Redescobrindo a história dos mangás no Brasil: Conheça “Sua Majestade O Imperador Hirohito”

Um dos primeiros a sair no Brasil…

No dia 02 de setembro de 2019, o nosso seguidor Cassiano nos marcou no Twitter para nos mostrar uma descoberta para lá de interessante, um dos primeiros mangás a sair no Brasil e que ninguém tinha ciência dele até então, Sua Majestade O Imperador Hirohiko. Publicado por aqui em 1989, o título era tão desconhecido entre os consumidores de mangás e hqs que nem tinha cadastro no Guia dos Quadrinhos, o maior banco de dados sobre a história dessa arte no Brasil.

Notadamente ficamos interessados em conhecer mais dessa obra e fomos ver se o Mercado Livre ou a Estante Virtual possuíam algum exemplar do mangá, dada a raridade do mesmo. Existiam alguns sim, e, surpreendentemente, sem custar os olhos da cara. Comprei de imediato e aguardei chegar.

Sua Majestade O Imperador Hirohito é uma biografia do 124º imperador do Japão, o imperador da Era Showa (25 de dezembro de 1926 até 7 de janeiro de 1989), e foi publicado no Japão pela editora Sunmark em 1987, tendo como responsáveis Haruhiko Shiratori no roteiro e Seigo Tsubaki nos desenhos. A supervisão ficou por conta de Toshiaki Kawahara, que escrevera uma biografia de Hirohito. No Brasil, foi publicado em 1989 pela Vox Editora, posteriormente chamada apenas de Vox Gráfica. Ele possui apenas um volume, em um total de 260 páginas.

A história não é outra coisa senão o que aparenta, uma biografia em quadrinhos do Imperador Hirohito, mostrando o seu nascimento e passando por vários anos de sua existência. É um produto interessante para quem deseja conhecer um pouco mais da história japonesa do século XX, mostrando o ponto de vista da pessoa mais importante da nação. A obra traça a figura de Hirohito como um pacifista e digno de adoração por parte do povo, embora tenha sido em seu governo que o Japão se envolveu em uma guerra contra a China, além da Segunda Guerra Mundial.

Não é um mangá que se aprofunda nas questões importantes, ficando apenas exatamente na superfície dos acontecimentos além, é claro, de exaltar a figura do Imperador, mostrando como as pessoas do povo e os líderes de outras nações, com o mínimo contato com Hirohito, o viam como alguém exemplar e digno de confiança.

  • Sobrecapa, capa com orelhas e etc.

A maior importância da obra está por seu caráter histórico em nosso país, reescrevendo diversos dados que tínhamos como certo até então. Por exemplo, qual foi o primeiro mangá com sobrecapa publicado no Brasil? A resposta seria a primeira edição da JBC de Battle Angel Alita (sob o título de Gunnm), lançado lá em 2003, porém agora sabemos que isso era uma inverdade. Sua Majestade O Imperador Hirohito, já em 1989, foi lançado no Brasil com sobrecapa.

Vale mencionar que a capa e a sobrecapa são a mesma imagem, a única mudança é que a sobrecapa possui detalhes em dourado no título. O mangá ainda tem orelhas, sendo também o primeiro mangá no Brasil a ter esse tipo de coisa. Na verdade, todo o acabamento dele é pioneiro, pois possui também miolo em papel offset. Passados 30 anos do lançamento, o exemplar que compramos ainda está bem conservado na medida do possível.

  • Dimensões e o Sentido de Leitura

O tamanho do mangá é o 13,5 x 19,1 cm, um pouquinho menor do que o antigo formato padrão da JBC (13,5 x 20,5 cm), e o sentido de leitura é o ocidental, como se publicava na época. Ou seja, em vez de se ler “de trás para a frente”, lia-se no sentido no normal. Entretanto um detalhe é curioso. Esse mangá foi feito de um jeito diferente do que era costume na época, sem espelhamento.

Para você que não conhece, os primeiros mangás publicados no Brasil (como Lobo Solitário, da Cedibra, e Akira, da Globo) tinham os quadrinhos espelhados, isto é, a imagem era invertida no eixo horizontal, igual ao que acontece quando olhamos num espelho, ou seja, a direita e a esquerda são invertidas (saiba mais, clicando aqui). Isso era feito para que a ordem da leitura dos quadrinhos fosse igual ao que era normal por aqui.

