Resenha: Paradise Kiss #01

Revisitando o ateliê…

Quando, no último mês de janeiro, a editora Panini anunciou o mangá Paradise Kiss, ele se tornou, para mim, o melhor anúncio do ano, mesmo faltando onze meses para 2021 acabar. O motivo desse meu êxtase é que ParaKiss é um dos meus três mangás favoritos da vida e há anos eu clamava por um retorno da série ao Brasil.

De autoria de Ai Yazawa (que também fez o popular NANA), Paradise Kiss foi publicado originalmente no Japão entre 1999 e 2003 na revista de moda Zipper, da editora Shodensha, sendo compilado em um total de 5 volumes. Posteriormente, ganhou uma reedição em 4 volumes pela Shueisha. Como é costume, também ganhou uma adaptação para anime.

Primeira edição brasileira

No Brasil, o mangá foi publicado pela primeira vez entre setembro de 2007 e maio de 2008 pela editora Conrad, concluindo a obra em seus cinco tomos originais. Com o passar dos anos, conseguir o mangá inteiro e em boas condições (o acabamento dessa primeira versão não era dos melhores) foi ficando difícil e uma reedição se tornou necessária.

Agora ela finalmente chega pelas mãos da editora Panini, com o lançamento do primeiro volume que ocorreu no mês de junho.

Paradise Kiss conta a história de Yukari Hayasaka (chamada também de Caroline na série), uma estudante super-esforçada e que faz de tudo para se tornar uma pessoa decente e agradar aos pais, pessoas super tradicionalistas e que acham que uma vida séria só existe no mundo do trabalho convencional. Yukari, entretanto, não gosta de estudar e não sabe o que fazer no futuro, mas continua batalhando mesmo assim, mesmo sem ter ideia de seus objetivos. No meio disso, a garota nutre uma paixão secreta por um colega de classe, Tokumori, um rapaz calmo e estudioso, mas que tem um passado que a garota não imagina.

A vida de Yukari, porém, muda de repente quando é abordada por um grupo de estudantes de moda e que desejam que ela seja sua modelo em um desfile na escola. Inicialmente relutante e cheia de “não me toques”, a garota aceita e o mundo dela começa a se expandir…

O mangá é uma obra de humor, drama e romance que tem como pano de fundo o mundo da moda, com um grupo de personagens inserido nesse contexto, existindo, por exemplo, vestidos cheios de detalhes e que se destacam perante o vestuário normal da protagonista. A história em si, porém, é sobre o florescimento de Yukari, a descoberta de um novo mundo e de um outro modo de ver as coisas, juntamente com um romance que mexe com o coração e as emoções da garota (e dos leitores) em todos os níveis.

Nesse primeiro volume, Yukari representa de uma maneira única o nosso modo estático de olhar o mundo, achando que as coisas são sempre preto no branco, vistas de um único modo e que o contrário a isso é escandaloso e ruim. Ela é toda certinha, que segue as regras acordadas pela sociedade o tempo todo, e de repente se vê frente a frente com pessoas que são diferentes. Mais do que isso, a garota nutre aquele preconceito que – em maior ou menor grau – todos temos para com o diferente.

Yukari enxerga o grupo de estudantes de moda (Isabella, Miwako, Arashi e George) como estranhos, como aberrações e, até mesmo, como bandidos em um primeiro momento. Ao ser abordada por eles – ainda no início do mangá – ela acha que vai ser roubada ou até mesmo estuprada, mostrando todo o preconceito existente no coração da garota.

Arashi

Ainda falando da protagonista, existe toda uma dualidade entre ela e esse grupo de pessoas que se mostra tanto pela aparência (via de regra ela usa uniforme, enquanto os quatro membros, usam umas roupas mais estilosas e, na visão da garota, escandalosas), quanto por onde estudam (Yukari é de um colégio de elite prestigiado. Os demais são de uma escola de arte que não é bem vista, etc, etc, etc).

