Mangaká critica estratégias das editoras japonesas

E como suas críticas refletem a realidade brasileira também

Na sexta-feira passada o Huffington Post Japan publicou um artigo em que discutia com o autor Takashi Yoshida sobre a pirataria de mangás no Japão e a forma como as editoras lidam com o assunto. O resultado foi um texto muito interessante onde o autor critica a posição das editoras, uma crítica que muito claramente também vale para o Brasil.

Antes de tudo, temos que entender a atual situação de vendas no Japão. Já faz alguns anos que a venda de volumes físicos (sejam das obras ou revistas) está em declínio. Em 2017, por exemplo, houve uma diminuição de 13%. Essa diminuição fica clara até mesmo nos mais vendidos, como comentamos aqui, e um dos fatores mais apontados como causa é exatamente a pirataria digital. E por isso há todo um esforço para erradicá-la.

Entretanto, Yoshida discorda, ele considera que a luta contra a pirataria é infrutífera e até danosa para a indústria. O autor argumenta que a pirataria seria o resultado da falta de renovação e inovação das empresas que mantêm as mesmas formas de venda de 20 anos atrás. Logo combater a pirataria, o sintoma, não curaria a doença, o verdadeiro problema.

Ainda hoje, no Japão, a maioria das obras são lançadas no formato físico sem uma opção digital, embora tenha havido um grande esforço recentemente, especialmente através da Amazon Kindle e do Book Walker que disponibilizam volumes para compra digital através de suas plataformas. Um número ainda muito menor é disponibilizado em versões web de leitura (os readers). No Brasil a realidade é a mesma e embora tenhamos alguns exemplos de produtos digitais, tais são raríssimos.

De acordo com Yoshida, as empresas não deviam gastar o tempo tentando destruir os sites ou prender os envolvidos, mas competir e buscar alternativas para reconquistar o cliente, afinal os sites derrubados são logo substituídos por outros. Ele também defende que a luta contra a pirataria acaba sendo uma forma de agressão contra os próprios clientes ou potenciais clientes, já que quem baixa e pirateia são fãs da indústria, pessoas que têm interesse nas obras e até valorizam os trabalhos. Dessa forma a editora estaria alienando os próprios fãs, piorando a situação.

Aqui nós vimos algo bem parecido com o descrito pelo autor acontecendo com a JBC. Antes de disponibilizar as obras digitais a editora foi atrás das versões piratas de alguns sites de leitura online, o que resultou num ataque à empresa pelos fãs que ficaram privados de ler as obras através dessas plataformas piratas. A ação dificilmente trouxe qualquer benefício à editora, que não só foi atacada e ficou com uma nota baixa no Facebook, como criou inimizade com potenciais consumidores que com certeza não passarão a consumir seus produtos.

Como Yoshida defende, atacar esses meios não trarão vendas, mas perpetuarão a situação, tornando-se uma ação improdutiva, mesmo sendo um direito legal da empresa. Sendo assim um esforço cíclico e interminável, visto que para aqueles que pirateiam a opção da editora não lhe satisfaz.

Além disso, o autor comenta como as editoras falham em solucionar os problemas do mercado, como disponibilidade, preços, formas de venda, marketing e acesso; fatores esses que seriam a causa da pirataria. Algo muito claramente visto no Brasil também, onde problemas de qualidade, distribuição e acesso, disponibilidade e esgotamentos, marketing e preço são muito presente em todo o mercado. Mercado este que também viu diminuição nas vendas nos últimos anos.

No artigo, ele continua defendendo mudanças na forma de comercialização dos mangás, desde a venda sem embalagem plástica, de forma que o leitor possa folhear o produto na loja; comercialização via readers, como o Social Comics e o Crunchyroll Manga; e maior seletividade na hora de escolher as obras que serão publicadas afim de melhorar a qualidade e de desentupir o mercado saturado. Além disso, ele critica a forma como a indústria tem se fechado, ao invés de tentar alcançar clientela fora da comunidade de fãs. Algo que também vemos acontecer no Brasil.

A visão do autor, alguém que depende dessas vendas e está intimamente ligado à indústria, desafia a noção de que a baixa de venda seja por motivos externos e responsabiliza as próprias editoras que não se atualizam ou acompanham as novas tendências de seus consumidores, insistindo em modelos ultrapassados.

É realmente interessante como uma crítica às empresas japonesas vale e muito para o mercado brasileiro também, onde editoras que acusam baixas vendas ironicamente não investem na qualidade de seus trabalhos, na disponibilidade de volumes antigos de séries em publicação e reimpressão, no acesso através de um modelo de venda abrangente e nacional, em alcançar e renovar seus clientes através de marketing ou produtos menos “otakuzados”.

No artigo original, o autor conclui dizendo que tem poucas esperanças de mudança, já que são estratégias e ações enraizadas na indústria e na tradição daquele mercado. Aí fica a pergunta se as editoras brasileiras estariam na mesma posição teimosa de se ver sempre como vítima das baixas vendas em vez de ser proativo e buscar soluções, mudanças e inovações.

