Conheça o mangá “O Gourmet Solitário”

Comendo e conhecendo o Japão…

Dentro em breve, a editora Devir irá republicar no Brasil o mangá O Gourmet Solitário, de Jiro Taniguchi e Masayuki Qusumi. A obra foi o primeiro mangá de culinária publicado no país lá em 2009, à época pela editora Conrad, e hoje se encontra esgotado, só sendo encontrado em sebos por um valor um tanto quanto salgado. Agora ganhará uma reedição.

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O Gourmet Solitário é um daqueles títulos pouco usuais, totalmente diferentes do que se costuma publicar por aqui, e merece uma atenção redobrada sobre ele para você não deixar passar uma obra maravilhosa, mas também para você não comprar um título que pode não gostar, pois quem gosta de uma história de ficção tradicional pode se desapontar bastante. Falaremos sobre isso em detalhes para você.

A primeira coisa que você deve saber é que O Gourmet Solitário se trata de mais uma daquelas obras de vida cotidiana, de apreciação do momento e dos lugares, de Jiro Taniguchi, bem ao estilo O Homem que Passeia. Então, você verá o protagonista indo em um lugar, indo em outro, e sempre apreciando (ou não) a comida do local.

Entretanto, você também tem que saber que Jiro Taniguchi não é o responsável pelo roteiro desse mangá, ele “””apenas””” faz a arte da história. Apesar disso, você não notará muitas diferenças em relação ao estilo do autor, pois o roteirista, Masayuki Qusumi, segue a mesma linha taniguchiana de títulos mais contemplativos, tendo feito em parceria com ele o mangá Sanpo Mano (Le Promeneur), uma obra irmã de O Homem que Passeia, com o mesmo estilo e temática. Qusumi, importante recordar, também é assíduo em fazer obras em que a culinária é o centro das atenções, sendo o autor de obras como o Samurai Gourmet (que tem uma adaptação em live action na Netflix), que é muito nesse estilo de apreciar o momento por meio da comida. Se você viu a série, certamente deve ter uma ideia do que será a obra.

“Samurai Gourmet” conta a história de um recém aposentado que, passando seus dias livres, visita diversos restaurantes de sua região. Quando surge um problema (pessoas bagunceiras, um mal atendimento, etc) ele imagina como um Samurai agiria nessa situação. Foto: Netflix.

O Gourmet Solitário foi publicado originalmente no Japão na Gekkan SPA!, uma revista de negócios, cultura e entretenimento da editora Fusosha, entre 1994 e 1996, tendo seus capítulos compilados em um único volume (o que foi publicado no Brasil pela Conrad). Em 2008, a obra começou a ganhar capítulos especiais de forma irregular e em 2015 foi lançado um segundo volume. Ainda saíram outros capítulos antes da morte de Jiro Taniguchi, mas nunca foram compilados. Apesar disso, não se pode dizer que o mangá ficou incompleto, pois O Gourmet Solitário não é uma obra “normal”, com uma história com começo meio e fim. Cada capítulo do mangá é algo à parte, único, e que se encerra em si mesmo, sem uma continuidade narrativa. E como cada capítulo é independente, você pode ler aos pouquinhos e em qualquer ordem sem o menor problema, não necessitando ler tudo para apreciar a obra como um todo.

Basicamente, no mangá a gente acompanha o protagonista – de quem não sabemos nem o nome, nem a idade – andando por diversas cidades e bairro do Japão devido à sua profissão, terminando por encontrar algum lugar para conseguir se  alimentar quando está com fome. Nisso, ele escolhe o local, faz o pedido, observa o estabelecimento, o tipo de ambiente, comenta os alimentos e os experimenta. O Gourmet Solitário então é só isso mesmo, um homem comendo em diversos locais diferentes.

Apreciando a comida

Vale mencionar que todos os ambientes retratados durante a obra, bem como os pratos apresentados, são reais, existem (ou existiram) no Japão, de modo que qualquer um que for em um determinado local mostrado na obra poderá experimentar os mesmos pratos que o protagonista pediu (dos restaurantes que ainda existirem obviamente^^).

O ponto alto da história é justamente esse, apresentar os locais e os alimentos dali, mostrando a riqueza de ambientes e das iguarias que podem ser apreciados por todos. A obra parece valorizar bastante essa cultura alimentícia, tanto que não poupa críticas a estabelecimentos que causam mal estar aos seus clientes. Existe um capítulo, por exemplo, que o protagonista se encontra em um lugar e o chefe está discutindo com um dos funcionários, causando um atrito e o protagonista desiste de comer, por não ser um ambiente calmo e aprazível para se ter uma boa refeição.

