Mangá Aberto: “Hitler”

Veja como está o mangá

Mangá Aberto é uma coluna de resenhas em que mostramos a edição física de um mangá, geralmente um lançamento. Nela apresentamos fotos dos mangás, acrescentando alguns detalhes e opiniões.

A postagem de hoje será sobre a edição brasileira de Hitler, mangá publicado no Brasil em outubro de 2023 pela editora Devir.


PEQUENAS INFORMAÇÕES SOBRE A OBRA


Hitler é um mangá de autoria de Shigeru Mizuki e foi publicado originalmente no Japão em 1971 pela editora Jitsugyou no Nihonsha, tendo um volume no total. No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora Devir no dia 17 de março de 2022, mas ele só foi publicado em outubro de 2023 pelo selo Tsuru da editora.


FORMATO DA EDIÇÃO BRASILEIRA


A edição brasileira de Hitler veio no formato 17 x 24 cm (padrão do selo Tsuru), com capa cartonada com sobrecapa e miolo em alguma marca de papel do tipo offwhite (cor creme). São 288 páginas ao todo, sendo quatro coloridas.


SOBRECAPA


A sobrecapa da edição brasileira tem uma composição própria com a tradicional barra lateral dos mangás do selo Tsuru, além de uma ilustração colorizada. Das capas japonesas que conseguimos pesquisar, nenhuma delas usa a imagem da edição brasileira.

A parte de trás da sobrecapa também segue o padrão do selo Tsuru com uma faixa da mesma cor da lombada (onde a editora coloca uma sinopse) justamente com uma imagem ao lado.

A lombada da sobrecapa igualmente é similar aos demais mangás do selo Tsuru, sendo bastante simples e possui apenas o nome do mangá, do autor e o logo da editora.

Em termos de acabamento, a sobrecapa é daquelas comuns iguais aos outros mangás da editora, sem detalhes adicionais, não possuindo hot stamping, verniz localizado, nem nada mais.


CAPA


A capa cartão (que fica abaixo da sobrecapa) também foi feita em um bom material, sendo similar aos outros mangás da editora.

Em questão de design, ela também segue o padrão do selo Tsuru, com uma barra lateral com o nome do mangá e uma ilustração em duas cores. A lombada e a quarta-capa, por sua vez, continuam a imagem que se iniciou na capa, mas sem texto nenhum,


CAPAS INTERNAS, PRIMEIRAS E ÚLTIMAS PÁGINAS


Estamos nos repetindo muito ao falar que tal ou qual coisa segue o padrão do selo Tsuru, mas é verdade. As capas internas, igualmente, seguem esse padrão, sendo colorizadas e com um desenho que se repete.

Após a capa interna da frente temos a folha de resto com o nome do mangá e do autor, seguido de uma folha com expediente e a ficha catalográfica, além da explicação do que é coleção Tsuru. A seguir temos o sumário e duas folhas mostrando os personagens principais do mangá.

Após a capa interna de trás temos páginas com referências bibliográficas, um posfácio da edição japonesa e uma entrevista fictícia com Hitler. A seguir há também um mapa.


PAPEL DO MIOLO


A editora Devir não divulgou a marca de papel utilizada no mangá, mas se trata de algum papel da família dos offwhites. É um papel de cor creme, daqueles bem alvos. É um papel muito bom para a leitura (não cansa a vista) e praticamente não tem transparência, sendo realmente excelente.


ACABAMENTO GERAL


Como dito, o mangá vem num formato grande, com um bom papel no miolo e capa cartão com sobrecapa. Para além disso, a encadernação também é boa, não havendo nenhum problema para ler ou folhear. O único demérito (além do fato da sobrecapa ser simples) é que o miolo é apenas colado, não tendo costura.

Como a encadernação é excelente isso não chega a ser um problema para o produto, a questão é que o mangá custa R$ 99,90 e para um mangá desse valor (e que tem apenas 288 páginas) se esperava que tivesse isso. Então, em resumo, está bom, mas pelo preço e pela quantidade de páginas precisava ser melhor.


DETALHES EDITORIAIS


Hitler faz parte de um novo momento da Devir em um determinado aspecto editorial. Durante muito tempo, a empresa sofria críticas dos consumidores por publicar os seus mangás com onomatopeias traduzidas. A empresa ouviu essas críticas e resolveu mudar e agora ela faz igual às demais editoras, mantendo a onomatopeia original em japonês e colocando uma legendinha do lado.

Assim, como se vê nas imagens a seguir, está bem semelhante ao que faz a Panini, a JBC e outras editoras, de maneira que não haverá mais estranhamento.

De minha parte, eu nunca me importei com isso, mas como o descontentamento era grande, que bom que a editora ouviu os consumidores.

Em relação a outros detalhes: o texto é bem traduzido e adaptado e bastante coeso e coerente na medida do possível. Encontrei alguns problemas de revisão, como um artigo faltando antes de um substantivo, dentre outras coisas. Não foram erros grotescos, mas não deviam acontecer, principalmente em um mangá com preço tão alto.

Um dos erros. Para o texto ficar melhor faltou um “a” antes de “Bélgica”.

Por fim, um detalhe importante na questão textual é que ao longo do mangá existem algumas notas históricas aqui e ali, corrigindo alguma coisa apresentada no mangá ou dando alguma informação adicional.

