
Veja como está o mangá
Mangá Aberto é uma coluna de resenhas em que mostramos a edição física de um mangá, geralmente um lançamento. Nela apresentamos fotos dos mangás, acrescentando alguns detalhes e opiniões.
A postagem de hoje será sobre a edição brasileira de Pedacinhos, mangá publicado no Brasil em fevereiro de 2024 pela editora Darkside Books.
PEQUENAS INFORMAÇÕES SOBRE A OBRA
Pedacinhos é um mangá de autoria de Shintaro Kago (mesmo autor de Dementia 21) e foi publicado originalmente no Japão em 2009 pela editora Core Magazine.
Ao contrário da maioria dos mangás que primeiro saem em revistas para depois ganhar um volume próprio, Pedacinhos foi um projeto desenvolvido para ser publicado de uma vez, tendo sido feito por inteiro antes de ser visto pelo público.
No Brasil, o mangá foi anunciado pela editora Darkside Books em janeiro de 2024 e foi publicado no início de fevereiro do mesmo ano.
FORMATO DA EDIÇÃO BRASILEIRA
A edição brasileira de Pedacinhos veio no formato 14 x 21 cm (mesmo de Deathdisco, A Menina do Outro Lado, Contos de Horror da Mimi e Fragmentos do Horror) com miolo em papel offset e capa dura. São 224 páginas, todas em preto e branco.


CAPA, QUARTA-CAPA E LOMBADA
A capa da edição brasileira segue a mesma ilustração da versão original japonesa, mas a Darkside criou uma composição própria com um fundo totalmente preto em que destacou o nome do autor (tanto em alfabeto latino, em vermelho, quanto em caracteres japoneses, abaixo do nome em vermelho) em detrimento do título do mangá (colocado de forma quase imperceptível na parte esquerda inferior.
É nítido que a editora tentou fazer toda uma estilização com o título do mangá para representar o que a própria palavra diz (ser pedacinhos), mas não ficou bom. O destaque ao nome do autor já é algo corriqueiro na editora, mas o título do mangá ao menos ficava algo mais visível. Em Pedacinhos o mais comum é olhar e achar que nem título tem no volume de tão apagado que ficou.

Se o design deixou a desejar, em termos de acabamento é uma capa dura de excelente qualidade. Além disso, possui ainda verniz localizado nas partes em vermelho e nos caracteres japoneses. O verniz localizado também se encontra na lombada (título e partes em vermelho) e na quarta-capa (logo da editora e partes em vermelho).
Falando da quarta-capa, o design é bem minimalista na cor preta com uma gota vermelha no centro, o logo da editora na parte de cima e o código de barras na parte inferior. Infelizmente, em razão disso, a editora não colocou uma sinopse. Isso é algo que eu bato muito na tecla, pois é um grande facilitador para as pessoas que compram em lojas físicas, afinal os produtos são lacrados e se o consumidor não pode ver nenhuma prévia fica difícil se decidir por comprar apenas pela capa. Claro que uma capa chamativa, muitas vezes, já é suficiente para fazer uma pessoa comprar um produto que não conhece, mas uma sinopse ajuda ainda mais.

Um detalhe que vocês veem na quarta-capa é que ao lado do código de barras têm alguns riscos brancos. Logicamente, o meu pensamento foi de um erro da gráfica na hora da impressão. Entretanto, nas aberturas de capítulo têm esses riscos semelhantes, o que me leva a crer que é proposital. Entretanto, não entendi o conceito.

A lombada, por sua vez, tem problemas semelhantes ao da capa. A editora quis fazer o seu design diferenciado e o título do mangá se perde em meio ao nome do autor (colocado apenas em caracteres japoneses). Ficou bem esquisito…

CAPAS INTERNAS, PRIMEIRAS E ÚLTIMAS PÁGINAS
As capas internas de mangás em capa dura a gente chama de “guardas”. É uma folha mais grossa colada junto ao miolo e a capa dura. Em “Pedacinhos” as guardas são ambas em cor vermelha com alguns pontilhados, parecendo emular uma sujeira do sangue deixado em cenas de crimes.
Após a guarda da “parte da frente” temos várias páginas antes de a história efetivamente começar, entre as quais algumas folhas de rosto e um índice.






