Resenha: Drama e superação em “Your Lie In April”

Música e amizade se entrelaçam…

I

Dia desses estava sentado dentro de um ônibus de minha cidade quando lembrei de um episódio da série Samurai Gourmet, drama japonês disponível na Netflix. Nele, o protagonista da história visitava um restaurante que ele costumava ir quando jovem e, de repente, vê uma foto dele no passado com a moça que seria sua esposa no futuro. Os dois frequentavam o mesmo ambiente, foram fotografados juntos, mas não se conheciam.

Samurai Gourmet. Foto: Netflix

Histórias assim existem na vida real também, mas sem dúvida as obras de ficção transformam essas coincidências inusitadas em obras inspiradoras e emocionantes. Lembrar desse episódio de Samurai Gourmet imediatamente me remeteu ao final de Your Lie In April, mais especificamente ao capítulo derradeiro, em que o protagonista Kousei lê uma carta e descobre igualmente uma foto do passado, uma foto que ficará com ele para todo o sempre.

II

Assim como a maioria das pessoas, eu conheci Your Lie In April por meio da adaptação em animê. Foi uma obra intensa e impactante, em que cada capítulo ganhava mais contornos de tensão até que o inevitável final acontecesse. Não foi o animê mais dramático que eu já vi, não foi o que eu mais chorei, tanto que eu simplesmente não sinto a menor vontade de rever hoje em dia, mesmo assim eu considerei ele uma obra muito boa na época.

Várias vezes depois da primeira exibição eu comecei a assistir a série novamente, mas nunca deu liga, eu sempre desistia. Ou então pulava para assistir um episódio específico. Eu realmente gostei da adaptação na época, mas não teve comigo o nível de impacto que um Kanon (2006) ou um Clannad (2008, 2009) tiveram em sua época, de modo que eu jamais consegui assistir a série novamente por inteiro.

III

Por outro lado, eu sempre quis ler o mangá, mas o tempo foi passando, passando e nenhuma editora trazia, até que em abril de 2017, a editora Panini começou a lançá-lo no Brasil. Inicialmente eu senti um estranhamento por causa das cenas de música (acostumado com o animê que eu estava, me parecia difícil ler o mangá e não ter os sons), mas logo isso passou. A música simplesmente não faz falta, os quadros, as transições de cenas, a expressão dos personagens, etc, tudo supre a ausência de sons. A emoção é passada pelos desenhos…

O que eu achei interessante ao ler o mangá é que o desenvolvimento da Kaori, a violinista, já estava ali preparado desde o volume 1: uma determinada cena mostrava e indicava o que iria acontecer no futuro. Não tivesse eu visto o animê, talvez aquele quadro tivesse me passado despercebido e eu não juntasse as coisas, mas tendo visto eu logo lembrei do que aconteceria posteriormente. Isso que é bom em ler tendo “spoilers”, você percebe coisas que só notaria em uma segunda leitura.

A primeira cena que prenuncia o que está por vir… Foto: Blog BBM.

Nos volumes seguintes vão acontecendo mais algumas coisas que prenunciam os momentos finais do mangá para a garota e se você não teve o contato com o animê você vai sendo preparado, vai imaginando, ao ponto de seu coração ficar na mão em alguns momentos. Será que isso vai acontecer? O autor terá coragem de fazer isso com seus personagens?

Entretanto, por mais que Kaori seja o motivo do drama final da obra, a imagem que fica dela não é de tristeza ou de uma menina doente e sim de alguém feliz, que deseja despertar a alegria nos outros e, evidentemente, salvar um pianista traumatizado.

IV

Sim, pois, Kaori é a grande responsável por mover o protagonista da história, por fazer ele sair de um estágio de letargia para um estado de re-aceitação de si mesmo como um musicista. Kousei Arima é prodígio do piano, que desde cedo ganhou diversos concursos, mas agora adolescente já não toca há alguns anos por – após a morte de sua mãe – não conseguir mais ouvir o som do piano quando está tocando.

Kousei é aquele personagem padrão de obras dramáticas ou mesmo de mangás shonens convencionais, que possui um problema, um trauma do passado e precisará da ajuda dos amigos e de muito treinamento para conseguir superar esses problemas e derrotar o vilão mais forte (tocar piano perfeitamente, no caso).

A grande ajuda que Kousei recebe é de Kaori, a garota que o incentiva (leia-se: obriga) a voltar a tocar. É por ela e para ela que o rapaz aos poucos voltará ao mundo da música e consequentemente se livrará das amarras dos traumas do passado.

Arima é o herói do mangá, é aquele que todos os invejam, que todos querem derrotar e também que todos admiram. À sua volta, diversos musicistas mirins aparecerão, sejam concorrentes diretos, sejam admiradores.

A obra terá até mesmo uma espécie de torneio de artes marciais (no caso, concursos de música) em que os personagens duelarão para ver quem é o mais forte. Inicialmente, Arima não se dá muito bem por causa de seus traumas, mas aos poucos sua música vai chegando  fundo ao corações do expectadores e farão seus rivais igualmente aumentarem o seu nível.

Kousei e seus rivais. Foto: Blog BBM

Your Lie In April não é um mangá de competição, então todos esses concursos tem o proposito de mostrar o poder da música e fazer com que o nosso protagonista afaste todos aqueles dramas do passado e possa enfim se libertar, possa voltar a ser um pianista e não sinta mais aquele medo e aquele remorso pelo que aconteceu no passado. E as competições cumprem bem o seu propósito, pois além de ajudarem Kousei, ajudam também os outros personagens a se encontrarem…

V

Se o drama é o que prevalece, Your Lie In April, porém, não é uma obra que força o choro o tempo todo, pois além do drama, o romance e o humor estão entrelaçados. Kousei se apaixona por Kaori e é esse sentimento que o fará, aos poucos, enxergar o mundo de forma mais colorida e ver sentido em seu retorno ao mundo da música. Ele toca por ela e para ela. Ele se supera por causa dessa garota.

