Memória: o mangá que deu prejuízo em todos os volumes

E, mesmo assim, ganhou uma republicação

O capitalismo é bem claro e óbvio: se um produto não vende bem, ele logo é limado do mercado para dar lugar a algo mais lucrativo. Certamente qualquer um de vocês deve lembrar de algum produto que surgiu e pouco tempo depois já não estava mais disponível em nenhuma prateleira dos supermercados.

Essa lógica capitalista também vale para o mundo dos mangás, se um título não vende bem o suficiente ele pode ser cancelado (ou colocado na geladeira eterna). Entretanto, esse mundo das publicações impressas têm suas peculiaridades. Algumas vezes, por um bem maior, as editoras seguram um prejuízo em seus títulos e o levam até o fim. Termina por ser algo natural, pois mantém a imagem da editora como uma empresa séria e dá segurança aos consumidores de que conseguirão completar suas séries.

Porém, se uma série vai mal, as chances de vermos uma obra parecida com ela ou do mesmo autor diminuem de forma considerável, pois dificilmente a empresa apostará em algo semelhante ao que deu prejuízo uma vez. Daí que as chances de vermos a Panini relançar Homunculus ou trazer qualquer obra do autor Hideo Yamamoto são próximas a zero de tão mal que o mangá vendeu.

Essa não é uma fala exclusiva de editoras brasileiras. Editoras argentinas e italianas já comentaram a mesma coisa a respeito de séries de autores que não venderem bem, então não é uma “desculpa” das empresas e sim uma realidade, de todo e qualquer mercado mangás.

Isso não quer dizer, porém, que não existem chances de uma dada reaparecer (basta ver que títulos cancelados como Blade e Eden retornaram por outra editora) só é muito improvável. Entretanto, existe um caso de um mangá que abertamente deu prejuízo em todas as edições e, mesmo assim, ganhou uma republicação pela mesma editora, falamos de Neon Genesis Evangelion, pela JBC.

Antes de explicar a situação é preciso relembrar um pouco da história desse mangá no Brasil. Evangelion começou a sair originalmente por aqui em novembro de 2001 pela editora Conrad. Como era costume na época, a empresa publicou o título com metade do número de páginas originais, assim cada volume japonês se tornaria dois no Brasil. A obra foi lançada regularmente até janeiro de 2003, na edição 14, quando encostou com a publicação japonesa. A partir daí só ganharia volumes esporádicos, até 2007 quando saíram os volumes 19 e 20.

Antes, em 2005, a Conrad começou a publicar uma versão deluxe do mangá, dessa vez seguindo o número de páginas original, mas essa publicação durou apenas um volume. Posteriormente, a Conrad perdeu os direitos da série e até a primeira versão do mangá ficou no limbo. É aí que entra a editora JBC.

A empresa adquiriu os direitos de publicação da obra, anunciando ao público em 2010. A estratégia da empresa, porém, foi para lá de contestada na época. Em vez de começar a publicar do volume 1, a editora resolveu apenas continuar a primeira versão do mangá (aquela com 20 tomos) para satisfazer os leitores que tinham acompanhado a obra durante anos pela outra empresa.

O “primeiro” volume, o 21, foi lançado em setembro de 2010. Depois disso, a editora lançou os outros três tomos disponíveis na época em periodicidade mensal.  Os volumes finais foram lançados em 2012 e 2014 respectivamente.

A grande curiosidade sobre essa publicação é que ela foi um fracasso. No Henshin + de 2015, evento próprio da editora, o gerente de conteúdo da empresa, Cassius Medauar afirmou que essa edição de Evangelion deu prejuízo para a JBC do começo ao fim. Eis a transcrição da fala:

E vamos desmistificar mais uma coisa, Evangelion é Evangelion mais ou menos, os meio-tankos que a gente continuou da Conrad deram prejuízo do começo ao fim“.

Vale comentar que a informação foi passada em meio a uma pergunta sobre a dificuldade de se trazer obras que haviam sido canceladas por outras editoras. Caso queira ver a fala inteira e entender um pouco mais, clique aqui.

