“Erased” e a história que as pessoas viram de forma errada

De quem era a cidade em que apenas “eu” não existo?

Entre o final de 2018 e o início de 2019, a editora JBC lançou 3 mangás que eram de meu total interesse, Boa Noite Punpun, Erased e Rosa de Versalhes. Essas eram obras que figuram na minha lista de favoritos (ou muito desejados) e, como tal, eu gosto de comprá-los sempre no lançamento ou o mais perto possível dele, como uma forma de demonstrar à editora que existe público para este ou aquele tipo de obra.

Infelizmente, a editora JBC iniciou um sistema de distribuição que afetou por completo o meu método de compras. Ela começou a lançar vários volumes de um mesmo mangás em um mês, tornando inviável que eu adquirisse as três séries do jeito que eu queria.

Embora esse sistema seja útil para quem mora em cidades distantes economizarem no frete, ele claramente privilegia as pessoas com maior poder aquisitivo e que pode comprar muito ao mesmo tempo, afinal só quem tem muito dinheiro sobrando consegue arcar com a publicação de diversos volumes no mesmo mês. A empresa, porém, afirmou que quem só conseguisse comprar aos poucos poderia fazer isso sem problemas, pois ela iria reimprimir mais rapidamente, caso algum volume esgotasse. Se isso é verdade, então tudo bem, não faria mal a mim e aos demais consumidores menos abastados financeiramente. O único demérito seria o fato de que eu realmente não conseguiria comprar no lançamento as obras de minha predileção.

Então, dos três títulos, priorizei Rosa de Versalhes, afinal era a obra mais importante para o mercado de mangás no Brasil naquele momento. Erased e Boa Noite Punpun eu deixei para depois, para ir comprando aos poucos. Punpun eu continuo com apenas dois volumes até o momento, já Erased consegui adquirir tudo recentemente em uma promoção totalmente imperdível. E é da minha leitura deste último título que esta postagem será dedicada…

ATENÇÃO: HAVERÁ SPOILERS

Eu era fã de Erased pela adaptação em animê e já tinha ouvido muito falar que o mangá é bem diferente da animação, mas eu não tinha a dimensão do quanto. Até um certo momento, a ordem dos acontecimentos é quase a mesma – existem certos detalhes que mudam aqui e ali, mas nada muito significativo -, porém passa um tempo e tudo é diferente. O desenvolvimento é outro, o modo como se chega ao desfecho também e o próprio desfecho é bem oposto ao visto na animação. O criminoso é o mesmo nas duas versões, porém a gente vê detalhes de sua vida no mangá que moldaram o caráter, mostrando-nos o quão sociopata ele era e, portanto, conferindo a ele um grau de desenvolvimento maior.

Para você que não conhece nada da obra, em linhas gerais, Erased conta a história de Satoru Fujinuma, um aspirante a mangaká que acaba trabalhando como entregador para pagar as contas, visto que sua carreira não consegue decolar. Satoru, no entanto, possui um poder inusitado, ele tem a capacidade de voltar no tempo sempre que algum incidente está para acontecer por perto. Ele não tem o controle sobre esse poder, quando ele percebe já fez o retorno e, para acabar com isso, ele começa a procurar o que está de errado.

Em uma dessas situações, ele acaba envolvido em um acidente e vai parar no hospital, o que faz a sua mãe ir visitá-lo e passar um tempo com ele. No meio disso, uma história acaba vindo à tona, a de uma série de assassinatos de crianças que ocorrera quando Satoru ainda era um infante. Sua mãe termina por ver um dos suspeitos em pleno ato naquela cidade e, após um tempo, ela acaba morta por ele. Fujinuma termina incriminado e o seu poder se manifesta, porém em vez de ele voltar apenas alguns minutos para tentar salvar a mãe, ele volta vários anos no passado, na época em que ele ainda tinha pouco mais de dez anos. Ali estaria a chave para salvar a sua mãe e ele não demoraria a descobrir isso.

