Resenha: Rohan no Louvre

Mais Louvre, mais Jojo

Quando, ainda em 2018, a editora Pipoca & Nanquim publicou o mangá Guardiões do Louvre, um título de autoria de Jiro Taniguchi e que foi feita para uma coleção do Museu do Louvre, começou-se a criar uma expectativa para ver se a empresa posteriormente lançaria outras obras da mesma coleção, pois nela havia obras de outros mangakás consagrados, dentre eles Hirohiko Araki, autor de Jojo’s Bizarre Adventure. No fim, justamente uma obra dele acabou aparecendo^^.

Araki foi o primeiro japonês a ser convidado para essa coleção e ele logo topou a empreitada. Entretanto, em vez de realizar uma obra totalmente nova, com personagens inéditos, ele resolveu utilizar-se de uma das figuras mais icônicas de seu mangá, Rohan Kishibe, presente na parte 4 da obra, Diamond Is Unbreakable. E assim nasceu Rohan no Louvre.

O mangá é inteiramente colorido, mas os capítulos foram publicados no Japão primeiramente em preto e branco na revista de mangás seinens Ultra Jump, da editora Shueisha, a mesma revista em que Jojo’s Bizarre Adventure é publicado atualmente. Somente na publicação em volume é que ela veio colorida. O encadernado saiu primeiramente na França, lançado pela editora Futurópolis no dia 9 de abril de 2010. No Japão, a Shueisha publicou o volume apenas um ano depois, no dia 27 de maio de 2011.

A obra logo ganhou o mundo. Nos Estados Unidos, o título saiu pela editora NBM no dia 28 de março de 2012. Na Espanha saiu em novembro de 2012 pela editora 001, em uma época em que Jojo nunca havia saído no país. Por sua vez, na Itália (onde Jojo é quase uma entidade, sendo lançado desde 1993) a obra saiu em duas oportunidades. A primeira foi em dezembro de 2012 pela editora Hikari, quando saiu em capa dura, contando até mesmo com uma versão com capa variante. A segunda vez foi em novembro de 2017, também pela Hikari, em uma versão “normal”, formato tankobon comum, mas ainda com todas as páginas coloridas.

No Brasil, o mangá foi anunciado pela Pipoca & Nanquim no final de 2019 e foi lançado nos últimos dias de janeiro de 2020. A edição brasileira veio em um formato parecido com Guardiões do Louvre, grandão, em capa dura e com todas as páginas coloridas. Compramos o volume, o lemos e viemos falar nossas impressões do título para vocês.

  • Sinopse Oficial

Em 1987, o mangaká Hirohiko Araki lançou JoJo’s Bizarre Adventure, cuja popularidade transformou a série em uma das mais longevas de todos os tempos no Japão, com sua publicação se estendendo até os dias de hoje. Recheado de personagens icônicos, a quarta saga desse mangá apresentou um que chamou mais atenção do que a maioria: Rohan Kishibe, um jovem autor de mangás que tem o poder de transformar as pessoas em “livros” e de conhecer a “vida” delas por intermédio da leitura de suas páginas. E é ele quem estrela Rohan no Louvre, spin-off que apresenta uma história do personagem com as mesmas características sinistras e cheias de criatividade que os fãs brasileiros já viram no anime, mas que também pode ser lida e curtida por quem não sabe nada sobre a série principal. Antes de se tornar um notório mangaká, Rohan era apenas um aspirante com muita vontade de se profissionalizar. Nessa época, enquanto passava as férias na pousada da avó, ele conheceu uma garota chamada Nanase Fujikura, que lhe contou a respeito da “pintura mais maligna do mundo”, guardada no Museu do Louvre. Obra do obscuro pintor Nizaemon Yamamura, que a fez utilizando o pigmento negro de uma árvore milenar sagrada e foi executado por causa disso, há quem diga que ela encerre uma maldição. Muitos anos depois, tomado por uma mistura de curiosidade com saudosismo, Rohan se recorda da conversa que teve com Nanase e decide partir para o Louvre a fim de passar essa história a limpo. Infelizmente, quando ele descobrir a verdade, será tarde demais para se arrepender. 

