
Comentando minhas leituras
A ideia desta coluna de resenhas é falar das minhas leituras semanais. Não falarei sobre lançamentos (volumes #01 e volumes únicos) e sim apenas obras regulares que estou acompanhando ou alguma releitura eventual que aconteça.
Assim eu posso falar com vocês um pouco mais sobre algumas obras, re-indicar elas, dentre outras coisas. Por fim, esta matéria não será aprofundada e sim apenas comentários gerais sobre as obras, o que estou gostando, imaginando e assim por diante.
Esta será a oitava postagem desta coluna e desta vez só terá mangás da editora JBC. Falaremos de alguns mangás que recebemos da própria editora referente à Parceria 2024 (no caso, Fênix #02 e Yona: A Princesa do Amanhecer #04) e de alguns outros mangás da empresa que compramos e lemos nos últimos sete dias.
Dito isso, vamos à postagem:





Fênix #02: antes de falar desse volume, é importante relembrar que esse mangá é episódico (ou parcialmente episódico), então nós temos uma história, vemos o seu desenvolvimento, o conflito e, enfim, temos sua conclusão, tudo isso dentro de um capítulo ou conjunto de capítulos.
O caráter episódico faz com que as histórias tendam a ser muito diferentes entre si, tanto na temática, quanto no desenvolvimento e até mesmo no estilo. Algumas parecem mais sérias e emocionantes, enquanto outras embora também tentem parecer isso, colocam elementos que desviam dessa seriedade e acabam indo para o humor e o nonsense.
Neste volume, nós temos os arcos de Yamato, do Espaço e da Houou (partes 1 e 2). O Arco de Yamato, embora seja legal de acompanhar, tem muitas coisinhas que tiram um pouco da imersão da história. A obra se passa séculos no passado, mas faz referências a coisas do século XX, aparecem personagens do Star System apenas por aparecer e tem um clima vez ou outro nonsense, de quebra da ficção, que faz com que a gente não goste muito do estilo.
Já o Arco do Espaço é o oposto. Aqui Tezuka parece experimentar uma quadrinização diferenciada, juntamente com um método de contar a história que faz com que a narrativa seja bem ágil e intrigante. Enquanto o Arco de Yamato parece ser mais juvenil, o Arco do Espaço parece mais adulto, tanto em sua forma, quanto na história mesmo.
O Arco da Houou é uma mistura dos dois, mas mais pendente para o lado do Arco do Espaço. É uma história de tendência mais séria, com muita coisa acontecendo e um grande desenvolvimento envolvendo os personagens da trama. Vez ou outra há uma brincadeira nonsense, mas é tão pouco que não atrapalha a história, então a gente consegue gostar bastante, talvez até mais do que o Arco do Espaço.


Apesar das histórias serem muito diferentes entre si, todas elas buscam passar uma mesma mensagem, ou uma mensagem semelhante, a respeito do que é a vida, dos seres humanos e dos seres vivos em geral, a relação da vida com a morte, dentre diversas outras coisas.
A Fênix que dá título ao mangá acaba sendo apenas o ponto em comum nas histórias, como uma entidade imaterial, como um deus que governa todo o mundo e o universo e, por conseguinte, é encarregada de dar um destino, de dar uma mensagem a este ou aquele personagem.
Assim, é a Fênix que nos mostrará o quão terrível é a ambição humana pela vida eterna de diversas formas. Se no primeiro volume temos o terrível Arco do Futuro (em que vemos uma pessoa ter uma vida eterna e solitária), aqui nós vemos mais do como é terrível viver para sempre.
O Arco do Espaço é o grande responsável por isso. Ele possui uma história de uma aventura espacial e sua mensagem é também contra a vida eterna. Ela mostra que a vida eterna não necessariamente é algo bom e sim que pode representar um grande castigo para o ser humano, mas diferentemente do Arco do Futuro em que vemos toda a aflição com o personagem, aqui Tezuka apenas cita a situação e a gente vê o castigo insano do personagem forçado a viver eternamente.
Tudo isso é impactante, pois vemos como o autor visa a cada instante a passar essa mensagem com esse mangá, uma mensagem de resignação, uma mensagem de que o mundo pode ser algo bom, de que a vida é legal, mas tudo isso apenas e tão somente se ela tiver um fim.
Importante destacar, porém, que o fim não deve ser forçado por exterioridades. O Arco do Espaço é incisivamente antibélico, condenando de forma enfática todo e qualquer assassinato, tanto de “iguais”, quanto de “diferentes”. A questão da vida eterna ser um castigo é aplicada justamente nesse sentido, pois abreviar uma vida é algo terrível e que ninguém deve praticar.
O Arco de Yamato, por sua vez, mostra que devemos viver todos os anos possíveis na Terra e apreendermos o nosso objetivo nesse tempo, o nosso objetivo de vida. Mais que isso, na verdade, esse conto também é antibélico e mostra que é importante lutar para que todos tenham exatamente as mesmas oportunidade e que as vidas não sejam ceifadas por coisas bestas. Apesar de eu não ter gostado do estilo dessa história, acho que a mensagem foi bem passada.
Já o Arco da Houou vem para coroar isso tudo, falando contra os assassinatos, assimilando as maldades dos humanos e mostrando que os sofrimentos existem, existiram e sempre existirão, mas que ao mesmo tempo a natureza é bela e viver é uma coisa a ser apreciada, apesar dos pesares.
Vale comentar que nesse arco, se fala muito sobre reencarnação, de budismo, dentre outras coisas, mas a mensagem não é diferente dos outros contos. Isso porque a existência de uma reencarnação não necessariamente vai contra a questão da vida única de cada um, visto que se uma pessoa voltar a viver, ela não lembrará da sua vida passada, é como se fosse a primeira e única vez daquela criatura.
A bem da verdade, há muita coisa para se analisar em Fênix e há diversas possibilidades interpretativas (algumas provavelmente que eu nem consegui perceber) de tão ricas que são as histórias. Tanto que a gente sai do volume com a sensação de ter lido uma das melhores coisas de toda a vida, a gente sai admirado, admirado de ter lido uma obra-prima de verdade.
“Fênix” é considerada a obra da vida de Osamu Tezuka e ele passou grande parte de sua carreira (1966 a 1988) publicando a obra esporadicamente, o que rendeu 16 volumes (12 lançados com o autor em vida e 4 postumamente). Tezuka tinha a pretensão de publicar mais histórias, mas acabou falecendo antes de concluir a empreitada. A edição brasileira compila tudo o que foi feito pelo em autor em 6 volumes com mais de 600 páginas cada, tendo saído dois até agora.





