O mercado de mangás na Catalunha

Não, não se lança só mangá em castelhano na Espanha…

Mesmo existindo regiões do Brasil que possuam uma língua própria (as indígenas e o pomerano, por exemplo), o único idioma falado oficial de nosso país é o português*. Assim, programas de televisão, filmes, séries e desenhos são todos exibidos em língua portuguesa, seja com dublagem, seja com legenda. As publicações impressas também, em sua maioria absoluta, são editadas nesse idioma. É o normal, é o natural, visto que essa é a língua que “todo mundo” fala em nosso país.

Essa não é a realidade de todos os lugares, porém. Algumas terras possuem mais de um idioma oficial, existindo publicações em mais de uma língua. Na Suíça, por exemplo, são quatro idiomas oficiais, o francês, o italiano, o alemão e o romanche (também chamado de Ladino, Reto-romano ou outras denominações).

Um caso icônico, porém, e que muito nos interessa é o da Espanha. Embora o castelhano (o idioma que chamamos comumentemente de espanhol) seja o idioma oficial e a língua predominante no país, há línguas outras que são faladas em determinadas regiões, como o basco e o galego. Contudo, certamente o idioma mais relevante, existindo um número grande publicações impressas é o catalão, falado principalmente na região da Catalunha.

Clássico livro “O pequeno príncipe” em catalão

Só para se ter uma ideia da relevância do idioma, segundo o site Comicat, no ano de 2009, 12% da produção de livros na Espanha foi em catalão. Em relação aos quadrinhos esse número é menor, mas ainda relevante, cerca de 5%.

Para quem não sabe, a região da Catalunha possui um movimento separatista forte e que (embora existam muitas pessoas do lugar que se considerem espanhóis de fato e rejeitem a criação de um novo país) possui uma identidade como povo própria. Com isso, o sentimento nacionalista se tornou mais abrangente entre uma parcela da população e houve até mesmo um referendo em 2017 em que foi decidido pela separação, mas a Espanha não permitiu, intervindo na região. Recentemente um novo líder foi eleito na Catalunha, novamente um pró-separação, indicando que essa questão continuará em alta por algum tempo.

Além da publicação dos diversos livros nesse idioma, desde 2006, quando foi dada mais autonomia na região, até mesmo as aulas em escolas públicas são quase todas feitas em catalão.

A língua de um povo é parte constituinte de sua identidade, de sua cultura. A publicação de obras em catalão, portanto, é questão cultural – de preservação do idioma e das tradições do povo – e política. Existe até mesmo uma instituição catalã que ajuda financeiramente editoras, mediante certas condições, a publicarem obras nessa língua.

O livro brasileiro “Memórias Póstumas de Brás Cubas” traduzido em Catalão.

Por ser algo cultural, obviamente que também haveria a tentativa de se criar um pequeno mercado de publicações de quadrinhos japoneses em catalão e isso foi feito ao longo dos anos.

Segundo Joan Navarro, responsável pela falecida Glénat espanhola (chamada também de EDT), em uma entrevista datada de 2010, as editoras japonesas compreenderam bem a situação das obras em catalão e cobravam menos da metade dos adiantamentos que eram exigidos para as edições espanholas, o que ajudou bastante no lançamento de diversas obras.

Também contribuiu para a publicação de mangás em catalão, o subsídio dado por uma organização catalã para a tradução de obras para o idioma, juntamente com o fato de os tradutores concordarem em cobrar também um valor um pouco menor para ajudar na publicação do título.

Nessa mesma entrevista, Navarro divulgou que o primeiro volume dos mangás Naruto e Inu-Yasha em catalão venderam mais de 6000 exemplares e isso representou um sucesso absurdo na época. Esse número é 10 vezes maior do que vendia o cancelado Gintama no país.

Além de Naruto e Inu-Yasha, diversas obras famosas foram editadas no idioma, como Sakura Card CaptorsBleach e Love Hina. Mesmo algumas obras mais desconhecidas do público brasileiro como Cutie Honey – The Origin, de Go Nagai, Kimagure Orange Road, de Izumi Matsumoto, e YaWAra, mangá de esporte do Naoki Urasawa, já foram lançados em catalão, embora esta última série em específico não tenha sido concluída.

Passados 8 anos, a EDT/Glénat não existe mais e atualmente são pouquíssimos os títulos editados em catalão. Uma das obras mais importantes atualmente é Dragon Ball Super, pela Planeta Cómic, em que – diferente de quase todos os outros países – até o título é traduzido para o idioma (vide imagem abaixo).

Além de Dragon Ball Super, somente títulos como Mazinger Angels e Dragon Ball Color são editados em catalão. Ainda assim – e independente de movimentos nacionalistas e separatistas – é particularmente interessante ver como um povo consegue manter sua língua e sua cultura viva, mesmo pertencendo a um outro país, com outro idioma.

Seria realmente divertido ver um mangá editado em nheengatu ou pomerano, mas isso é algo difícil de acontecer em nosso país, pois nossa realidade é diferente e não existe uma grande organização que ajude editoras a publicar obras em idiomas periféricos. Aliás, não existe nem uma que ajude editoras a publicar em português, que dirá em outro idioma…


*A Língua Brasileira de Sinais (Libras), utilizada pela comunidade surda, também é considerada língua oficial do Brasil. Por isso enfatizamos no texto a expressão “idioma falado”.

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5 comentários

  1. Não gostei da versão catalã de Dragon Ball… Seria melhor manter o título original.
    Sobre idiomas minoritários, há mangás nos idiomas minoritários do Japão. (Ex: okinawano) ?

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    1. Conheço duas pessoas que falam pomerano e se interessam por mangás. 🙂

      Mas, na verdade, a questão mesmo é o número de falantes. Há cerca de 10 milhões de falantes em catalão. Nenhuma das línguas nossas tem esse número de pessoas. Se fosse haver alguma edição em algum idioma periférico falado no Brasil deveria ser uma com tiragem limitadíssima e provavelmente distribuída gratuitamente. Mas isso deve ser meio impossível de acontecer…

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