Não há informação se tais notas eram da versão original ou se foram inserção da Devir, mas eu acredito mais na segunda opção, pois na página de expediente a editora credita um revisor histórico (Carlos Dias) que, como o nome sugere, deve ter lido mangá e sugerido notas.


A HISTÓRIA E CONCLUSÃO


Obras biográficas, por vezes, podem ser difíceis de ler, principalmente quando a gente não vai com a cara do biografado. Daí que um mangá narrando a vida de Hitler me parecia meio perturbador por assim dizer, no sentido do como as coisas seriam abordadas.

O primeiro capítulo, porém, é logo para a gente contextualizar quem é Hitler. Ele acontece em 1945, perto do final da guerra, e vemos pessoas sofrendo. Ou seja é um capítulo para nos mostrar de início e para não esquecermos quem é essa figura, alguém malvado, um bandido, um vilão que existiu na vida real.

No entanto, embora o mangá apresente Hitler como o ser repugnante que ele era (falando que os judeus eram os culpados por isso, aquilo e aquilo outro), como um assediador de sua sobrinha, dentre diversas outras coisas, o modo de contar a história é idêntico aos outro mangás, então – principalmente os primeiros dois terços – ele é feito para torcermos pelo protagonista. Nesses primeiros 66% do mangá, ele visa colocar uma emoção nos momentos de conquista de Hitler em relação ao seu partido e demais brigas políticas dentro da Alemanha, o que leva a emoção do leitor para a torcida por ele.

Numa obra de ficção é perfeitamente comum e normal gostarmos de um personagem malvado e que não condiz com os nossos valores. Embora a ficção esteja sempre atrelada à realidade de algum modo, a gente pode vê-la como um ambiente fechado, então nós podemos torcer por um genocida como o Light Yagami, de Death Note, sem qualquer culpa, pois não é a vida real. Na vida real seríamos totalmente contra o delírio megalomaníaco do Kira, mas na ficção isso pode, a ficção é arte e a arte é lugar da transgressão.

Só que o mangá Hitler é uma biografia de uma pessoa real e odiosa e é muito ruim sentir aquela vontade de torcer por ele, daí a importância daquele primeiro capítulo lá no início. É sempre bom voltar a ele para não perdemos de vista que é uma ficção baseada em uma pessoa real que era um verdadeiro vilão.

A partir de mais ou menos o último terço da história, onde mostra-se mais detidamente a segunda guerra mundial, ocorre um maior distanciamento e vemos Hitler apenas como um total maluco sonhando com coisas grandiosas, com suas maquinações e tramas em prol de transformar a Alemanha em um grande império.

Entretanto, independente de qualquer coisa, não consigo achar Hitler como uma obra prima. Está longe de ser ruim, mas acho que o autor não conseguiu colocar foco em coisas importantes, deixando a figura do protagonista menos real do que é. O mangá mostra que Adolf Hitler era antissemita, mas (fora o capítulo inicial) não mostra o quanto seu jeito de pensar era ruim e os males que causava. Por outro lado, o mangá mostra que Hitler era um excelente orador, porém só diz isso com palavras, não mostrando em forma de arte. Fora isso, muitas coisas não aparecem – como a conhecida história das Olímpiadas de 1936.

Como dito, não acho que seja ruim, mas acho que falta substância, que falta aquela coisa que mostra mais claramente quem é o protagonista da história, quem foi a pessoa de Adolf Hitler. Faltou mais do medo que ele causava nos não “arianos”, faltou mais da lavagem cerebral que ele e seu partido fizeram na Alemanha, etc, etc, etc.

Assim, não acho que seja um título indispensável e existem mangás melhores que falam sobre a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha Nazista e o próprio Hitler, como 1945 ou Recado a Adolf. Entretanto, eu indico pegar se você o vir em uma promoção com uns 50% ou mais de desconto.


Ficha Técnica


Título Original: 劇画ヒトラー
Título: Hitler
Autor
: Shigeru Mizuki
Tradutor: Caio Suzuki
Editora: Devir
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 17 x 24 cm
Miolo: Papel de cor creme alva
Acabamento: Capa cartão sobrecapa
Páginas: 288
Classificação indicativa: não divulgado
Preço: R$ 99,90
Onde comprar: Amazon

SinopseQuem foi Adolf Hitler? Um jovem megalomaníaco e obsessivo, frustrado em suas aspirações artísticas que se tornou um ditador com a ambição de dominar o mundo. A história contada com maestria por Shigeru Mizuki é um relato próximo da realidade sobre a vida e os desejos de um homem que marcou a História da Alemanha e do mundo – desde a sua juventude, passando por sua improvável carreira militar e o seu papel fundamental na II Guerra Mundial, até a sua morte. Um mangá biográfico desenhado com pinceladas ousadas, que apresenta uma perspectiva japonesa sobre os acontecimentos que levaram ao maior conflito do século XX. Mizuki traça aqui um paralelo com a própria história militar do Japão, um tema que se tornou central na sua obra devido a sua posição pacifista e aos traumas causados por sua participação na guerra. No mangá Hitler, Shigeru Mizuki mergulha nos livros de história para criar um retrato intenso e eloquente da figura de Adolf Hitler.


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