Resenha: Virgem Depois dos 30

Será que o mangá fala SÓ sobre virgens mesmo?

Uma vez nos sites de notícias franceses, outra vez por meio de uma tradutora no Twitter e mais uma vez por meio de um vídeo de Youtuber brasileiro que mora no Canadá. O mangá Virgem Depois dos 30 já tinha passado pelo meu campo de visão pelo menos essas três vezes e eu posso dizer com toda certeza que eu jamais imaginaria essa obra sendo publicada no Brasil. Mesmo sendo volume único, a capa, o estilo de desenho, a temática, tudo confluía para ser um daqueles títulos totalmente alternativos que não viriam em qualquer hipótese, pois não havia editoras que pareciam interessadas em lançar esse tipo de material por aqui e, no entanto, eis que a obra apareceu.

A empresa responsável pelo título foi a Pipoca & Nanquim, uma editora novata, nascida em 2017 e criada por ex-editores da Mythos/Panini. Curiosamente, os responsáveis também ficaram sabendo da existência da obra por meio do mesmo Youtuber do qual eu havia visto um vídeo. O resto é história.

Tendo como título completo Mangá Documentário: Virgem Depois dos 30, o mangá foi publicado no Japão em 2016 pela editora Leed e se trata de uma versão para os quadrinhos do trabalho de um escritor nipônico chamado Atsuhiko Nakamura, que buscou entrevistar e analisar os virgens de meia-idade japoneses, publicando um livro sobre o tema pela editora japonesa Gentosha. O mangá ficou a cargo de Bargain Sakuraichi, mas há comentários do autor original em meio aos capítulos, para situar melhor o público perante aquelas amostras reais.

A obra foi publicada aqui no Brasil agora em maio de 2019 em uma belíssima edição com sobrecapa e tudo mais. Adquirimos o volume, o lemos e viemos falar um pouco mais sobre o título para vocês. Será que vale a pena esse mangá?

  • Sinopse Oficial

Um mangá totalmente improvável, mas absolutamente necessário. Um retrato nu e cru, sem maquiagem, de um problema real dos dias de hoje. No Japão, um em cada quatro homens solteiros acima dos trinta anos de idade nunca teve relações sexuais, o que representa mais de dois milhões de virgens! Neste mangá-documentário, acompanharemos de perto a vida de oito deles. Vidas muito reais de homens excluídos por uma sociedade individualista e egocêntrica, que tentam lidar com seus sofrimentos e desejos, com a esperança e a desilusão, com o orgulho e a vergonha, com a humilhação pública! Homens que são, ao mesmo tempo, vítimas e responsáveis pela sua condição de virgens de meia-idade, buscando a aceitação dos outros sem que eles próprios se aceitem como são. Este é o polêmico documentário do autor best-seller Atsuhiko Nakamura, que revelou o gravíssimo problema social por trás dos virgens de meia-idade existentes no Japão. O livro foi adaptado para o formato mangá por Bargain Sakuraichi, mangaká cultuado no meio artístico por seu traço meticuloso e realista. 

  • História e Desenvolvimento

A sinopse oficial deixa bem clara a natureza do mangá, ele é totalmente baseado em fatos reais, em pessoas existentes que tiveram suas histórias retratadas nos quadrinhos. Na verdade, o título nasceu originalmente como uma série de textos do escritor Atsuhiko Nakamura, convidado pela editora japonesa Gentosha a escrever para seu site. Nakamura, tendo convivido com um virgem de meia-idade e que causava problemas em seu ambiente de trabalho, teve a ideia de abordar esse assunto e começar uma série de levantamentos e entrevistas para dar luz ao problema da virgindade tardia no Japão. Publicado de forma impressa, o livro foi posteriormente adaptado em mangá por Bargain Sakuraichi, agora publicado no Brasil, e nele conhecemos a história real de oito virgens ou quase isso (vocês entenderão mais para frente).