  • História e Desenvolvimento

Por ser uma obra derivada de Jojo’s Bizarre Adventure, em que o protagonista se utiliza de um certo poder, Rohan no Louvre é também uma obra de fantasia em que coisas misteriosas acontecem. Você já começa o mangá tendo a informação de que quatro pessoas foram declaradas desaparecidas, de modo a ter um aviso da estranha história que irá adentrar. Mais que isso, de cara ficamos sabendo quem é o protagonista Rohan (um autor de mangás) e descobrimos que ele tem um poder que, ao tocar uma pessoa, ele pode a “transformar em um livro”, o que o faz descobrir tudo sobre ela, além de poder até mesmo escrever o que ela vai fazer no futuro, podendo controlá-la, à vontade.

Apesar de ser uma obra derivada, não há necessidade de conhecer Jojo’s Bizarre Adventure para ler Rohan no Louvre. Como já no início da obra ocorre uma explicação sobre o poder de Rohan, não precisamos ficar sabendo o que são stands e nem toda a dinâmica da obra principal. De igual modo, também não precisamos conhecer a atuação de Rohan na obra mãe, pois o mangá do Louvre é algo totalmente à parte, uma história fechada com começo, meio e fim.

A obra é dividida em duas partes distintas, uma na qual Rohan está no Louvre em busca de uma misteriosa pintura, e outra no passado em que é contado o que motivou o autor a ir visitar o museu. Então, inicialmente vemos Rohan, ainda com seus dezessete anos, já amante dos desenhos, mas ainda sem ter nenhum mangá publicado e ao se hospedar na pensão de um parente, termina por conhecer uma moça chamada Nanase, que chama muito a atenção do jovem garoto.

Dentre uma conversa e outra, Nanase conta a Rohan sobre uma misteriosa pintura, a “pintura mais maligna do mundo”, feita com a tinta mais escura que se tem conhecimento da existência e que teria causado a morte até mesmo de seu pintor. A curiosidade de Rohan leva ele, dez anos depois, ao Louvre, local onde Nanase disse que a pintura estava.

A primeira parte é bem calma, com uma série de conversas entre Rohan e Nanase e este tentando ajudar a moça, com algum problema que ela parecia estar passando. Entretanto, as memórias que ele tem desse momento terminam por ser um tanto quanto mais duras do que ele gostaria, devido a um certo incidente.

A segunda parte é uma trama mais bem agitada, com um mistério se fazendo logo à primeira vista. Uma funcionária do museu nem sabia da existência da tal pintura que Rohan havia ido ver, mas os registros mostravam a existência dela, guardada nos mais escuros porões do lugar, onde não deveria ter mais nada. Por quê? Quem a deixou lá e por qual motivo? Rohan e mais quatro pessoas decidem ir procurar a tal pintura e coisas estranhas acontecem…

A trama de Rohan no Louvre é bastante convencional por assim dizer, com aquela estrutura básica de sempre desse tipo de história: o personagem fica conhecendo a existência de algo, tempos depois ele decide investigar, a investigação leva a descoberta de algo misterioso, coisas sobrenaturais acontecem, o protagonista usa seu poder e pronto, é apenas isso, as coisas se resolvem e o mistério logo se desfaz, nada muito além disso.

Trata-se, portanto, de uma historinha de mistério e aventura daquelas feitas unicamente para entretenimento e para passar o tempo. Não temos discussões aprofundadas sobre temas importantes para a humanidade, não temos reflexões sobre a vida e o universo e nem nada do tipo. Na segunda parte da história, por exemplo, os personagens são confrontados com algum passado trágico (de si mesmo e de seus antepassados), mas não há um aproveitamento disso para nada muito além do drama e da ação da narrativa. Ou seja, o “passado” era apenas um instrumento para a trama da pintura se manifestar.

Em resumo, é uma história feita para a gente se divertir com as situações estranhas que acontecem na vida de Rohan, seja a presença de Nanase quando ele era pequeno, seja a inusitada aventura do Louvre, quando ele já era adulto. Claro, tudo isso, tendo em vista o museu e a coleção da qual a obra faz parte.

Importante dizer que Rohan no Louvre é bastante diferente de Guardiões do Louvre no impacto e no trato com o museu. Nas duas obras, a arte dos autores destaca bem as imagens impressionantes do Louvre, atiçando a nossa vontade de conhecer pessoalmente o ambiente, mas enquanto em Guardiões há todo um envolvimento engrandecendo o museu e as pessoas que ali trabalham e trabalhavam durante os anos e décadas (há até mesmo uma passagem bem impactante relembrando o modo como as pessoas salvaram a arte na época da ocupação nazista) bem como seus visitantes, em Rohan o que se destaca é a trama de mistério criada por Hirohiko Araki envolvendo a pintura misteriosa.

