra para obra. Algumas são mais delicadas como A menina que roubava livros, outras são mais pesadas como Gen Pés Descalços. 1945 faz parte das obras delicadas, mas que com o passar das páginas vai ganhando um contorno mais pesado. Vemos o nascimento do amor entre dois jovens, mas também vemos o horror de mortes gratuitas, prisões sem sentido e condenamento de pessoas pelo simples fato de serem diferentes ou não pensarem igual aos demais.

Aos que por ventura tenham faltado à escola (ou não tenham visto nenhum documentário na televisão^^), o governo nazista tinha a ideia da supremacia de uma raça (a ariana) e considerava judeus, negros e outros povos inferiores. Durante a época de Adolf Hitler, os judeus foram humilhados, massacrados e mortos das formas mais cruéis e diversas possíveis.

Mas como eles conseguiam ser tão cruéis? O povo não se manifestava? Acontece que o regime foi moldando a mente das pessoas e boa parte do povo alemão comprou a ideia de superioridade, mas quem não foi afetado, não via diferença entre as pessoas, tendo amigos judeus e tudo mais acabava notando as discrepâncias de pensamento do Füher. Se tornar oposição ao governo era natural, mesmo correndo riscos de ser considerado traidor e ser morto, mas também era natural se acomodar e ficar na sua, com medo de represálias.

Max, um dos protagonistas da história, é o primeiro a se rebelar aos olhos do leitor. Desde sua primeira aparição ele demonstra insatisfação com o regime nazista e é questão de tempo para ele começar a resistência ao governo, divulgando panfletos condenando as atitudes tomadas por Hitler. Sua irmã Elen, por outro lado, demora um pouco a sair do lugar, mas com o passar do tempo (após ver sua amiga ser levada pela polícia pelo simples fato de ser judia, por perceber que os judeus eram mortos e ao ver demais atrocidades do governo) acaba se aliando ao irmão na confecção e divulgação de panfletos.

Elen

Porém 1945 não é só um compêndio histórico, é também uma história de amor quase ao estilo Romeu e Julieta, com impedimentos e um final trágico. Elen acaba por se apaixonar por um rapaz chamado Alex e embora não tenham famílias rivais, o modo de pensar dos dois é muito diferente, totalmente opostos. Enquanto a garota questiona o governo, Alex apoia o sistema e odeia os judeus, culpando-os pela morte de seu pai, tornando o relacionamento entre os dois uma incógnita, uma bomba relógio prestes a explodir para um lado ou outro.

É nítido que existe um amor forte entre os dois, e Ichiguchi nos mostra que mesmo dentro de um regime autoritário, pessoas com pensamentos completamente opostos ainda podem se amar, mas como levar adiante um relacionamento com alguém que defende o extermínio de pessoas? Como conciliar isso? O amor pode mudar as pessoas para melhor, entretanto, em um regime autoritário esse amor tem consequências e elas podem ser bem ruins para todos os envolvidos…

O mangá é tenso e precisa de tempo para ser digerido. Do mesmo modo que os personagens são imersos naquele clima sombrio, nós somos colocados a perceber a crueldade daqueles dias, de um modo ora sútil, ora devastador. Não há cenas grotescas no mangá, mas a maneira como certas coisas são colocadas nos fazem ver como o clima era obscuro e qualquer um que vivesse naquele tempo na Alemanha teria tido sua vida alterada, com a ascensão do Nazismo.

Entretanto, o mais interessante é como havia defensores de Adolf Hitler. Se, de um lado, vemos homens do governo sem o menor caráter a matar pessoas como se não fosse nada, de outro vemos pessoas comuns que admiravam Hitler com a mais veemente força, ao ponto de não compreenderem o porquê de alguém ser contra ele já que Adolf tinha “tirado o país da pobreza”. De modo sutil, a obra nos mostra que a cabeça das pessoas pode ser completamente manipulada por líderes populistas, de modo que elas não percebam certas barbaridades ou as achem comuns, visto que o “bem maior” foi feito.

O pensamento autoritário impregnado na cabeça nas pessoas.

Decerto, 1945 não é a única e nem a primeira obra a fazer isso, mas ela contribui de modo muito importante para relembrar essa questão e nos mostrar que salvadores da pátria com discursos contra etnias não devem ser cultuados e, tampouco, se deve idolatrar líderes, sob pena de vermos um mundo em que pensar diferente dos outros é o mesmo que um crime…

Os protagonistas da história são heróis anônimos que questionaram o senso comum (“Hitler acabou com a pobreza, com a fome, por isso deve ser louvado sempre”) e que lutaram pela mudança de mentalidade das pessoas, mesmo sabendo que não poderiam vencer um inimigo tão poderoso e que limava as vidas de seus opositores.

O mangá não possui uma história feliz. É uma narrativa de reflexão para não se esquecer do quão cruel e violento pode ser um regime autoritário. Ele serve para que evitemos a perpetuação de líderes no poder e que olhemos com desconfiança para aqueles políticos tratados como pequenos mitos por uma certa parcela da população. Em outras palavras, é um mangá que serve de aviso para que evitemos que um clima de barbárie se repita no futuro….

  • Conclusão

O mangá 1945 é uma daquelas obras de leitura obrigatória que servem para nos ensinar ou nos lembrar uma situação das mais terríveis da história da humanidade e, como dito, nos alertar para que situações assim não se repitam. É um título que merecia ser lido por todos os fãs de quadrinhos, mesmo aqueles que têm preconceitos com mangás.

Atualmente o mangá se encontra esgotado, então só dando uma garimpada em sebos para conseguir a obra.

  • Ficha Técnica

Título: 1945
Autor: Keiko Ichiguchi
Tradutor: Tatiana Napoli
Editora: NewPOP
Dimensões: 13,5 x 20,5 cm
Miolo: Papel Offset
Acabamento: Capa cartonada com orelhas
Classificação indicativa: —
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes lançados: 1 (completo)
Preço: R$ 14,00 

2 comentários

  1. Este aqui eu já tenho há algum tempo. Só ainda não li, mas dada a premissa, também acho válido que qualquer fã (pelo menos) de mangá, leia esta obra.
    Apesar de bem desconhecido por aqui, à época, o Junior acertou uma boa tacada com 1945. Não somente pelo título em si, mas pelo conjunto final da obra lançada pela NewPOP.

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