A apresentação de um prato

Embora a leitura seja capítulo a capítulo, sem uma continuidade, o conjunto da obra serve para mostrar que existem diversos e diversos restaurantes no Japão, com pratos típicos e uma boa comida. Basta saber olhar e você conseguirá ver de tudo um pouco.

É importante ficar alerta, pois a obra pouco ou nada tem a ver com o protagonista. Apesar de vermos ele se sentindo ultrajado em um restaurante, indo a um jogo de seu sobrinho ou diversos outros momentos, a verdade é que o mangá se centra nos ambientes e na comida, de modo que toda aquela atmosfera intimista que a gente vê em O Homem que Passeia ou mesmo em Guardiões do Louvre, aqui não aparece, ou aparece de forma disfarçada, não havendo uma verdadeira empatia com o protagonista, justamente porque não se tem muita coisa dele.

Essa questão da empatia e da falta de intimismo leva a um outro ponto. No início do texto, a gente disse que O Gourmet Solitário era um mangá diferente e que ” quem gosta de uma história de ficção tradicional pode se desapontar bastante”. Isso é verdade, afinal você não verá luta, romance, desenvolvimento de personagem e nem nada do tipo. É uma história apenas sobre lugares e sobre a comida e nada mais. O problema é que isso pode desapontar até quem gosta de histórias pouco usuais. É bastante comum mundo à fora pessoas gostarem de O Homem que Passeia e detestarem O Gourmet Solitário, porque o personagem “é um tédio”, porque as histórias “terminam no meio” e assim por diante.

Não me entendam mal. Gourmet é uma obra boa, só que definitivamente não é algo destinado a todo mundo. Ele tem uma função e uma proposta bem específica e executa isso bem. Você vê os ambientes distintos, você vê os pratos e mesmo não gostando deles ou não conhecendo, você consegue apreciar aquilo, achar interessante. Existe sim uma semelhança com O Homem que Passeia, mas enquanto lá há um contemplação dos ambientes cotidianos, valorizando aqueles pequeno momentos que o dia a dia corrido nos tira de vista, aqui ocorre uma apreciação dos lugares tradicionais para uma boa refeição. No fundo é a mesma coisa, mas há diferenças de execução que tornam as duas obras bem diferentes entre si.

O ponto principal da diferença é o final das histórias. Como se quer mostrar a cultura alimentícia, o roteiro de muitos capítulos não se preocupa com um encerramento que pareça encerramento de fato. Enquanto em O Homem que Passeia as caminhadas do protagonista se encerram bem, com cada capítulo você entendendo que  a história terminou, em Gourmet muitas vezes você fica com a sensação de “cadê o resto?”. A questão é que o objetivo é mostrar toda a ambientação e os alimentos, quase a instigar você a fazer o mesmo e ir até aquele lugar, e com o objetivo atingido, o final pode ser em qualquer momento.

Esses são os últimos quadros de um capítulo

Faço parte do grupo das pessoas que não gosta dos capítulos que ficam com finais abruptos, pois parecem feitos de qualquer jeito. Eu entendo toda a questão, mas não é algo que me agrade, pois realmente fica a sensação de que o capítulo foi inútil. Ainda assim, eu gostei bastante de O Gourmet Solitário e acho que é um título bem interessante para quem deseja uma obra mais fora da curva. Ele não tem o mesmo nível de qualidade de O Homem que Passeia, mas se você é amante da gastronomia decerto você apreciará bastante.

A Devir não divulgou como será a nova edição nacional, então ainda não sabemos se será apenas uma reedição da versão da Conrad com outra capa ou se a empresa reunirá os dois volumes lançados no Japão em apenas um tomo. Resta esperar e aguardar^^.

Esta postagem foi feita com base na edição publicada pela editora Conrad

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Um comentário

  1. “É bastante comum mundo à fora pessoas gostarem de O Homem que Passeia e detestarem O Gourmet Solitário, porque o personagem “é um tédio”, porque as histórias “terminam no meio” e assim por diante.”

    Curioso ou não, eu tenho a edição da Conrad na minha coleção, comprei em um desses eventos de anime/livro num estande da Comix quando as coisas da Conrad ainda existiam pra venda haha, e lembro de ter gostado relativamente de Gourmet, enquanto Homem que Passeia por outro lado, eu lembro de não gostar. Vai ver meu humor no dia não tava bom? (Ou eu só prefiro gente comendo do que gente caminhando mesmo)

    Curtir

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