Resenha: Adolf, de Osamu Tezuka

Quando a história faz parte…

Quem conhece Osamu Tezuka por Astro Boy, A princesa e o cavaleiro e outras obras destinadas ao público juvenil talvez não saiba que o chamado “deus do mangá” também teve uma interessante produção de obras mais adultas, tratando de temas mais sérios, com importantes reflexões sobre a natureza humana e a sociedade.

Uma dessas obras é Adolf (アドルフに告ぐ), a história de três Adolfs. Completo em 5 volumes, a obra mostra como a vida das pessoas é afetada por governos totalitários e intenções maquiavélicas promovidas por pessoas enlouquecidas ou com lavagem cerebral. Mais do que uma simples história de ficção, Adolf é uma amostra clara de como as convicções das pessoas podem ser errôneas ou distorcidas com o tempo, ao ser exposto a um certo estímulo.

No Brasil, o mangá Adolf foi publicado pela editora Conrad entre 2006 e 2007 e hoje encontra-se fora de catálogo. Ainda assim com um pouco de esforço é possível encontrar o título em algumas lojas ou sebos. Mas será que vale a pena mesmo ou a obra é só um panfleto político disfarçado de mangá? Diremos isso no texto.

  • SINOPSE

Três homens chamados Adolf. Um é nascido no Japão, filhos de imigrantes judeus. Outro é seu amigo, filho de um oficial nazista que ocupa um alto cargo no consulado alemão em Kobe. O terceiro é o próprio Hitler. Um mistério. Nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, um jovem estudante japonês envolvido com facções de esquerda é assassinado e seu corpo desaparece sob circunstâncias misteriosas. No entanto, algum tempo antes, havia revelado a seu irmão, um jornalista que cobria os jogos, ter tomado conhecimento de um fato importantíssimo, algo que poderia abalar as bases do regime nazista. Uma conspiração. Na comunidade judaica japonesa, uma informação corre de boca em boca. Em seu rastro, a repressão nazista, seus métodos pouco ortodoxos e seus crimes brutais. No centro de tudo, os pais dos dois amigos com o mesmo nome, em lados opostos, ambos com segredos a esconder.

  • HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO

A única certeza da vida é a morte e a história de Adolf já começa nos dizendo o destino dos três Adolf’s: todos já são falecidos. Adolf Hitler, Adolf Kamil e Adolf Kaufmann já estão mortos e tudo o que se passou com eles já é história. A partir daí começa aquela velha estrutura básica de contar os fatos, por meio de um enorme flashback.

Esse longo flashback se foca no período entre 1936, época em que se realizava as Olimpíadas de Berlim (feita para mostrar o poderio do Regime Nazista), e vai até 1945 quando Adolf Hitler, perto de a Alemanha ser completamente derrotada na Segunda Guerra Mundial, se suicida (ou é morto). A história segue alguns anos além, mas a maioria absoluta do mangá ocorre durante esses 9 anos, mostrando como a vida das três pessoas chamadas Adolf se relaciona.

O protagonista da história, porém, é outro personagem, o repórter Sohei Toge, com quem acompanhamos o Japão e a Alemanha nesse período pré e durante Segunda Guerra Mundial, ilustrando um clima de ódio e autoritarismo por parte dos governantes, bem como o medo, o engano e o preconceito por parte da população. Na Alemanha, o nazismo imperava e a ideia de superioridade dos “arianos” em relação aos outros povos enraizava-se no povo e a perseguição aos judeus tornava-se intensa. No Japão, havia mais tolerância com os judeus, mas de igual modo tudo o que era diferente podia ser alvo de preconceito pela população local.

Tezuka é bem enfático ao mostrar esse clima hostil que se espalhava pelos dois países. De forma progressiva o autor conta como pessoas simples e comuns tiveram suas vidas afetadas por pensamentos antipáticos, agressivos e supremacistas. A obra mostrará, por exemplo, como a extrema-direita alemã transformava o pensamento de pessoas boas e as faziam odiar seus semelhantes, quase sem sentir remorsos.

