Shoujos: somente o ano 2000 foi pior do que 2018

Em números de títulos novos e volumes lançados no Brasil

Ano 2000. A Conrad iniciava, meio sem querer, o atual mercado de mangás no Brasil com a publicação dos dois primeiros títulos com leitura oriental em nosso país, Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco. Até então já haviam sido publicados outros mangás por aqui, como o Akira, pela editora Globo, mas todos eles eram com leitura ocidental.

A publicação de Dragon Ball e CdZ ocorreu no final do ano, então foram poucos volumes lançados naquele momento. Em 2001, porém, a coisa engrenou e com a chegada da JBC iniciou-se ali o que temos até hoje.

Nesse ínterim, desde 2001, os mangás shoujos – títulos voltados originalmente ao público juvenil feminino no Japão – estiveram presentes em nosso mercado, com a publicação de Sakura Card Captors e Guerreiras Mágicas de Rayearth, ambas pela editora JBC. Naquele ano, a editora publicou 11 volumes de Sakura e 6 de Rayeath, totalizando 17 tomos. Em um evento realizado em São Paulo, Marcelo del Greco, editor da JBC, chegou a comentar que Sakura foi o mangá que mais vendeu da primeira leva de títulos da editora (que tinha também Samurai X e Video Girl Ai), devido ao grande impulso dado pela animação na rede Globo.

O tempo passou e os shoujos continuaram a aparecer, chegando ao ápice entre 2007 e 2011, com mais de 50 volumes publicados em cada ano, sendo 78 o número máximo, ocorrido em 2009. A Panini foi a grande responsável por isso, com diversos lançamentos nessa época, chegando ao ponto de em 2010 ter 9 de seus 19 lançamentos sendo shoujos.

Lançamentos de 2010 da editora Panini. Dentro das caixas de seleção, os shoujos.

Em 2012 e 2013 o número de shoujos continuou relativamente estável, mas nesse momento as editoras passaram a diminuir a quantidade deles por aqui. Embora a gente diga “editoras”, a gente fala Panini, pois a JBC sempre publicou pouco, mantendo apenas um ou dois títulos no catálogo, enquanto a Panini lançava muitos deles em seus anos iniciais.

Devido a essa diminuição, chegou-se a ter até mesmo uma campanha nas redes sociais por mais shoujos no Brasil e que parecia ter dado resultado já que em 2015 o número deles voltou a aumentar, porém isso foi algo bastante efêmero, e os anos seguintes mostraram isso, chegando ao cúmulo em 2018. Vejam o gráfico abaixo:

Gráfico: Número total de volumes de mangás x Número de volumes de shoujos lançados no Brasil. Os dados foram obtidos manualmente via Guia dos Quadrinhos.

O gráfico mostra bem como o período 2007-2011 foi interessante em número de volumes de shoujos no Brasil, com destaque para 2008 e 2009, o primeiro por ser proporcionalmente o ano com mais lançamentos (26% do total de volumes de mangás) e o segundo por ser numericamente o ano que mais teve publicações.

O gráfico também mostra como, especialmente a partir de 2013, o número de mangás em publicação aumentou bastante, ao passo que os shoujos não acompanharam. Mesmo em 2015, quando foi lançado Aoharaido (mangá símbolo da campanha por mais shoujos no Brasil), não houve um crescimento acentuado. Vale comentar, porém, que em 2015 pode não ter tido um grande aumento no número de volumes, mas houve um aumento no número de séries, já que houve vários mangás curtos naquele ano, como A Princesa KilalaWish, Sailor V e Sailor Moon – Short Stories.

O cúmulo dessa diminuição do número de shoujos ocorreu exatamente agora no ano que passou, 2018. Apenas 16 volumes foram publicados, tornando-o o ano com o pior número de shoujos no Brasil desde 2000, quando surgiu o atual mercado de mangás. Não somente isso, o número de títulos novos também foi o menor da história. A única novidade do ano foi o volume único Prelúdio do Arco-Íris, de Osamu Tezuka, lançado pela editora NewPOP. Antes de 2018, apenas no ano de 2003 tivemos o início de apenas um shoujo, com Peach Girl, em todos os demais anos foram lançados ao menos 2 títulos novos.

Importante explicar que estamos colocando 16 volumes, mas o correto seria 15. Durante o ano foi lançado Orange #06 que, a rigor, não é shoujo, visto que todos os capítulos do volume foram publicados em uma revista seinen, mas a gente abre uma exceção porque o mangá começou a ser publicado em uma revista shoujo e por questões não muito bem esclarecidas acabou mudando de editora e indo parar em uma revista seinen. Os dados dos anos anteriores também incluem Orange como shoujo.

Então, além de Prelúdio do Arco-Íris e Orange #06, apenas outros quatorze volumes foram publicados durante o ano, são eles, 2 volumes de Kimi ni Todoke, 5 de Lovely Complex, 4 de Number Six e 3 de Ore Monogatari!!. Todos esses mangás foram concluídos em 2018.