Ou seja, a arte de ambas as obras serve para mostrar e engrandecer o Louvre, mas a história é diametralmente oposta, pois Guardiões a usa também para o engrandecimento do museu e das pessoas que o compõe (sejam funcionários, sejam as pessoas do público), enquanto Rohan usa o museu como pano de fundo para a narrativa. Há méritos e deméritos nessa diferença. Muita gente não gostou de Guardiões por ser uma “propaganda” do museu em forma de quadrinhos e essas pessoas poderão gostar muito mais de Rohan, pois ele tem uma historinha própria e o Louvre é só o local onde a história acontece. Por outro lado, quem gosta bastante a história do museu, de uma obra contemplativa, e tudo mais, não verá um algo assim em Rohan, não conhecerá mais histórias reais sobre ele, etc. Cada um tem uma proposta diferente e vai agradar pessoas com gostos diferentes.

Para terminar, é necessário dizer que embora você não precise conhecer Jojo’s Bizarre Adventure para ler e gostar de Rohan no Louvre, o mangá é mesmo mais indicado para os fãs da grande obra de Hirohiko Araki.

Em primeiro lugar, porque se você já conhece Rohan você consegue desconsiderar certas coisas, como a falta de personalidade do rapaz. São poucos os momentos em que podemos ver algo único nele, como quando ele dá uma bronca em umas pessoas e dizem para elas agirem com respeito. Mas fora disso, Rohan parece ser só um personagem qualquer, sem que possamos identificar nele uma personalidade única e própria. A gente não consegue saber quem é Rohan sem ser pelas suas características (um autor de mangás e que tem um poder).

Em segundo lugar, como se trata de uma historinha convencional e que tem poucas páginas (não chegam a 150), a obra termina de uma forma muito breve, sem apresentar mais. Para um fã de Jojo, só o que foi mostrado já será mais do que o suficiente para que ele possa ver um pouco mais de um dos personagens, mas para quem não é fã fica parecendo algo simples demais e sem um carisma próprio. Você pode se divertir, sim, mas ao ver que o preço de R$ 69,90, isso lhe parecerá demais pela experiência apresentada pela história…

  • A edição nacional

A edição brasileira do mangá veio no formato 31,6 x 22 cm (a mesma altura de Guardiões do Louvre, mas um pouco menos em largura), com miolo em papel couchê, todas as páginas coloridas, e capa dura, ao preço de R$ 69,90.

A edição física é aquele suprassumo da qualidade que estamos acostumados com a Pipoca & Nanquim, com um excelente acabamento e uma encadernação de primeira que permite a leitura sem problemas. O produto físico é aquele bom de sempre e que vale a pena o preço cobrado pela empresa.

Diferença de tamanho

Em termos de texto, não notei erros de revisão e nem nada do tipo. A leitura também foi bem fluída sem quaisquer gargalos linguísticos, sendo uma boa experiência no todo. A empresa, vale destacar, também colocou um glossário com algumas explicações sobre a obra e que fazem os que desconhecem o Louvre, e os novatos nesse mundo do Hirohiko Araki não se sentirem tão perdidos. Em suma, um bom trabalho por parte da editora.

  • Conclusão

Depois disso tudo, fica bem claro que a obra é um prato cheio para os fãs de Jojo’ Bizarre Adventure, pois poderão ver Rohan em mais uma aventura solo. A obra pode sim ser lida sem o conhecimento prévio da história original de Hirohiko Araki, mas poderá parecer ao leitor pouco desenvolvida e simples demais.

De todo modo, Rohan no Louvre é divertido, entretanto o mangá custa R$ 69,90. Como produto bem acabado (formato grandão, capa dura, todo colorido) nada a reclamar do preço, mas como história eu acho que não vale a pena tanto, ao menos para quem não fã de Jojo. Então, se você tem interesse, aguarde uma boa promoção que é melhor…

  • Ficha Técnica

Título Original: Rohan au Louvre (岸辺露伴 ルーヴルへ行く)
Título NacionalRohan no Louvre
Autor: Hirohiko Araki
Tradutor: Drik Sada
Editora: Pipoca & Nanquim
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 23,4 x 31,6 cm
Miolo: Papel couchê
Acabamento: Capa dura, todas as páginas coloridas.
Preço: R$ 69,90
Onde comprarAmazon 

3 comentários

    1. A coleção como um todo, incluindo os quadrinhos de outras nacionalidades eu não sei. Os mangás ainda existem outros dois títulos:

      -Os Gatos do Louvre, do Taiyo Matsumoto
      -Mujirushi, de Naoki Urasawa.

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