O preço de GITS: não há motivo para estresse ou para ódio

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I

Quinta-feira passada, a editora JBC divulgou o preço e os detalhes da edição do mangá The Ghost In The Shell (abreviadamente GITS). O título terá o formato 17 x 24 cm, miolo em papel Lux Cream, sobrecapa e preço R$ 64,90. Esse último detalhe foi o estopim. Bastou apenas isso para os revoltados online começarem a queimar os mangás da editora e organizarem um protesto contra os preços altos. Na página da empresa, nos grupos do Facebook, no Twitter e até aqui mesmo nos comentários do blog tinha gente bradando contra o preço “maluco” desse mangá.

Não faltaram comentários sensacionalistas, pessoas desejando a falência da editora e, até mesmo, “especialistas” dizendo que o mangá “teria uma vendagem absurda” se fosse mais barato. Sem falar, obviamente, dos haters da JBC sempre dispostos e criticar qualquer coisa que a editora faça.

Sinceramente tudo isso me dá muito sono e não tenho a menor vontade de discutir se o mangá está barato ou caro. Não acho uma questão pertinente. Prefiro muito mais expôs o meu modo de colecionar quadrinhos e de ver os preços.

Primeiramente, acho que um produto ser caro ou não é uma questão muito mais subjetiva do que parece e depende muito do poder aquisitivo de cada um. Sim, subjetivo, pois o que pode ser caro para você, pode parecer barato para outra pessoa.

Se você é capaz de pagar R$ 92 em Ronin – edição definitiva ou R$ 180 em Batman – Arquivo histórico, o preço de The Ghost In The Shell deve ser o troco do pão para você. Se você vai deixar de comprar Aoharaido a três edições do final porque ele sofreu reajuste de 1 real, provavelmente, o preço de GITS deve lhe parecer um roubo sem tamanho. Para mais alguns, o preço pode parecer levemente caro, mas justo, enquanto outros acham um preço normal para o que foi anunciado, entre outras possibilidades.

De minha parte, considero o valor muito alto e isso me desanimou a comprá-lo. A editora disse que ainda falta anunciar alguns detalhes (páginas coloridas em couchè? marcador de página?^^ Algum pôster? Não custa nada sonhar), mas tais detalhes não divulgados não interferem em nossa compreensão dos valores.

Não estou julgando se é justo ou injusto, estou apenas falando que, para mim, não é um valor acessível financeiramente independente de sua qualidade, independente de ser um preço justo ou não. Eu não posso arcar com esse valor por ter outras prioridades. Com Blame! e Cavaleiros do Zodíaco – Kanzenban, The Ghost In The Shell já estava relegado “para depois” em minha agenda de compras, agora ele ficou mais relegado ainda.

Entretanto, não considero isso um motivo para eu reclamar. Eu não vejo sentido nenhum em reclamar de preço de produtos supérfluos, ao menos não do jeito que as pessoas fizeram nesses últimos dias, com um ódio gratuito sem sentido. No meu entender, se um produto supérfluo está caro eu apenas digo para mim mesmo “nossa, está caro”. E não compro, simples assim. Não há motivo para estresse ou para ódio.

II

Segundo o meu modo de pensar, se o mangá não tiver problemas de encadernação (tipo aqueles dos mangás da Alto Astral), estiver bem-feitinho e tudo mais, e for um título que eu desejo muito, o preço é o de menos e mesmo se for muito caro e economicamente inviável para mim, eu irei dar um jeito de fazer com que caiba no meu orçamento.

Um exemplo que eu sempre dou são os quadrinhos em capa dura da Disney que a editora Abril tem lançado nos últimos meses. Todos eles custam entre R$ 49,90 e R$ 59,90 e isso é muito caro para o meu poder aquisitivo. Eu simplesmente não podia pagar por eles.

Entretanto eu fiz o impossível para tê-los. Tive que me reorganizar financeiramente, abandonar alguns mangás e logo consegui reservar dinheiro. E os quadrinhos em capa dura começaram a não serem mais inviáveis. Foi uma questão de escolha, alguns mangás desnecessários ou as HQs Disney? HQs Disney, é claro.