Após a guarda da “parte de trás” temos algumas páginas como a folha de expediente e ficha catalográfica e uma pequena biografia do autor. Como é de praxe nos mangás da Darkside Books não têm indicação de que a leitura começa do outro lado.




PAPEL DO MIOLO
O papel utilizado no miolo é o popular offset, o mesmo papel branco utilizado pela editora em todos os seus mangás até o presente momento.

ACABAMENTO GERAL
Pedacinhos é um mangá padrão da editora Darkside Books, mas um mangá padrão dessa empresa é diferente dos das outras editoras, tendendo a ser um produto mais premium e assim é, com capa dura, verniz localizado e miolo colado e costurado, tendo uma boa encadernação.
Não tem o que se reclamar nesse quesito, entretanto o papel podia ser melhor. O offset é um papel bonito visualmente, mas para a leitura o melhor é um papel mais opaco, de cor creme, amarelada, como o Pólen Bold 90g usado bastante pela Pipoca & Nanquim. Então, o offset não é um papel ruim, mas para uma publicação de luxo, realmente ele devia ser melhor.
DETALHES EDITORIAIS
O texto da Darkside Books costuma ser feito com muito esmero, com uma boa tradução, adaptação, preparação e revisão. Assim, a gente não encontra erros de gramática e nem qualquer coisa anti-natural da língua portuguesa. Logo, temos um texto bastante coeso e coerente ocasionando uma boa fluidez na leitura.
O trato com as onomatopeias é idêntico aos demais mangás publicados no Brasil, mantendo a original japonesa e colocando uma pequena legenda ao lado. A escolha de fontes para a legenda, porém, acaba causando um pequeno estranhamento para quem está acostumado com o perfil das outras editoras (mas também é possível que passe despercebido^^).



Um ponto importante e negativo tem a ver com os paratextos. No meio do mangá, após o término da história “Pedacinhos”, temos um glossário (aparentemente feito pelo próprio Shintaro Kago) e um bate papo do autor com Ryuichi Kasumi, um autor de obras baka-misu. E o texto é um quebra-cabeça a respeito da ordem de leitura.
Como as editoras normalmente fazer quando tem um texto? Ele segue da direita para esquerda como os mangás. Ou então algumas vezes a editora inverte a ordem e faz a leitura ser da esquerda para a direita.
Pedacinhos por outro lado é um quebra-cabeça total. O glossário começa na página 141 e, em seguida, você deve ler a 140. Depois da 140 qual página você deve ler? Isso mesmo, a 143. Depois desse você vai a 142. Da 142 você vai para a página 145 onde começa o bate-papo. Depois vai para 144 e segue a ordem 147,146,149,148. Em resumo você tem que ler a página da direita, depois ler a da esquerda, mas seguir a ordem da direita para a esquerda O_o.

