Resenha: Happiness – Volume 1

Crepúsculo é passado, mas vampiros nunca saem de moda…

O fim da década de 2000 e início da década de 2010 viu surgir uma nova onda de obras com e sobre vampiros, a partir do sucesso inconteste da saga de livros e filmes Crepúsculo. Nesse ínterim, segundo reportagem do site IG, o ano de 2009 foi o que marcou de verdade a retomada dessa figura ao centro das atenções.

Na verdade, sempre se produziu e se consumiu obras com essa criatura (sejam releituras do Drácula, sejam obras completamente novas que utilizam-se desse imaginário, como Hellsing, Angel, Vamp, O beijo do vampiro entre outros), mas foi nessa época que elas predominaram. Hoje isso parece ter passado, mas como esse ser está no imaginário popular, obras e mais obras acabam sendo feitas independente de se existir ou não uma moda.

No Japão, um dos títulos recentes a utilizar-se dessa temática e a tentar um lugar ao sol é o mangá Happiness, de Shuzo Oshimi.

Happiness, edição brasileira, volume 1.

Happiness começou a ter seus capítulos publicados no Japão em 2015, nas páginas da revista Bessatsu Shonen Magazine, da editora Kodansha, e ainda está em andamento. Atualmente seus capítulos foram compilados em 8 volumes por lá, com o 9º previsto para novembro. Na obra acompanhamos um garoto chamado Makoto que um dia é atacado e se torna um vampiro, passando a ter que lidar com sua nova natureza a partir daí.

Por ser de um autor de renome (ele criou também Inside Mari e Les Fleurs du mal) naturalmente a obra foi licenciada em outros países. Nos Estados Unidos começou a ser publicado em setembro de 2016; na Itália, a obra desembarcou em outubro de 2017; e na França, em janeiro de 2018.

No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora NewPOP em janeiro de 2017, mas só começou a ser publicado no mês de junho de 2018. Já saíram dois volumes, mas só tivemos acesso ao primeiro tomo até o momento, por isso nossas impressões iniciais, que você verá a partir de agora, se referem apenas a ele. Será que o mangá tem algo mais, algo que o destaque, ou será só mais uma obra genérica sobre vampiros? É isso que falaremos a seguir.

  • Sinopse

Com uma mistura de gore e terror, Happiness é um shounen diferente que trabalha as várias facetas humanas. Na história, Makoto Okazaki é um garoto que está sempre evitando confrontos e escondendo seus verdadeiros interesses, sem saber como se expressar. Num dia fatídico, porém, Makoto é atacado e forçado a fazer uma escolha: morrer como um humano ou viver como um vampiro. Desesperado e com medo da morte, o rapaz escolhe viver, mas sua nova “vida” não é algo que ele possa fingir que não existe e o rapaz se vê forçado a encarar quem é e seus desejos.

  • História e desenvolvimento

Muitas sinopses pouco ou nada dizem sobre as obras, mas a descrição oficial de Happiness indica exatamente o que é o mangá em seu primeiro volume, uma narrativa em que vemos um garoto ser transformado em um vampiro, com ele, posteriormente, tentando resistir aos impulsos que sua nova condição lhe trará.

O protagonista da história, Makoto, não é daqueles que ao final terão suas cabeças cortadas por uma garota loucona, ele é um garoto normal que tenta viver a vida sem incomodar os outros e sem ser incomodado. Porém a obra já começa com ele sendo obrigado por um grupo de colegas de classe a comprar o lanche deles no almoço. Algo que – mesmo injusto e incomodo – o rapaz faz para evitar conflitos. As coisas começam a mudar quando, na noite desse mesmo dia, ele sai de casa com o pretexto de devolver um DVD e acaba atacado com uma garota que crava-lhe os dentes no pescoço e o deixa decidir se quer morrer ou virar um vampiro.

É a partir desse ponto o volume se desenvolve plenamente. Além de ficar com uma marca no pescoço, o rapaz terá problemas com a luminosidade, sentirá cheiro de sangue e desejará tomar todo o líquido que puder, além de ter sua mente virada por impulsos que ele pode não controlar muito bem, o que mudará a sua rotina e até a percepção de alguns de seus colegas de classe.

Makoto desejando lamber sangue

Por ser um volume de apresentação poucos personagens têm destaque e o foco acaba sendo inteiro de Makoto, para conhecermos sua natureza e sua luta com seus instintos após se transformar. O que vemos é um embate interessante entre o autocontrole e a natureza, muito embora ainda não se possa dizer quem saiu vencedor…

Fora o protagonista os poucos personagens que têm um pouco mais de cena são os que interagem com ele, como Yukiko Gosho (uma garota da escola a quem ele quase ataca) e Yuuki (um dos colegas de escola que o obrigaram a ir comprar lanches). Nenhum deles têm um grande desenvolvimento nesse tomo inicial, apenas estando presente para fazer a história girar e mostrar o citado embate entre autocontrole e natureza.

Yukiko Gosho. Suas palavras terão alguma importância na história?

Um dado interessante de Happiness é que, ao contrário de obras como Made In Abyss, sua narrativa é ágil, com várias páginas com pouco ou nenhum texto e a leitura acompanha essa agilidade, com quadros e mais quadros passando em uma velocidade insana. O mangá passa como um sopro, de tão rápido e dinâmico que é a narrativa. O autor consegue dominar muito bem a técnica narrativa, usando os quadrinhos de forma a permitir essa leitura mais ligeira.