Yona: A Princesa do Alvorecer #03 e #04: as aventuras de Yona e seus ajudantes continuam a todo vapor. No terceiro volume, nós temos o final do arco do dragão azul e o início do arco do dragão verde. No quarto número, por sua vez, há o final do arco do dragão verde, o encontro com o dragão amarelo e o reencontro inesperado com uma figura, dentre outras coisas.
Novamente nós temos bastante humor, aventura e drama na medida certa nesse título, fazendo com que a história vá evoluindo com uma dinâmica muito boa. Além disso, a trama política começa a dar sinais de avanço e a história parece tomar um novo rumo a partir dos próximos volumes.
Particularmente, acho que Yona: A Princesa do Alvorecer é um mangá muito subestimado. Está certo, tem muita gente que gosta do título, mas creio que merecia mais reconhecimento ainda, pois se trata de uma obra de fantasia muito bem feita, com um mundo bem criado, uma trama política interessante, boas doses de aventura, etc, etc, etc.
A cena do Hak sendo pego em um “estabelecimento de mulheres”, por exemplo, é uma cena muito hilariante, mas que não é apenas o humor pelo humor (até tem humor pelo humor na obra, mas em alguns capítulos de “descanso”) e sim como consequência da trama do momento, não é algo aleatório.
O fato de Yona ver os problemas dos moradores, ficar aflita por eles, ver que muita coisa vinha da época em que seu pai era rei, nada é colocado à toa, tudo é feito para que ela vá crescendo e querendo mudar e resolver os problemas. E isso não acontece de uma hora para outra, é algo que vai sendo amadurecido…
E a questão da aventura? As lutas e situações difíceis (há um momento em que Yona tem que se aventurar em um penhasco íngreme, tem uma luta num barco, etc) são muito bem feitas, de maneira que sentimos adrenalina e emoção a cada momento, o que demonstra que a autora domina bem as técnicas narrativas.
Além disso, a trama política, que também vai evoluindo aos poucos, parece colocar um ponto de interrogação entre os limites de bem e mal. Melhor dizendo, a obra parece indicar que mal pode ser uma zona cinza de difícil definição. Sim, pois, nós temos pessoas más na história e temos pessoas que buscam fazer o bem, mas a trama política (especialmente após esse quarto volume) coloca esse elemento cinza na questão. Quem é mal tem um motivo para ser mal?
A história, então, tem ido muito bem até aqui, tem sido algo realmente bem produzido e merecia mais reconhecimento das pessoas.
Por fim, e para terminar, esse volume conclui o que foi adaptado na primeira temporada do anime, então a partir do próximo número é conteúdo novo para quem só tinha assistido a animação até então.
“Yona: A Princesa do Alvorecer” ainda está em andamento no Japão, atualmente com 44 volumes publicados, mas já se encontra em seu arco final. No Brasil, a edição local compila dois números originais em apenas um, reduzindo os volumes pela metade. Até o momento, saíram 4 volumes. O quinto já teve a capa divulgada, mas a pré-venda ainda não começou.