  • 2018 poderia ter sido melhor e  as expectativas para 2019

Os números mostram muito bem que 2018 foi o pior ano para quem compra shoujos no Brasil, pois praticamente não saíram títulos novos e todas as demais séries foram, aos poucos, acabando, de modo que não restou nenhum título em publicação para 2019.

Era, porém, para o ano ter sido um pouco melhor, mas a crise atrapalhou. Um título em específico teria sido importante para mascarar esses números e sairmos de 2018 com uma imagem mais positiva, Rosa de Versalhes. Clássico dos mangás shoujos, Rosa era um título até então impensável em nosso país, mas para a surpresa de todos foi anunciado em março pela editora JBC.

A ideia da empresa era publicar o mangá ainda em 2018, mas devido a todos os problemas ocasionados pela crise editorial, ele acabou adiado para 2019. O título sairá já neste início de ano, com os dois primeiros volumes previstos para serem lançados entre janeiro e fevereiro.

Além de Rosa de Versalhes, 2019 também terá Omoi, Omoware, Furi, Furare, obra da mesma autora de Aoharaido, pela editora Panini. Ainda não há um mês exato para o título começar a ser publicado, mas deve ser ainda no primeiro semestre. Para além desses dois, a NewPOP ainda tem o mangá No café Kichijoji.

O ano de 2019 será positivo por termos finalmente a publicação de Rosa de Versalhes, mas se não forem anunciados outros títulos, o ano novamente será de poucos volumes publicados, com menos até do que 2018. Tudo o que resta a fazer é esperar e ver o que o futuro reserva…

  • Joseis

Para fechar esta postagem, é importante lembrar que em 2019 teremos o lançamento de Wotakoi, série em andamento atualmente com 6 volumes. O título deverá começar a ser publicado em fevereiro pela editora Panini.

Wotakoi se tornou famoso por sua adaptação em animê e era um título difícil de imaginar no Brasil, já que ele é um mangá josei (destinado a mulheres adultas no Japão) e quase não se lança obras dessa demografia no Brasil. Se shoujo está em falta atualmente, josei sempre esteve em falta, então foi uma grata surpresa esse anúncio. Que venha fevereiro! 🙂


Esta foi a última postagem da nossa série de Retrospectiva 2018. Para quem não sabe trata-se de uma série de postagens que fazemos todos os anos para relembrar o que de melhor e pior aconteceu no mercado brasileiro de mangás, além de outras notícias relacionadas ou não ao nosso país. Para ver todas as postagens deste ano, clique aqui.

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4 comentários

  1. É triste ver como os shoujos foram morrendo aos poucos no nosso mercadinho de mangás, pior ainda é a situação dos joseis, este que tenho preferência ao invés dos shoujos. Mas fico com uma dúvida, shoujos estão diminuindo por que as editoras não querem investir na demografia ou por que o público não demonstra tanto interesse como outras demografias? Interessante que eu estava ontem mesmo navegando pelo site da New Pop, onde tem uma pesquisa com os usuários do tipo, “qual sua demografia preferida?” e shounen ganha disparado, seguido por seinen, shoujo e lá longe josei. As vezes acho que as editoras estão entregando o que os consumidores querem.

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    1. Uma coisa para você pensar e associar com a questão dos shoujos:

      até pouco tempo atrás, quem quisesse ler um mangá um pouco diferente, como um slice of life adulto sobre nada ou um mangá de terror simplesmente não podia porque nenhuma editora ia atrás. Aí veio a Devir e lançou “O homem que passeia” e “Uzumaki”. Os dois esgotaram em pouco tempo. Qual a mágica? Se nenhuma editora trazia, deveria ser porque não tinha público, no entanto bastou vir uma editora “de fora” e virou sucesso. Do mesmo modo, a NewPOP lança mangás yaois aqui e ali. A maioria parece ter vendido muito bem porque estão esgotados. No entanto, você não vê as outras editoras brasileiras anunciando mangás yaois. Há algo que não bate. Não tem público mesmo ou é outra coisa?

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      1. Acho que aí entra uma palavra chave: Tiragem. Uma editora pode publicar um Uzumaki, lançar pelos preços altos que está sendo cobrado, fazer, digamos, 10 mil volumes e conseguir o lucro dela, e até esgotando. Para um editora como a Panini, que vende em bancas, que trabalha com tiragens astronômicas em comparação às tiragens comuns de livros, não vale o esforço fazer uma série que venderá só 10 mil ou o público não vai ver o preço com bons olhos. Pega os aumentos que deixou a galera irada em certos mangás, aquilo é o quê? Diminuição de tiragem, olha o preço.
        Ou seja, a Panini precisa de séries de vendas enormes para alimentar sua indústria. Enquanto uma editorazinha como a Devir e a NewPOP tem pouco funcionário, pode simplesmente trabalhar com tiragens menores e sair no lucro, só para a nata no Brasil que acha que 74 reais em um livro é aceitável.

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        1. P.S.: Tô falando 10 mil, mas tem livro de tiragem de 2 mil no Brasil e que se paga só nisso. Tem editoras que informam as tiragens nas últimas páginas, sai olhando nas livrarias, achar um de 10 mil é raridade. Vai saber quantos volumes a Devir e a NewPOP publicam.

          Curtido por 1 pessoa

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