Resenha: Minha experiência Lésbica com a Solidão

Chocante, chocante e chocante

Quando Minha Experiência Lésbica com a Solidão foi anunciado no Brasil pela editora NewPOP, parecia que a obra era um sucesso absoluto de popularidade, pois o título foi um dos mais comentados e um dos que rendeu mais visualizações no blog em dezembro de 2018. O título, no entanto, é um daqueles semi-desconhecidos, mas que ganharam relevância devido à temática forte e aos prêmios que foi acumulando mundo à fora.

Por isso que, quando a editora o anunciou, houve tanta comemoração, pois era um título meio impensável no nosso pequeno mercado de mangás. Apesar de ter apenas um volume, sua temática mais densa e sua arte “diferente” não se enquadravam tanto no rol dos títulos que costumam sair por aqui. Que bom que veio.

A obra é, na verdade, um título autobiográfico em que a autora Kabi Nagata conta a luta dela contra a depressão, a ansiedade e outras doenças que a acometeram, até ela conseguir se libertar das amarras e se encontrar como pessoa. O título foi publicado originalmente no site Pixiv e com a notoriedade teve seus capítulos compilados e foi publicado em julho de 2016 pela editora East Press, ganhando o mundo desde então.

A obra saiu primeiramente na Espanha, em fevereiro de 2017, pela editora Fandogamia. Depois foi publicada nos Estados Unidos em junho de 2017, pela editora Seven Seas, e na França, em outubro de 2018, pela editora Pika. Também saiu na Itália, em janeiro de 2019 pela editora J-POP, e na Alemanha, em março de 2019, pela editora Carlsen.

Aqui no Brasil, o título foi publicado em dezembro de 2019 pela editora NewPOP, um ano após o seu anúncio. Lemos a obra e viemos falar do título para vocês.

  • Sinopse Oficial

Durante dez anos desde que se formou no colégio, a autora Kabi Nagata viveu dias de sofrimento e se sentindo sufocada. E a solução a que ela chegou para se libertar foi: ser abraçada por uma garota de programa lésbica…! Conheça a história real de Nagata, onde ela mostra o seu processo extremo de autorreflexão até conseguir se encontrar, contada sem censuras!

  • História e desenvolvimento

Dependendo da sua idade e do seu estilo de vida talvez você não entenda, mas é bastante comum que muitos jovens, em algum momento de suas vidas, se sintam perdidos no mundo dos adultos, sem saber o que fazer, como progredir, tentando se encaixar na sociedade. Entretanto, as coisas terminam por se ajeitar de uma maneira ou de outra, por uma série de acontecimentos, talvez aleatórios, talvez previsíveis, que nos levam a tomar certas atitudes e seguir por determinados caminhos, muitas vezes nunca antes imaginados, terminando “tudo bem”, ainda que esse “tudo bem” seja bastante relativo.

Ocorre que cada ser humano é afetado de uma maneira diferente pela sociedade, pela família e até mesmo pela sua própria imagem e noção de si próprio. Daí que os caminhos são amplos e muitas pessoas veem-se amarradas de um jeito que não conseguem se libertar. A história de Kabi Nagata retratada em Minha Experiência Lésbica com a Solidão é mais uma dessas narrativas únicas que deixam ver uma pessoa em busca da libertação, uma dessas pessoas que se viu presas em amarras criada por ela mesma e pela sociedade à sua volta.

A protagonista não é outra coisa senão uma pessoa comum que de repente viu-se longe da maneira correta que a família e a sociedade esperava que ela vivesse e isso acabou sendo o estopim para uma série de coisas que deram errado na vida da moça, a dificuldade conviver em sociedade, de conversar, de trabalhar, a desmotivação constante, a necessidade de aprovação por parte dos outros e de si própria, etc, etc.

Tudo foi se amontoando dentro de uma pessoa, de modo que mais e mais ela foi se sentido acabada, cansada, sem poder de reação, desenvolvendo quadros graves de depressão e outras doenças. A obra mostra a protagonista tendo momentos tão tensos em que a gente não consegue sequer imaginar de tanto sofrimento que ela passa.