A narrativa mistura um pouco do clima de uma história policial e aventura, com perseguições e mistérios, tudo atrelado a um certo documento que poderia destruir o nazismo se fosse revelado ao público. Nesse ínterim, o irmão do protagonista Sohei Toge é morto pelas autoridades alemãs por seu envolvimento com os comunistas e por ter em seu poder uma certa estátua que poderia conter o tal escrito.

Todo o desenvolvimento do mangá está alicerçado na presença desse documento e, de um modo ou de outro, perpassa os 5 volumes da obra, destruindo a vida de várias pessoas que estavam atrás dele ou que estavam tentando proteger a informação antes de revelá-la ao público.

Sohei Toge é um dos destaques nesse sentido. De posse desse documento, ele deseja revelar o conteúdo ao mundo, arriscando sua própria vida para fazer com que a morte de seu irmão não fosse em vão, porém estando em um mundo totalmente repressivo e lutando contra governos autoritários e totalitários, Toge – apesar de ser um típico protagonista dessas histórias de ação e aventura, conseguindo escapar de diversas situações impossíveis – sofre bastante, sendo perseguido, torturado diversas vezes, quase morto e até mesmo preso.

Toge vivendo na rua…

Ele é um exemplo claro de que a rebelião tem consequências e que você deve estar preparado para assumi-las. Em um mundo que te coloca a agir contra o governo, você deve saber que as chances de ser perseguido são altas, não à toa tanta gente luta para que ninguém esqueça que o Regime Militar brasileiro foi uma pesada ditadura, que quem se rebelava poderia ser morto ou expulso do país.

Em Adolf, por querer fazer o bem, Toge acaba sofrendo repressão em sua vida civil, sequer conseguindo arranjar um emprego e tendo que viver na rua durante um longo tempo. Sua vida é ao mesmo tempo um exemplo de perseverança e medo. Perseverança por saber que a luta e as adversidades advindas dela, no fim das contas, sempre vale a pena, e o medo de que algo importante e simples que é querer a justiça e a paz possa ser alvo das mais diversas represálias, a depender do governo que esteja no poder.

Todo o desenvolvimento do mangá pode ser resumido nisso, a tentativa de proteção do documento, a repressão, bem como a modificação da sociedade já impactada por pensamentos extremistas. Sobre esse último ponto, o mangá nos apresenta judeus sendo expulsos de suas casas na Alemanha, sendo encaminhados a campos de concentração e sendo mortos por nada. Vemos esses mesmos judeus sendo expostos em público e ridicularizados pela população comum. Acompanhamos, também, a polícia japonesa perseguindo a população, criando regras absurdas e fazendo-os ter uma noção de nacionalismo tão doentio quanto o da Alemanha.

Em outras palavras, um mundo em que não se pode sequer lutar por justiça, um mundo em que você pode ser perseguido, ridicularizado e preso apenas pelo que você é, um mundo totalmente autoritário e sem esperança, esse é o mundo apresentado em Adolf. Um mundo que todos deveriam querer evitar para todo o  sempre.

-Para além de Toge

Adolf é uma ficção muito interessante e que se utiliza de fatos históricos para fazer uma denúncia e relembrar na memória das pessoas o quão ruim é o totalitarismo e a falta de liberdades básicas. Além disso, o mangá mostra com primazia como a mente das pessoas de bem pode ser moldada para transformá-las em criaturas abomináveis. Nisso duas figuras são centrais, os amigos Adolf Camil e Adolf Kaufmann.

