Resenha: Made In Abyss – Volume 1

A viagem ao centro do abismo não-verniano…

França. 1864. Nesse ano foi lançado por lá o livro Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne, uma das obras mais populares do escritor francês e que, até hoje, mais de 140 anos depois, ainda fascina leitores ao redor do mundo. O título do livro é autoexplicativo, mostrando que é uma obra de aventura de exploração ao centro do planeta, encontrando com criaturas fantásticas, ambientes surreais, entre outros.

A exploração do centro do planeta e a ideia da existência de criaturas vivendo debaixo da terra é até mais antiga do que o livro de Verne, perpassou o século XX e chegou ao século XXI ainda com força, com diversas teorias da conspiração sobre a existência de uma terra oca e a possibilidade de povos e cidades inteiras vivendo abaixo de nossos pés.

Na ficção, obras e mais obras ainda são feitas, cada uma a seu modo, utilizando-se de ideias semelhantes. No Brasil, por exemplo, parte da trama da novela Os mutantes, da rede Record, mostrava o mundo subterrâneo com povos habitando o local. No Japão, um dos filmes de Makoto Shinkai, Viagem para Agartha, igualmente mostrava as aventurava na exploração desse lugar misterioso.

Uma dessas obras mais atuais que se utiliza dessa premissa de explorar o planeta, mas de uma forma diferente, mais abissal, é o mangá Made In Abyss, de Akihito Tsukushi. O título parte do princípio de que existe um enorme buraco em uma região do mundo e que é impossível chegar ao fundo, devido aos diversos seres estranhos que vivem nele, bem como pela maldição que acomete quem desce. O título é uma obra que começa leve, mas que vai ganhando contornos mais pesados com o passar da história. É dessa obra que falaremos nesta postagem.

Made In Abyss, edição brasileira, volume 1.

Made In Abyss começou a ser publicado no Japão em 2012 no Web Comic Gama, presente no site Manga Life Win +, da editora Takeshobo, e se encontra em publicação até hoje, atualmente com 7 volumes encadernados. A obra tornou-se famosa mundo à fora recentemente devido à sua adaptação animada exibida na televisão japonesa entre julho e setembro de 2017, estando disponível oficialmente em nosso país por meio do serviço de streaming HIDIVE.

Quanto ao mangá, por ter poucos volumes no Japão e ser lançado em uma periodicidade meio incerta por lá, o título era meio impensável por aqui, já que são pouquíssimos os títulos nessa condição a serem lançados no Brasil. Entretanto, a editora NewPOP licenciou o mangá e começou a publicá-lo no mês de julho. Finalmente com a obra em mãos e com a leitura feita, o blog BBM vem dar as primeiras impressões sobre o mangá.

  • Sinopse

Em um mundo que já foi explorado de ponta a ponta, a única área misteriosa remanescente é o grande buraco chamado de “Abismo”. Criaturas muito estranhas e bizarras habitam as profundezas desse imenso buraco do qual não se conhece o fundo e também encontram-se relíquias que não podem ser feitas pelos humanos atuais. Os mistérios do Abismo fascinam as pessoas e as levam a buscar aventuras. Com o tempo, esses aventureiros que desafiaram esse grande buraco inúmeras vezes passaram a ser chamados de “exploradores de cavernas”. Riko, uma órfã que vive na cidade de “Orth” à beira do Abismo, sonhava em se tornar uma grande exploradora de cavernas como sua mãe e desvendar os mistérios do Abismo. Certo dia, Riko encontrou e acolheu um robô com a forma de garoto enquanto fazia explorações.

  • História e desenvolvimento

Um orfanato, uma mãe desaparecida, um robô, exploradores, monstros esquisitos e relíquias milagrosas. Eis um séquito interessante de elementos que moldam um interessante mundo de fantasia, com diversos mistérios a serem relevados, esse é o mundo Made de Abyss.

A obra acompanha Riko, uma menina de doze anos super-agitada e fascinada pela exploração do abismo, que no dia de sua primeira expedição encontra um robô (ou uma criatura que se parece com um robô) que será chamado de Reg e com quem a garota irá explorar o local posteriormente. O primeiro volume é uma grande apresentação àquele mundo, mas sem aquele didatismo de muitas obras e sim de forma normal e gradual, como se já estivéssemos inseridos no ambiente e as coisas fossem se auto-explicando aos poucos.

Riko, a protagonista.

A história do mangá começa em uma cidade ao lado de um imenso abismo, cheio de criaturas esquisitas e relíquias misteriosas. Mesmo passados quase dois milênios de exploração ainda não se sabe exatamente o que se tem no fundo do local, pois todos os que descem às profundezas, às diversas camadas dele, ou são mortos pelas criaturas ou sofrem os efeitos da chamada “maldição do abismo”, que acomete de forma mais forte a quem mais longe desce, gerando até mesmo o último sono .

Nesse contexto, Riko é filha de uma das exploradoras mais famosas, mas que está desaparecida há anos, razão pela qual a garota vive em um orfanato. Fascinada também pelo abismo, ela deseja se tornar uma exploradora como a mãe o mais rápido que puder, mas duas situações abreviam essa investida, o encontro com Reg e a chegada de uma carta.

O volume se desenvolve muito bem apresentando-se com maestria a personalidade de Riko – ultra curiosa, super agitada, etc – e as consequências de sua intempestividade, sendo sempre alvo de suspeita e castigos (castigo cruéis demais para uma menina de 12 anos) no orfanato. Do mesmo modo, somos apresentados aos perigos da exploração, ao passado de alguns dos personagens e a alguns mistérios que parecem permear a obra.