Quando você está com problemas, até mesmo a higiene básica fica desfalcada

Não é necessário falar muito mais além disso para começar a dizer como a história é impactante, com uma narrativa extremamente densa, mostrando uma personagem à beira do abismo. O modo como ela via a si mesma e como encarava o mundo à sua volta nos mostra uma realidade que pode estar acontecendo com muitas pessoas em nossa volta e nem nos darmos conta. São cenas e mais cenas do mais absoluto desconforto, vendo a protagonista comer comida estragada, se mutilar e até mesmo desejando morrer.

Uma das passagens mais marcantes do mangá é quando ela se dá conta de que sua vida é tão, mas tão ruim, que nem se matar ela quer, chegando ao ponto de dizer que quer melhorar, para aí então tirar a própria vida só de raiva.

Todos queriam

Por mais que as coisas ditas sejam no limite do extremo, há situações que a personagem passa que a gente não consegue deixar de pensar um “poderia ser comigo” ou “poderia ser com ele” ou “com ela” ou “com aquele outro”. Quem nunca quis se sentir aceito? Quem nunca quis que os pais te vissem com orgulho? Quem nunca se sentiu deslocado ao final de um ciclo? Saber passar por esses momentos exige muito das pessoas (muito mais do que a sociedade supõe) e nem todas conseguem passar pelas provações satisfatoriamente, de modo que o caminho para a depressão é um pulo.

No caso de Nagata, ela era uma dessas pessoas que não conseguia viver do jeito “certo” e embora soubesse disso, tentava fazer coisas que lhe aumentassem o seu status em relação aos demais, ainda que para si própria, a imagem que ela via era de alguém que não merecia nada por nada. Daí mais problemas e problemas…

E é isso o que a gente vê na obra. Acontece uma coisa que a afeta, isso gera outra, outra e mais outra até que se chega a um estágio em que já não é possível ficar pior e é necessária uma ação. Ainda que estivesse sempre tentando, ainda que buscasse um “lugar só para si”, as coisas pareciam intactas de modo que foi necessário muito e muito tempo para que a protagonista pudesse conseguir se debater e ir em frente.

O modo como ela é enfrenta é o dito na sinopse, ela confronta um pouco sua sexualidade e decide se deitar com uma prostituta lésbica. Basicamente, uma parte do seu trauma estava atrelado ao fato de que ela não conseguia perceber ou não conseguia lidar com a sua sexualidade. O problema não era tanto sentir atração por outras mulheres e sim o simples fato de sentir atração, reprimindo-se de todo e qualquer desejo sexual que tivesse. A partir daí a história caminha para uma tentativa de redenção, muito embora as coisas não caminhem de forma tão harmônica assim, afinal o problema não era apenas e tão somente o sexo, era a falta de conhecimento, de comunicação, de aceitação.

É preciso ficar claro que o mangá não é erótico por assim dizer. Há uma cena ou outra mais sexual, mas não existe aquela fetichização comum em outras obras, de modo que isso só está inserido na trama porque faz parte de toda a experiência de encontro da autora consigo mesma.

Apesar do tom dramático, a obra tem o seu humor próprio. Mas trata-se de um humor que é necessário um pouco mais de resiliência para se perceber. Como dito, o mangá mostra muitas passagens que são, no mínimo, aterrorizantes, mas várias das cenas são mostradas com quadrinhos humorísticos. Por exemplo, em uma determinada cena (imagem acima), a autora mostra-se a si mesma dependurada de um penhasco pedindo ajuda, querendo conseguir alcançar um lugar em que ela se sentisse bem. É o humor em sua pura essência, mas só dá para rir, depois de se sentir bem consigo mesmo, de superar um infortúnio e ver como era a sua situação. o riso da própria desgraça.

E meio que é isso o que é o mangá. Por ser autobiográfico, a autora relata bem os seus sofrimentos e consegue colocar um pouco de humor sui generis, mostrando como está melhor, conseguindo brincar até mesmo com os próprios sentimentos e sofrimentos. O final é a verdadeira descoberta do conhecimento e do rechaçamento dos medos e bloqueios próprios (ainda que alguns continuem lá). Não se trata de uma obra de autoajuda, mas Minha Experiência Lésbica com a Solidão consegue passar uma importante mensagem de superação, de que você precisa realmente batalhar por uma vida melhor, mesmo que essa batalha vá contra ao que a sociedade e a sua família entendam como normal…

  • A edição nacional

A edição nacional veio no formato 14,8 x 21 cm, com miolo em papel offset e capa cartonada simples, com as partes internas coloridas. Um dado importante é que além do preto e branco, todas as páginas possuem uma cor extra, o rosa.