Adolf Camil é judeu, Adolf Kaufmann é filho de uma japonesa e de um oficial nazista alemão. Ambos de origem alemã e vivendo no Japão, inicialmente eles possuem uma grande amizade, que sobrepujava até mesmo os dizeres maldosos dos adultos. Se o pai de Adolf Kaufmann lhe dizia que judeus eram uma raça inferior, o menino retrucava e continuava a ser amigo de Camil mesmo sem a permissão de seu progenitor. Eles eram uma amostra típica de que as crianças, quando cultivam laços de amizade, não são influenciadas pelos preconceitos dos mais velhos.

Tezuka mostra bem que em nossa essência somos pessoas boas e ninguém nasce mal. Não temos preconceitos, não temos ódio para com quem é diferente. É a sociedade que nos molda e nos molda de uma forma cruel. E em um mundo em que ideais supremacistas estão em alta, a crueldade torna-se mais intensa.

Adolf Kaufmann encontrando o pai de Adolf Camil como um judeu prisioneiro na Alemanha. O resultado desse encontro é desastroso…

As crianças crescem e Kaufmann é mandado para Alemanha, para estudar em uma escola que prepara nazistas. Não precisa ser um gênio para descobrir o que acontece depois. Com o tempo, ele passa a odiar judeus, embora ainda tente conservar a amizade por Camil. Kaufmann torna-se uma pessoa desprezível, admirando Hitler, o nazismo, a sociedade alemã, além praticar os atos mais perversos que se pode imaginar, tornando-se um cruel oficial nazista, extremamente preconceituoso e xenófobo.

Adolf Kaufman, em um regime totalitário, até se você for a favor do regime, você pode acabar sendo levado. Entendeu?

Camil, por outro lado, fica no Japão e tem pouco ou nenhuma participação em boa parte do mangá. Volta e meia reaparece, mas não chega a ser um co-protagonista. Seu destaque maior ocorre nas páginas finais. Embora boa parte do mangá se foque até o final da Segunda Guerra Mundial, o mangá segue alguns após e mostra a tentativa de formação do Estado de Israel, com Camil tornando-se um dos guerrilheiros e participando de diversos conflitos.

A mensagem dada por Tezuka com Kaufmann e Camil é realmente bem nítida. Todas as crianças podem ser corrompidas por um ideal e – por mais que surja um traço de humanidade aqui e ali, e por mais que se acredite de que se está fazendo o certo – se isso acontecer, elas podem se tornar cruéis assassinos e devemos evitar ao máximo que esse tipo de coisa ocorra.

Adolf possui um mundo de questões a se discutir e o que apresentamos aqui é apenas a ponta do iceberg para despertar o desejo de ler e apreciar essa obra.

  • VEREDICTO

Adolf não é um mangá perfeito, tem seus problemas aqui e ali, mas de modo geral é um quadrinho muito bom e indispensável para todo leitor. Além de ser um excelente entretenimento, possui um caráter de denúncia claro, mostrando a crueldade humana e o modo como as pessoas acabam sendo tragadas para o lado mal ou para a sepultura devido a totalitarismos e pensamentos errôneos.

Adolf não se trata de um panfleto político, ele apenas retrata a realidade que todo ser humano, independente do posicionamento ideológico, deve se postar contra.

Em suma, esse mangá junta-se facilmente a diversas outras obras históricas famosas como Maus, Persépolis e Gen Pés Descalços que se configuram como essenciais para quem deseja conhecer tudo o que a linguagem dos quadrinhos pode oferecer e saber o porquê de chamamos histórias em quadrinhos de Arte.

  • FICHA TÉCNICA

Título: Adolf
Autor: Osamu Tezuka
Tradutor: Drik Sada
Editora: Conrad
Dimensões: 14 x 21 cm
Miolo: Papel Offset
Acabamento: Capa cartonada com orelhas
Número de volumes: 5 no total
Preço: R$ 25,00

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Um comentário

  1. Uma obra perfeita pra pensar os sombrios tempos atuais. Tomara que não cheguemos a esse extremo, mas o ódio e a cegueira do fanatismo já estão aqui…

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