Resenha: Morte – O Anjo Que Chora Entre Sonhos (Light Novel)

A conclusão de uma série interessante

Chegou ao fim no Brasil a publicação da light novel Morte, de Keika Hanada, com o lançamento do terceiro e último volume em agosto pela editora NewPOP. Já fizemos resenha do primeiro volume (clique aqui), do segundo (clique aqui) e agora falaremos do terceiro e último, que tem como subtítulo “O Anjo Que Chora Entre Sonho”.

Para quem chegou aqui e ainda não sabe o background da série, a gente explica. A história se passa no nosso mundo, em alguma época dos anos 2000, existindo computadores, celulares conectados à Internet e tudo mais. No entanto, existe uma doença misteriosa chamada Morte, que atinge apenas jovens e que os impele a cometer suicídio antes de se tornarem adultos. Como pouco se sabe sobre a doença, há muito preconceito e muitas dúvidas, de modo que ainda há ares de mistério em relação a essa enfermidade, o que gera o surgimento de instituições e até mesmo seitas em torno dela. O que se sabe, porém, é que os jovens simplesmente não desejam morrer, no entanto algo acontece com eles, ficando como se tivessem sido possuídos e o suicídio se torna inevitável.

O primeiro volume da obra é quase totalmente à parte, com uma história de mistério intensa envolvendo uma sinistra instituição chamada Doceo (uma espécie de colégio interno feito para criar substitutos para os filhos que morrerão devido à doença misteriosa) e que se encerra ali mesmo, ainda que algumas pontas fiquem soltas, como o sumiço de uma certa personagem importante. Embora funcione como (e seja de fato uma) continuação, o segundo volume é uma nova trama, mais leve e com um novo protagonista e narrador, focando-se agora em Gratia, uma instituição em que jovens portadores de Morte acabam encaminhadas pela dificuldade de suas famílias em lidar com elas. Alguns personagens importantes do primeiro livro aparecem como coadjuvantes aqui (Doudou e Manon, por exemplo) e um coadjuvante do primeiro, Amiya, aparece como importante no segundo (e mais ainda no terceiro).

ATENÇÃO: HAVERÁ SPOILERS NO TEXTO

Se o segundo volume é uma história à parte do primeiro, o terceiro é continuação direta do segundo. Ao final do livro dois, Dante encontra Amiya com cortes em seu pulso, indicando que a garota teve os primeiros sintomas da doença Morte e o livro três começa exatamente daí, com Dante apreensivo quanto à situação da garota. Uma série de questionamentos tomam conta do rapaz e, ainda com esperanças de que ocorra um milagre e a garota fosse curada da doença, ele resolve levar a menina para Roma, para que ela vivesse feliz e mais livre, longe de Gratia.

O volume final é dividido em duas partes distintas. Na primeira, embora exista o drama da doença de Amiya ir se manifestando cada vez mais, temos uma parte mais leve, com um clima de vida cotidiana, bem parecido com o que foi o volume dois, sem muitas reviravoltas. Essa é uma parte dedicada a vermos amplificada a afeição de Dante por Amiya e a de Amiya por Dante, mostrando como eles se dão bem e como precisam um do outro. Lá no segundo volume, isso já fora mencionado (ou antes sugestionado) por Doudou e Manon, mas só agora os sentimentos dos dois se afloraram. Infelizmente, a história deles não vai para a frente, a doença avança inexoravelmente e Amiya termina por virar um anjo, daí o subtítulo “O Anjo Que Chora Entre Sonhos”.

A segunda parte do livro é intensa, relembrando bastante o estilo de “A garota do funeral marítimo”, com um mistério e um clima de suspense. Dante retorna para Gratia após os incidentes em Roma e descobre que Alan, o cozinheiro, abandonou o local logo após ele ter ido embora com Amiya, e isso faz o rapaz ficar desconfiado de alguma coisa, como se o sumiço de Alan não fizesse sentido.

Uma série de acontecimentos leva Dante a uma prisão e a encontrar personagens cruéis, enigmáticos e, claro, doidos, que veem um mundo de uma maneira completamente deformada. Existe toda uma apreensão nessa segunda parte sobre os rumos da história e de como o protagonista ficará. Embora você já imagine o que irá acontecer, conforme as páginas vão passando mais e mais você fica desejoso em saber o modo como as coisas irão prosseguir.

Uma figura importante nesse livro é a inicialmente sem nome “cópia de Manon”. Em “A Garota do Funeral Marítimo” ela estava em Doceu sendo criada para ser a substituta de Manon e acabou arquitetando para que Alan matasse Doudou. Ela acabou escapando do Doceu e só foi reaparecer no final de “A Donzela Sacrificial de Gratia”, confrontando novamente Alan e parecendo o cooptar para algum plano para lá de sinistro. O resultado a gente viu nesse volume, com sua ação para lá de cruel e que acabou causando danos aos protagonistas. Além de tudo isso, ela é a responsável por mais uma discussão sobre a natureza da doença Morte, conjecturando que ela seria como uma espécie de duplo que se apossaria do corpo da pessoa para matá-la. Assim como outras teorias, porém, não era objetivo da história desenvolver e não houve como se provar ou refutar.

Alan é outro personagem de destaque desse livro, principalmente por seu fechamento, conseguindo descobrir que as amarras da sociedade não lhe diziam muito respeito. Para quem não lembra, ele era uma pessoa intersexo e sempre se afirmou como homem (daí sua parte de sua revolta ao ir parar em Doceo e ser treinado para substituir uma garota), no entanto ao ter que usar um vestido dentro de uma realidade pouco usual, ele conseguiu perceber bem que não precisava se enquadrar no binarismo padrão. É muito interessante como um tema tão em voga quanto questões de gênero foi tratado por Keika Hanada de uma maneira interessante, encaixando diretamente na história, como forma de determinação de parte de seu perfil e mostrando todo um desenvolvimento  dele enquanto personagem.

