JBC vai virar uma Conrad 2.0?

Discutindo teorias da Internet…

Em meio aos diversos comentários sobre o preço de Akira (considerado por muitos como caro, surreal, abusivo), recebemos um muito interessante em nossa página no Facebook: uma pessoa comentou que sentia um cheirinho de que a JBC estaria se tornando uma Conrad 2.0.

Segundo o pensamento do leitor, a JBC está seguindo o mesmo caminho que a antiga Conrad ao lançar publicações de luxo, visto que em seus últimos dias como editora independente a empresa teria apelado para esse expediente em publicações como Dragon Ball, Nausicaa e Vagabond. Estaria, então, a JBC mal das pernas e tentando um último suspiro antes de desaparecer que nem a Conrad?

Existem alguns pontos a se analisar, mas a resposta já pode ser adiantada: não.

I

Entre alguns consumidores, criou-se o mito de que a Conrad buscou a publicação de luxo de algumas obras e isso teria resultado no fim da editora. Confesso que eu mesmo acreditava um pouco nisso, mas a verdade é que isso não é uma verdade factual. Ao olhar o catálogo da editora Conrad (clique aqui), você pode ver que ela lançava mangás por um preço mais elevado desde sempre.

Antes de iniciar a publicação de Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball a Conrad já havia lançado a publicação de Gen Pés descalços, ao preço de R$ 24,00. Em 2001, a editora ainda lançaria Preto & Branco, também a R$ 24,00. Em 2002, a editora publicou Mangaká: lições de Akira Toriyama (R$ 17,90) e em 2003 Gon (R$ 19,00) e Osamu Tezuka: uma biografia mangá (R$ 36,00), em 2004, O vampiro que ri (R$ 24,00). No ano seguinte, 2005, é que vieram as obras mais longuinhas, os relançamentos de Dragon Ball e Vagabond, além de outros títulos como Buda, de Osamu Tezuka, Ero-goru e Na prisão, tudo a preços bem elevados. Como se vê, a Conrad sempre apostou em mangás mais caros geralmente voltado a livrarias, mas no meio deles boa parte das publicações ainda era mais convencional, voltada às bancas e ao público jovem.

Embora esses valores pareçam pequenos (Um BIG da JBC é mais caro, por exemplo) é preciso lembrar a época de publicação e a correção de valores. Com o valor de Preto & Branco, lançado em 2001, você conseguia comprar 6 volumes de Cavaleiros do Zodíaco, à época R$ 3,90. A atualização do valor (confira pelo link) mostra que Preto & Branco equivale a mais ou menos 70 reais, o mesmo preço de Akira.

Vale comentar que estamos falando só de mangás, mas basta olhar o Guia dos Quadrinhos e você verá uma penca de hqs de outros países publicadas a preços altíssimos pela editora. Logo, não dá para olhar os títulos de luxo e ver a queda da editora, pois a Conrad sempre os publicou. De certo, talvez não fosse o momento de lançar um Dragon Ball em edição definitiva, ou uma edição especial de Vagabond, e isso tenha contribuído para o fim da editora, mas não dá para colocar na conta só isso e nem para aludir uma semelhança com o atual momento da JBC. Embora não existam dados públicos, é meio óbvio que o que derrubou a Conrad foi um conjunto de fatores que pode ser resumido simplesmente como má administração e se uma empresa é má administrada, não há títulos de sucesso que a salvem…

II

Estamos em uma crise econômica e, naturalmente, produtos supérfluos são os primeiros a serem cortados pela população. E mangá é um produto supérfluo^^. Então é lógico que a JBC foi afetada pela crise. Não há como saber ao certo o quanto ela foi atingida, mas nitidamente as vendas diminuíram e a empresa teve que reformular todo o seu planejamento.

A editora diminuiu o número de publicações, passou vários títulos mensais para bimestrais, retirou Knights of Sidonia das bancas, atrasou o lançamento de diversos títulos novos, deixou o Ink Comics sem novidades, não faz anúncios de novos títulos a tempos e iniciou a publicação de obras de luxo. Tudo isso é um sintoma da crise, mas também é uma amostra de uma reformulação, visando sobreviver no mercado. Mesmo o adiamento constante do terceiro BMA  (concurso de mangás da editora) e do Henshin Drive (plataforma de leitura digital da editora), ainda que sejam por outros motivos, parecem fazer parte da estratégia da editora de se adequar ao momento do país.