Acho que as coisas deveriam funcionar exatamente dessa forma que descrevi, afinal tudo é uma questão do quanto você quer aquele produto. Se você quer muito GITS em sua coleção e você não tem como pagar, o jeito é deixar de comprar outros mangás, quadrinhos ou livros. Não pode deixar de comprar? Diminua sua conta de luz ao máximo. Não dá para fazer isso também? Que tal a conta de água? De telefone? Faz mal ficar sem Internet por um mês?^^. Deixar de ir ao cinema ou ao McDonalds são outras possibilidades. Não importa como, arranje um jeito de conseguir dinheiro extra (jeito legalizado obviamente) e você terá sua edição de GITS ou de qualquer outra obra que custe mais caro do que você pode pagar. Quem não é rico tem que fazer esse tipo de sacrifício…

Não pense que isso é um absurdo e que esse tipo de coisa não deveria acontecer nunca. Na verdade, isso acontece com você e com boa parte dos colecionadores de mangás no Brasil o tempo todo, você só não percebe a dimensão porque esses “sacrifícios” são em escala bem menor. Pense bem, quantas vezes você já não teve que largar um mangá no meio porque começou a sair um novo e você não tinha dinheiro? Ou o contrário, você deixou de comprar um novo título que queria porque já estava colecionando muitos?

Pois é, esse tipo de cerceamento pessoal acontece sempre e existe um motivo bem claro para isso: mesmo o mangá mais barato não é acessível para todo mundo. Mangá, na verdade, é um produto apenas para quem pode pagar por ele. Embora essa afirmação possa parecer uma obviedade, talvez você não tenha ideia de que para muita gente, mesmo os R$ 12,50 de One Piece é muito caro (representa cinco quilos de arroz a menos, por exemplo) e não faltam pessoas para achar um absurdo gastar isso com um pedaço de papel (sim, para quem não coleciona, mangá não passa de pedaço de papel). Imagina comprar 3, 4, 5 ou mais por mês? É desperdício puro. É dinheiro que fará muita falta no final do mês.

Embora nada impeça uma pessoa que receba um salário mínimo por mês  de comprar quadrinhos japoneses, a verdade é que mangá é produto para classe média para cima. Seja um trabalhador, seja um adolescente que recebe mesada dos pais, o grosso do público não é “pobre-pobre”, e sim pertence a uma parcela limitada da população que, mesmo não sendo rica, pode gastar com produtos supérfluos.

E dentro dessa “parcela limitada” há diversas divisões e muitas delas não podem arcar com GITS. The Ghost In The Shell está muito caro sim, mas se esses consumidores querem o mangá, terão que fazer um sacrifício maior. Isso é inevitável e não há muito o que se possa fazer. Reclamar e xingar a editora pode até ser catártico, mas não mudará o fato de que você precisará se virar para comprar o título que quer. Do contrário, ficará sem.

Por essas e outras eu evito reclamar de preço. A questão sempre é o “se eu posso ou se eu não posso pagar”. Se eu puder, ótimo. Se eu não puder, paciência. Colecionar mangás é isso.

Felizmente para a “parcela limitada” mais pobre (eu incluso nessa), o preço de capa hoje em dia não significa absolutamente nada, pois existem pelo menos Amazon e Saraiva para nos oferecer enormes descontos, nos permitindo comprar tudo por um valor bem baixo, às vezes até menos da metade^^. Mas mesmo com descontos, os “sacrifícios” ainda são necessários…

***

BBM

37 Comments

  • Isaura Luiza Paramysio

    Longe deu esta na faixa que pode comprar Ronin do Miller tranquilamente, mas achei o preço vem justo de acordo com o anúncio.
    E tudo que você falou esta de acordo, já escolhi quais series eu vou abrir um hiato de compras só para ter GITS.
    A questão ê: quero? Ok, qual esforço eu viu despender nisto?
    Você citou bem, escolher prioridades, CDZ Kazenban talvez eu só pegue numa super promoção, estou feliz comprando o tradicional mesmo. Você citou os quadrinhos da Disney, quando eu passo nas bancas eu vejo que eu não tenho coragem de arriscar naquilo (simplesmente li pouco Disney na infância e não lembro se eu bom e se eu velha irei gostar) mas não fico hateando, pois sei que o preço é justo com o acabamento e tais e te o seu publico-alvo.
    E todavia, cousa que viu fazer, pois meu dinheiro não é capim, vou ficar monitorando GITS na Amazon, cedo ou tarde aparece uma promoção que o preço dele vai tá com pelo menos 30% de desconto, aí eu pego