Ao Ashi: Craques da Bola #09: mais um bom volume de Ao Ashi: Craques da Bola. Neste volume, tivemos um pouco mais do drama de dois personagens, amigos do protagonista, envolvendo suas escolhas e modos de pensar a respeito do futebol.
Ainda é o conteúdo que foi adaptado para anime, então não teve nada de novo para mim. Ainda assim, como tem sido em quase todos os volumes, foi quase como uma experiência nova, como se estivesse conhecendo a história pela primeira vez e pegando um ou outro detalhe que, por ventura, eu tivesse deixado escapar.
Não tem muito mais o que se falar desse mangá. Ele é um título muito bom para quem gosta de futebol e a história vai melhorando volume a volume, com cada drama, emoção e riso e tristeza valendo a pena mais e mais.
“Ao Ashi: Craques da Bola” ainda está em andamento no Japão, atualmente com 36 volumes. No Brasil, saíram 9 números até o momento.





Haikyu!! #12: fazia tempo que eu não lia Haikyu!! e aí eu fui surpreendido com uma partida em andamento do Nekoma (a escola rival do Karasuno, colégio dos protagonistas). Isso já tinha começado nos capítulos finais do volume #11, mas eu não me recordava, então foi uma surpresa e uma experiência diferente com Haikyu!!.
Não digo que essa primeira parte do volume foi boa, mas não distou muito do que estamos acostumados com o Karasuno, a questão é mais sobre os personagens serem diferentes, o que fez com que essa primeira parte fosse mais maçante e bem enfadonha no geral, o que fez com que eu não gostasse.
Creio, porém, que essa parte deve ser algo importante preparando para o decorrer da trama, para vermos um embate entre Karasuno e Nekoma e estarmos mais familiarizados com todos os personagens rivais, não apenas com um jogador ou outro.
A segunda parte do mangá é melhor. É um novo arco de treinamento em três frentes diferentes, com o reaparecimento de vários “rivais”, além dos personagens, sobretudo o protagonista Hinata, estudando as jogadas e buscando melhorar suas habilidades.
Eu achei essa segunda parte melhor, pois teve diversas passagens de humor envolvendo o Hinata e seu jeito maluco de pensar, além daquele sentimento de emoção que decorre da aprendizagem e do desejo de melhorar, novamente advindo primariamente do protagonista. Imagino que o décimo terceiro deva dar continuidade a isso.
“Haikyu!!” foi concluído no Japão em 45 volumes. A edição brasileira compila dois volumes em um e será completa em 22 números no total. Até o momento, saíram 13.




Não chame de MISTÉRIO #02: depois do primeiro volume ter sido uma experiência excelente, eu não aguentava mais de ansiedade para ler o segundo e acompanhar o desfecho da história que ficou pendente e ver se a trama se manteria boa. Manteve-se^^.
Para quem não sabe, esse mangá é semi-episódico. Se trata de uma obra contínua em que acompanharemos o jovem Totonou e seus comentários e deduções acerca de certas coisas ou crimes, mas cada capítulo possui uma história mais ou menos fechada. Coisas de outros momentos são mencionadas, mas o grosso da história é único, daquele momento.
Dito isso, quase não há mais elogios à obra que não falamos em nossa resenha do primeiro número. Yumi Tamura possui o incrível talento de ter um vasto conhecimento de mundo e de conseguir aplicar esse conhecimento na criação de uma história interessante e coesa.
Por meio da pecha de uma história de mistério (que é mais investigação do que mistério), a obra o tempo todo despeja informações importantes sobre o mundo, sobre as pessoas e seu modo de agir, dentre diversas outras coisas, tudo de uma maneira lógica e dentro de uma linha argumentativa sólida.
Mesmo que a gente discorde dos argumentos (por uma razão ou outra) há toda uma lógica estruturada e que faz bastante sentido e que nos leva a pensar sobre aquelas coisas, mesmo que continuemos a discordar.
Falando em termos de ficção, o protagonista da obra chega a soar irreal de tanto conhecimento adquirido em pouco tempo (ele bem jovem), mas isso é que é o charme da obra, pois mostra uma pessoa mais jovem oferecendo um certo tipo de saber (muitas vezes óbvios) para pessoas mais velhas e que tiveram mais tempo para adquirir e não adquiriram.
Os contos desse segundo volume mostram novamente boas deduções por parte de Totonou e percepções únicas, além de termos histórias bem interessantes (o fim do sequestro à ônibus e o mistério por trás disso foram ótimos, principalmente na questão da personalidade do verdadeiro culpado; uma viagem de trem com uma história familiar intensa; e uma questão de herança, que se desenvolverá mais no próximo volume)…
Em resumo, o mangá realmente continua sendo muito bom e continuarei acompanhando a obra.
“Não chame de MISTÉRIO” ainda está em andamento no Japão, atualmente com 14 volumes lançados. No Brasil, saíra dois até o momento.
Tradutores dos mangás:
Amanda Diniz
- Não chame de MISTÉRIO #02 (JBC)
Cristhielle Ogura
- Yona: A Princesa do Alvorecer #03 e #04 (JBC)
Edward Kondo
- Fênix #02 (JBC)
Luis Libaneo
- Ao Ashi: Craques da Bola #09
Renata Leitão
- Haikyu!! #12
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