Nesse ínterim, a figura de Reg é uma das centrais. Desmemoriado e possivelmente tendo alguma ligação com as camadas mais profundas do abismo, a criatura que pode ser um robô ou algo parecido com isso, apresenta-se como um dos mistérios e também como uma das locomotivas da história, que faz a obra andar. De forma gradativa, a sucessão de acontecimentos levam Riko e Reg a iniciarem sua aventura de exploração.

A hilária expressão de “Reg” ao saber que estaria com uma régua presa em seu ânus.

Made In Abyss, porém, não é apenas isso. Além de ser uma obra de mistério e aventura, também possui diversas passagens de humor nesse primeiro volume, boa parte delas devido à curiosidade incessante de Riko, como na imagem acima, em que a garota faz de um tudo para conseguir descobrir os segredos do corpo do robô.

Nesse tomo inicial, há muito pouco drama e parte das situações que deveriam ser consideradas como cruéis acabam sendo levadas para o lado do humor, algumas vezes até certo ponto questionáveis, como o castigo de Riko ficar pendurada sem roupa. Isso não quer dizer que não exista as passagens intensas. A lembrança do passado da mãe da garota é um deles, com a força feita pela exploradora para manter a filha viva. No todo, o mangá é harmonioso e belo nesse tomo inicial. Quem viu a animação sabe que a obra tende a ser um pouco mais cruel de agora em diante, mas até aqui o título já é muito cativante e envolvente.

Por fim, uma das coisas mais interessantes desse primeiro volume é o quanto ele “rende”. Apesar de ter menos de 170 páginas, a obra é exaustiva. A gente lê, lê e lê e poucas páginas passam. Há para-textos entre os capítulos que são longuíssimos e mesmo algumas páginas de história são recheadas de explicações e mais explicações, de modo que você chega ao final com a sensação de que a leitura foi muito maior do que a quantidade de páginas parecia supor. É o total oposto de Happiness e ambas as obras são para lá de muito boas a seu modo.

Em suma, a qualidade da história é excepcional já desde o primeiro volume. As explicações foram em grande parte feitas e já sabemos o básico daquele mundo, tudo encaixado, tudo indicando os perigos que irão ocorrer no futuro. Não há dúvidas de que Made In Abyss é um mangá recomendadíssimo para todo mundo, especialmente para quem deseja uma boa narrativa de mistério e aventura.

  • A edição nacional

A edição brasileira veio no formato 15 x 21 cm (o mesmo do original japonês), com miolo em papel offset 90g e algumas páginas coloridas em couchê. As especificações são bem semelhantes a outras obras da editora como Usagi Drop e Azumangá Daioh!. O volume está perfeito, totalmente maleável, não havendo qualquer demérito na edição.

Uma das páginas coloridas da edição brasileira

Internamente, a adaptação é aquele padrão da NewPOP que sempre apreciamos sem honoríficos ou outras japonesices desnecessárias, possuindo um texto bastante fluído e amigável ao leitor. Não fosse os nomes dos animais (monstros?) serem em japonês, dificilmente um leigo acharia que a obra foi concebida no Japão.

A revisão do texto peca em alguns momentos como na imagem acima ao colocarem duzentos mil quando deveria ser vinte mil, mas no geral não há problemas graves e o trabalho está bem competente no limite do possível. Ainda assim, como sempre, é necessário um pouco mais de atenção nesse aspecto, principalmente tendo em vista que esse é o ponto de melhoria mais cobrado da editora.

  • Veredicto

O primeiro volume de Made in Abyss consegue vender a obra muito bem. Embora seja uma introdução ao início da aventura de exploração por parte dos protagonistas, todas as cartas já foram dadas, a animação e a curiosidade de Riko, os perigos ocasionados pela decida, o mistério em torno de Reg, tudo amarradinho e de forma verossímil, mostrando que o autor tem domínio pleno do roteiro e da “arte” de se fazer narrativas.

Se você gosta de obras com um pouquinho de mistério, toques de comédia e aventura, compre Made In Abyss sem medo, pois sem dúvida é um dos melhores títulos que você terá a oportunidade de ler.

  • Ficha Técnica

Título: Made In Abyss
Autor: Akihito Tsukushi
Tradutor: Karen Kazumi Hayashida
EditoraNewPOP
Dimensões: 15 x 21 cm
Miolo: Papel Offset 90g
Acabamento: Capa cartonada simples, com algumas páginas coloridas
Classificação indicativa: 14 anos
Número de volumes: 7 (ainda em andamento no Japão)
Preço: R$ 21,90
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4 comentários

  1. Comecei a ler um scan de Made in Abyss despretensiosamente ano passado e fiquei apaixonado pela série. Estou muito feliz por ela ter sido trazida ao Brasil e de um modo geral estou gostando do trabalho da Newpop. Além da versão nacional comprei um número da espanhola e posso dizer que a qualidade é muito próxima (a maior diferença é que a Ivrea trouxe sobrecapa e fiquei esperando que a Newpop trouxesse também, mas isso obviamente não compromete a edição, seria um extra).

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  2. Bom saber que o mangá era o que eu esperava. O meu vai chegar essa semana e estou ansioso para ler, já que não vi o anime.
    Obs: nem conhecia esse Hidive XD, valeu Kyon

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  3. De longe Made in Abyss foi um dos anúncios que mais me animaram, após assistir o anime eu pedia ele em todas as enquetes e espaços de sugestões. Newpop pode lançar poucos títulos no geral mas estou bem satisfeito com aqueles que eu coleciono, uns 5 no total. Agora é continuar pedindo para lançarem Houseki no Kuni hahaha.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Achei o volume 1 bem paradão. Leitura exaustiva mesmo. Muitas e muitas explicações. Espero mais ação e menos balões nos próximos volumes xD

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