O tradutor Erico Assis comentou no Twitter que já viu outros mangás serem feitos dessa forma, mas para mim isso é algo inédito (ou eu não lembro de ter visto). Eu sempre vi texto linear, seja da direita para a esquerda, seja da esquerda para a direita. Esse quebra-cabeça é uma grande novidade.
Eu até fui conferir outros mangás da Darkside Books e reparei que em O Livro dos Insetos Humanos e em A Feiticeira da Tempestade também há texto, mas nesses a editora fez de forma normal, da direita para a esquerda, sem ficar pulando páginas. E agora eu não faço ideia do motivo de ter sido assim, mas independente de qual tenha sido, achei uma escolha bem ruim.
HISTÓRIA E CONCLUSÃO
Pedacinhos é um mangá composto por uma história principal (de mesmo nome), além de 4 contos curtos. Nesses 4 contos vemos um pouco da fama de Shintaro Kago (um expoente do erótico grotesco) com histórias contendo diversas cenas que podem embrulhar o estomago ou atacar alguma fobia que o leitor têm. Você verá uma mulher urinar num cara decrépito, alguém propositalmente querer colocar insetos dentro da pele, dentre outras coisas grotescas e absurdas.
Para quem gosta de Junji Ito, saiba que o que aparece nos contos dele são muito leves em comparação ao Shintaro Kago, de maneira que até quem está acostumado com obras de terror, pode sentir náuseas ao ler algumas passagens desses contos.
É preciso comentar, no entanto, que tal qual Dementia 21, os contos (ou ao menos boa parte deles) apresentam uma carga de crítica bastante ácida em relação às pessoas e/ou à sociedade. As situações apresentadas no mangá são loucuras elevadas ao extremo, com muitas coisas você não conseguindo entender o porquê de estar acontecendo, mas vez ou outra tem um ponto que a gente vê um “foi merecido” ou um “é culpa de tal coisa”, etc, etc, etc.
Quando mais a gente se detém a analisar meticulosamente os contos, a gente vê que o erótico e o grotesco são utilizados como formas de análise ou de aviso a respeito de certos comportamentos das pessoas ou da sociedade. Ainda assim, esse tipo de história não é para todo mundo, pois pode desencadear até mesmo gatilhos emocionais.
***
Na história principal de Pedacinhos, Shintaro Kago, porém, não quer seguir o seu clássico erótico grotesco e sim criar uma história de mistério e suspense. Essa história é dividida em oito capítulos, sendo quatro deles “Maníaco Fatiador” e quatro deles “Autor de Mangás”, com um capítulo intercalando com o outro.
Na obra, um serial killer está à solta matando diversas mulheres de maneira cruel, cortando o corpo delas pela metade. Nisso acompanhamos o serial killer vivendo sua vida normal (é um empregado de meio período), enquanto recarrega suas energias para o próximo assassinato. Ocorre, porém, que pouco depois crimes idênticos começam a acontecer sem que ele tenha sido o responsável. Havia um segundo assassino? Ou era ele mesmo e ele não se lembrava? Um grande mistério começa e nosso protagonista se verá envolto em coisas que ele jamais poderia imaginar…
Isso é a parte de “Maníaco Fatiador”. Já na parte “Autor de mangás” iremos acompanhar Shintaro Kago (um autor de mangás, daí o nome) desejando criar uma história que não fosse do ero-goru, no caso uma história de mistério e sugerem a ele criar uma baseada no caso do maníaco fatiador^^. É uma história interessantíssima, então, que mescla real e imaginário (afinal existe um personagem que é autor de mangá que tem o mesmo nome do autor), com uma ficção dentro da ficção. Ou quase isso.
Como um todo, essa é uma história sensacional, daquelas que te prendem de um jeito, te levam para um caminho (você fica absorto no que está acontecendo, faz conjecturas) e depois puxam o seu tapete de um jeito icônico. Qualquer coisa que a gente falar a mais da história pode acabar com a sua experiência de leitura, a única coisa que você tem que saber é que é simplesmente genial e você tem que ler o mangá com bastante atenção.
É um tipo de história que muitos dirão que gostaria de esquecer tudo para ler novamente como se fosse a primeira vez. Não é que seja algo inovador e nunca antes visto, mas o jeitinho de contar a história realmente nos pega e abre a nossa mente de forma única.
***
Se você tiver uma oportunidade (R$) eu recomendo a compra desse mangá, pois ele é um tipo de título que vale a pena conferir por conta de sua bizarrice e coisas fora do comum que ele tem, sendo realmente um título que foge bastante do padrão e merece ser apreciado.
