Resenha: “O Encanamento que Geme”

Genialidade absurda…

Junji Ito é um autor de mangás de horror que possui diversas coletâneas de contos ao longo de sua carreira. Algumas são excepcionais, outras medianas e mais algumas de menor valor. O Encanamento que Geme faz parte da lista das obras excelentes, com uma verve criativa das melhores possíveis, daquelas que a gente lê e entende o porquê de Junji Ito ser tão aclamado mundo à fora.

Lançado no Brasil em julho de 2023 pela editora Pipoca & Nanquim e fazendo parte da coleção de obras-primas do autor, O Encanamento que Geme é uma coletânea de oito contos, publicados originalmente na revista Gekkan Halloween, da editora Asahi Sonorama. São mais de 400 páginas com histórias envolvendo o terror sobrenatural e, pior que isso, o terror humano…

Dentre as oito histórias presentes no mangá, duas delas a gente conhecia, pois já haviam saído em Dismorfos (no Japão O Encanamento que Geme saiu antes de Dismorfos, mas no Brasil foi o contrário, igual o caso de Black Paradox e Vênus Invisível, que citamos em outro post recentemente), então o que fizemos neles foi uma releitura para ver se nossas opiniões continuavam valendo… e continuam.

Uma das duas histórias é a que dá título ao mangá, “O Encanamento que Geme”. É um conto com uma grande força narrativa, com uma gama de personagens incríveis e únicos, cheios de manias e que chegam ao cúmulo da bizarrice e do sem sentido. É uma história bem amarrada e que coloca em choque duas proposições distintas, a mania de limpeza e a sujeira desenfreada do esgoto.

O outro conto que a gente já conhecia é “Monstro cor de Carne”. Assim como “Encanamento que Geme” esse é um conto um pouco diferente dos demais da coletânea, pois ele não se pega ao terror sobrenatural (a não ser pelos rostos e expressões de personagens), indo mais no nonsense em meio a uma realidade controlada. Esse conto em si tem uma grande crítica ao culto pela beleza e ao modo como as pessoas se arriscam para conseguir ficar de uma certa forma. É uma história grande e intensa que faz a gente pensar bastante sobre ele durante muito tempo. É a melhor história dentre as oito dessa coletânea.

Intenso é um adjetivo que a gente tem usado bastante para esse mangá e acho que ele serve também para o conto “Balões Enforcadores”. É basicamente uma história de apocalipse que se mescla com um terror sobrenatural. É aquela velha história de todo mundo estar vivendo sua vida normalmente e, de repente, acontece algum tipo de cataclisma e as pessoas vão morrendo uma a uma, mesmo com algumas tentando sobreviver. Esse conto consegue fazer a gente sentir uma angústia imensa, pois – principalmente no pós-pandemia – não é difícil a gente imaginar algo surgindo do nada e dizimando milhares de vidas.

Para contrastar com isso, é importante falar de “Um Novo Paranormal na Escola”. Ele é o primeiro conto da coletânea e um dos mais fraquinhos, no geral. Ele, na verdade, é uma historinha sobre um suposto local comum e normal e que, do nada, começam a acontecer e aparecer coisas surreais, tudo isso graças a um novo aluno recém transferido. A história nos prende bastante com as questões sobrenaturais, o suspense de determinados acontecimentos, mas quando chegamos ao final e começamos a raciocinar sobre ela, a gente vê que não era grande coisa e passa uma impressão menor.

“Frutos de Sangue”, por sua vez, tem um quê de história de terror convencional, com aquela coisa de floresta, seres estranhos, casa no meio do nada, etc. A história, então, vai crescendo, crescendo e crescendo, com algumas cenas grotescas e terminando de um jeito incontornável como muitas obras do Junji Ito.

Já “Mansão das Marionetes” é um conto que causa bastante desconforto na leitura. Ele não faz parte das obras sobrenaturais (ao menos a princípio), iniciando-se no cotidiano normal e só posteriormente indo para o lado do esquisito e do estranho. O desconforto é causado por isso, com a história mostrando coisas estranhas como se fossem normais, contrastando com toda a aura inicial dele. Embora a gente consiga visualizar claramente os desfechos finais de antemão, é uma narrativa de horror muito bem feita e executada, que coloca um negocinho na cabeça tanto do personagem, quanto do leitor.