O tamanho, para os que não sabem, é aquele maior, parecido com Usagi Drop e Made In Abyss. Trata-se de uma edição padrão da editora, com um bom acabamento, ótima encadernação e tudo mais. Nada demais a relatar sobre o volume.

Quanto ao texto, a adaptação está boa como sempre, bastante fluída e sem gargalos linguísticos, entretanto os problemas de revisão de texto estão novamente presentes com alguns erros bobos, como “calvíce” em vez de “Calvície” em diversos momentos durante o texto. Não é algo que atrapalhe a leitura (eu mesmo só percebi o erro depois que alguém me avisou), mas definitivamente não deveria acontecer, ainda mais um erro recorrente desses que aconteceu um diversas passagens do texto.

  • Conclusão

É um tanto quanto complicado não recomendar esse mangá para todo mundo, só que também é complicado recomendar por seu caráter pouco usual. Ainda assim, entre uma opção e outra, a melhor é a primeira, pois o contato com obras assim, com temas tão delicados, nos fazem crescer enquanto pessoas, enquanto membros da sociedade que querem o bem a seus semelhantes.

Ainda que seja uma obra de reflexão sobre si próprio, ela nos faz ver que enquanto participantes ativos de uma comunidade, podemos fazer mais para os outros, nos ajudando a entender um pouco mais uma parcela da sociedade que pode não ser tão distante assim. Talvez tenhamos pessoas próximas a nós sofrendo desse jeito (ou de uma forma mais branda) e nem percebamos.

No mais, Minha Experiência Lésbica com a Solidão não pode ser descrito de outro jeito senão como uma obra prima. Um dos melhores mangás já lançados no Brasil. Se você leu e não achou isso, guarde o mangá como algo precioso, pois quando você reler daqui a 5 ou 10 anos, sua opinião mudará totalmente, a gente garante.

  • Ficha Técnica

Título Original: さびしすぎてレズ風俗に行きましたレポ
Título Nacional: Minha Experiência Lésbica com a Solidão
Autor: Kabi Nagata
Tradutor: Thiago Nojiri
Editora: NewPOP
Número de volumes no Japão: 1 (completo)
Número de volumes no Brasil: 1 (completo)
Dimensões: 14,8 x 21 cm
Miolo: Papel offset
Acabamento: Capa cartonada simples, miolo costurado, impresso em duas cores
Classificação indicativa: 18 anos
Preço: R$ 26,90
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2 Comments

  • Achei o mangá bem divertido e passa uma reflexão boa, muitos jovens que estão indo virar adultos tem questionamentos sobre isso. A parte onde um dos caras da padaria orienta ela a fazer mangás me fez abrir um sorriso enorme!
    Esse mangá é precioso demais!
    Tem mais mangás dela com essa mesma pegada, não? Espero que cheguem por aqui também!

  • Zâmike Zeny

    Resenha perfeita. Todo mundo que se diz fã de mangá deveria ler essa obra, até porque dentre os otakus de animê/mangá tem uma leva de escrotinhos que ainda não sabe respeitar a (homos)sexualidade alheia. Embora a obra seja muito mais ampla, visto que não são só gays e lésbicas que são acometidos pela depressão e pensamentos suicidas, o foco da mesma está centrado na introspecção da autora, sendo a sexualidade — açaimada pela própria mangaká a fim de agradar àqueles que a rodeavam, especialmente aos pais — o fator principal e desencadeante de todo mal estar no longo período (de 10 fucking years) na vida de Kabi Nagata.

    P.s.: Não consegui não ligar esse mangá ao outro, Virgem depois dos trinta, mesmo que Kabi Nagata à época não estivesse com 30 anos. Sexualidade… só Freud explica. Hahahah…

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