A obra é dividida em capítulos que contam a história real de uma ou mais pessoas, sua forma de pensar, seu passado e seu presente. Com exceção de uma ou outra narrativa que termina quase de forma positiva, não são histórias com começo, meio e  fim em que o problema é abordado e resolvido, são histórias em que apenas apresentam o problema, falam dele, argumentam sobre, mas não se concluem, não trazem uma solução. Afinal, trata-se de uma obra que é, antes de tudo, um documentário, que apresenta a realidade como ela é. É claro que existe ficção na obra, a representação dos personagens, certas piadas, dentre outras coisas são criações do artista, mas a história como um todo retrata a vida real de algumas pessoas.

O mangá, em sua maior parte, pode ser definido como deprimente. Você vê a situação das pessoas, o passado delas e a atitude no presente e só consegue sentir pena da situação deles. Sim, pois, o problema dos seres retratados não é serem virgens, o problema é serem virgens por conta de tudo o que os cerca, a sociedade, as experiências passadas e, principalmente, a sua própria atitude e pensamento acerca da realidade.

Todas as pessoas retratadas na obra têm problemas de relacionamento interpessoal, não conseguindo manter um mínimo de contato educado e decente com os demais membros da sociedade, tendo medo dos demais, achando-os repulsivos ou mesmo imaginando uma realidade completamente à parte, em que todos são escória e apenas eles – os virgens – são dignos de respeito. Tudo isso contribuindo para que eles não tivessem uma experiência com o sexo oposto.

As pessoas retratadas são bem distintas. Há um ator pornô virgem; um otaku fã de animês; um otaku fã de idols; um cara de extrema-direita que passa os dias na Internet fazendo comentários xenófobos e falando mal de esquerdistas; um cara que prefere ter relações com homens por não ter sucesso com as mulheres e assim por diante. Em comum, apenas a virgindade e a dificuldade de relacionamento interpessoal, que leva muitos deles a se diminuírem, acreditar em fantasias ou mesmo atentar contra a própria vida.

O primeiro caso, de um sujeito de meia-idade que vai trabalhar em um clínica que cuida de idosos, é o mais emblemático de todos, pois visa mostrar logo de cara como a virgindade tardia é um problema no Japão não só para a pessoa como para todos a sua volta, causando rusgas no trabalho e afetando a qualidade de vida dos demais funcionários de uma empresa. Por sua personalidade distorcida e falta de tato social, ele acaba causando dando contratempos e sendo um estorvo para todos à sua volta.

Esse primeiro caso não só não mostra uma solução, como deixa latente que não existe uma “cura”. O personagem tem uma ideia fantasiosa de que um dia do nada vai surgir alguém em sua vida e aceitar ele do jeito que ele é. É um modo de pensar completamente fora da realidade e mesmo se esse ultra-romantismo acontecesse de fato e o sujeito deixasse de ser virgem não parece aos nossos olhos que ele mudaria o comportamento. É algo já enraizado em sua personalidade, afinal se ele quer alguém que o aceite como ele é, é porque não acha que precisa mudar.

O segundo caso apresentado também mostra uma fantasia por parte de um dos virgens, mas é o total oposto do primeiro. Enquanto este sonhava com a aparição de uma moça do nada, o segundo simplesmente preferia viver no mundo da fantasia para não se machucar, devido a traumas do passado. Para ele bastava os sonhos e os devaneios, por isso nem se declarar para a mulher que ele gostava ele conseguia, ou sequer tentava. Assim como todos os personagens apresentados na obra, ele é o resultado de uma personalidade que não consegue lidar bem com as experiências ruins e do confronto com a sociedade, sempre injusta e malvada.

A resignação e a fantasia de alguém que não consegue confrontar os próprios medos.

Já o caso do virgem de extrema-direita, o terceiro do mangá, é bem mais interessante por mostrar uma história de evolução de sua personalidade. Enquanto tem dificuldade de se relacionar com as pessoas e é um “ativista” de internet, proferindo ataques xenófobos e discutindo com esquerdistas, sua personalidade é daquelas odiosas (que com certeza você já viu em alguma rede social, como aqueles que atacam a imprensa, sabe?), mas ele “se regenera”. Tudo porque ele consegue superar suas dificuldades comunicativas.