“Quase colisão!” e “De dentro da Terra” são as duas últimas histórias da coletânea e ambas são difíceis de descrever sob pena de estragar a experiência de leitura. Embora seja tudo perceptível desde o início delas, enquanto lê você cria teorias sobre os acontecimentos e pode acertar ou não.

O que podemos dizer é que “Quase colisão!” é um pouco bobinha, mas “De Dentro da Terra” é uma historião para pensar sobre a natureza humana.

Como falado de antemão, eu acho que a coletânea de O Encanamento que Geme é muito boa, com quase todas as histórias sendo de um nível bem alto. Se você nunca leu contos de Junji Ito, esse pode ser um bom título para você começar.

Essa resenha foi feita graças a um exemplar cedido a nós pela editora Pipoca & Nanquim, a quem agradecemos a parceria. As opiniões a respeito das histórias independem disso. 


Ficha Técnica


Título Original: うめく排水管
Título: O Encanamento que Geme
Autor
: Junji Ito
Tradutor: Drik Sada
Editora: Pipoca & Nanquim
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 15 x 22 cm
Miolo: Papel pólen bold 90g
Acabamento: Capa cartão com sobrecapa
Páginas: 404
Classificação indicativa: não informado
Preço: R$ 86,90
Onde comprar: Amazon

SinopseAté onde vai a fixação de alguém? A mãe de Reina e Mari Shimizué aficionada por limpeza, a ponto de querer cada canto da casa sem nem uma manchinha e exigir que as filhas tomem muitos banhos ao longo dia. Então, ela é apresentada a Numei, um garoto sujo que é apaixonado por Reina. Não apenas apaixonado, mas aficionado! E o que acontece quando duas fixações descontroladas se chocam? Esse é o pano de fundo de O Encanamento que Geme, história que serve como título desta coletânea, e que é, declaradamente, uma das favoritas do seu autor. E este é um volume de fixações. Um grupo de estudantes vidrados em assuntos paranormais. Uma misteriosa mulher que enfiou na cabeça que tudo e todos querem evitá-la. Um pai de família maníaco por marionetes. Uma viúva decidida a seguir com o experimento do falecido marido. Uma garota que dá mais atenção do que devia a pequenos problemas… Personagens cujas tramas estão entre as mais agonizantes de Junji Ito. A edição traz oito contos que fixam o leitor e o impedem de virar os olhos, lançados originalmente entre 1993 e 1994 na revista de terror Halloween, da editora japonesa Asahi Sonorama (atual Asahi Shimbun). Foi com obras como estas que o mangaká se consagrou como o maior nome dos mangás de terror da atualidade.


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3 Comments

  • Anônimo

    Na verdade, essa coletânea tem 4 contos repetidos, 2 em dismorfos e 2 em calafrios. Isso acontece com várias coletâneas, mas em resumo, não vale a pena comprar calafrios e dismorfos.

    • Eu não li “Calafrios” e acabei esquecendo de procurar para ver se tinha contos dele nesse mangá.

  • Anônimo

    Eu, que desde a primeira vez que conheci Uzumaki, sempre estive muito envolvido pelas histórias do Ito. Hoje, graças a coragem da editora Pipoca & Nanquim, tenho estes contos maravilhosos comigo. Como fã de filmes de terror, sejam eles ruins ou bons, adoro ler essas antologias que sempre me recordam algum ou outro filme já visto. Torço para que dentre outros artistas, Kazu Umezu seja por aqui a mesma coisa que aconteceu e acontece com Junji Ito. Como leitor, posso dizer que estou satisfeito de ter estes títulos na minha estante. Deixo aqui um obrigado registrado à editora PN, além de agradecer também o trabalho feito pelo blog BBM. O trabalho de vocês é incrível, com qualquer editora. Que possam contribuir mais e mais para o aumento das vezes, e em consequência disso, abrir as portas para outros artistas de antologias e séries de terror em mangás.

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