Uma aula de vida em “I Sold My Life”

Nossas vidas são nossas escolhas…

No fim de outubro, a editora JBC publicou no Brasil todos os três volumes que compõem o mangá I Sold My Life, de Shouichi Taniguchi, completando a obra de uma tacada só. Lançado no Japão entre 2016 e 2017 pela editora Shueisha, o título é uma adaptação do (ainda inédito no Brasil) livro Três Dias de Felicidade (三日間の幸福) escrito por Sugaru Miaki e publicado no Japão em 2013 pela editora ASCII Media Works.

A obra acompanha um jovem totalmente sem esperança (e sem dinheiro) que, um dia, fica sabendo de uma loja em que é possível vender o seu tempo de vida em troca de uma boa grana. Mesmo não acreditando inicialmente que tal coisa exista, o jovem termina por ir até o lugar e, com total descrença no futuro, vende quase toda a sua vida restante, ficando apenas a três meses de falecer.

O protagonista da história, Kusunoki, tem apenas vinte anos, mas já se pode dizer que ele é um completo fracasso, tanto em sua vida pessoal, quanto profissional. Apegado a uma promessa boba feita no passado a uma amiga de infância, o jovem evita relacionamentos ao máximo. Quanto ao trabalho, ele também parece ser um desastre, ao ponto de ficar sem dinheiro em casa e ter que vender tudo o que tem, inclusive a vida.

A grande verdade é que Kusunoki é, no entanto, um fracasso por seus próprio méritos. Trata-se de uma pessoa odiosa, que sempre se achou superior aos demais, que sempre se achou indigno para certos empregos, como se sua vida valesse mais do que os outros, como se ele fosse um ser especial, à parte da sociedade em que vive. Mesmo agora, sem dinheiro e um completo fracasso, ele achava que, ao vender sua vida, receberia uma boa quantia, tamanha a soberba do rapaz. Entretanto, o preço da vida é calculado de acordo com algumas variáveis, como a felicidade, a capacidade de influenciar os outros positivamente, as estimativas para o futuro, etc. E a vida de Kusunoki é totalmente sem esperança.

A ele é oferecido a quantia irrisória de 300000 Yenes por 30 anos de vida, daí o título da obra “Eu vendi a minha vida por Dez Mil Ienes por ano” (cerca de 500 reais por ano, de acordo com a cotação atual). Apesar da quantia mínima, Kusunoki está realmente sem esperanças e decide vender o tempo de vida mesmo assim, ficando a três meses de ver o seu fim.

A partir de então ele será acompanhado de uma observadora, Miyagi, e veremos o modo como ele lida com seu tempo de vida restante, o que deseja fazer e realizar e o modo como ele enfrenta o seu passado.

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Além de falar do valor da vida (começando justamente por essa alegoria do preço que as pessoas recebem de uma loja) e do modo como a encaramos, I Sold My Life é também uma história que visa a demonstrar que os seres humanos são seres sociais e que precisamos sempre uns dos outros para ser felizes e para fazer os outros felizes.

Por mais que tenha conhecidos, Kusunoki é praticamente um solitário que vive escondido no mundo dos livros e da música e evita se abrir para os outros, perdendo ótimas oportunidades de se tornar uma pessoa melhor, de ser feliz, de amar, em suma, de se influenciar (e ser influenciado pelas) pessoas.

Nesse ínterim, a obra vai dando diversos exemplos do quão negativo e destrutivos eram os pensamentos e os modos de agir do rapaz, enfatizando que é importante termos contato com outras pessoas, falar com elas, fazê-las felizes, etc. Por mais que as pessoas evoluam ao longo do tempo, essa evolução pode ser nula se a pessoa fica presa a amarras do passado e a pensamentos infrutíferos, mantendo-se sempre em um stand by.

O protagonista e a sua observadora

I Sold My Life, porém, não apresenta uma mensagem negativa e, tampouco, mostra alguém imutável. O contato com Miyaki, sua observadora, é crucial nesse sentido para o amadurecimento e mudança de Kusunoki. Basicamente, enquanto solitário e com poucos amigos, o protagonista é um ser totalmente relegado, que passa despercebido na multidão, e não consegue fazer os outros felizes, assim como os outros não conseguem trazer alegria a ele. Com Miyaki, ele é influenciado por ela e consegue confrontar o próprio passado e passa a ver a sociedade de uma outra maneira.