Entretanto, por passar tão rápido, Happiness aparenta ser meio “vazio”, faltando uma substância que diga ao que ele veio de verdade. O que é mostrado no volume é apenas a nova realidade de Makoto e os pequenos problemas ocasionados por sua transformação. Mas o que há além disso? O que a história quer mostrar? O que ela quer nos passar? Mais do que isso: de onde surgiram os vampiros? Para que eles existem? Quem é a garota que atacou o rapaz? São questões que ficam e nem são minimamente pensadas nesse primeiro tomo.

Por ser um volume inicial, esses pequenos detalhes podem ser relevados sem o menor problema, pois o autor parece saber exatamente para onde está indo, progredindo a história aos poucos e, sendo assim, é preciso dar tempo para que uma obra se desenvolva e mostre o seu verdadeiro potencial.

Essa concessão acontece porque o primeiro volume agrada demais, é uma leitura incessante e viciante, a gente quer continuar lendo páginas e mais páginas quando, de repente, a tomo acaba e você precisa urgentemente do segundo número para dar prosseguimento.

Em outras palavras, Happiness é um mangá bom, com um início seduzente, que nos instiga a ler mais e mais. De fato ainda precisa exibir aquela coisinha extra que o transformará de um simples mangá de vampiro convencional para algo além, inesquecível, mas mesmo assim vale um voto de confiança e, sem dúvida alguma, continuarei a acompanhar…

  • A edição nacional

O mangá veio no formato pocket (11,5 x 17,2 cm), com miolo em papel offset 90g, isso tudo ao preço de R$ 16,00. As dimensões e especificações são as mesmas de A voz do silêncio e o volume está perfeito, totalmente maleável, não havendo qualquer demérito na edição, como é costume nos mangás da NewPOP.

“Happiness” ao fundo (lombada preta), após os volumes de “A voz do Silêncio”.

A adaptação também está muito boa, sem japonesices desnecessárias e apresentando um texto bem fluído, totalmente localizado ao nosso idioma. A revisão do texto também está perfeita, não havendo nenhum deslize em todo o volume. O trabalho da editora está impecável até onde pudemos notar.

  • Veredicto

Apesar do tema batido, Happiness consegue agradar bastante pelo ritmo da história e a capacidade do autor de utilizar os quadrinhos para fazer uma narrativa dinâmica. Você começa a ler despretensiosamente e, de repente, não quer parar.

O primeiro volume, porém, é apenas uma introdução, mostrando o início da adaptação de Makoto e as consequências de seus atos na vida de outras pessoas. O mangá ainda precisa mostrar a que veio, ainda faltando um pouco de substância, mas se apresenta com grande potencial de ser uma das melhores obras em publicação no país.

Mesmo que você já esteja cansado de obras com vampiros, ou mesmo se você nunca deu uma chance a elas, vale a pena ao menos dar uma conferida neste primeiro volume. Dificilmente você irá se arrepender de sua compra…

  • Ficha Técnica

Título: Happiness
Autor: Shuzo Oshimi
Tradutor: Denis Kei Kimura
EditoraNewPOP
Dimensões: 11,5 x 17,2 cm
Miolo: Papel Offset 90g
Acabamento: Capa cartonada simples.
Classificação indicativa: 14 anos
Número de volumes: 8 (ainda em andamento no Japão)
Preço: R$ 16,00
Onde comprarAmazon

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6 comentários

  1. “Entretanto, por passar tão rápido, Happiness aparenta ser meio “vazio”, faltando uma substância que diga ao que ele veio de verdade. (…) São questões que ficam e nem são minimamente pensadas nesse primeiro tomo.”

    Quando fiz a resenha da obra comentei a mesma coisa: foi um volume de nada. Parece pesado e pejorativo, mas não é por isso, é só que Happiness nesse primeiro volume não contou nada.

    É fácil sentir o potencial da obra, tem coisas bem interessantes e a arte do autor ajuda bastante. Comprei o segundo no final de semana, vamos ver se engrena.

    Curtido por 2 pessoas

  2. Kyon/Roses, quais as suas perspectivas para o mercado de mangás depois da explosão do mercado editorial mês passado? Eu queria que fizesse um artigo sobre isso, mas você já me disse que não tem muito tempo para fazer artigos assim, então estou esperando uma resposta aqui mesmo.
    (Só perguntando porquê tem me preocupado mesmo…)
    Aliás, ótimo review como sempre!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Rapaz, expectativas precisam de dados, no momento tá todo mundo segurando como dá, escondendo os problemas e fingindo que ainda tem gente trabalhando na redação rsrsrsrs. Piadas à parte, minha esperança é que as editoras segurem o tranco. Meu completo achismo é que agora bancas já eram mesmo, com exceção da Panini, mas mesmo ela deve em algum momento retroceder.

      O único lado bom da crise é que empresas más administradas, teimosas e burras acabam perdendo força e nivelando as coisas, abrindo chance de novas empresas inovarem e tomarem o lugar. Resta saber como essa crise vai acabar (ou se o apocalipse chega antes) e como isso refletirá no mercado de livros. Senta e assiste, é o que dá para fazer.

      P.S.: o Mercado editorial NÃO explodiu mês passado, nada daquilo é novo. As coisas levantadas e que aconteceram nessas últimas semanas são problemas ANTIGOS que foram piorando e piorando, as editoras que não publicavam mais em bancas falaram disso anos atrás!!! Saraiva está mal das pernas já fazem anos, FNAC e Cultura idem. Abril está no negativo faz anos também. Nada disso aconteceu do nada. O que aconteceu e está acontecendo é igual àqueles jogos de fazer uma torre de blocos e ir tirando bloco por bloco. O mercado editorial está há anos sendo mal administrado, tendo problemas, bloco após bloco toda a torre começa a ficar instável e pedaços começam a cair. Há o perigo de a porra toda desmoronar, mas ainda não estamos lá.

      Curtido por 2 pessoas

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