Resenha: Ristorante Paradiso (edição espanhola)

Um amor, um símbolo, um sentimento…

O ano era 2009. O mês, abril. Estreava na televisão japonesa o animê Ristorante Paradiso, adaptação de um mangá de mesmo nome escrito e desenhado por Natsume Ono. Com a exibição do desenho animado, a obra e a autora tornaram-se mais conhecidas pelo público otaku no mundo, muito embora o título e a artista ainda hoje não sejam consideradas tão populares.

Ono iniciou no mundo dos mangás em 2003 com a web comic La quinta camera e não parou mais, lançando obras como Not Simple (futuramente pela L&PM), O homem que foge (lançado pela JBC), ACCA-13 (recentemente adaptado em animê) e Ristorante Paradiso, obra da qual falaremos hoje. Vale mencionar que além dos títulos mais conhecidos, Ono também publica vários yaoi sob o pseudônimo de Basso.

Ristorante Paradiso foi publicado originalmente entre 2005 e 2006 na revista seinen Mangá Erotics F, mesma de O homem que foge e Suicide Club, sendo concluído em 1 volume. A obra ainda possui uma continuação intitulada Gente – Ristorante no Hitobito, publicada entre 2007 e 2009 e concluída em 3 volumes.

O título foi licenciado em alguns países do ocidente como França, Estados Unidos e Espanha. Curiosamente, o mangá não foi lançado na Itália, embora a narrativa se passe lá^^. Dentre as edições, escolhemos a versão espanhola, publicada em 2015 pela Milk Way Ediciones, e hoje viemos comentar e dizer nossa opinião sobre esse mangá.


Sinopse


Nicoletta é uma jovem que foi abandonada pela mãe ainda pequena e viveu a vida inteira com os avós no campo. Crescida, porém, ela irá atrás da mãe com um objetivo insólito, acabar com o casamento dela…


História e desenvolvimento


Diferente da maioria dos mangás que você vê por aí, Ristorante Paradiso não se passa no Japão. A obra tem como pano de fundo a cidade de Roma, na Itália, e a maioria das cenas acontece em um restaurante que, na verdade, não se chama “paraíso”^^.

A história tem dois focos distintos, mas interligados: a relação de Nicoletta com sua mãe e uma história de amor envolvendo a garota. O mangá inicia com a jovem, então com 21 anos, indo procurar o dono do restaurante “Casetta dell’orso”, a fim de lhe contar que ela é filha de sua esposa. No passado, sua mãe lhe deixou vivendo com seus avós para que ela – sua mãe – pudesse se casar com o dono desse restaurante que não gostaria de ter qualquer relacionamento com uma mulher que tivesse filhos. De posse dessa informação, Nicoletta resolve contar tudo e executar sua vingança, mas sua mãe lhe convence de não dizer a verdade, ou pelo menos não por enquanto.

Esse é apenas o início da história, que acontece nas primeiras páginas do volume. O desenrolar da trama começa a partir daí, com a nova vida de Nicoletta em Roma. A jovem começa a frequentar o restaurante, conversa com funcionários (e ela também se torna uma) e termina por se apaixonar por um deles, Cláudio, um homem bem mais velho do que ela e que já foi casado.

Cláudio

Inicialmente, Nicoletta não enxerga seus sentimentos pelo homem e apesar de achá-lo atraente chega a pensar se ele não teria um filho da idade dela^^. Com o tempo ela percebe seus sentimentos e começa a sentir uma enorme insegurança.

A obra não trata da insegurança pela diferença de idade entre eles (isso até é mencionado, mas não tem uma importância no contexto do mangá) e sim daquela insegurança interna comum que afeta todo pré-relacionamento amoroso. Será que aquela pessoa gosta de mim? Será que eu tenho chances? Grande parte da insegurança de Nicoletta se resume, aliás, à possibilidade de ele ainda gostar da ex-mulher, visto que ele carrega a aliança de casado.

Mas, como dito, a história tem outro foco também, a relação de Nicoletta com Olga, sua mãe. O caso amoroso da garota é interligado com sua relação com a mãe, pois vemos Olga tentando dissuadir a garota de ter qualquer sentimento pelo homem. Uma reação materna de proteção, visto que ela também acha que Cláudio ainda não esqueceu sua ex-mulher. Entre uma conversa aqui e outra ali, as duas vão formando laços que não tinham até então, vão se descobrindo como mãe e filha até que todas as verdades venham à tona.

“Descoberta” é palavra que resume bem o mangá. Embora seu objetivo tenha sido outro, Nicoletta vai à Roma para se descobrir como pessoa: ela descobre um pouco de sua paixão profissional, descobre o amor de um homem, descobre a amizade materna, etc. Em resumo, ela descobre um novo modo de viver, novos amigos, novas pessoas, novas paixões.

Ristorante Paradiso não apresenta uma narrativa densa. Ele é um mangá com um desenvolvimento leve que trata do cotidiano dos personagens e a interação entre eles. Em outras palavras é um slice of life típico, mas com personagens adultos e com preocupações mais maduras (ou não^^). Um título que, sem dúvida, é capaz de agradar muita gente…


A Arte?


Os desenhos de Natsume Ono são facilmente tratados como feios, ruins ou, quando muito, esquisitos. O estilo que ela desenha é diferente do que estamos acostumados e causa estranheza em boa parte das pessoas, embora isso torne sua arte reconhecível. O modo como ela desenha as feições dos personagens, por exemplo, é muito peculiar. Se você olhar a capa de Not Simple, O homem que foge, Ristorante Paradiso, Gente ou qualquer outra obra da autora você inevitavelmente irá reconhecer que aquilo é obra dela apenas pelos traços dos rostos ainda que de perfil.