A Vox Editora fez diferente. Os quadrinhos foram mantidos exatamente do mesmo jeito que foram concebidos no Japão e para indicar o sentido de leitura a empresa colocou setas. O resultado é algo esquisitíssimo, você lê da esquerda para a direita, mas a ordem dos quadrinhos é da direita para a esquerda, de modo que é difícil você se acostumar. Um caso único em nosso mercado até onde a gente sabe. Veja abaixo:

Esse não é o único detalhe que difere das publicações de hoje em dia. Há todo um conjunto de coisas que certamente causam estranheza em quem lê. A seguir comentaremos mais algumas dessas coisas.

  • Mais Detalhes

Atualmente, as editoras brasileiras costumam manter as onomatopeias japonesas e colocar um texto ao lado para indicar o que aqueles caracteres querem dizer. A editora Vox, por outro lado, deixou as onomatopeias intocadas, mas não colocou legendas nelas, de modo que elas aparecem e ficam por isso mesmo.

Onomatopeias

O mangá foi publicado em 1989, então limpar os textos em japonês das páginas era algo um tanto quanto complicado, logo a editora Vox não os tirava, mantendo o texto no original por lá, como na imagem a seguir. A tradução do que está escrito no quadrinho, a empresa colocou em um outro quadro na mesma página.

Não era apenas esse tipo de texto que a empresa deixava no original. Se um livro ou uma placa contém texto em japonês, as editoras brasileiras atualmente ou substituem por um texto em português ou colocam uma legendinha, a Vox deixou tudo em japonês e não colocou nota em quase lugar nenhum, de modo que o leitor perderia algumas referências que poderiam ser importantes.

Outro detalhe de texto interessante é que ele mostra bastante coisas de seu tempo. Não raras vezes, quando devia ter um acento agudo a empresa colocava uma aspa simples (coisa até usual em alguns livros mais antigos), algumas vezes usam palavras formais demais e assim por diante. Mas o que eu achei realmente interessante e gostei foi ver o uso de palavras que hoje soam até antiquadas, como no caso abaixo em que usam “bêbedo”, em vez de “bêbado”.

Pelas imagens que já mostramos aqui fica claro que outra coisa que causa estranheza são as letras utilizadas e a disposição delas dentro dos quadrinhos, tudo feito à mão, não sendo uma edição que causa brilho aos olhos. Somente esses detalhes já mostrariam que a obra foi publicada muitos anos atrás.

  • Data exata de Publicação?

O mangá foi lançado no Brasil em 1989, como já comentamos. O próprio mangá informa o ano de publicação, mas quando em 1989? Provavelmente em janeiro ou fevereiro. O exemplar que a gente comprou veio com uma dedicatória e ela possui a data de 03/03/89.

Então, a não ser que o produto tenha sido lançado nos primeiros dias de março e a pessoa comprou voando, o mangá saiu em janeiro ou fevereiro de 1989. Esse é o mais próximo que podemos chegar da data de publicação. O que não conseguimos descobrir é o preço que ele teve na época…

  • Em conclusão

A bem da verdade, esse mangá seria só mais um entre muitos se fosse publicado hoje em dia. Seria apenas algo aleatório e sem nada demais, totalmente dispensável. Tendo sido publicado em 1989 e com ares únicos, ele ganha um espaço interessante na história dos mangás do Brasil. Foi um dos primeiros a sair no país, foi o primeiro tankobon (volume completo) ainda que em sentido de leitura ocidental, o primeiro a ter capa com orelhas, o primeiro a ter sobrecapa, etc.

Esse caso levanta uma questão importante, existirão outros mangás que terão sido publicados por aqui e ninguém tem ideia? Nada garante que não.

  • FICHA TÉCNICA

Título Original劇画 天皇陛下―その激動の歳月
Título Nacional: Sua Majestade O Imperador Hirohito
Autor: Haruhiko Shiratori; Seigo Tsubaki
Tradutor: Augusto Yamazato
Editora: Vox Editora
Páginas: 260
Dimensões: 13,5 x 19,1 cm
Miolo: Papel Offset
Acabamento: Capa cartonada com orelhas, sobrecapa, miolo costurado.
Classificação indicativa: não há
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes lançados: 1 (completo)
Preço: Desconhecido

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5 comentários

  1. Foi um mangá bem a frente do seu tempo, fiquei curioso vou dar uma olhada na Estante Virtual depois, cara apesar de claro as limitações da época ele tem coisas que a Panini, JBC e New Pop só foram implementar anos depois.

    Curtido por 2 pessoas

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