Tudo o que falamos até aqui acontece no primeiro volume. A partir daí a história se desenvolve com Satoru buscando salvar as crianças de serem mortas, em especial sua colega de classe Kayo Hinazuki, uma menina que era meio quieta e sofria abusos de sua mãe. Logicamente existem revezes, mas não é preciso de muito esforço para saber que no fim ele conseguirá seu objetivo e todas as crianças – antes mortas naquela cidade – conseguiram sobreviver. Entretanto, há um detalhe que merece atenção, pois quase toda metade final da obra depende dele. Basicamente, o assassino encurrala Satoru e o tenta matar, o rapaz acaba salvo, porém fica em coma durante vários e vários anos.

Erased é uma narrativa de suspense e mistério, das mais interessantes possíveis, com cada detalhe sendo importante para a tensão dos futuros acontecimentos. A identidade do assassino é bastante óbvia, mas isso não é um detalhe que importa muito na história, visto que o enredo se foca na questão do salvamento das crianças, com Satoru tentando se aproximar de pessoas e ficar – ou ao menos tentar ficar – amigo delas.

Assim como eu, a maioria das pessoas conheceu Erased por meio da versão em animê e eu creio que boa parte delas viram a história de forma errada. A questão do assassino ser bastante óbvia é um desses pontos (muita gente ficava fazendo piada na época), mas o problema mesmo é o modo como as pessoas viram a relação de Kayo e Satoru, como se eles fossem de fato um casal.

Quando o tempo passa e Kayo aparece com um filho no colo e casada com outro, uma enxurrada de fãs xingou, achou ruim, como se o esforço de Satoru tivesse sido inútil, como se a garota tivesse traído ele, ou coisa assim. Esse tipo de reação nunca fez sentido. Afinal, o rapaz estava em coma e – na época em que Satoru e ela interagiam – eles eram apenas crianças. Fora que o tempo em que eles se tornaram amigos, foi um período extremamente curto.

Mesmo se hipoteticamente Kayo se apaixonasse por Satoru pelo que ele fez, nada garantiria que ela continuaria por longos e longos anos assim, afinal era criança e o passar do tempo e o crescimento faz com que nossa mente mude. Além disso, uma coisa é a garota ficar agradecida por ele a ter salvado, outra bem diferente é ela deixar de viver em favor de um amigo.

O mangá até coloca essa questão em voga, com Kayo falando isso para o Satoru após ele acordar, mas a verdade é que seria completamente inverossímil se algo assim acontecesse e, portanto, a história progrediu de forma natural, com a garota vivendo sua vida após o acidente do amigo. É claro que o animê realmente colaborou para o pensamento de que os dois fossem um casal, pois deu muita ênfase na relação deles, no fato de Satoru ficar vermelho perto dela, dentre outras coisas. Mas desde sempre ficou claro que ele não tinha interesse na menina que não fosse salvá-la.

O mangá ameniza muito isso (a cena dos dois escondidos no vagão, por exemplo, não tem aquela mesma carga um tanto quanto melosa do animê) e vemos mais claramente que a relação de Kayo e Satoru é de apenas amizade e, principalmente, deste tentando salvar a garota. Então, realmente, um grupo de pessoas viu a história de forma errada, querendo criar um casal que nunca existiu.

Erased termina no volume 8, com um final para lá de interessante e muito diferente da animação. Entretanto ainda existe um volume extra, um nono número, chamado em alguns países de Erased: Re, que conta com histórias curtas acerca de alguns personagens e o que eles fizeram após Satoru ficar em coma. O volume extra é quase por inteiro dispensável – a história da Hinazuki, por exemplo, é totalmente sem sentido, pois o rumo dos acontecimentos na história principal já dizia o que aconteceria ali, e ficou parecendo que o autor só fez o capítulo para aplacar a fúria dos fãs que não entenderam a sua escolha -, destoando apenas o capítulo final que mostra um cena tocante que interliga com o fim da obra principal.