Notem como estava a JBC em 2015 e no início de 2016: ela lançava título atrás de título e anunciava mangá semana sim, semana não. Isso parou já no final da primeira metade do ano passado.  Em maio de 2016 (como mostra a nossa edição do Calendário de lançamentos da época) a editora tinha mais de 10 séries anunciadas e boa parte delas eram de obras mais desconhecidas ou sem apelo popular, como Nijigahara Holograph O homem que foge. A empresa adiou o lançamento dessas obras menos populares e se focou nos títulos consagrados Fullmetal Alchemist, My hero academia e Saintia Shô. Para completar a estratégia vieram os títulos de maior valor agregado, Cavaleiros do Zodíaco – kanzenban, The Ghost In The Shell e o artbook de The Lost Canvas, voltados para um público mais específico e com maior poder aquisitivo.

Em outras palavras, durante esse período (maio de 2016 – maio de 2017), a maioria das obras lançadas pela empresa foram aquelas com vendagem garantida. The Ghost In The Shell, por exemplo, conseguiu ser o livro mais vendido da Amazon do mês de janeiro. É claro que a gente pode atribuir isso aos descontos, mas loja também os oferece para outros livros, então ser o mais vendido na Amazon significa muita coisa. Além disso, o título esgotou e foi prontamente reposto pela editora em várias lojas. Não sei se o lançamento de o Perfect Book foi devido ao sucesso de GITS ou se isso já estava previsto antes, mas igualmente faz parte da estratégia dessa “nova JBC” que vem buscando se adequar ao momento e lançar obras com um certo apelo.

Veja que a editora tem sido “pés no chão” o tempo todo, então é completamente irreal essa ideia de que a JBC possa ser uma Conrad 2.0. Eu vejo que a editora não está em um bom momento – o país não está – mas a estratégia que a empresa montou parece a melhor possível: diminuiu o número de lançamentos dando mais folga para os consumidores (e, com isso, provavelmente tendo uma curva de vendas menor ao longo dos volumes) e, ao mesmo tempo, lançou alguns títulos de luxo com vendagem garantida, a preços mais altos e voltados para uma parcela mais rica da população.

Muita gente falou que o Kanzenban seria um tiro no pé da editora e, do mesmo modo, agora falam que Akira levará a empresa para o buraco por causa do preço, mas a verdade é que existe público para comprá-los. Decerto, se o mangá de Cavaleiros do Zodíaco fosse um fiasco a editora teria graves perdas financeiras, mas o público de CdZ é muito fiel e boa parte deles tem muito poder aquisitivo, então o mangá ser lançado a R$ 64,90 nunca fui um risco muito grande.  Akira a R$ 69,90 representa menos risco ainda, visto que há publico para o título tanto entre os fãs de mangás, quanto entre os fãs de comics, dando praticamente 100% de certeza de que a obra será um sucesso.

Então, ao meu ver, é uma estratégia válida e que não coloca a editora em risco. Só devemos nos preocupar se a empresa vier e anunciar um mangá de mais de 10 volumes completamente desconhecido e o lançar a R$ 64,90 ou mais, pois aí sim seria um tiro no pé. Por ora, a empresa só tem lançado obras de luxo com vendagem certa^^.

III 

Como tentei demonstrar não existe qualquer indício de a JBC possa estar perto da falência. No momento, a empresa parece estável com sua média de 9 a 10 mangás todo mês. O mercado está em um momento ruim e as empresas estão se adequando, não só a JBC. Basta ver a NewPOP que abandonou totalmente as bancas de revista em 2016 e agora tem lançado um número menor de publicações todos os meses. Do mesmo modo, a empresa tem deixado de lado os títulos mais desconhecidos (alguém lembra de Gagoze ou Category; Freaks?) e apostado nas obras mais populares como A voz do silêncio e Great Teacher Onizuka. A única que não parece ter sentido a crise é a Panini, embora há quem diga que o aumento de publicações seja uma estratégia também da multinacional de passar por esse momento…

O grande ponto, entretanto, é até onde vai essa estratégia da JBC. Será que ela não fará novos anúncios? Será que o resto do ano a empresa irá utilizar para lançar os quatro mangás que ainda estão na gaveta (Akira, Inu-Yasha, Samurai 7 e Sakura Wars)? Eu não acharia estranho se fosse só isso mesmo, afinal o país ainda sofre com crise econômica e desemprego recorde, mas logicamente em algum momento a editora terá que publicar um título novo.