O mangá, porém, não é ingênuo de achar que todas as pessoas são boas, que todas nos irão trazer felicidade. Pelo contrário, ele também mostra que devemos nos afastar das pessoas que nos fazem mal, que cutucam nossas feridas, que nos ridicularizam, etc. O próprio protagonista é um exemplo disso no início da história. Ele era uma pessoa para baixo, sem carisma, sem nada a oferecer aos outros.

Evidentemente, uma mudança na vida pessoal não é algo simples e não vem sem sofrimento. É preciso querer, é preciso trabalhar para mudar a si mesmo e se livrar das amarras que te prendem em um estado de inércia, que te prendem a sentimentos e medos que te fazem mal. E isso não é algo fácil.

Por mais que a sociedade e a interação social sejam pontos cruciais abordados na obra (transmitindo a mensagem de que isso é algo importante), o mangá não tenta tolher a individualidade das pessoas. Pelo contrário, ela busca mostrar que individualidade tem poder de fazer uma sociedade melhor, apresentando-nos que uma boa pessoa pode fazer com que todos à sua volta fiquem bem. Ou seja, a sociedade é composta por diversas individualidades que devem entrar em contato, uma ao lado da outra, uma influenciando a outra, seja positivamente, seja negativamente.

Assim, a liberdade que o protagonista apresenta nos momentos finais do mangá é algo bem didático. O jovem deixa de se preocupar com que os outros irão pensar sobre ele e começa a tomar certas atitudes que, aos olhos dos outros, parecem loucura. No entanto, aos poucos, as pessoas começam a vê-lo de uma forma diferente, começam a notá-lo mais, começam a querer ficar com ele, e todo o ambiente em que ele reside se torna mais feliz.

A parte final do mangá é muito mais romantizada do que o restante, buscando dar um final feliz para a obra e colocar um romance que todo mundo já sabia que iria acontecer. Ainda assim, por colocar mais elementos na questão do valor da vida e da questão da felicidade, a obra consegue nos apresentar muito bem a ideia de que todas as vidas têm valor e que, se por acaso, não estamos tratando ela de forma adequada, podemos melhorá-la e fazer o bem não somente a nós mesmos, quanto também aos outros.

I Solf My Life não é uma nenhuma aula de filosofia e não busca ensinar conceitos complexos e acadêmicos. Na verdade, ele é um título que busca passar uma mensagem bem simples para todos os jovens sem esperança. Em suma, esse mangá é uma aula de vida.

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Para terminar, é importante dizer que não existe qualquer explicação sobre como funciona essa “loja” que compra o tempo de vida, sobre como os funcionários sabem dos detalhes da vida das pessoas e nem nada disso. Mas nem precisa. Isso apenas existe e só, não é necessário se estender em explicações. Muitas obras com premissas boas se perdem por querer explicar coisas que não precisam, resultando em uma obra menos harmônica. Nesse sentido, I Sold My Life é bem feitinho, fica de boa e se foca no que é importante, a história de Kusunoki e Miyagi.

FICHA TÉCNICA

Título original: 寿命を買い取ってもらった。一年につき、一万円で。
Título NacionalI Sold My Life
Autor: Shouichi Taniguchi; Sugaru Miaki
Tradutor: Pedro Hayama
Editora: JBC
Dimensões: 13,2 x 20 cm
Miolo: Papel Snow
Acabamento: Capa cartonada simples
Classificação indicativa: 16 anos
Número de volumes no Japão: 3 (completo)
Número de volumes no Brasil: 3 (completo)
Preço: R$ 27,90
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1 Comment

  • Gabi

    Muito obrigada pela resenha!
    Eu achei interessante os temas abordados e fiquei bem curiosa sobre como eles são desenvolvidos.
    Com certeza vou dar uma chance, mas só ano que vem xD

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