Importante falar de novo, no entanto, que ele é +18 e que ele tem coisas que podem não ser bem vistas por todas as pessoas, causando angústia e até gatilhos emocionais. Então o melhor é ir com calma, e ler apenas quando você estiver bem mentalmente…
Ficha Técnica
Título Original: フラクション
Título: Pedacinhos
Autor: Shintaro Kago
Tradutor: Luiz Claudio Bodanese
Editora: Darkside Books
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 14 x 21 cm
Miolo: Papel offset
Acabamento: Capa dura
Páginas: 224
Classificação indicativa: 18 anos
Preço: R$ 69,90
Onde comprar: Amazon
Sinopse: Uma série de assassinatos assusta os moradores da região do distrito de Setagaya, em Tokyo, onde são encontradas mulheres com os corpos divididos ao meio. O autor dos crimes, ainda não identificado, é apelidado de Maníaco Fatiador. Pedacinhos se desenrola em meio a esses misteriosos assassinatos, alternando duas narrativas paralelas — episódios ficcionais que se entrelaçam com a própria vida do mangaká. Uma delas é contada pela perspectiva de Kotaro, um garçom aficionado por filmes de terror, enquanto a outra apresenta Shintaro Kago, o próprio autor da história, que se incorpora à trama como um artista em meio a uma crise, buscando experimentar novos estilos de mangá. Um dos principais autores japoneses de mangá ero guro — gênero que enfatiza as dimensões eróticas e grotescas —, Shintaro é também o grande representante do body horror oriental, quebrando tabus e se dissociando da realidade. Considerando a bagagem do autor, é com naturalidade que sua editora propõe a ele, dentro da narrativa, que desenhe um mangá inspirado nos casos de esquartejamento de mulheres perpetrados pelo Maníaco Fatiador. Contudo, o que o mangaká busca é algo mais ousado: criar um mangá de mistério usando técnicas específicas que podem ser empregadas apenas em quadrinhos, a fim de abrir novos caminhos e surpreender o leitor. Partindo da autoficção, o personagem Shintaro Kago começa a analisar os principais aspectos e truques geralmente usados na literatura e em filmes de mistério e horror, como as obras de Agatha Christie e Dario Argento, estudando as possibilidades e limitações para o seu trabalho. Enquanto isso, Kotaro e sua colega Fujioka conduzem investigações sobre os assassinatos em série, mas acabam envolvidos em eventos sinistros, e o caso toma um rumo ainda mais intrigante. Quando as duas narrativas se cruzam, todos os mistérios convergem para uma conclusão arrebatadora, como não poderia ser diferente numa obra do autor, marcada pela imprevisibilidade. Não por acaso, Pedacinhos conquistou o 3º Prêmio Mundial Baka-misu, concedido a obras de mistério nas quais a ênfase está não só no suspense e na sua solução, mas sobretudo em proporcionar entretenimento por meio de tramas que desafiam a lógica, muitas vezes tendendo para o absurdo. Um livro para quem se encanta pelo mestre Junji Ito e pelos contos de Fragmentos de Horror. O volume contém outros quatro contos: “O Homem que Retornou”, que retrata o dia a dia de um veterano de guerra com deficiência física e sua mulher; “Tremor”, em que as pessoas desenvolvem espasmos que não conseguem controlar; “Colapso”, sobre uma mulher atormentada por estranhas obsessões, e “Comichão”, que mostra como a sensação de desconforto pode ser relativa. A singularidade desta obra está na habilidade do autor em mesclar o grotesco com o humor, brincando ao construir não apenas uma história de detetive, mas transformando a própria narrativa em um grande quebra-cabeça, onde não podemos confiar no que vemos. Sua abordagem, que não se limita ao bizarro, brutal e erótico e sempre procura inserir aspectos cômicos, não só tem forte influência de Monty Python, grupo britânico de humoristas que ganhou notoriedade fazendo sátiras e comédias de conteúdo surreal e absurdo, mas sobretudo de Yasutaka Tsutsui, escritor japonês de ficção científica conhecido pelo estilo nonsense e pelo aguçado senso de humor ácido.
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O mangá parece ser interessante, realmente. Sua resenha sobre os contos aumentou mais ainda a minha vontade de comprá-lo, um terrorzinho sempre será bem-vindo aqui. Concordo com seus pontos negativos, também detestei essa escolha do texto todo invertido. Mas fazer o quê, DarkSide é uma editora “gourmet”, e como tal, tem dessas frescuras de vez em sempre. O jeito é ignorar…