De igual modo, Tsubaki – amiga de infância de Arima – também movimenta o lado romântico da história, buscando sempre esconder o seu amor por Kousei. Tudo isso entrelaçado a diversas cenas de humor com ela se debatendo e negando veementemente as “acusações” de uma de suas amigas.

Tsubaki: até quando ela resolve abrir seus sentimento a gente acha graça. Foto: Blog BBM

Nesse tópico da comédia, Kousei é muitas vezes apresentado como meio ingênuo, o que rende situações um pouco cômicas, como quando uma certa personagem revela que é irmã de um de seus rivais e ele acredita em uma mentira dita por ela.

Pois é, Kousei é meio burro…  Foto: Blog BBM

A própria Kaori é um elemento de humor diversas vezes por seus dramas exagerados ( como o “não vou mais poder casar” no volume 1) e o modo como ela trata Arima, obrigando-o a fazer coisas que ele habitualmente não faria, batendo nele, etc.

Kousei sendo atacado… Foto: Blog BBM.

Em outras palavras, o mangá diverte bastante por meio de todos os personagens. É difícil pegar um dos volumes da obra é não achar graça pelo menos uma vez. Your Lie In April, por mais que tenha drama em seu enredo, é um mangá alegre e que volta e meia coloca em nós um sorriso no rosto.

VI

O mangá não é de todo harmônico, porém. Your Lie In April sofre de alguns vícios de narrativa característicos de obras que precisam ser esticadas um pouco além do que o necessário ou que não tiveram uma preparação prévia.

Por mais que a trama principal esteja bem amarrada desde o primeiro volume é perceptível que existe uma coisa extra ali e que não foi pensada ou pelo menos não foi devidamente preparada desde o início. No caso é o aparecimento da personagem Nagi Aiza. Ela aparece do nada lá no meio do mangá, querendo “se vingar” de Kousei e dá um gás a mais na história.

Ainda assim, por mais que exista esse vício de narrativa, ele foi até que bem feito, pois conseguiu criar uma sub-trama interessante e que interligou com a história principal, de superação de Kousei. São raros os mangás que conseguem fazer isso, então acaba sendo algo digno de nota e elogio para o autor.

VII

Para encerrar esta postagem é importante dizer que Your Lie In April não é um mangá que irá mudar a sua vida. Ele não apresentará discussões profundas, mas é possível vislumbrar a possibilidade de algumas como, por exemplo, o modo como refletimos a morte de um ente querido.

O protagonista Kousei é bastante emblemático para esse tipo de estudo, pois ele acaba traumatizado pela morte da mãe e da situação que envolveu ela e termina salvo desse trauma por uma garota que, assim como sua progenitora, terá um destino cruel. Embora não mostre o além desse ponto, a imagem que o mangá nos passa é que, por mais sentida que fosse essa segunda perda, o rapaz já estava mais maduro para aceitar o destino e seguir com a vida ainda mais forte do que antes, com a imagem daquela garota em suas memórias.

Mas Your Lie In April não se destaca por essas discussões, mas sim por ser um bom entretenimento, um entretenimento viciante. Os personagens são muito divertidos, a trama principal e as sub-tramas são bem amarradas e você estará sempre com um sorriso no rosto, mesmo no momento final, no capítulo final, em que se mostrará uma certa carta e uma certa foto. Ainda que, dependendo do seu estado de espírito, você seja levado às lágrimas, em algum momento virá a você um sorriso no rosto.

É um mangá para você pegar e fazer uma maratona, pois você apreciará muito mais a história dessa forma. Your lie In April não é um mangá perfeito, mas se você gosta de obras de drama e romance, a gente recomenda esse mangá fortemente. Vá ler que você não se arrependerá.

  • Algumas informações sobre o mangá

Your Lie In April é de autoria de Naoshi Arakawa e teve seus capítulos publicados entre 2011 e 2015 nas páginas da revista Monthly Shonen Magazine, da editora Kodansha, sendo reunidos posteriormente em um total de 11 volumes (veja capas e datas aqui). A obra tornou-se conhecida mundo à fora devido à adaptação em animê, exibida entre outubro de 2014 e março de 2015, e logo o mangá originalmente se tornou requerido por essas bandas. Ele foi lançado em abril de 2017 e agora, em dezembro de 2018, concluído.

  • Ficha Técnica

TítuloYour Lie In April
Autor: Naoshi Arakawa
Tradutor: Erika Abreu
Editora: Panini
Número de volumes total no Japão: 11
Número de volumes lançados no Brasil: 11
Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 12 anos
Preço: R$ 13,90
Dimensões: 13,7 x 20 cm
Acabamento: Papel jornal; capas internas coloridas
Onde comprar: Amazon / Buscapé

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2 comentários

  1. Eu gostei muito da história e principalmente do final, embora fosse algo já previsível, ainda sim me causou um desconforto e a reflexão sobre a perda. Tanto que mesmo tendo terminado a leitura a algum tempo, volta e meia ainda me pego lembrando dele.

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  2. to na luta querendo completar minha coleção, mas logo logo vai ser um manga a menos nos meu titulos. a obra é maravilhosa

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