Esse cenário é ainda mais curioso já que a editora chegou a relançar a obra em outro formato. Em outubro de 2011, a JBC anunciou a republicação de Evangelion seguindo o número de volumes originais. Foi uma edição muito criticada pelas capas ruins com uma borda azul, pelo papel utilizado e tudo mais, uma edição especial que não tinha nada de especial.

De fato, embora a editora nunca tenha revelado abertamente ao público, é provável que a empresa já tivesse adquirido a licença para essa republicação na mesma (ou bem próxima a) época que adquiriu para o lançamento da primeira versão, ainda assim esse é o único caso abertamente conhecido de um mangá que deu prejuízo em todos os volumes por uma editora e ganhou uma republicação pela mesma empresa.

Depois desse caso de Neon Genesis Evangelion, a JBC nunca mais relançou uma obra a partir de onde outra empresa havia parado. Muito pelo contrário, a editora foi mais conservadora, relançando os mangás em um formato com menos volumes (os BIGs) e os destinando a livrarias e lojas especializadas.


Memória é a nossa postagem de curiosidades em que buscamos relembrar algum fato, episódio ou época do passado do nosso mercado de mangás. Ela é publicada sempre uma vez por mês, geralmente na semana final. Você pode conferir todas as postagens dessa série clicando aqui. Para ver outras curiosidades em geral, clique aqui.

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14 comentários

  1. Oh, eu quero muito encontrar os volumes restantes para completar a minha coleção. Tenho até o 20 no lançamento da Conrad, mas estou perdendo as esperanças de conseguir os 8 restantes que a JBC lançou…

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    1. Desses 8 que a JBC lançou eu tenho 7 e estou disposta a vender (piscadinha) O último volume custava 9 reais por 100 páginas, estava sem dinheiro e acabei perdendo a oportunidade de comprar…

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  2. Pois é… E pensar que eu *quase* troquei meus meio-tankos da Conrad pela edição “especial” da JBC. Ainda bem que fiquei com os meio mesmos (e completei nesse formato). O papel até hoje está branquinho. (Aliás, até meu número 1 de Cavaleiros da Conrad, de 18 anos atrás, continua branquinho… Sei das razões econômicas, mas brite não dá… – sommelier feelings)

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  3. Prova que Evangelion sempre foi uma bosta, serve nem pra gerar dinheiro, tirando as cagadas feita pelas editoras, não vingou, Blade é outro lixo homérico, que ainda tentam venerar um personagem tão vazio e sem graça. Parabéns pelo artigo.

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    1. HAHAHAHAHAHA… Somente você é o do contra aqui, campeão. Felizmente, você não é nada no meio da multidão que aprecia e que entende e compreende NGE em toda sua extensão e complexidade. Sendo que a postagem tá falando somente da edição meio-tanko. Em nenhum momento a postagem se referiu à edição especial de NGE em tanko.

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    2. Pelo menos fez jus ao nome.
      Evangelion é para um público MUITO seleto, ou você tem um amor incondicional pela obra ou odeia. Normal.

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  4. Adoraria ter EVA relançando novamente no formato de Blame ou em BIG, mas acho difícil.
    Felizmente tenho a versão em meio-tanko.

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  5. sadamoto tinha que estragar a história de evangelion com sua escrita mediocre.
    Se seguisse o anime ficaria ótimo.

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  6. E aí, Kyon, você acha que nessa política de republicações e essa constante de sci-fi na JBC podemos esperar retorno de Evangelion pela mesma? Ou, com essa desgraça, a situação vai ser similar à de Homunculus?

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    1. Comecei a ler Homunculus por scans recentemente e amei o mangá se relançassem com certeza iria comprar! Gostaria que viesse pela JBC em formato BIG. Se eu achasse alguma versão importada em inglês num preço bom também compraria. É uma pena não termos nada mais desse autor por aqui.

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  7. Fala q EVA deu prejuízo é mole. Quero ver a JBC falar isso com Yu-gi-oh. A obra saiu anos depois do sucesso do anime, as edições eram bem porcas e tinha uns erros loco.
    Mas quando o editor responsável da época, o Marcelo Del Greco, era perguntado ele afirmava q vendeu.

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