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 BBM via Anime News Network

37 Comments

  • Se não fosse a pirataria, hoje eu não teria uma estante repleta de mangás, alguns que ainda nem li (rs, para desaprovação de amigos, que me chamam de louco), mas que lerei quando tiver tempo, pois já tive acesso a eles na pirataria, embora a satisfação em rele-los impressos seja indescritível. Além daqueles comprados sem ter visto as obras online (Parasyte <3 , Gen :'( 😀 ).

    O problema desse pessoal da velha guarda é que eles são do passado (eu também, rs, pois prefiro material impresso: livros, mangás), mas deveriam dar atenção a geração que nasce de tablet na mão, afinal, nós do papel, estamos cada vez mais obsoletos. Se liguem, editoras!

    Obs: Já falei que adoro essa BBMangás (que descobri recentemente)? Existe alguma forma de contribuir $$?

    • Roses

      Obrigada ❤️ Não aceitamos doações, maaaas você pode usar os nossos links para comprar seus mangás (tem ali na barra do menu, etc). Quando você usa nosso link ganhamos uma pequena comissão naquela loja e revertemos isso em mangás para fazer reviews e tal ;D

  • Galadriel

    Queria observar que isso não serve só pro mercado de mangas, mas pro de HQs também

  • Urashima

    Sobre esse tema, respeito o autor mas ele só disse achismos e meias verdades. O meio digital não é rentável, ainda, para mídias em que há concorrência com os meios tradicionais. Segundo matéria do Valor econômico de 23/8/17, com base no Censo do Livro Digital, o mercado de e-books no Brasil representa apenas 1,09% do mercado. Nos EUA (maior mercado do mundo) as vendas cresceram rápido até chegarem a 25% do mercado e pararem aí. Segundo a AAP (entidade do setor) em 2016 as vendas de e-books caíram 11%. Aqui no Brasil, a editora Pipoca e Nanquim informou que dos títulos de HQ’s por eles lançados, as vendas de e-books mal chegam a uma dúzia de unidades por titulo.
    Quando olhamos para outras mídias o cenário não é melhor. No caso da pirataria de musicas, muitos crêem o problema foi resolvido com advento de serviços de streaming, mas os números questionam essa verdade. O Spotfy, maior plataforma de streaming de musica do mundo, fechou seu balanço financeiro em 2016 com prejuízo de US$ 380 milhões. Em 2017, novo prejuízo de US$ 250 milhões. O serviço da Apple não é possível analisá-lo em separado, mas acredita-se que é subsidiado pela empresa.
    No ramo de vídeo muitos falam da Netflix, mas nos balanços financeiros da empresa, fica claro que a principal fonte de receitas (assinantes) são as produções originais. As suas séries tornaram o grande filão da empresa, fazendo que a plataforma aposte cada vez mais em conteúdo original.
    Em termos gerais quem busca o pirata não está disposto a pagar pelo entretenimento. Alem disso a realidade brasileira difere em muito da japonesa. O número de leitores por aqui ainda é pequeno, e se excluirmos os leitores de textos religiosos, esse número fica minúsculo. O que precisamos é aumentar o número de leitores e o meio digital não parece uma saída interessante.
    E sobre papel…só colecionador se implica com isso, o leitor, que é maioria, só quer ler.

  • Farofa

    Desse post faço questão de participar….Achei super válida a explicação e o ponto de vista do autor e concordo com tudo que foi dito. Não me sinto a vontade para comentar sobre o mercado JP pois não compro nenhum produto de lá, e nem sei ao certo sobre como está a indústria de mangás de lá.
    Mas, em relação ao Brasil, muitas vezes, ao menos foi este meu caso, não se trata somente da comodidade que uma leitura online, de forma digital, acessível por: computadores, tablets, celulares e outros meios, possa oferecer, no meu caso me desfiz e parei de colecionar diversas obras por conta da qualidade do mangá físico aqui no BR, obras como One Piece, Terra Formars, Nanatsu no Taizai, o “recém” chegado Boku no Hero(que assim que soube que seria em papel jornal porco nem cogitei começar a coleção), Fairy Tail e vários outros.
    Não critico as editoras, pois entendo que não seria possível manter todos os seus mangás em papel off-set, com acabamento mais caprichado e afins, pois acredito que não teria público tão bem financeiramente que sustentasse esse cenário. Todas essas obras que citei acima e algumas outras que ainda não começaram a lançar aqui, ou não pude pegar na época do lançamento como Gantz, The Promissed Neverland, Made in Abys, Dr. Stone e tantas outras, todas essas eu leio em scans, e não sinto “peso na consciência, de estar dificultando, e/ou atrapalhando a industria de mangás no Brasil”.
    E para finalizar o longo texto rsrs, acredito que além de fornecer meios mais acessíveis, como já foi comentado na matéria e em vários comentários desse post, acredito que as nossas editoras deveriam trabalhar na qualidade física de nossos mangás, pois tenho certeza que como eu, vários outros fãs deixam de colecionar uma e outra obra por conta disso, ser papel jornal, transparência das folhas, por ser papel jornal o processo de oxidação do papel ocorrer de forma rápida, mesmo com N cuidados que você tenha. Se é necessário que existas as obras em papel jornal, ao menos que as editoras busquem papéis um pouco melhores, que extinguam, ou ao menos diminuam drasticamente a questão da transparência por exemplo >.< .

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