Retrospectiva 2018 – Crise e mudanças…

Um mundo que desmoronou em 2018?

O ano de 2018 foi um ano de mudanças drásticas no mercado brasileiro de mangás e no mercado editorial como um todo. Vimos um grande grupo fechando todo o seu setor de quadrinhos, vimos redes de livrarias quase falirem, vimos também aumentos galopantes nos preços dos mangás, etc, etc, etc.   Venha relembrar conosco essa situação em nossa primeira postagem de série retrospectiva 2018.

  • Grupo Abril

O grupo Abril entrou em recuperação judicial em 2018. Uma das mais fortes empresas do ramo de comunicação estava com uma dívida enorme e as pendências não estavam sendo resolvidas a contento, de modo que a única solução encontrada foi essa. A recuperação judicial propõe um calote de até 92% da dívida e um prazo de até 18 anos para pagar, completamente surreal. No final do ano, a empresa foi vendida para um empresário pela soma simbólica de 100 000 reais.

Antes disso tudo, porém, a empresa fechara diversas revistas e demitira funcionários, incluindo todo o setor de quadrinhos.

Capa do segundo volume de “Kingdom Hearts – Coleção Definitiva”. Ele acabou nunca lançado devido ao fim do contrato da Abril com a Disney e também do setor de quadrinhos da empresa brasileira.

A crise do grupo Abril não se resumiu, porém, a desemprego e fim de revistas, ela afetou o mercado editorial de publicações, visto que a Abril é dona da Dinap (Total Express), a empresa que faz a distribuição de revistas em bancas a nível nacional.

Além dos já constantes problemas de má distribuição, houve atrasos de pagamentos – calote mesmo – ocasionando que revistas várias deixassem de circular. No nosso mundinho particular dos mangás, a JBC acabou sendo a editora prejudicada, como única que dependia da Dinap para distribuir em bancas.

O resultado é que a JBC aos poucos retirou seus produtos desse meio de distribuição, até cessar de vez. Agora a editora só lança seus mangás em livrarias e lojas especializadas. A mudança, inclusive, também ocasionou na diminuição da tiragem dos mangás e consequente aumento de preço dos títulos que iam para bancas de revistas.

  • Livraria Saraiva e Livraria Cultura

Se a distribuição em bancas estava passando por problemas, o jeito era contar com livrarias, certo? Deveria ser o caso, mas a crise era mais intensa do que se pensava. Já havia tempo que tanto a livraria Cultura, quanto a livraria Saraiva estavam postergando pagamentos, pedindo mais e mais tempo para honrar seus compromissos.

Em geral, as redes deveriam realizar os pagamentos após três meses das vendas efetuadas, mas o prazo foi aumentando, aumentando, até que em meados do ano as coisas começaram a degringolar de vez e as notícias vieram à tona. Sem receber pagamentos várias editoras pararam de enviar seus produtos para as duas redes e hoje já não é possível encontrar os mangás novos da JBC, NewPOP e Panini nas livrarias.

Além disso, as dívidas estavam milionárias e na tentativa de reverter parte do prejuízo a Cultura (que havia adquirido a Fnac) começou a fechar várias lojas. A Saraiva igualmente fez o mesmo um tempo depois. Ambas, porém, assim como o grupo Abril, pediram recuperação judicial, para tentarem se salvar da falência.

Por ser uma empresa de capital aberto (isto é, ter ações negociadas na Bolsa), a dívida da Saraiva com as editoras tornou-se pública. Eis o quanto ela deve às principais editoras de mangás do Brasil.

  • Panini: R$ 8.355.502,96
  • JBC: R$ 939.143,22
  • NewPOP: R$ 93.212,97

Esse problema não passou impune. Embora tanto Panini, quanto a NewPOP comentassem dos problemas, a JBC novamente pareceu ser a mais prejudicada, pois em meio a essa turbulência acabou pausando as publicações e lançando pouquíssimos volumes por vários meses. Os lançamentos acabaram adiados e a empresa teve até mesmo que fazer reformulações em seu modelo de publicações de mangás, abandonando a periodicidade fixa e passando a lançar mangás em blocos. Em uma crise, mudanças precisam ser feitas, não é mesmo?