Eu consigo enxergar bem diversos defeitos em Erased, mas não nesse ponto da história envolvendo Kayo Hinazuki e Satoru Fujinuma. Eu acho que o autor fez um desenvolvimento coerente para a relação entre os personagens e jamais consegui ver qualquer coisa entre os dois. Se os fãs da obra quisessem formar um casal com Satoru, deveria ser com Airi Katagiri, afinal é ela que ajuda o rapaz em diversos momentos, nunca duvidando dele, etc. Não à toa, o mangá termina com uma cena dos dois…

  • Ficha Técnica

TítuloErased – A cidade onde só eu não existo
Autor: Kei Sanbe
Tradutor: Denis Kei Kimura
Editora: JBC
Dimensões: 13,2 X 20 cm
Miolo: Papel Lux Cream
Acabamento: Capa cartonada. O miolo possui algumas páginas coloridas.
Classificação indicativa: 14 anos
Número de volumes no Japão: 9
Número de volumes no Brasil: 9
Preço: R$ 23,90
Onde comprarAmazon / Americanas / Submarino

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13 comentários

      1. Erased é meu anime favorito atualmente, já assisti 4 vezes. A partir de qual volume do mangá eu devo ler para ver as diferenças entre anime e mangá?

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        1. Volume 5 ou 6. Existem coisas antes diferentes, mas se você começar de um desses dois dá para ver bem as diferenças.

          Eu sugiro o 5, mas pode ser o 6 também.

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  1. O pessoal, na época do anime, assumiu que a Kayo seria o “troféu” que o Satoru ganharia por ajudar todo mundo. Ainda bem que nem o anime e nem o mangá fizeram uma desgraça dessas. Só lamentei que ele foi o primeiro amiguinho dela e nem chegaram a aproveitar muito a amizade.

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  2. Esse lance de torcer para que o Satoru ficasse com a Kayo decorre dessa maldita mania atual de shipar. Tudo tem que ter romance, td tem que ter casal. Um saco.

    Agora, o fim do anime me deixou puto pela condição do cara. Ele se esforça e perde uma grande parte da vida em um coma. Acorda sem ter tido formação ou lembranças de uma vida de colegial.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Na verdade acho que essa parte foi bastante lucrativa. Ele voltou no tempo 18 anos, mas ficou em coma por 15, então foram 3 anos de lucro. E sobre não ter memórias de uma vida colegial, ele já tem, pode não ser as mesmas se levar em conta que os assassinatos não aconteceram, mas viver novamente todo este tempo que seria uma perda de tempo. E sobre ele não ter formação, ele na verdade não precisa, pra você ser um bom mangaká você apenas precisa ser bom em desenhar e criar um roteiro legal.

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  3. SIM! Eu achei genial a Kayo ter um filho com outra pessoa, pois é assim que funciona no mundo real. As pessoas crescem, opiniões mudam. Muita coisa pode acontecer em quinze anos. E as comparações que faziam do sociopata assassino ter esperado por ele e ela não, só mostra a mentalidade imatura de alguns fãs

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  4. (spoilers)
    O pessoal viu errado porque o anime cogitou a ver errado, focou muito na Kayo, fez ela ser o fator que faz o Satoru recuperar as memórias (o que não faz o menor sentido, no mangá é a Airi que “conecta” o passado e o futuro), abordou temas diferentes, cortou completamente os temas do mangá e diminuíram a importância dos personagens secundários (que é muito importante tematicamente no mangá).

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  5. (Spoilers)
    O anime apesar de ser bom, foi mal adaptado em alguns pontos, o principal deles é em destacar a importância da Airi (talvez porquê durante o desenvolvimento da trama ela é menor de idade?).
    Ela é um dos personagens mais importantes (ou a mais importante?) e se ele consegue mudar o passado é por causa dela e como ela o muda.
    Quando chega no final da a entender que ele foi o herói e não “ganhou” nada, quando na verdade ele não só salvou as crianças como se tornou uma pessoa melhor (isso fica muito evidente quando ele relê a redação).
    Aquele final dos dois se reencontrando muda totalmente de significado/importância, acredito que se ele tinha que ter um par romântico, deveria ser ela e só ela.

    De qualquer forma é um dos melhores mangás lançados no Brasil, sem duvidas.

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