Sim, pois, a dificuldade de comunicação, a falta de tato em viver em sociedade, a timidez excessiva, são todos motivos que levam as pessoas não só a serem virgens, como também a serem pessoas que causam um certo mal à sociedade. Tecer comentários tóxicos na Internet, atacar minorias, falar mal da imprensa, etc, tudo isso contribui para um clima de ódio e mal estar social que afeta todos. Uma vez mudado, o sujeito da história até ganha respeito de seus antigos rivais políticos. Sem dúvida alguma, uma história de superação.

Dentre todos os “personagens” apresentados na obra, talvez quem mais dista dessa realidade de dificuldade social, seja o virgem fã de idols. É o único representado que já teve uma namorada e é um dos únicos bem sucedidos, com um bom salário e com capacidade de falar com pessoas. Embora também tenha problemas de relacionamento, seu maior desgaste é a idealização de uma companheira. Por isso, enquanto é um membro ativo da sociedade em seu ambiente de trabalho, fora dele é um fanático por idol ao ponto de comprar centenas de unidades de um único CD apenas para conseguir ficar mais tempo apertando a mão da sua artista preferida ou para fazer essa mesma artista ser uma das mais populares.

Não é o único caso de homem idealizando mulheres, outros apresentados na obra também idealizam uma mulher e, por consequência, jamais conseguem um relacionamento. O otaku de animês deseja uma moça virgem, outro deseja uma mulher que seja parecida com uma artista e assim por diante. Casos bastante surreais de pessoas que desejam uma vida melhor, mas ficam presos a uma realidade paralela.

Analisando o mangá como um todo, talvez o tema da virgindade nem seja tão importante assim. É claro que a obra foi feita e é interessante por colocar uma luz no caso dos homens de meia-idade virgens no Japão, mas o problema maior é totalmente social, pois eles são frutos da sociedade nipônica e do modo como eles reagem a ela. Tanto é assim que dois personagens retratados no mangá não são virgens de fato. Um deles já teve relações com, nas palavras da obra, “profissionais do sexo”, mas nunca transou por meio de uma relação interpessoal saudável, o que  dá no mesmo para a questão passada na obra. É uma pessoa que tem dificuldade de interação com os demais, não consegue se relacionar com uma mulher e acaba tendo que se satisfazer “na zona”.

O outro sujeito que também não era virgem igualmente mostra problemas de socialização, ao ponto de criar para si uma realidade em que ele buscou acreditar que não era heterossexual. Esse sujeito quis acreditar que ele deveria se relacionar com homens, ao ponto de até ter pensado em mudar de sexo, mesmo não sendo transgênero (resumidamente: pessoas que não se identificam com o gênero que nasceram). Ele começou a ver vídeos pornôs de homossexuais, passou a transar com homens, tudo isso para camuflar o seu desejo de ser amado pelas mulheres e de ter uma vida “normal”. Sim, pois, tudo isso demonstra a total inabilidade social e os problemas comportamentais do jovem. Ele deseja pertencer ao padrão, mas não conseguindo pertencer quis provar para si mesmo que era o oposto, um outro padrão.

Por tudo o que a obra apresenta é óbvio que o mangá é sobre virgindade tardia no Japão, mas NÃO É SÓ SOBRE ISSO. Virgem Depois dos 30 é uma obra sobre uma sociedade doente, composta, dentre outra coisas, por pessoas que não se intimidam em ridicularizar os outros apenas por serem diferentes e por pessoas que se veem em uma situação que não conseguem lidar e acabam partindo para seus mundinhos próprios, o que ocasiona desajuste social que pode ser ruim não só para a pessoa, quanto para os que convivem com ela. Em outras palavras, esse é um mangá deprimente por ser tão real…

  • A Edição Nacional

A edição nacional veio no formato 15,5 x 22 cm (que será o padrão dos futuros mangás da editora), com miolo em papel Lux Cream (o mesmo usado pela NewPOP em GTO e pela JBC em Rosa de Versalhes e Erased, por exemplo) e capa cartonada com sobrecapa. O preço da edição é R$ 49,90.