E esse choque de realidades – essa socialização entre pessoas distintas – mostra aos leitores e à protagonista que o mundo tem diferentes nuances e que o que conhecemos é apenas um espectro mínimo de toda a sociedade. Yukari nunca tinha convivido com uma mulher transgênero, com um cara cheio de piercings que toca em uma banda, etc, etc, etc, e esse encontro mexe com a cabeça dela (e a nossa), mostrando que precisamos ter diferentes vivências, conhecer mais pessoas, para conseguir compreender melhor ao mundo, à sociedade, a nós mesmos.

Isabella

Claro que neste primeiro volume Caroline não tem um amadurecimento completo (afinal o convívio dela com os outros não foi muito grande), mas nós – leitores – conseguimos vê-la de uma maneira bastante diferente do início do mangá, já tendo deixado para trás os preconceitos e começando a entender boa parte dos participantes do chamado Ateliê (embora entendê-los mesmo só vá acontecer depois).

Paradise Kiss não é centrado apenas em Caroline, porém. Ele tem suas história paralelas, envolvendo os outros personagens que ajudam a construir o clima da história. Ainda não sabemos muita coisa sobre a Isabella, Miwako, Tokumori, Arashi e George, mas já começamos a saber um pouco da história de alguns deles, com um pequeno drama se mostrando.

Mas é claro que tudo termina por girar em torno de Caroline e é nesse ínterim que a figura de George se destaca e aparece como central na história, com uma personalidade forte e cheia de incógnitas. Ele age de uma maneira estranha com Yukari – às vezes frio, às vezes interessado – e mexe com o coração da garota que, até então, gostava de seu colega de classe Tokumori.

Miwako

Em meio ao drama e ao romance, Paradise Kiss é também uma obra bem humorada com várias passagens feitas para trazer um sorriso aos rostos dos leitores. Dentre diversas cenas de humor, uma das partes mais características da obra é a autorreferenciação, com o mangá falando dele mesmo o tempo todo. Em um momento, o personagem diz que ele não deve morrer logo no primeiro capítulo, em outro um personagem diz que não aconteceria um acidente no segundo capítulo e e assim por diante.

Esse clima ajuda a deixar a obra mais amena e faz com que as mensagens apresentadas no mangá sejam digeridas na medida certa, sem aquele clima doutrinante que algumas obras de ficção possuem.

George

No todo, o primeiro volume de Paradise Kiss é bem introdutório em relação à história, mas quase todas as bases da obra já estão colocadas. A amor de Caroline por George, o jeito inquietante dele, a questão da moda, etc, etc, etc.

Nos próximos volumes o mangá (ou antes uma parte da história) tende a ficar um tanto quanto mais pesado, mostrando outros pontos centrais da obra, como a questão do poder de nossas escolhas pessoais e as consequências que isso acarreta. Além disso, você – leitor – começará a sentir um ódio sem igual por um certo personagem, um ódio que superará o maior ódio que você sente por qualquer outro personagem de qualquer obra.

Esteja preparado para isso.

***

A edição brasileira veio no formato 15 x 21 cm, com miolo em papel offset e capa cartonada com orelhas. O preço é R$ 29,90 por volume e sairá um número a cada dois meses (junho – agosto – outubro – dezembro – fevereiro).

O acabamento está um primor de qualidade e é impossível mostrar por fotos ou vídeos o quão bonita é a edição, os detalhes da capa e tudo mais. Você precisa ter em mãos para ver a beleza.

Pela história (principalmente) e pela qualidade física, Paradise Kiss está mais do que recomendado para todos, mas ATENÇÃO, é uma história indicada apenas para maiores de dezoito anos. Não quer dizer que pessoas mais novas não possam lê-la, mas talvez elas só compreendam adequadamente se forem um pouco mais velhas…

Ficha Técnica

Título Original: パラダイス・キス
TítuloParadise Kiss
Autor: Ai Yazawa
Tradutor: Eliana Celestino
Editora: Panini
Número de volumes no Japão: 5 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (ainda em publicação)
Dimensões: 15 x 21 cm
Miolo: Papel offset
Acabamento: Capa cartonada com orelhas
Classificação indicativa: 18 anos
Preço: R$ 29,90
Onde comprar: Amazon / Loja da Panini

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