Resenha: “Flash Point” (edição portuguesa)

Um bocado interessante…

Recentemente eu tive a oportunidade de ler mangá Flash Point, de Imai Arata, publicado em Portugal pela editora Sendai.

Eu consegui ler a obra, pois basicamente a empresa, tempos atrás, estava distribuindo o título para veículos de imprensa no Brasil que desejassem realizar uma resenha dela e, obviamente, eu quis.

***

Flash Point foi publicado originalmente no Japão em agosto de 2023 de forma independente pelo autor e possui apenas um volume. A obra foi licenciada no mesmo ano pela editora americana Glacier Bay Books e publicada nos Estados Unidos em 2024.

Em 2025, saiu em Portugal pela Sendai editora, em duas versões, uma limitada, com capa variante, em parceria com a Chili com Carne.

Em Flash Point nós conhecemos uma adolescente chamada Mashiro que, certo dia, deixa de ir à escola por conta de um certo problema com os colegas de classe. A menina termina, então, por passar os dias com um homem desempregado, Imai, seu cunhado, sempre conversando, jogando ou passeando.

Um dia, Mashiro começa a fazer vídeos engraçados para a Internet, filmados por Imai, e eles viralizam em pouco tempo. A partir desse momento, eles continuam a fazer vídeos com o objetivo de que eles fiquem tão famosos que cheguem até mesmo na irmã de Mashiro, a esposa de Imai.

Até aí nada de anormal ou estranho, porém, ocorre que um dia (8 de julho de 2022) eles vão fazer vídeos num lugar onde está ocorrendo um comício do Primeiro Ministro do Japão, Shinzo Abe, e, nesse dia, Abe é alvo de um ataque e termina morrendo. Mashiro é vista em vários vídeos sobre o assassinato e a menina acaba sendo alvo de fake news e teorias da conspiração…

Flash Point é um mangá muito gostoso de ler, pois basicamente a gente acompanha o dia a dia de duas pessoas em meio a um momento de caos, Mashiro e seus problemas na escola, e Imai e sua falta de emprego.

Assim, a gente vê a amizade crescente entre eles, tudo num clima de leveza ímpar, com a garota não querendo revelar os problemas escolares e Imai não forçando ela a isso.

É um slice of life daqueles bem legais em que o leitor acompanha apenas a vida cotidiana pura e simples dos personagens fazendo o mais absoluto nada. Ou deveria ser assim…

A obra, na verdade, mistura autoficção com vida cotidiana, descambando depois – como dito – para um movimento de fake news e teorias da conspiração.

Autoficção (de maneira muito resumida) é um termo criado na Teoria Literária para definir um título de ficção que mistura aspectos autobiográficos com ficcionais, ou seja uma obra que coloca a realidade do autor junto com elementos “inventados”.

Em Flash Point, nós temos o próprio autor ou o suposto próprio autor, Imai, como protagonista, contando de uma época de sua vida em que estava desempregado e a irmã de sua esposa passou a ir na casa dele todos os dias, sem que a esposa ou a família da garota soubesse. O que é real e o que é ficcional meio que não importa tanto, pois o lado real identificável é visto aos olhos, com o autor em destaque. Assim, é como se a gente estivesse lendo uma história da vida dele mesmo, independente de ser tudo ficcional.

Assim essa autoficção se mistura com o gênero de vida cotidiana, dando uma sensação diferenciada no primeiro momento da história (a parte mais slice of life), e enfatizando uma realidade do mundo atual no segundo momento.

Sim, pois, Flash Point é um mangá que fala dos dias atuais, que deixa claro como uma simples coisa pode virar alvo de notícias falsas na Internet e acabar gerando até mesmo diversas teorias conspiratórias, principalmente se tiver alguma coisa relacionada à política.

No caso do mangá, Mashiro estava apenas na hora errada e no lugar errado, mas isso foi suficiente para uma grande horda acontecer na Internet, gerando consequências inimagináveis para ela.

O fato de ser uma obra autoficcional (ou de ter o autor como um dos protagonistas) passa uma mensagem, reforçando a questão da realidade da situação retratada, mostrando que o mundo é sim daquele jeito, mostrando como teorias da conspiração nascem do nada e se espalham na Internet como os detritos de um foguete no espaço.

Flash Point é um grande achado da editora Sendai, pois apresenta uma história bem diferente e interessante que fala muito sobre o momento histórico e político em que estamos vivendo, apesar de a obra não se passar no Brasil.

O que pode incomodar alguns leitores (espero que apenas os mais novos) é o estilo da arte, considerada simples e feia por alguns. No meu entender, porém, é uma arte que faz sentido para a história contada, pois se é bom termos uma maior realidade no âmbito narrativo, é também bom deixar claro que é uma obra de ficção, que é uma obra arte.

A função do estilo dos desenhos do autor, então, é colocar uma dualidade (dualidade esta posta várias vezes na obra) entre o real e o ficcional.

Flash Point, portanto, é um mangá que eu recomendo bastante. É uma leitura diferente e muito agradável e que vale não só ler, como reler sempre que possível.

Infelizmente, o mangá foi lançado apenas em Portugal, tornando um pouco difícil a aquisição da obra no Brasil. Difícil, mas não impossível…

***

Basicamente, a melhor maneira de conseguir mangás de Portugal é conhecendo alguém que more lá e pedir para essa pessoa te enviar. Sai muito mais barato. A única loja que encontrei que envia para o exterior é a Wook.pt, mas o frete custa mais de 30 euros, então é um pouco complicado indicar.

O caso de Flash Point, porém, é diferente e você pode encontrar na OLX (a própria editora portuguesa indicou o perfil). O mangá custa R$ 89,00 + o frete. Se você for de Santos, talvez consiga economizar no frete. Caso deseje adquirir, basta clicar aqui.


FICHA TÉCNICA


Título Original: フラッシュ・ポイント
Título: Flash Point
Autor
: Imai Arata
Tradutor: Cassiano Soares
Editora: Sendai Editora
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes em Portugal: 1 (completo)
Dimensões: 15 x 21 cm
Miolo: não divulgado
Acabamento: Capa Cartão
Páginas: 240
Classificação indicativa: não divulgado
Preço: R$ 89,00
Onde comprar: OLX

Sinopse oficial: Mashiro é uma jovem que deixa de ir a escola por um problema com os colegas. Como uma piada inofensiva, ela e o cunhado desempregado começam a fazer vídeos parvos no Instagram, gerando milhões de visualizações. Quando ela é vista num direto no comício de Shinzo Abe, a diversão toma um rumo completamente surreal e assustador. Como se sabe, a 8 de Julho de 2022, o ex-primeiro ministro é m0rto a t1ros. Na era da pós-verdade ela torna-se símbolo de diversos movimentos e é envolvida em teorias da conspir4ção.