Para terminar, não se pode deixar de falar um pouco mais sobre o ponto mais controverso do livro, o amor de Dante por Amiya e a decisão final de ambos. Desde o volume 2 estava claro que a história estava direcionando para isso, mas o modo como ela caminhou mostrou momentos tensos e estranhos. Amiya pedir para eles fingirem serem namorados foi algo para lá de estapafúrdio (o momento mais “light novel japonesa” de toda a light novel^^), mas o que foi esquisito de verdade foi a petição seguinte da garota, a de que Dante a matasse.

Esse é um ponto que a gente já conhecida de antemão (estava na sinopse do volume 3), mas o modo como Dante reagiu e as consequências de suas decisões foram impactantes para o decorrer da trama, com Dante a matando, Amiya se transformando em um anjo, dentre outras coisas. Toda a situação da segunda metade da história aconteceu unica e exclusivamente pela decisão de Dante, de modo que seu sofrimento bem como o desfecho de alguns personagens aconteceram unica e exclusivamente por uma determinada escolha sua. No fim, tudo se resolve, o tempo passa e Dante já é um novo homem. Assim como Alan, ele já deixou para trás as amarras do passado e conseguiu até mesmo se confrontar seu pai.

A gente só não pode dizer que todo o final foi bom, pois a decisão de Dante não teve uma discussão mais aprofundada. Dante aceitou matar Amiya como se não fosse nada, como se não tivesse hesitação ou consequências. O pedido da garota poderia abrir uma intensa discussão sobre eutanásia, afinal Amiya é um paciente terminal que não estava mais aguentando viver. Inevitavelmente ela iria sucumbir para a doença e a garota preferia escolher o momento da morte. A questão é que isso praticamente passa batido, e quase não há discussão nesse volume. O foco acabou se tornando a relação de Dante frente ao pedido e as consequências de suas decisões.

Está certo que a garota acabaria morrendo de uma maneira ou de outra, mas é estranho que Dante pouco ou nada tenha pensado sobre os sofrimentos de Amiya ao morrer. Ao decidir matá-la, ele nem pensou na ideia de sofrimento daquele momento, da dor que ela sentiria, etc. Quem já sofreu algum acidente ou quase se afogou sabe bem o terror que são aqueles momentos e, no entanto, Dante nem conjecturou isso.

É preciso ficar claro que o problema não é exatamente esse. Se você olhar bem, a realidade era que Amiya já tinha tentado tirar sua vida várias vezes, já havia sofrido muito e muito, então um único sofrimento, um único momento a mais ou menos, não faria tanta diferença assim. Se a gente pensar dentro do contexto, faz sentido.

O problema é a falta de desenvolvimento dessa questão em relação ao posicionamento de Dante. Ficou uma história convencional, daquelas em que o amor nos leva a fazer tudo, sem pensar nas consequências. Dante a matou, sofreu por ter a matado e vida que segue. Quando ele hesitou, também hesitou por amor e não por questões mais complexas. Do jeito que foi feito, poderia até ficar parecendo que Dante era só um assassino qualquer que não se importava com as pessoas e isso que causa estranheza. Outros desenvolvimentos da história buscaram tirar essa ideia, mas de qualquer forma foi bem esquisito essa parte da narrativa.

Não me entendam mal. Eu adorei esse terceiro livro, ele quase por inteiro é muito bem organizadinho, bem desenvolvido e tudo mais, porém isso não me impede de ver algumas inconsistências e de desejar que a obra fosse melhor. Morte: O Anjo Que Chora Entre Sonhos é uma historinha que mistura romance e suspense de uma forma muito legal, que te cativa e permite que você possa sorrir ao terminar a história, ainda assim não é melhor que o primeiro livro da série…

  • Conclusão

Eu acho que o primeiro volume de Morte (“A Garota do Funeral Marítimo”) possui um nível maior do que os demais em termos de narrativa e história, pois é mais instigante, mais interessante, dá mais vontade de ler e mais apreensão pelos rumos dos acontecimentos. A obra te pega, te faz imaginar coisas, exercita todo o seu cérebro e nos entrega algo que nos dá total satisfação.

Os volumes 2 (“A Donzela Sacrificial de Gratia”) e 3 (“O Anjo Que Chora Entre Sonhos) possuem um nível menor, mas se olharmos como um todo, a obra entrega algo bem satisfatório, especialmente pela segunda parte do terceiro livro. A doença misteriosa é bastante explorada, as tramas se centram nela, o drama é intenso e os personagens conseguem um bom desfecho, embora um ou outro a conclusão tenha ficado aquém do que merecessem.

Morte não é nenhuma obra prima nem nada do tipo, mas dá para se divertir, com uma obra de suspense e romance para lá de interessante. Se você nunca leu uma light novel, essa é realmente uma boa obra para você começar, pois a narrativa é boa e o número de volumes é bem pequeno.

  • Ficha Técnica

TítuloMorte
Autor: Keika Hanada
Ilustrador: Yone Kazuki
Tradutor: Tiemi Ogawa
EditoraNewPOP
Dimensões: 10,6 x 14,8 cm
Miolo: Papel polén soft
Acabamento: Capa cartonada com orelhas e pôster encartado
Classificação indicativa: 16 anos
Número de volumes no Japão: 3 (completo)
Número de volumes no Brasil: 3 (completo)
Preço: R$ 26,90
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