  • João Henrique

    Acho válido reclamar dos preços mas claro, sem exagero. Sou a favor do consumo consciente. Se está caro para você, não compre, é a melhor forma de diminuir preços. As editoras tem que definir os limites de lucro que querem. Se o público não comprar, inviabiliza o produto ou diminui a margem de lucro.

    Admito porém que o Brasileiro em si não consegue fazer isso. Em outros países, como EUA e na Europa, mesmo pessoas que tem mais dinheiro, evitam de comprar produtos superfluos quando acreditam que o preço não é justo, o resultado é que é muito comum empresas trabalharem com margem menores de lucro, pois teriam rejeição do mercado. No Brasil quem tem dinheiro, e até quem não tem não consegue deixar de comprar (se individando) para ter o status.

    Não é Estranho que a Saraiva possa Oferecer o mesmo produto que uma Editora, só que mais barato? A venda passa pela Editora, por um terceiro, e ainda deve gerar lucro. (claro que a Saraiva tem uma distribuição melhor, mas as assinaturas pelo menos poderiam vir mais baratas.)

    Todo consumo deve ser consciente, feito por escolhas.

    • Roses

      Na verdade a Saraiva oferece um mesmo produto por um valor mais baixo que o valor de capa. O valor de capa é quase uma sugestão, uma empresa pode diminuir e aumentá-lo.

      Não é estranho uma rede maior oferecer descontos, nessa lógica seria estranho supermercados e grandes empresas terem grandes promoções. O que você estranha é que até pouco tempo nenhuma loja grande trabalhava com mangás e vocês não tem o costume de ver descontos.

      Empresas grandes e grandes redes de venda podem se dar ao luxo de vender por preços mais baixos, como você disse por uma margem menor de lucro, devido ao montante que ela movimenta todos os dias. Em geral elas repassam para os clientes os descontos que eles mesmos conseguem com as editoras, que os dão para estimular a rede a trabalhar com seus produtos. Ou seja, a JBC abre mão de uma parcela de seus lucros como desconto para a Saraiva que por sua vez repassa esse desconto e oferece preços mais baixos. É a exata mesma coisa que acontece em promoções de supermercado, grandes redes de varejo, farmácias, pet shops… A Cobasi neste Black Friday estava dando um antipulga de graça na compra de um. Comprei um carrinho deles. Pela sua lógica eu deveria estar questionando se não é estranho que a Cobasi estar dando um produto de graça na compra de outro, conseguindo pagar 2 pelo preço de 1. Não, não é estranho. Isso quer dizer que eu deveria começar a questionar o valor do antipulga e achar que ele deveria ser metade do preço? A Cobasi consegue fazer isso, o petshop aqui da esquina iria à falência.

      O que você pode fazer é questionar porque a Saraiva está fazendo isso. A resposta para mim é clara, ela está se estabelecendo no mercado de mangás. Ao oferecer descontos enormes por um certo período de tempo você cria clientela e movimentação de produtos, entrada e saída de dinheiro nessa área. Com o tempo ela pode aliviar os descontos, já que terá uma boa base. O mesmo acontece com a Amazon brasileira, no caso até se estabelecendo no mercado brasileiro como um todo. Isso também, é extremamente normal.

    • Lembrando que o preço de capa é pensado mais para a venda em banca que é cosignada e não é lucro certo, já em livrarias é venda que as editoras receberam (lojas compraram delas e não tem devolução). Por isso um desconto bom é possivel. Pras editoras, quanto mais lojas especializadas comprarem, melhor pra elas

  • Christian

    Eu queria muito pegar esse mangá, mas já que Akira está por vir descarto.

    • SIRIUS BLACK

      Eu não i nada demais, mas como disseram que isso é uma exigência do próprio autor, não há nada que se possa fazer.

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