Entretanto, o traço da autora varia de obra para obra. Em O homem que foge a autora faz um tipo de desenhos “mais livre”, por muitos considerados como simples rabiscos. Em Ristorante paradiso você já reconhece esses “rabiscos”, mas os detalhes são bem acabados e feitos desse modo para demonstrar a propensa elegância do local, afinal a história se passa em Roma, mais especificamente em um restaurante pretensamente fino e que vive lotado.

Vejam a imagem acima, como o personagem é bem desenhado evocando um ar mais sofisticado. É o completo oposto de O homem que foge. Neste a autora deseja mostrar o mundo de uma forma menos idealizada, passando isso também pelo aspecto dos personagens. Em Ristorante paradiso, por outro lado, a elegância é a marca – um mundo a ser descoberto – e os desenhos mais sofisticados acompanham. Ainda assim, certos ângulos e feições dos personagens acabarão por causar estranheza em alguns leitores…


A edição espanhola


O mangá foi publicado em um formato pocket, do tamanho exato de A voz do silêncio, miolo em papel offset e sobrecapa, como é comum em boa parte dos mangás espanhóis. Um dado interessante é que a orelha da sobrecapa é muito grande, cobrindo quase a capa interna por inteiro.

Trata-se de uma edição física muito boa, bem maleável, sem qualquer problema de encadernação e ótimo para leitura. O papel offset utilizado tem uma boa gramatura, embora aqui e ali você possa ver certa transparência, mas não é nada que incomode, mesmo dos mais criteriosos.

Sobre os detalhes “internos”, a editora não utiliza honoríficos e nem qualquer “japonezices”, o que já dá um ponto extra para a empresa. Também não há notas de rodapé e, tampouco, glossário. Muito diferente dos mangás brasileiros… As onomatopeias, por outro lado, são tratadas de forma igual, mantendo o original e colocando uma pequena legenda. Um dado interessante é que não existe aquele aviso “Você está começando a ler pelo lado errado” tão comum nos mangás brasileiros. Também é assim na edição espanhola de Silver Spoon (confira resenha aqui), mas eu não tinha me tocado disso até ver Ristorante Paradiso. Ao que parece, a Espanha já não utiliza esse expediente. Muito interessante ver esse tratamento diferente dado aos mangás em diferentes países…


Veredicto


Ristorante Paradiso é uma narrativa convencional, um romance slice of life, porém , ao mesmo tempo, busca passar uma mensagem. Se você adorou O homem que foge, Ristorante Paradiso será uma boa experiência, porém menor do que a obra lançada no Brasil. Se, por outro lado, você odiou O homem que foge, Ristorante Paradiso lhe parecerá bem melhor, visto o caráter mais convencional do mangá.

O título é realmente muito bom, capaz de agradar muito bem públicos distintos. Entretanto e obviamente, o mangá está longe de ser um título recomendado para quem gosta só de mangás de lutinha e comédias, já que ele retrata apenas o cotidiano comum das pessoas. Ainda assim, é um mangá que todos deveriam dar uma chance e torço bastante para que ele seja licenciado em nosso país…

Vale a pena importar? Depende. Se você for muito fã de Natsume Ono, importar pode ser uma boa ideia já que é um título pouco provável de aparecer em nosso país. De todo modo, isso só vale a pena se você tiver realmente muito dinheiro sobrando…

Ficha Técnica

Título: Ristorante Paradiso

Autor: Natsume Ono

Editora: Milk Way Ediciones

Acabamento: Papel offset + sobrecapa

Número de volumes: 1

Preço: 8 euros

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7 Comments

  • Kyon, sempre tive uma curiosidade; onde e como você importa seus mangás espanhóis? É a única língua que eu sou mais ou menos fluente fora o português, desejaria muito comprar uns mangás lançados por lá, como Death Note BE, e outros, dentre eles este Ristorante Paradiso! Nunca li o mangá, mas tenho o animê guardado e até hoje, considero um dos melhores animês que já vi!

    Se puder me explicar, obrigado!

    E bela resenha como sempre!!! 😀

  • Pergunta: Quais as chances de sair aqui na sua opinião?

    Eu curti demais O Homem Que Foge, sonho com o dia de Not Simple e agora fiquei curioso com esse.

    Sobre a arte, eu comentei na minha review de O Homem Que Foge que o problema da arte está muito mais por ter sido lançado por uma editora de mangás. Quem costuma comprar obras de editoras como a Nemo, Cia das Letras e Novo Século já está mais acostumado com quadrinhos que tenham uma arte “mais livre e solta”, enquanto o pessoal dos mangás prefere os “padrões Obata” por exemplo. No meu ver, maioria das reclamações é puramente falta de experiência com o diferente e fora da zona de conforto.

    • A não ser que NewPOP ou Panini surpreendam, eu diria que é perto de zero as chances. Não me parece que O homem que foge vendeu bem o suficiente e também não creio na L&PM indo atrás de uma obra dessas…

  • Kyon, falando em edição espanhola​, parece que licenciaram Jojo na Espanha

    Pelo que vi, só confirmaram até a Parte 4

    Você tá sabendo de algo?

    • Exatamente isso. Licenciaram as 4 primeiras partes e lançarão em um formato que reduz quase 50 volumes para uns 29. A editora lá fez uma enorme postagem falando das dificuldades de licenciamento e tal e que a ideia é publicar tudo, mas se não vender bem pararão na parte 4 mesmo…

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