Por fim, vale comentar que algumas pessoas estão achando que a editora está mudando o seu foco de atuação e passando aos poucos a abandonar suas publicações para a classe média e embarcando no mercado de luxo (opinião de nossa redatora Roses^^). Porém eu acho que não dá para fazer qualquer análise nesse momento, pois eu não consigo imaginar qualquer outro mangá que possa ser direcionado a um público mais abastado sem ser um risco enorme. Decerto, se o artbook de The Lost Canvas foi um sucesso, talvez a empresa lance mais um ou outro, mas fora isso não há nada que me pareça minimamente confiável para ser lançado em formato de “luxo”.

Diante disso, só nos resta ir acompanhando e ver o que a JBC nos reserva para os próximos meses.

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32 Comments

  • @Mugi-chin, ótimo comentário, parabéns. Assim como alguns outros, destaque maior para o do @Júnior Ribeiro (com pequenas ressalvas) e o da @Luluka (excelente e especial por causa das imagens, que me fez lembrar porque todo dia “saio de casa e digo para o mundo” que não troco nem fod… digo, nem ferrando minhas edições Conrad de DB e CDZ pelos tanko’s porcarias de Panini e JBC respectivamente…u_u).

    A princípio, sobre o post em si, eu estava pronto para dizer que era uma palhaçada fazer um post deste tipo, uma piada, só podia… pois, qual a necessidade de discutir uma teoria tão estapafúrdia, jogada na internet possivelmente por alguém que só quis “causar”/gerar polêmica??… Mas me tranquilizei e li o post inteiro e todos os comentários. Após isto, diante de vários comentários e opiniões interessantes, achei que talvez tenha realmente valido a pena criá-lo, mas só por isto mesmo. Eu, inclusive, sinceramente me recuso a sequer responder a pergunta-título do post, mesmo que com apenas uma palavra, pois a resposta é tão óbvia e sem necessidade de discussão que… encerro meu comentário por aqui.

    • Grande parte das postagens do blog são pensadas vendo comentários e teorias sem sentido das pessoas na Internet^^.

      Eu penso que se tem gente que diz um certo absurdo é sempre bom fazer uma postagem para desmentir o absurdo, mesmo que a tal pessoa não chegue a ver.

      • “Grande parte das postagens do blog são pensadas vendo comentários e teorias sem sentido das pessoas na Internet^^” -> hahaha, pode até ser, mas este não é o meu sentimento em relação aos posts. Pelo menos não de modo tão exacerbado como foi neste caso. O único até agora que me passou isto foi exatamente este post aqui.

        • É por causa do título e da introdução^^.
          Em outras postagens esses detalhes costumam ser melhor trabalhados.

  • Mugi-chin

    Eu defendo a Conrad no sentido de achar que ela estava um pouco a frente de seu tempo. Muita gente na época, já colecionava quadrinhos, porém o padrão de qualidade era outro. O “bum” dos quadrinhos padrão luxo veio por volta de 2008 a 2010, quando o universo cinematográfico da Marvel começou a despontar.
    Usando como comparação a própria Panini, basta ver a “evolução” no padrão de qualidade das HQs, hoje, qualquer história já ganha uma versão capa dura, mais caprichada e tals. Isso demorou um pouco a chegar nos mangás, mas está aí. E vemos muitas coisas sendo relançadas em um padrão mais caprichado (citando aqui todos os relançamentos da JBC). Temos OPM, Ajin, Planetes, obras que talvez não precisassem ser “essa Coca Cola toda”.
    O que eu quero dizer é que se fosse hoje o kanzenban de Dragon Ball, o de Vagabond (ignorando o fato de que eles interromperam a publicação da versão meio tanko) e a versão lindona de Evangelion teriam vendido como água! Cara, até hoje sonho com um Kanzenban de DB com uma qualidade daquelas ou com uma edição realmente especial de Evangelion.
    Os one-shots do Akira Toriyama até hoje são referencia de qualidade, assim como os volumes de Bambi, Morte a Festa, Uzumaki, o lindo e fantástico Nausicaã, etc.

    Erros grotescos de administração, como o pessoal falou (não vou ficar chovendo no molhado), infelizmente esgotaram com a Conrad, uma pena.

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