  • Outros problemas

Os problemas não se limitam à Abril e às livrarias. Há relatos de várias lojas especializadas terem fechado durante o ano, além de algumas distribuidoras que serviam a algumas empresas de quadrinhos. Mesmo a Comix, a maior loja especializa em quadrinhos do Brasil, pareceu ter puxado o freio de mão. Seu site vivia cheio de pré-vendas das mais diversa editoras e hoje ele é só atualizado vez ou outra. Ela sequer teve um estande na CCXP, como era tradicional. Em entrevistas a canais do Youtube, o dono da loja chegou a falar da crise, mas que a loja persiste.

Para além disso, o preço do papel continuou em alta, havendo pelo menos dois aumentos durante o ano, o que ocasionou diversos reajustes de preço nos mangás.

A crise esteve forte e além dos aumentos de preço da JBC, a Panini passou o ano tendo reajustes esporádicos, alguns deles galopantes, com 5 ou 6 reais de aumento, casos de Toriko, Yo-kai Watch, Mob Psycho 100 e Ninja Slayer. A NewPOP foi a única que passou quase totalmente ilesa a isso, tendo apenas um ou outro aumento pontual.

  • Conclusões e outros futuros

É evidente que parte significativa dos problemas das livrarias foi má gestão e falta de planejamento. Se essa má gestão existe em um momento de crescimento, com vendas em alta, talvez ela não afete tanto, mas basta vir a crise que tudo começa a entrar em uma bola de neve e quando se vê, uma avalanche está perto de surgir.

Basta ver que grupos menores como a Travessa e a Leitura estão muito bem. A Leitura mesmo tem uma visão bem pragmática do mercado, fechando qualquer loja que dê prejuízo por dois anos seguidos, o que mostra que elas estavam preparadas para o momento de crise, enquanto Cultura e Saraiva infelizmente não. O que resta é torcer para que essas empresas se recuperem e voltem a ser fortes em um futuro breve.

Para além dessa questão, 2019 como será no nosso mercado de mangás? Um mistério total. Imprevisível. Mas o que está ficando claro é que, com todas essas mudanças e aumentos, muito provavelmente estamos entrando na era dos mangás acima de vinte reais e dificilmente haverá algum retorno de lá.


Retrospectiva é uma série de postagens que fazemos todos os anos para relembrar o que de melhor e pior aconteceu no mercado brasileiro de mangás, além de outras notícias relacionadas ou não ao nosso país. Esta é a primeira postagem da série de 2018, mas todas estarão reunidas, neste link.

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9 comentários

  1. Muito boa matéria, assim como o novo layout!
    Só é uma pena que tudo isso tenha acontecido. Esse ano poderia ter sido bem melhor, e tenho temores em relação a 2019, mas é como dizem, “só o futuro dirá”
    Boas festas Kyon e Roses!

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  2. Só espero que ano que vem não vejamos um aumento de preço em mangás como Kanzenban CdZ, Lost Canvas, JoJo etc., pois já são títulos puxadinhos no preço.

    Só esperar pra ver o que vai acontecer.

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  3. Pessoal parabéns pela matéria! Sou fã deste site e quero parabenizá-los também por ele, realmente é excelente! Feliz ano novo!

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  4. Eu tenho esperanças dessa crise acabar e termos um 2019 melhor quando Bolsonaro assumir! Estou esperançoso! Tenho certeza que as vendas voltarão a crescer…

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      1. mais importante do que abrir o mercado e diminuir o estado e abaixar impostos?… isso e uma das coisas mais importante! se ele fazer o inverso dos últimos governos de esquerda, já e sucesso..com isso a economia já desenrola.

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