Alguns detalhes no volume chamam a atenção, há verniz localizado tanto no título da sobrecapa, quanto na quarta-capa, dando um bom aspecto visual, destacando o títulos dos demais elementos da capa e sendo um bom agrado quanto tocamos ela. Quanto à sobrecapa em si, ela segue o padrão Devir e Panini e forma uma lombada quadrada, diferente de JBC e NewPOP.

Outro detalhe, é que a sinopse encontra-se apenas na orelha da sobrecapa, o que pode ser um problema se a obra estiver lacrada na loja. Caso aconteça isso, o cliente não conseguirá ter mais detalhes do mangá se precisar para se decidir a comprar. Em nossa opinião, seria melhor se ela estivesse na quarta-capa, mas como a maioria deve comprar via Amazon talvez não tenha tanto problema assim.

A edição física do mangá é belíssima, visualmente falando, com uma capa bem feita e um papel de ótima qualidade. O acabamento também é excelente, com miolo costurado, permitindo uma total maleabilidade das páginas, sendo bem gostoso de se folhear. Além disso, é possível abrir o mangá por inteiro, sem correr o risco de as páginas caírem. Definitivamente não há nada a reclamar dos aspectos físicos da edição.

Aquela coisa rara de conseguir abrir o mangá por inteiro

Importante mencionar que o tamanho do mangá é um pouco maior do que o Dragon Ball Edição Definitiva e um pouco menor do que os mangás do selo Tsuru da Devir, ou seja ele é bem grandinho. Abaixo vocês podem ver uma comparação de tamanhos para ter uma ideia melhor.

Comparação de tamanho dos mangás.

Em termos de texto, ele está bem adaptado, porém sofre de um excesso de notas de rodapé que às vezes prejudicam a continuidade da leitura, já que temos que parar o mangá para ver uma nota. A gente entende o motivo por elas existirem, afinal há muitos termos, questões culturais, dentre outras coisinhas que necessitavam de explicação. Para nós, porém, algumas delas eram dispensáveis, pois o próprio texto (seja os quadrinhos, seja o texto de apoio do autor) já explicariam muito bem, sem necessidade de nota. No mais, não encontrei nenhum erro de revisão e nem qualquer gargalo linguístico, então o trabalho da editora foi bastante competente.

  • Conclusão

Sem dúvida alguma, Virgem Depois dos 30 não é um mangá para todo mundo. Talvez não seja um mangá para ninguém, mas ele tem um tipo de história que precisa ser lida por todos, para que se conheça um mundo de pessoas até certo ponto surreais e vermos como várias pequenas coisinhas vão as afetando, de modo que muitas delas fiquem desequilibradas emocional e socialmente.

Talvez Virgem Depois dos 30 não seja realmente uma obra sobre virgens e sim sobre uma sociedade doente que não consegue fazer os indivíduos se sentirem bem consigo mesmos, ao ponto de inventarem fantasias e quererem viver afastados das pessoas como um todo. O mangá é deprimente, pois mostra uma realidade cruel demais, real demais, que poderia muito bem ser evitada. É sim uma obra que vale a pena ler…

  • Ficha Técnica

TítuloMangá Documentário: Virgem Depois dos 30
Autor: Atsuhiko Nakamura e Bargain Sakuraichi
Tradutor: Drik Sada
Editora: Pipoca & Nanquim
Dimensões: 15,5 x 22 cm
Miolo: Papel Lux Cream
Acabamento: Capa cartonada com sobrecapa
Classificação indicativa: 18 anos
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes lançados: 1 (completo)
Preço (Ed. Impressa): R$ 49,90
Preço (Ed. Digital): R$ 34,90
Onde comprar: Amazon (Ed. Impressa)/ Kindle (Ed. Digital)

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6 comentários

  1. Bela Resenha! Espero que abra os olhos de quem não se interessou em um primeiro momento pela obra, que como vc disse “Sem dúvida alguma, não é um mangá para todo mundo. Talvez não seja um mangá para ninguém, mas ele tem um tipo de história que precisa ser lida por todos […]”

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  2. Acho a proposta muito interessante, e embora a edição física seja bem feita, também acho o preço de capa de 49,90 MITOS meio cara. Pode ser devido à uma tiragem menor…

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