Memória: os dez anos do lançamento de “Seton”

Aquele mangá cancelado no volume 1

No mercado brasileiro de mangás acontecem coisas que a gente não consegue explicar e nem entender de forma adequada o porquê de terem acontecido. Não exatamente o porquê e sim o modo como aconteceu, como o cancelamento do mangá Seton, obra que agora em abril comemora dez anos de seu lançamento em nosso país.

Seton é uma obra de autoria de Yoshiharu Imaizumi e do aclamado Jiro Taniguchi e conta a história de um naturalista inglês de mesmo nome. Obra mais adulta, o mangá foi lançado em um acabamento diferenciado  pela editora Panini e que ela chamava (e curiosamente ainda chama) de luxo, com um papel offset e capa cartonada com orelhas. Isso tudo ao preço de R$ 15,90, um valor alto para os padrões da empresa. À época (2008), era o mangá mais caro da editora, juntamente com Lodoss War – A dama de Pharis ambos publicados nesse acabamento melhorado.

Seton começou a ser lançado no dia 03 de abril de 2008, segundo o site HQManiacs, e foi um fracasso. Não vendeu nada. O volume 2 chegou a ser anunciado para os meses seguintes, sendo adiado, adiado e adiado para irritação da meia dúzia de pessoas que compraram o título. No site Hq Maniacs, que listava os lançamentos da editora, o volume 2 apareceu por meses seguidos até dezembro de 2008 e nunca foi lançado. O volume chegou a ter a capa divulgada e apareceu naqueles checklists que eram postos nos mangás da Panini, mas ser publicado efetivamente nunca foi.

O cancelamento oficial de Seton foi ocorrer apenas em abril de 2010, quando um representante da Panini confirmou ao site Universo HQ (clique aqui para ler). Segundo ele “Seton foi descontinuado por não atender às expectativas de vendas.” e continuou “É importante lembrar que, por mais que a Panini queira publicar revistas, livros, mangás, graphic novels etc., muitas vezes a resposta de vendas simplesmente inviabiliza comercialmente determinado produto. Quem em sã consciência pode exigir que uma empresa comercialize alguma coisa para ter prejuízo?“. 

Fonte da imagem: Cantinho da Snow

Por que não vendeu? Não há muito como saber, mas provavelmente não era a época certa para esse tipo de produto. Uma obra mais adulta como as de Jiro Taniguchi hoje ainda é para um público de nicho, mas na época decerto era muito mais. Basta ver que editoras como a Zarabatana Books que publicou obras mais adultas na mesma época simplesmente desistiram do mercado de mangás. Além disso, as expectativas de venda da Panini devem ter sido muito altas e, provavelmente, a editora confiou que o nome do autor seria o suficiente para vender. Não foi.

Ao todo, Seton teve 4 volumes no Japão. Se você se deparar com o único tomo lançado no Brasil não deixe de adquirir, pois os volumes funcionam bem de forma independente. Cada volume é um pedaço da vida dele e o primeiro tomo é na juventude, resolvendo problemas de lobos selvagens que estavam ameaçando as fazendas do Texas.

Seton não foi o primeiro e nem o último mangá cancelado após o primeiro volume, mas foi o único que a gente lembra que  teve esses requintes de crueldade de o lançamento estar programado e divulgado e acabar não saindo. Vale lembrar que Lodoss War – A dama de Pharis também quase foi para o limbo. Obra em 2 volumes, o mangá teve o primeiro tomo lançado em 2008 e o segundo só 3 anos depois, igualmente por baixas vendas. O interessante é que depois do fracasso de Seton e de Lodoss War – A dama de Pharis a Panini demorou anos para investir novamente em obras com acabamento melhor. Nitidamente, a cúpula da editora deve ter pensado que o público preferia que mangá fosse barato e talvez estivessem certos na época.

Hoje as coisas mudaram. O fortalecimento da NewPOP e os relançamentos da JBC forçaram a Panini a se readequar, pois o consumidor se tornou mais exigente ao ponto de existirem alguns que não compram uma dada obra pelo tipo de papel utilizado. A empresa fez testes com alguns relançamentos como Highschol of the dead e Berserk, mas foi depois do sucesso de Planetes, em 2015, que a empresa deslanchou a publicar obras com acabamento premium e, consequentemente, com preço mais elevado.

Hoje a cobrança é por mangás de luxo, como os da JBC, Devir e Darkside, mas não parece que é algo que vá acontecer em breve, pois a cobrança não parece ser tão grande assim.

***

De Jiro Taniguchi tivemos no Brasil ainda O livro do vento (Panini, 2006) e Gourmet (Conrad, 2009), ambos fora de catálogo. Em 2017, a editora Devir publicou O homem que passeia e ainda se encontra disponível na Amazon (clique aqui) e outras lojas. Seu preço é R$ 55,00 e vem num acabamento muito bom com miolo em papel Munken (um tipo de offwhite) e capa cartonada com sobrecapa, fizemos resenha dessa obra e você pode conferir clicando aqui.

Em breve, a editora Pipoca & Nanquim publicará também um mangá do autor, chamado Guardiões do Louvre, ao preço de R$ 59,90. Ele será todo colorido, terá miolo em papel Couchê 150g, capa dura e ainda será publicado em um formato grandão, o mangá em maior dimensões já publicado no Brasil. Ele está em pré-venda na Amazon (clique aqui). Utilizando cupom guar10, você ainda ganha 10 reais de desconto na pré-venda.

Para os curiosos, em língua portuguesa ainda temos algumas obras publicadas em Portugal, O homem que passeia (2005, Panini; 2017, Devir), O diário de meu pai (2015, Levoir) e Terra dos sonhos (2016, Levoir).

Veja outras postagens da nossa série Memória.

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6 Comments

  • Seton é só mais um entre os vários títulos queimados no passado por escolhas editoriais erradas das editoras. Sanctuary, Nausicaa, Seton, MPD Psycho, entre outros, são muitos títulos que poderiam dar muito certo hoje em dia no nosso mercado…

  • Raquel K.

    Lembro até hoje de Seton e tenho aqui no meu armário muito bem guardado, na época fiquei muito frustrada pelo cancelamento . Tanigushi é um autor que sabe tocar na alma das pessoas, me emocionei no volume 1, espero que alguma editora relance essa e outras obras dele.

  • Alexandre K

    Seton é muito bom. O volume 1 apresenta uma história fechada. Comprei ele na Comix por R$1,99. Recomendo a leitura a todos.

  • Gabriel

    Esse também foi o mesmo problema de Vagabound e Evangelion, o público na época não estava preparados para comprar quadrinhos luxuosos que nos dias de hoje já são caros, na época eram muito mais isso juntamente somado com a provável falta de planejamento das editoras, agora sim seria o momento de lançar obras assim além claro que geralmente o público era massivamente infanto-juvenil, mas enfim o mercado amadureceu para caramba desde dessa época então sei lá, caso seja lançado hoje em dia provavelmente pelo menos venderá o bastante para não ser cancelado.
    Malz pelo textão Kyon.

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